Inexplicavelmente, todos temos uma imagem de um Deus que está acima de todos. Mas esquecemo-nos da parte das Escrituras que diz «e em todos». O mesmo, supõe-se, acontece com o Diabo. «Lucifer» é uma série da «Fox» que dá a conhecer um Diabo que se fartou do inferno, e (pasme-se) resolveu ser o mais humano possível. Tão humano que quase parece Deus. Parece um contra-senso, mas tem o seu quê de interessante. Assim como o facto de tomar o nome de Lucifer Morningstar (uma espécie de «estrela da manhã» humana). E, afinal, Deus e o Diabo convivem connosco diariamente. Sem darmos conta disso. A castigar os que fazem o mal, e, sem querer, a procurar justiça para os que fazem o bem. E, ainda por cima, toca piano…
13 de Maio de 2016 – E a vontade de roubar palavras
Há dias em que andamos à procura, à procura, à procura das palavras e elas, de repente, aparecem em outro lado. Aparecem, por exemplo, às nove no meu blog. Não no meu, nesse outro, onde encontro, num texto de finais de Dezembro do ano passado, praticamente tudo o que queria ter dito. É por isso que sabe bem ler, como se os olhos fossem uma espécie de pernas que pedalam para exercitar o cérebro. E, em alturas como esta, é como se chegássemos a um destino, como se a caminhada feita fizesse sentido. Como se a viagem tivesse valido a pena. Nessa altura, roubam-se as palavras. E pronto.
meu amor
todos os dias te falo de esperança, de optimismo, de fé. tu não sabes, mas todos os dias é em ti que encontro o sentido da vida e a força vital que a tudo resiste.todos os dias te abraço como se fosse ali o primeiro dia da nossa vida. tu não sabes, mas todos os dias tenho vontade de entrar no teu abraço grande e morar lá dentro para sempre.todos os dias conjugo o verbo ir na certeza da tua mão. tu não sabes, mas todos os dias a minha bússola é a certeza do teu amor.todos os dias sacudo a poeira dos meus dramas absolutos. tu não sabes, mas todos os dias a minha inspiração é aquela tua luz, aquela certeza de fio invisível que me garante que se algum dia eu ficar sem chão tu me dás a mão e cuidas de mim assim, com abraços cheios de luz, para sempre.«Às nove no meu blog» – terça-feira, 29 de Dezembro de 2015
12 de Maio de 2016 – Tenho medo de, quando voltar, isto ser uma monarquia
Os acontecimentos sucedem-se no Brasil quase como a pescada, que antes de ser já o era. Com a velocidade a que as coisas acontecem, tudo e o seu contrário pode acontecer no espaço de um segundo. É por isso que, diz-se, os brasileiros têm medo de largar a televisão, porque se tiverem de ir à casa de banho, têm medo de, quando voltarem, estarem numa monarquia. É um estudo do Núcleo de Pesquisas para a América Latina (NUPAL) que aponta esta tendência, com base num estudo feito junto dos brasileiros consumidores de noticiários. O pormenor do estudo vai à quantidade de refeições, banhos e até número de actos sexuais em frente à televisão, para não se perder pitada do que está a acontecer. E se, quando o deputado Eduardo Cunha foi afastado do cargo, houve 70% de telespectadores a fazerem tudo isto em frente ao ecrã, a situação piorou com as notícias sobre o processo de «impeachment» de Dilma. Às refeições, aos banhos e ao sexo, os brasileiros passaram a fazer todas as necessidades fisiológicas sem tirarem os olhos da televisão. Há por lá outros números, mas estes já dão que pensar o suficiente.
7 de Maio de 2016 – Olha estes, os que prometem estradas
Não resisti a destilar todo o meu profundo ódio a uma certa escumalha de mentirosos, que, inexplicavelmente, continuam a conseguir andar de coluna vertebral minimamente direita e a sorrir para as câmaras que para eles apontam (mesmo que sejam as suas). Houve uma escumalha de mentirosos que foram passando por Arouca garantindo que a justa reivindicação de um acesso digno iria ser atendida. Primeiro de uma forma, depois de outra, ainda de outra e, por fim, de nenhuma. Esta escumalha de mentirosos continua por aí. Impune. Como se nada fosse. Como se mentir a quem lhes paga fosse absolutamente normal, tolerável, admissível. Esta escumalha de mentirosos continua a espalhar a mentira que personifica por onde passa. Dando a entender que são alguém. Quando, na realidade, não são nada senão isso mesmo. Escumalha. De mentirosos.
6 de Maio de 2016 – O Monge e o Executivo
A forma de organização monástica não anda longe da forma de organização social. É como se cada um dos seus elementos tivesse uma tarefa específica a cumprir, e de quem se espera que a cumpra, efectivamente. Mas nem sequer é essa a questão que se coloca neste livro de James C. Hunter. A questão central aqui é a liderança e a forma (ou uma forma) alternativa de a exercer. Ponto de vista assertivo, acção eficaz, ouvir e falar em tempo oportuno e dizendo o que tem de ser dito. São só alguns ingredientes. O resto, está no livro. E vale a pena ser descoberto.
5 de Maio de 2016 – Bye bye blackbird
Muitas vezes, andamos consumidos com a ideia de inventar a roda, quando a roda já foi inventada. E é nessas alturas que reinventar a roda pode ser mais arrojado do que procurar, sem sucesso, inventa-la. Este foi, claramente, um desses casos. O formato não podia ser mais simples. O contrabaixo, que consegue ser o motor de qualquer formação em que se insira, e a voz, que traz a palavra que falta a tudo o que a música já tem em si. «Bye bye, Blackbird» é um tema que, com palavras simples, diz muita coisa. Diz que adeus talvez não seja bem adeus, porque os pássaros migram, não vão embora. Hão-de voltar, no verão, como as andorinhas, que andaram arredadas durante vários anos, mas aí estão outra vez. O «bye bye» não é bem um adeus. É uma despedida curta. Que se transforma em novo olá, à velocidade do «swing». Simples. Despojado.
4 de Maio de 2016 – Uma espécie de limite
Às vezes, apetece ficar naquela linha de fronteira, onde não se está num lado, nem no outro, nem, aparentemente, em lado nenhum. Como quem está à porta e não entra, mas também não vai embora. Como quem tem uma quantidade infindável de sons para debitar, mas não consegue sair do silêncio primordial e cortante que antecede o primeiro milésimo de segundo, em que a curva sonora inicia a trajectória. Apetece ficar numa espécie de limbo, onde sabemos que não somos nada, nem estamos em parte alguma. Como se existíssemos sem existir. Ou estivéssemos à espera do momento ideal para. Como quem, junto ao abismo, espera pelo preciso momento em que os pés saem do chão e começa um caminho novo. Nesse preciso milésimo de segundo. Onde uma espécie de nada é tudo.
3 de Maio de 2016 – A versão «normal» de Obama?
É capaz de ser um bocadinho complicado pensarmos que o líder da maior potência mundial pode ser uma pessoa normal. Só o facto de ser Presidente dos Estados Unidos faz com que Barack Obama deixe de ser uma pessoa normal, e talvez nunca mais permita que o seja. De todo o modo, POTUS (a sigla usada no meio político americano para definir «President Of The United States») tentou mostrar como seria (ou como vai ser). E que dificuldades encontraria (ou irá encontrar). Para já, hipoteticamente. Depois, logo veremos.
2 de Maio de 2016 – Uma rainha, uma santa, uma abadessa
O imaginário é, provavelmente, o aspecto mais forte da identidade de um povo. Às vezes, mais forte do que as evidências, ou que o património que persiste, é a interpretação que damos às coisas, a visão que temos das coisas que fazem com que determinado aspecto passe a ser distintivo e marque quem somos e como somos. É curioso que, no caso de Arouca, isso seja gritante ao ponto de termos uma Rainha Santa que não o foi. Nem uma coisa, nem outra. Que, inclusive, teve fama de abadessa, quando também não o foi. Mafalda não chegou a reinar, na efectiva acepção do termo. O trono foi ficando ao cuidado dos seus irmãos. Também não foi santa, porque a Igreja apenas a beatificou. E não foi abadessa, porque não chegou a professar votos. Todavia, toda a sua vida foi testemunho desses três aspectos. Governou como uma rainha, viveu como uma santa e geriu como uma abadessa. E da soma destes três factores, surge uma personalidade que merece tudo o que, efectivamente, não teve. É aí que entra o imaginário. E onde se forja a identidade.
1 de Maio de 2016 – Dia do (não) trabalhador
É curioso que não trabalhemos no dia que assinala a importância do trabalhador. Bem, no meu caso, terei oportunidade de trabalhar, ainda que não trabalhando como é hábito, mas, ainda assim, trabalhando, ou mostrando o fruto de um trabalho. Quando se (re)acendem os debates sobre o trabalho, os trabalhadores, as greves e assuntos afins, vem-me sempre à memória o impacto com que recebi «A Greve», de Eisenstein. Da forma como, incrivelmente, o realizador coloca em destaque a classe trabalhadora para, no final, qual murro no estômago, quase provar que talvez não seja boa ideia fazer greve, se for apenas para preguiçar. Assim como assim, mesmo não trabalhando, vamos trabalhar…