8 de Setembro de 2019 – Legados

Esta era a fotografia que ficava sempre no início das últimas crónicas do meu avô. Desde pequeno que me habituei a lê-lo, tanto nos textos que escrevia, como nas convicções que defendia, como nas conversas que mantínhamos. Com o passar do tempo, ficámos, ambos, como o Vinho do Porto, apenas com uma diferença: ele era de colheita ‘Vintage’, e eu estou apenas a chegar aos limites mínimos do ‘Tawny’. Mas esse tempo, permitiu-me aprender muito. E, em parte, a genética fez o resto. Sem que me tivesse guiado para aí, sem que tenhamos falado sobre o assunto, sem entrarmos nunca no espaço mais ‘nosso’ de cada um, partilhámos a escrita e a política. Com tudo o que isso implica. Mais uma vez, com uma diferença enorme de percursos e da sabedoria que o tempo nos dá (quase) de graça. Hoje, fui convidado a ficar com o espaço em que ele escrevia. Uma honra tão grande, a que não se consegue dizer que não. Um agradecimento que nunca será suficiente. Um desafio aceite assim, sem pensar. Com a certeza de que esse legado permitir-me-á aprender ainda mais, para que, um dia, possa ser quase tão bom como o ‘Vintage’. Por enquanto, divirto-me a percorrer caminho.

7 de Setembro de 2019 – Joana d’Arc

Quase a terminar a leitura do livro que Mark Twain considerou como a sua melhor e mais importante obra, já algumas coisas vão ficando a pairar. Como é fácil seguir os heróis, deixar-se contagiar por eles, ressuscitar, se for preciso. Mas, quando o herói cai em desgraça, cai sozinho. Deixa de ter ao seu lado todos os que com ele e por ele lutaram. A história não é nova. A Bíblia narra algo parecido. E se olharmos bem, no dia-a-dia não nos faltam exemplos destes. Joana d’Arc passou, em pouco tempo, da ignorância ao Paraíso e ao Inferno. Se quisermos, do nada a bestial e a besta. Assim, sem paragem obrigatória em qualquer apeadeiro. Houve quem dissesse, um dia, que a política é a arte do possível. Uma definição curiosa, mas que permite vários truques de interpretação. O que é possível é sempre discutível, e as convicções de cada um nem sempre estão alinhadas com o ‘possível’ de outros. Vale a pena ler Mark Twain sobre uma personagem que marcou, de forma indelével, a História da Europa. E, nas entrelinhas, reflectir sobre estes esquecimentos, estas mudanças de rótulo, esta forma como a sociedade vai olhando, de maneira radicalmente diferente, para as mesmas coisas. De um momento para o outro.

Já terás reparado que o nosso principal cavaleiro diz muitas coisas sábias e tem boa cabeça para pensar. Num dia em que seguíamos juntos a cavalo, discutíamos os grandes talentos de Joana, e ele disse-me: ‘Mas o maior dos seus dons é que ela tem olhos de ver.’ Ao que retorqui como um tolo, sem pensar: ‘Olhos de ver? Não lhe daria grande importância… todos temos.’ ‘Não’, insistiu ele, ‘são poucos os que os têm.’ Então ele explicou, e percebi o que queria dizer. Explicou que os olhos comuns apenas vêem o exterior das coisas, e assim fazem os seus julgamentos, ao passo que os olhos de ver penetram e lêem o coração e a alma, encontrando neles capacidades que o exterior não prometia nem dava a entender, e que os olhos comuns não detectam. Disse-me que o mais poderoso génio militar está destinado ao fracasso se não tiver olhos de ver, ou seja, se não souber ler os homens e escolher os subordinados com base num julgamento infalível. É como que uma intuição que lhe permite ver que este homem é bom para a estratégia, aquele para a refrega e o assalto audaz, aqueloutro para uma paciente persistência, e escolhe cada um para o devido lugar, e vence, enquanto o comandante sem olhos de ver dá a cada um deles o lugar que pertence a outro, e perde. Ele tinha razão quanto a Joana, e eu percebi.

‘Joana d’Arc’ – Mark Twain

6 de Setembro de 2019 – A casa

Há quem diga que a nossa casa é onde o nosso coração está. Mas de uma coisa não conseguimos fugir: a raiz. Ainda assim, sim. Talvez. Talvez a casa seja onde o coração está, ou onde tem de estar. O lugar onde regressamos, ao fim do dia, ao fim de contas. Onde voltamos a sentir tudo o que sentimos durante o dia, desfiando essas contas diárias, em balanços imaginários de deve e haver, como se fôssemos guarda-livros da vida. Depois, apurado o saldo, projecta-se o dia seguinte. Talvez já de olhos fechados, à procura de um sonho qualquer, que nos confirme que a nossa casa é ali. Onde o coração está. Mesmo que a raiz esteja mais longe. Ramificamos ali. Até ver.

‘A Casa’ – Rodrigo Leão

5 de Setembro de 2019 – Testamento de sangue

Há algum tempo atrás, sentado nos degraus da escada de uma igreja, para os lados de Cinfães, vejo aproximar-se uma senhora, igual a tantas outras, com cara de avó e de quem vinha, sorridente, das suas orações ou da sua visita ao cemitério. Ao bom dia respondemos com o bom dia, ao que se segue a pergunta banal ‘de onde é?’. Resposta banal, ‘de Arouca’. E é então que surge a surpresa. ‘Se é de Arouca, tem de ler um livro muito bonito que se chama Testamento de Sangue. A história passa-se naquela região, e tem capítulos que falam sobre o Mosteiro de Arouca. Leia. Vai gostar muito.’ A semente da curiosidade tinha germinado, e só parou de crescer depois de encontrar o livro num alfarrabista. ‘Testamento de Sangue’, de Alberto Pimentel. Uma história de fidalgos e monges de Alpendurada, de amores e desamores, honras e lutas liberais, e de uma fidalga que cantava e encantava quem vinha rezar ao Mosteiro de Arouca. Mas, mais interessante do que o livro, foi a forma como ele se deu a conhecer. E isso, não se esquece.

Nestas agrestes paisagens deslizaram muitos dias da minha infância, – da minha mocidade também. Conheço-as, quero-lhes, como se pudessem entender-me as recordações que me despertam. Aqui eduquei eu o meu espírito na doce meditação das horas saudosas. Todas estas serras alcantiladas, que recortam o céu, hão-de guardar ainda no mais sombrio dos fraguedos o eco de uma trova minha

‘Testamento de Sangue’ – Alberto Pimentel

4 de Setembro de 2019 – Sinais

Os britânicos continuam indecisos. Um passo para a frente, dois para trás e três ao lado, para tentarem perceber até que ponto os políticos estão a conseguir interpretar correctamente o sentimento do povo em relação à saída da União Europeia. E talvez estejam a conseguir, porque a desorientação é geral. Os brasileiros, enquanto varrem a cinza da Amazónia, equacionam rasgar o (des)acordo ortográfico inventado pelo senhor José Pinto de Sousa, também conhecido como Sócrates. Um (des)acordo que não respondeu a nenhum sentimento do povo, a nenhum uso instalado ou vontade expressa. Uma espécie de imposição, ou teima, em que o senhor em causa era pródigo. São apenas dois sinais do que pode acontecer quando o debate gira em torno de questões pouco dadas a maiorias, fracturantes, por vezes, e que, frequentemente, geram decisões tomadas com base em impulsos pessoais e não devidamente informadas e fundamentadas. Já nós, por cá, vamos assistindo a cada vez mais acidentes com aeronaves de combate a incêndios. O que talvez também seja sinal de alguma coisa. Cravando bem fundo, na consciência, a perda de vidas de quem deveria viver para ajudar a preservar outras.

3 de Setembro de 2019 – Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós

Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós, para vermos melhor o infinito em forma de horizonte. Para recolocarmos cada coisa em seu sítio, cada ruído na sua proporção, cada objecto com o seu tamanho. Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós, para percebermos que é aí que temos de subir à montanha, mais do que fugirmos para outro lado qualquer. E percebemos que é precisamente ali que temos tudo, só não estávamos a conseguir ver. Às vezes, é preciso subirmos a uma montanha dentro de nós. Para percebermos que, porra, existimos.

2 de Setembro – A humanidade à deriva num iceberg

Ludovico Einaudi é um pianista e compositor, reconhecido em todo o mundo pela forma muito própria como trata as suas melodias. Com elegância, consegue equilibrar (o que nem sempre é fácil) a pureza das melodias com a estrutura minimalista das repetições e sobreposições sonoras constantes. Há algum tempo atrás, aceitou o desafio de tocar uma pequena peça sua enquanto estava à deriva num iceberg. Chamou-lhe ‘Elegy for the Arctic’, uma elegia para o Árctico, e foi a forma que encontrou para alertar-nos para todas as questões ambientais que estão na ordem do dia. Assim. Sem palavras. Após o susto pela quebra de mais um bloco de gelo, um breve trecho sonoro, e a imagem bruta de uma humanidade à deriva.

1 de Setembro de 2019 – Pelos caminhos de Fanny Owen

Amanhã, voltam a fazer parte dos itinerários de todos os dias alguns dos caminhos descritos por Agustina na sua narrativa sobre Fanny Owen. A trama envolve Camilo Castelo Branco, e é um retrato desses tempos em que o romantismo parecia estar em construção dentro de cada homem, em que tudo parecia precisar de ser exagerado para ser real, em que José Augusto estacionava o cavalo dentro do quarto de Camilo. A casa de Fanny Owen é mesmo ali ao lado, e a ruína deixa ainda espaço para imaginar o jardim onde se passeava com os amigos que disputavam a sua atenção e o seu amor, junto à estrada que cruzariam para visitarem o Senhor da Pedra. A Villa Alice continua a interrogar-nos sobre o tempo, sobre o passar do tempo, sobre o que fazer com o tempo. E de como esse tempo, esse passar do tempo, esse fazer do tempo garrote dos sentimentos, facilmente permite que a tragédia encontre, com relativa facilidade, os seus ingredientes.

Os dois amigos tinham suspendido os temas abissais e conversavam chãmente de coisas sem muita substância nem obrigação. Uma alegria obscura e simples tomava-lhes o coração; e, desse modo, encontraram um fervor quase hiperbólico que os levou a entrar na capela e a rezar. Teriam subido ao templo de Corinto, se lá estivessem, e consagrado um pensamento extasiado àquele lugar pagão cuja virtude lhes parecia familiar – a de lhes organizar as fantasias em forma de ortodoxia. Vagueando pelos caminhos, entraram pela demarcação de Vilar do Paraíso, lugar de veigas e pinhais, e onde havia um solar arruinado com portadas de pau. As ventanias tinham feito voar os caixilhos. Ao pé desse casão, com ar de abadia de frades expulsos, estava a igreja, mais pequena do que uma capela de aparições. Uma árvore cobria-lhe de sombra a torre. Era uma hora em que a paz do domingo parece saudar os mortos nos cemitérios.

‘Fanny Owen’ – Agustina Bessa Luís

30 de Agosto de 2019 – Ouvir, de olhos fechados

John Dowland viveu entre 1563 e 1626. Tocou alaúde e cantou, com a frequência possível, as suas próprias canções. Não terá sido particularmente querido pela corte da sua Inglaterra. Colocou muitos dos seus dilemas na sua música. Hoje, a música de Dowland invade o silêncio, até não ficar mais nada senão o silêncio, de novo, no final de cada uma das canções cantadas por Sting e acompanhadas ao alaúde por Edin Karamazov. Como se entrássemos nesse labirinto de emoções que é a música, quando lhe abrimos a porta. Quando entramos nesse labirinto, onde nos perdemos, onde avançamos e recuamos, até chegarmos ao centro. E encontramos a rosa. E percebemos que, para sentirmos o aroma da rosa, precisamos de percorrer o labirinto. Ouvindo, pelo caminho, de olhos fechados, as palavras ecoarem. Pedindo-nos que regressemos.

‘Come again’ (John Dowland) – Sting, Edin Kararamazov: ‘Songs from the Labyrinth’ (Ed. Deutsche Grammophon)

Come again, sweet love doth now invite
Thy graces that refrain to do me due delight
To see, to hear, to touch, to kiss, to die
With thee again in sweetest sympathy
To see, to hear, to touch, to kiss, to die
With thee again in sweetest sympathy.

Come again, that I may cease to mourn
Through thy unkind disdain for now left and forlorn
I sit, I sigh, I weep, I faint, I die
In deadly pain and endless misery

All the day the sun that lends me shine
By frowns do cause me pine and feeds me with delay
Her smiles, my springs that makes my joys to grow
Her frowns, the winters of my woe

All the night
My sleeps are full of dreams
My eyes are full of streams
My heart takes no delight