18 de Outubro de 2019 – Balanço dos dias com balanço

Os ciclos acontecem, mas precisam de tempo para se sucederem. Para estabilizarem, amadurecerem, passarem a ser o que chamamos normalidade. Vão se moldando, à medida que vamos introduzindo novas variáveis. Vão sendo construídos, com mais cansaço do que menos, mas também com mais objectivos concretizados do que por concretizar. Passo a passo, as nossas rodas dentadas vão girando, para que nós, rodas dentadas de outros engenhos, também entremos no ciclo. Está a chegar ao fim a primeira semana completa de trabalho. Já com pouca força para pedalar. Mas com grande vontade de não deixar que a roda dentada permaneça rodando.

17 de Outubro de 2019 – Recado subliminar para o PSD

Quatro anos depois de umas eleições que deram origem a um Governo formado por um partido que as perdeu, os portugueses foram chamados a votar, novamente. Após uma campanha eleito-ral prolongada, com temas explorados quase até à exaustão e outros completamente esquecidos, o Partido Socialista venceu, desta vez, ainda que sem a maioria absoluta que nunca assumiu to-talmente se queria ou não. Logo começaram as contas à mão, para se perceber que geringonças seriam possíveis, que maiorias poderiam alcançar-se, que cenários poderiam prever-se, até por-que o espectro político mudou bastante. Alguns “pequenos partidos” conseguiram eleger deputa-dos, o CDS eclipsou-se, voltando a ser “partido do táxi”, e o PAN cresceu (uma espécie de “par-tido do Uber”). E, com tudo isto, à hora que o leitor estiver a procurar as novidades no “Roda Viva”, os contactos e os debates sobre o futuro ainda decorrerão. A começar, desde logo, pela li-derança do PSD, algo que vai sendo habitual, sobre os restos de eleições não ganhas. Em Arouca, venceu o PSD. Até aqui, tudo normal. Contudo, os resultados eleitorais podem dizer-nos outras coisas, dependendo sempre do ponto de vista que elejamos. Um facto, desde logo, é o crescimento do PS, para os 31%, o que pode considerar-se um excelente resultado, tendo em conta o histórico de vitórias dos sociais-democratas. O CDS, seguindo a tendência nacional, teve uma quebra grande, não indo além dos 8%. Mas o que mais chama a atenção é a diminuição de votos no PSD, que alcançou pouco mais de 40%, quando, há quatro anos, com Passos Coelho e o fantasma da austeridade, chegou, em coligação, aos 60%. 

Há coisas que são objectivas, desde logo que o PSD ganhou em Arouca. É uma tendência natu-ral, e é um facto que praticamente não é preciso haver uma campanha eleitoral muito activa para que, em eleições nacionais, ela se cumpra. Outro facto, é que as circunstâncias em que decorrem as eleições nunca são as mesmas, sobretudo no que diz respeito à conjuntura e ao cenário polí-tico, este ano, em particular, quanto ao número de forças em quem era possível votar. Daí que as comparações possam ser perigosas. Outro facto, é que o número de eleitores não flutuou muito, quer no número de inscritos, quer no número de votantes. 

Enquadrados por este cenário, é relativamente óbvio que os arouquenses acabaram por dar um recado subliminar ao PSD. Que é preciso ter cautela, porque as coisas podem mudar, também a nível nacional e em eleições nacionais, e, eventualmente, podem não mudar a nível local. Arouca tem seguido, de forma muito regular nas últimas décadas, a tendência de dar grandes vitórias ao PSD em eleições nacionais, mas grandes vitórias, também, ao PS em eleições autárquicas. Olhando para os resultados nacionais, e tendo em conta a evolução das circunstâncias, é difícil aferir se Rui Rio alcançou a pior derrota de sempre ou se conseguiu uma trajectória ascendente que, no início do seu mandato, parecia impensável. Todavia, a mensagem que os responsáveis do PSD em Arouca devem ler é a de que talvez seja hora de mudar de estratégia, de discurso, de forma de diálogo, tanto no plano interno como com a “sociedade civil”. Faltam dois anos para as autárquicas, e Arouca precisa de um PSD “à moda antiga”. Mobilizador, credível, assertivo. Mas haverá, certamente, gente nas estruturas capaz de ler, muito melhor do que eu, este recado subli-minar. Porque talvez o segredo seja ir mudando localmente, mais do que procurar um líder, que poderá voltar a estar a prazo.

Texto publicado na edição de Outubro do jornal ‘Roda Viva’

16 de Outubro de 2019 – Quando as ruas não têm nome

Foto: Enric Fontcuberta / LUSA

Quando as ruas não têm nome, e passam a ser uma espécie de palco para uma espécie de guerra civil, mais mediática do que outra coisa, a sensação que fica é que todos os lados perderam a razão, e não há outra saída senão fazer ‘reset’, ou ‘restart’, e começar tudo de novo. Foi estranha a sensação de ver, através do aquário televisivo, os confrontos nas ruas de Barcelona, sem conseguir perceber completamente os porquês. Dizem-nos, de um lado, que o povo quer a independência. Mas, quando convidados a manifestarem-se nas urnas sobre o assunto, não foram tão peremptórios quanto isso. E, a ser assim, era como se os Açores quisessem a independência, mas com algumas ilhas a manifestarem-se contra. Em que ficaríamos? Todas teriam de ‘independentar-se’, mesmo as que não queriam? É claro que não há respostas de sim e não, mas uma coisa é certa. As ruas deixaram de ter nome, em Barcelona. E o sabor que fica é o de que aquilo que vemos, muito em concreto, não faz grande sentido.

15 de Outubro de 2019 – Les Indes Galantes

Há quem continue a teimar que a música dita clássica, ou erudita, ou antiga, ou qualquer outro rótulo semelhante que lhe queiram colocar, tem de ser séria. E talvez tenha. Mas há várias formas de fazê-la de forma séria, ou de torná-la séria. E uma delas é aproveitar a sua intemporalidade para, justamente através dela, colocar vários tempos em diálogo. É isso que acontece nesta versão de ‘Les Indes Galantes’, de Jean-Philippe Rameau, estreada em 1735. Depois de ver este vídeo, em que a coreografia contemporânea, se assim lhe podemos chamar, se cruza com a música escrita para dança de meados do século XVIII, na altura evocando os usos e costumes das Américas, não se consegue ficar indiferente. À dança, claro, mas, sobretudo, à música. De como ela, mesmo datada, consegue ser eterna, mesmo sendo etérea.

14 de Outubro de 2019 – A falibilidade do Papa

Tempos houve em que o Papa era infalível. Uma palavra sua, era lei. Nunca falhava. Nunca se enganava e raramente tinha dúvidas. Talvez nunca, também. O Papa Francisco é diferente, também nisto. Provavelmente sem querer, num simples ‘tweet’, fez com que a mensagem que pretendia passar fosse compreendida, mas com dois sentidos. Ao congratular-se pelos novos santos da Igreja Católica, quem gere a conta papal no ‘Twiter’ utilizou uma ‘hashtag’ com a palavra ‘Saints’ (santos, em inglês), seguida de uma flor-de-lis. Ora, acontece que esta ‘hashtag’ remete para uma equipa de futebol americano, os New Orleans Saints, o que fez com que os adeptos reagissem de imediato, tornando o ‘tweet’ viral. O diálogo foi mais ou menos assim: ‘Hoje damos graças ao senhor pelos nossos novos #Santos. Eles caminharam pela fé e agora invocamos a sua intercessão’ (‘tweet’ do Papa Francisco). ‘Não perderemos, depois disto. #Abençoados e favorecidos pelos céus’ (comentário dos adeptos dos ‘Saints’). Vale a pena ter sentido de humor cristão.

13 de Outubro de 2019 – Reutilizar, ou não

Foto: Pedro Rocha / Global Imagens

A notícia é manchete do Jornal de Notícias de hoje. Afinal, os copos ecológicos são tudo menos isso. Antes, quando falávamos em talheres ou copos de plástico, pensávamos em algo para ser utilizado apenas uma vez. Mas a legislação portuguesa arranjou forma de proibir esse uso único, abrindo a porta a uma nova forma de negócio. O material dito reutilizável, pelos vistos, custa dez vezes mais, pesa dez vezes mais e ainda contribui, indirectamente, pelo facto de ser importado, para as emissões de gases. Depois, na realidade, verificamos que o seu grau de reutilização é, no mínimo, questionável, até porque não são muito convidativos à lavagem (isto para não falar na ausência de regulamentos que prevejam essa situação). No final, a conta é paga pelo consumidor e pelo ambiente. Moral da história: enquanto andarmos como baratas tontas, a fazer castelos no ar, em prol do ambiente, tudo continuará mais ou menos na mesma. Ou, à boleia do político-ambientalmente correcto, pior.

12 de Outubro de 2019 – Vem aí a chuva…

Há coisas para as quais, por muito que pensemos o contrário, parece que nunca estamos preparados. Como algo tão simples como a chuva. Antigamente, como se dizia antigamente, dava a sensação que as estações do ano realmente existiam. O Inverno não entrava assim sem avisar. Tínhamos o Outono, que se manifestava, mais ou menos, com as Colheitas, e ia temperando as coisas, até estarmos preparados para o frio, a chuva, o vento, as cores, os aromas e os sabores do Natal. Mas agora é assim, vem aí a chuva. De repente, há inundações, tufões, tempestades, tudo o que possamos imaginar. Aqui, apenas a chuva. Simples. Com o condão de nos deixar mais sonolentos, com mais vontade de regressar a casa e não sair. Para, talvez, de repente, vir o sol dar um ar da sua graça, para logo voltar a fugir. E logo voltam lençóis de água. Vem aí a chuva.

11 de Outubro de 2019 – Morte e transfiguração

O título é interessante. Porque, para uns, a morte é o fim. Para outros, a morte é o início de outra coisa. Richard Strauss decidiu musicar o processo de morte e transfiguração. Ou seja, não se trata de uma morte como fim, nem de uma morte como princípio. Trata-se de uma morte como processo de mudança, como uma espécie de fronteira, com porta para ambos os lados. E é curiosa a forma como a música acompanha este processo, esta ideia, esta visão da vida (ou dos seus últimos momentos), da morte e da transfiguração. Depois, a Missa de Schubert. Um texto musicado imensas vezes e de imensas formas, mas que parece soar sempre diferente, mesmo quando ouvimos as mesmas coisas, outra vez. Porque a missa, a Eucaristia, é suposto ser isso mesmo. Uma transfiguração. É bom, de vez em quando, sairmos do aquário. Como hoje, na Casa da Música. Ver, rever, ouvir e voltar a ouvir amigos, conhecidos, desconhecidos. Mas, essencialmente, aproveitar a música para, com ela, colocar um pouco as coisas em perspectiva.

10 de Outubro de 2019 – Ouvir. Acolher. Cultivar o silêncio

Ouvir. Acolher. Cultivar o silêncio. Três coisas que começam a ser cada vez mais difícil de encontrar. Porque a vida. Porque as coisas. Porque o tempo. Já se sabia, há muito tempo, que a Cartuxa ia ficar sem os seus monges. Chegou, agora, a hora. As portas abriram-se, para, na hora da despedida, todos poderem conhecer os espaços onde ouvir, acolher e cultivar o silêncio não só eram coisas possíveis, mas essenciais. E, assim, reconhecer o peso da palavra ‘adeus’. Tão pesada como o molho de chaves que os cartuxos deixam ao Arcebispo de Évora.

9 de Outubro de 2019 – O ‘Halloween’ do Petr

Ainda faltam uns dias, mas o Petr quis, hoje, oferecer-me o seu desenho para o ‘halloween’. Para quem não tem grande vocação citadina, estas coisas soam um pouco estranhas. Uma espécie de Carnaval fora de época, confinado ao tema dos mortos, não parece coisa particularmente interessante. Lá na aldeia, a coisa passa por celebrarmos todos os santos e os fiéis defuntos, um ‘mix’ que, sem querer, nos ajuda a pensar que todos os que estão connosco em memória também podem ser exemplos de santidade, à sua maneira. O desenho do Petr fez-me lembrar tudo isto. De forma simples. Na forma simples de um desenho oferecido por uma criança.