29 de Agosto de 2019 – Amizade(s)

Se pensarmos bem, os amigos entram-nos pela vida dentro, na maioria dos casos, de uma forma inesperada, numa espécie de pé ante pé, para, depois, se instalarem quase como um alicerce. Ou uma raiz. Algo que, depois, faz surgir algo mais, é algo mais. E é, no final de contas, a amizade, que vem com a vida deles, com as vidas que geraram, com tudo o que acontece. Percebemos isso quando um metro de vida sorri, chora, tenta articular algumas palavras, começa a tentar dizer o nosso nome, partilha umas colheradas de gelado, ou desata a correr ao longo de um manto verde interminável, até um lago, onde molha as pontas dos dedos pequenitos e atira a água ao ar, para tentar que vá mais alta que o repuxo. É mais ou menos aí que percebemos que a amizade se instalou. De forma inesperada, pé ante pé, até começarmos a correr pelo verde imenso. Foi a partir desse momento que passámos a ser amigos.

28 de Agosto de 2019 – Musas

Só às musas foi dada a omnipotência do canto. Por isso, lhe chamam música. É Santo Agostinho quem o diz. Será verdade. Que as musas têm o condão de nós fazerem sentir imigrantes, quando passamos, cheios de surpresa e interrogações, essa fronteira invisível e indizível da música. Que são elas que fazem correr os nossos rios para o mar. Que nos levam onde queremos, mesmo quando não queremos. A esses sítios distantes, onde parece que nunca estivemos. Que são elas que nos lembram do sol em dias de chuva, do dia quando é noite. Será verdade que tudo acontece por causa das musas. Será verdade que, por tudo isso, por causa delas, pela forma como nos olham por dentro, que ao seu canto chamam música.

‘Immigrant’ – Nitin Sawhney

27 de Agosto de 2019 – E volto a vê-la passar, na piscina de São Pedro de Moel

Foto: Tony Dias/Global Imagens

Pensar em férias de Verão é voltar a respirar o aroma salgado das piscinas oceânicas de São Pedro de Moel. A inocência e o rápido bater do coração que se têm aos quinze anos. E ela, novamente, ali. Como se, ao passar, afastasse as ruínas e voltássemos ao momento em que ela passou pela beira da piscina pela primeira vez. Ela era perfeita. Como se tivesse todo o sol daqueles dias coberto pelo fato de banho azul de mar. E voltava a passar. Olhávamo-nos com aquela avidez desconhecida de quem se via pela primeira vez, travados pelo turbilhão de sensações que não cabiam nos corpos ainda adolescentes. Ela voltou a passar, e eu deixei que fugisse. Voltei, ainda, a correr, para tentar cruzar caminhos. Poder dizer-lhe tudo isto em forma da pergunta ‘como te chamas?’, e resumir tudo a um rosto e a um nome. Mas ela não voltou a passar. E eu fiquei, para sempre, com o aroma salgado das piscinas de São Pedro de Moel, a cada Verão. Como quem espera que ela passe de novo, para poder, sem dizer nada, pegar-lhe na mão, soltar o sol que traz preso ao fato de banho de mar, e dizer-lhe que talvez a tenha desejado ali, como quem ama pela primeira vez, na vertigem de um mergulho no desconhecido. Esse desconhecido por onde mar e sol entram, e ficam, o tempo que for preciso, para voltar a vê-la passar. Para saber, desde o início do mundo, quem é ela.

26 de Agosto de 2019 – Escrever

Gosto de escrever. À mão. Com lápis. Deixar as palavras fluírem. Riscar se for preciso, mas tentar que não seja. Respeitar ao máximo o papel, para não o rasurar, para não escrever o que não se quer, para que o que se escrever seja definitivo. Mesmo que seja a lápis. Vergílio Ferreira dizia que escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve. Talvez. Assim como talvez seja verdade que afirmar, com energia, o disparate, fará com que acreditem nele e em nós. Tento. Outra vez.

24 de Maio de 2016 – O ensino privado e os Salesianos

logo-ddO debate sobre o financiamento do Estado aos colégios privados prossegue, mas não é essa discussão que importa para aqui. Assim como não importa para aqui o facto de, curiosamente, os proclamados cortes manifestarem uma certa preferência por colégios mais ao centro e a norte do país. Ou perguntar qual o critério utilizado para se chegar ao número de contemplados com os cortes. Nem tão pouco olhar para a coisa com uma visão pacificadora, concluindo que todos têm razão, cada qual a sua. Os pais, porque devem poder escolher a escola dos filhos. O Estado, porque não tem de subverter a iniciativa privada. Ou até mesmo julgar a qualidade do ensino público em comparação com o privado, ou as condições físicas das escolas, de um lado e do outro. Continuar a ler →

22 de Maio de 2016 – À vista o fim da Orquestra Juvenil da União Europeia?

orquestra-ueO alerta vem sendo dado por várias pessoas e por várias entidades. Parece haver a intenção clara, por parte da União Europeia, de cortar o financiamento à European Union Youth Orchestra (Orquestra Juvenil da União Europeia), a partir de 1 de Setembro próximo. A notícia foi-se disseminando como o fogo de um lança-chamas, causando enorme perplexidade um pouco por toda a parte. Uma das entidades que reagiu a esta intenção foi a Orquestra Filarmónica de Berlim, que num texto bastante incisivo, dá a conhecer a importante vertente pedagógica deste projecto, que, agora, está prestes a deixar de existir. Quando se anuncia o desinvestimento na cultura por parte das entidades europeias, começa a ser nebuloso o horizonte para onde olhamos. Tendo em conta que, na realidade, é «essa Europa» que, dizem, nos governa.

20 de Maio de 2016 – Porque eu também já senti isto

Eu devia ter uns 15 ou 16 anos, não em recordo bem. O olhar fixo no horizonte parecia estar acima de qualquer surpresa possível que o mundo pudesse trazer. A surpresa era quase normal. Mas ali, podia ser diferente, porque as pessoas que íamos encontrar eram diferentes. E eis senão quando o que para muitos poderia ser um murro no estômago, para mim passou a ter a forma de uma pessoa um pouco mais pequena do que eu, que veio a correr para o meu colo mal a porta abriu. Entretida com um cabelo comprido, aparentemente estranho num rapaz, ficámos assim, num colo/abraço, durante toda a visita. Hoje, ao ver o Papa visitar pessoas fantásticas como aquela que conheci há cerca de 20 anos, voltei a ver tudo outra vez. E esse olhar acima do horizonte da surpresa, por momentos, voltou.

19 de Maio de 2015 – Os maiores pianistas de jazz

Art-TatumOs «rankings» são sempre perigosos, não só pela ordenação que fazem, mas também pelos aspectos que excluem, de forma mais ou menos deliberada. Hoje, encontrei um «ranking» de pianistas de Jazz que, embora fique aquém das expectativas em relação a certas posições (Lyle Mays em 33.º, Michel Petucciani em 31.º, Scott Joplin em 29.º, Dave Brubeck na posição 16 e Duke Ellington na 11), não deixa de render uma justa homenagem a quem coloca no pódio. Confesso que ver Keith Jarrett em 8.º causou um misto de sentimentos, mas Bill Evans em 3.º e o 1.º lugar cedido a Art Tatum, estabilizam as perspectivas. Conheci a música de Tatum nos «Cinco Minutos de Jazz» de José Duarte, no tempo em que ficava à espera para gravar os programas em cassete. Agora, há várias formas de encontrá-lo. E, ao ouvir, tendo sempre presente que Art era cego, não podemos deixar de concordar que este primeiro lugar é justo.

http://www.udiscovermusic.com/greatest-jazz-pianists

18 de Maio de 2016 – Às vezes sabe mesmo bem ser do Benfica


Em 1988, quando me deu esta febre de ser do Benfica, ser do Benfica era ser-se diferente, para melhor. O Benfica ia sempre longe nas competições europeias. Era campeão, pelo menos, ano sim, ano não. Desde essa altura, mais ou menos, que estou habituado a ver grandes jogadores de todo o mundo no Benfica. Ao vivo e a cores. Só nessa época, havia um Benfica com Silvino (que demonstrava um porte imponente), Veloso (esse, que falhou o «penalty» na final da Taça dos Campeões Europeus, contra o PSV Eindhoven), Vitor Paneira (sempre em grandes arrancadas pela ala direita), Ricardo Gomes (que dizer do golo de cabeça contra o Académico de Viseu, que sentenciou a partida?), Mozer (verdadeiro patrão da defesa), Valdo (de quem vi a estreia contra o Sporting de Espinho, e que número 10), Mats Magnusson (aquele golo mesmo à nossa frente, contra o Beira-Mar), Vata (o tal que marcou golo com a mão ao Marselha, que eu vi na televisão do Rainha 1, através da antena parabólica), Pacheco (o mesmo que Paneira, mas à esquerda), e ainda Fonseca, Lima, Ademir, Elzo, Garrido, Miranda, Ricky, Abel Campos, Samuel, Mariano, Abel Silva, e os históricos Diamantino, Chalana, Hernâni, Álvaro Magalhães, Shéu e Manuel Bento. O Benfica fazia uma vénia aos adeptos quando entrava em campo, com os jogadores todos com as mãos atrás das costas. Aquilo era quase uma entrada num concerto. É quase como um amor (ainda por cima à primeira vista). Não se explica. Foi desse Benfica que passei a gostar. Mesmo quando as opções directivas eram péssimas, e se passava um jejum de títulos horrível. Quando se ganha, é sempre mais fácil assumir-se, bem sei. Mas ser-se do Benfica era (e é) uma forma de estar no futebol, como dizem os comentadores. Depois, veio uma espécie de máquina trituradora, com Jorge Jesus, até que a coisa se tornou saturada. Hoje, porém, ao ver um vídeo com a voz de Rui Vitória, voltou um bocadinho desse sentimento que começou lá atrás, em 1987/1988, e se foi prolongando nas idas aos estádios um pouco por todo o lado. À Luz antiga, onde vi, pela primeira vez, o FC Porto, ainda com Zé Beto na baliza, por exemplo. Ao Estádio do Mar, contra o Leixões, onde, à chuva, Álvaro Magalhães corria como se não houvesse amanhã, mesmo à minha frente. E golos, muitos. E derrotas, algumas. E títulos, como o festejado na Luz, contra o Estrela da Amadora, connosco quase no famoso terceiro anel. É desse Benfica que gosto de ser. Mesmo que não ganhe nada, ou lute para não descer de divisão. Gosto dessa forma de estar no futebol. As outras, mais ou menos nebulosas, podem ficar para os outros.

16 de Maio de 2016 – Ser de esquerda, essa doença

cerebroLê-se por aí que um livro intitulado «The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness», da autoria de Lyle Rossiter, prova que o «esquerdismo» é uma doença, que deve ser tratada de forma clínica. Não podemos imaginar os problemas que o «esquerdismo» pode causar à formação da personalidade dos que se deixem contagiar, que podem tornar-se esquerdistas «benignos» (moderados) ou «radicais» (que chegam a fazer mal aos outros). Isto para não falar nos danos motores que o privilégio de apenas um dos lados do corpo pode causar.

O esquerdismo radical, assim, ataca os fundamentos da liberdade civilizada. Dadas as suas metas irracionais, métodos coercitivos e fracassos históricos, juntamente aos seus efeitos perversos sobre o desenvolvimento do carácter, não pode haver dúvida da loucura contida na agenda radical. Só uma agenda irracional defenderia uma destruição sistemática dos fundamentos que garantem a liberdade organizada.

Apenas um homem irracional iria desejar o Estado decidindo sua vida por ele, ao invés de criar condições de segurança para ele poder viver sua própria vida. Só uma agenda irracional tentaria deliberadamente prejudicar o crescimento do cidadão em direcção à competência, através da adopção dele pelo Estado.

Apenas o pensamento irracional trocaria a liberdade individual pela coerção do governo, sacrificando o orgulho da auto-suficiência para a dependência do bem-estar. Só um louco pode conceber uma comunidade de pessoas livres, em cooperação, e ver nela uma sociedade de vítimas exploradas pelos vilões.