8 de Outubro de 2019 – A (má) reacção de Ana Catarina Mendes

Ana Catarina Mendes foi a responsável pela primeira reacção do PS aos resultados das eleições de domingo. Do seu discurso, semi-inflamado, duas notas ressaltam, pela negativa. Primeiro, dizer que os portugueses foram votar e demonstraram que ‘a vida democrática em Portugal está viva’, para além de redundante, é redundantemente estranho, quando a primeira grande notícia da noite foi o valor da abstenção. Mas, tudo bem. Tudo bem, até à altura em que parece estarmos a ouvir outra Catarina, que não uma responsável do partido que esteve e vai estar no Governo. Aproveitar este momento para falar numa ‘derrota histórica’ da Direita, não só soa demasiado a bloquista, como não fica bem a um partido que se diz defensor da democracia.

7 de Outubro de 2019 – Comer ou não comer carne

É interessante verificar que o texto que foi tema de capa da última edição da revista ‘Visão’ não gerou qualquer reacção. Pelo facto de não ter havido ninguém a contradizer algumas das coisas que ali podem ler-se, deduz-se que sejam verdadeiras, ou, pelo menos. minimamente credíveis. Sem querer manifestar opinião, apetece simplesmente transcrever algumas das ideias que podem ser lidas no interessante texto de Luís Ribeiro, para reflectirmos. Primeiro: o relatório da FAO ‘A longa sombra da pecuária’, que apontou 18% como o valor das emissões de gases com efeito estufa, mais do que a percentagem atribuída aos transportes, por exemplo, não parte de premissas correctas. Isto porque os estudiosos resolveram contabilizar todo o ciclo produtivo da pecuária, mas não todo o ciclo produtivo associado à indústria dos transportes, comparando, assim, alhos com bugalhos. Considerando o valor dos transportes apontado por estes estudiosos (14%), e a forma como chegaram a esse número, estaríamos a falar de apenas 5% para a pecuária. Segundo: considerando todo o ciclo produtivo, temos de ter em conta a importância da agricultura e da pecuária na manutenção da fertilidade dos solos. Caso contrário, para um cultivo mais intensivo de produtos que possam acompanhar a dieta vegetariana, seria necessário recorrer a outras técnicas fertilizantes, com os químicos associados, e as respectivas emissões associadas, já para não falar no equilíbrio dos habitats. Terceiro: o Governo português fala no aumento da importação de carne como resposta à diminuição da produção autóctone. Tendo em conta a forma como as espécies autóctones são criadas, uma redução da produção na ordem dos 50%, como se fala, sem se apontarem números para a suposta importação, soa quase a ridículo. Valerá, portanto, a pena reflectir. Aliás, estranho é o silêncio sobre isto, desde quinta-feira passada.

6 de Outubro de 2019 – Eleições

Hoje, foi dia de irmos votar. Há quatro anos, fomos mais ou menos traídos, porque não foi totalmente respeitada a nossa vontade. Ou melhor, houve alguém que resolveu interpretar a nossa vontade, criando a famosa geringonça, que foi funcionando desde então. Hoje, tudo indica que vai ser possível seguir o preceito de governar quem ganha. Houve já grandes derrotados, desde logo o CDS, que acaba de ficar sem líder. O PSD, pode olhar para o copo meio cheio, com Rui Rio a conseguir números muito melhores do que toda a gente previa, mas, ainda assim, a não descolar da ideia de que averbou a pior derrota de sempre para o seu partido. É natural que, daqui a dias, voltem a desafiar a sua liderança. É o normal no PSD. Também é normal o PSD ganhar em Arouca, mas, desta vez, a vantagem encurtou. É talvez sinal de que, do local para o nacional, é preciso mudar a forma de chegar às pessoas.

5 de Outubro de 2019 – Dom Tolentino

Foto: Ana Brígida (Expresso)

‘Tu és a poesia’. Foi o que o Papa Francisco disse, hoje, ao novo cardeal português, D. José Tolentino de Mendonça. A resposta, um tanto metafórica, esteve à altura da pergunta (provocatória) que D. Tolentino fez ao Papa: ‘Santo Padre, o que é que me fez?’ De facto, o que o Papa fez foi ‘ser coerente’. Construir pontes e ir às periferias significa também ir até junto da cultura, das artes, da literatura, da poesia. E se há alguém que, em Portugal, é reconhecido por crentes e não crentes, cultos e menos cultos, gente das artes e da política, da cultura e dos media, em suma, por gente de todos os quadrantes, é o Cardeal D. Tolentino. É, portanto, com redobrada vontade que regresso às palavras do padre poeta. Às palavras, cuidadas, esculpidas, moldadas, sabia e cuidadosamente alinhadas. Como se Deus ali estivesse, ou, de propósito, não quisesse estar, deixando toda a humanidade em cada letra, para que sirva de molde a outras metáforas, outros sonhos, outras formas de ser e de estar.

O MISTÉRIO ESTÁ TODO NA INFÂNCIA

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder
Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente
Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore
O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

José Tolentino de Mendonça – “A noite abre meus olhos”

4 de Outubro de 2019 – A música

Quando algo está tão presente nas nossas vidas que nem damos conta, é perigoso. Porque, quando nos falta, percebemos que se trata de algo estrutural, como um alicerce que sustenta uma parte do nosso equilíbrio. É esse o perigo da música. De tão presente que está, quase não lhe reconhecemos valor. Mas, depois, percebemos o que ela nos proporciona. As viagens que nos faz fazer, as paisagens que nos faz ver, os amigos que nos faz (re)encontrar. E, quando ela falta, há algo que se desmorona, que cai, que falta. Uma das citações mais famosas de Nietzsche diz que sem música a vida seria um erro. A probabilidade de ser verdade é muito alta. Porque não tenho forma de comprovar. Há alicerces, como raizes, que não conseguimos que se desliguem de nós. E ainda bem.

3 de Outubro de 2019 – Sobre cultura, interior e uma regionalização alternativa

Ficámos a saber, no Dia Mundial da Música, que vai deixar de haver Festival Internacional de Música do Algarve. Podia ser outro festival qualquer, em qualquer outra região do país. Mas foi no Algarve, um Festival Internacional. Que, há algum tempo, tinha ficado em suspenso, depois voltou, e agora desaparece, até ver. É esta falta de continuidade do que poderia fazer parte de uma política cultural que dá que pensar. Porque estas coisas não se fazem sem apoios. E os apoios parecem ser geridos com algum critério geográfico, mesmo que não seja esse o principal. Deixar de haver um festival de música no Algarve não significa o mesmo que deixar de haver um festival de música na região de Lisboa. Os impactos são diferentes. As consequências são outras. Portanto, o resultado é o fecho do interior, ou de tudo o que não é Lisboa, ou metrópole. Toda a gente tem falado muito na regionalização, mas de forma pouco concreta. O que, na cultura, não seria difícil de acontecer. Porque temos as Câmaras Municipais com grande capacidade de organização e mobilização para a cultura e para os eventos que conseguem promover. Se algum político mais iluminado se lembrasse que, perto das populações, estão as autarquias, e que estas podem ser parceiras e não empecilhos, talvez as coisas fluíssem de outra forma. Bastava quererem.

2 de Outubro de 2019 – Uma história

Amber Guyger era polícia, em Dallas, nos Estados Unidos. Um dia, ao lado de sua casa, disparou sobre (e matou) um jovem negro, seu vizinho, Botham Jean, de 26 anos. Se a história ficasse por aqui, estaria aberto o debate sobre o racismo da polícia, ou sobre a delinquência dos negros, estereótipos, preconceitos, e por aí adiante. Mas não. A história não fica por aqui. Amber alegou que entrou no apartamento de Botham por engano, pensando tratar-se da sua casa. Foi condenada a 10 anos de prisão. Até aqui, também nada de novo. O que fez, verdadeiramente, notícia, foi a reacção do irmão de Botham, Brandt, que, em tribunal, fez um discurso emotivo, sereno, centrado. Disse que perdoava Amber, e terminou a intervenção com um longo abraço à ex-agente policial. Está tudo nas imagens.

1 de Outubro de 2019 – Cupertinos Gramophonicos

Já era de prever, mas a notícia confirmou-se hoje. O ensemble vocal ‘Cupertinos’, dirigido pelo meu amigo Luís Toscano, com quem tenho tido o privilégio de colaborar, de vez em quando, ganhou o prémio da prestigiada revista internacional ‘Gramophone’, para melhor gravação de música antiga. Lembro-me, quando trabalhávamos, em Arouca, para a divulgação da obra de restauro do órgão ibérico do Mosteiro, de ouvir o mestre organeiro Gerhard Grenzing dizer que os órgãos devem reflectir a voz do local e das gentes onde ‘vivem’. De certa forma, foi o que aconteceu com os ‘Cupertinos’. Conseguiram apurar o som, até este reflectir o que compositor pretendeu transmitir, até conseguirem ter uma forma portuguesa de cantar a música portuguesa, até terem uma identidade. Estão, por tudo isto e muito mais, de parabéns. Sobretudo tu, Luís. Nunca desistas.

30 de Setembro de 2019 – Pinocchio

Ossos do ofício, foi necessário reler o ‘Pinocchio’, de Carlo Collodi. O verdadeiro Pinóquio, digamos. E, quase sem pensar, volta à memória a loja de Bartolucci, na Via dei Pastrini, em Roma, popularmente chamada ‘Casa de Pinóquio’. A história do boneco de madeira mais famoso do mundo é muito mais do que uma mera história de crianças. É uma história sobre a importância de aprendermos a optar pelo que é correcto, justo e benéfico, para nós e para os outros. Sobre a importância de ouvirmos, mais do que falarmos. Sobre como é importante o equilíbrio entre criatura e criador. E de como a aventura pode ser isso mesmo, e não um acumulado de problemas para resolver, quando podemos embarcar nela sem pesos, mentiras ou coisas más. Moldar a madeira é uma arte que requer mão treinada. Como para moldar qualquer vida. É preciso colocar alma na mão. E transferi-la para o que se molda.

29 de Setembro de 2019 – Geringonças

Desde há quatro anos que ganhar eleições em Portugal já não é apenas isso. António Costa, beneficiando de um alinhamento astral que só deve acontecer de dois em dois milhões de anos, conseguiu, sem ganhar eleições, tornar-se Primeiro-Ministro de Portugal, com uma geringonça montada ao estilo Frankensteiniano, que, ninguém percebe totalmente como, funcionou. Começando pelas expectativas, e porque eram as piores possíveis, pela novidade da situação, nada parecia ser pior do que o que tínhamos. Depois, a direita, completamente ultrapassada pela direita, pela esquerda, pelo centro, por todos os lados possíveis e imaginários, esfrangalhou-se, eclipsou-se, explodiu, partiu para parte incerta. Por fim, o conta-peso do Presidente da República tem contribuído para que o Frankenstein se mantenha em andamento, equilibrado, funcional, pelo menos aparentemente. No entretanto, toda a gente fala na deterioração dos serviços públicos, na falta de investimento do Estado nos sectores que lhe cabem, no aumento da carga fiscal. E, devagar, devagarinho, vai-se falando mais alto. Por estas e por outras, vale a pena ler, com atenção, o livro de Inês Serra Lopes, sobre a ‘Geringonça’.

Sim, é verdade que temos uma carga fiscal muito pesada. É verdade que o investimento público partiu para parte incerta. É verdade que a política de cativações piorou substancialmente as condições em sectores tão importantes quanto a Saúde e a Educação. Mas a política é, acima de tudo, um jogo de expectativas. E, regressando a 2015, as expectativas francamente generalizadas relativamente à Geringonça eram muito negativas. (…)

O Presidente da República espera que a direita se organize, se refaça. Mas a direita aparentemente ainda não compreendeu o que se passa no país. Incapaz de perceber que os eleitores de hoje querem votar em quem defenda causas, a direita ocupa-se a tentar combater as causas da esquerda. Entretanto, desguarnece-se e, sem saber se deve buscar os votos do centro-esquerda, se os do centro-direita, não procura bandeiras próprias, não se renova. (…)

Extraordinário, ou talvez não, é que António Costa apareceu aos portugueses como se tivesse sido surpreendido pela degradação da prestação de serviços públicos. Como se a responsabilidade pela qualidade, e pela falta de qualidade, dos serviços prestados pelo Estado não fosse responsabilidade de quem o geriu nos últimos quatro anos: exactamente o PS. Como se o Primeiro-Ministro não soubesse ou não devesse saber, logo ao fim do primeiro ou do segundo ano de Governo, que os cortes sucessivos (e também a falta de “importância”, de peso específico do papel dos serviços públicos nas políticas do Executivo) teriam como resultado obrigatório a degradação e a insuficiência desses serviços.

Inês Serra Lopes – ‘A Geringonça’