28 de Setembro de 2019 – Feira das Colheitas

A Feira das Colheitas foi inventada pelo meu bisavô, António de Almeida Brandão, no contexto da II Guerra Mundial e do lastro de dificuldades que um conflito de dimensão mundial desencadeou. Este ano, a Feira fez 75 anos, e pudemos ver que acabou por ganhar uma dimensão completamente diferente da que presidiu à sua criação. Cresceu, mudou, distanciou-se um pouco da agricultura, e, queiramos admitir ou não, passou a olhar para o sector primário como uma criança olha para um aquário ou uma jaula de jardim zoológico. A agricultura, hoje, já não é a principal actividade do concelho, nem tão pouco a base da sua subsistência. Mas, enquanto marca identitária, permanece. Umas vezes melhor, outras pior lembrada. Ainda assim, e apesar de, este ano, não ter sido particular ‘festeiro’, não pude deixar de notar que, quando passam 75 anos da fundação da maior festa do concelho, toda a gente se esqueceu de quem a criou.

27 de Setembro de 2019 – O poder de brincar

Este vídeo é sobre o poder de brincar. Sobre como um grupo de artistas percebeu que brincar com crianças refugiadas seria dar-lhes o presente mais precioso. Ao correr do vídeo, cada vez mais vamos percebendo, em perspectiva, que, na realidade, é isto, tão simples, tão singelo, tão normal que falta às nossas crianças. Refugiadas de outras realidades que não as extremas. Mas, ainda assim, refugiadas. Tão necessitadas de descobrir o poder de brincar.

26 de Setembro de 2019 – This is not Rutter

Uma colega teve a amabilidade de mostrar-me um fabuloso vídeo, em que um coro parodia o estilo bem marcado de John Rutter, nas suas composições. Quem conhece as coisas que Rutter foi compondo, quem as cantou, quem as ouviu, quem percebe um pouco da mecânica por trás destas coisas musicais, não deixará de achar engraçado que, chamando os nomes às coisas que, efectivamente, estão a acontecer, se consiga fazer música quase de Rutter.

24 de Setembro de 2019 – Coisas que dão que pensar

Os ‘Millennials’, ou a geração que vai ficar a tomar conta do planeta a seguir a nós, e que começa a acordar para as questões climáticas, na espuma da onda dos dias, é a mesma que os pais levam de carro até dentro da escola, que não descola dos ecrãs de telemóvel, que se pela por ‘fastfood’, que lutou e luta por ter escolas com ar condicionado. A geração que vai ficar a tomar conta do planeta a seguir a nós, e que começa a acordar para as questões climáticas, na espuma da onda dos dias, não brinca, nem caminha nem desfruta do ar livre, não lê nada que não esteja num ecrã, raramente come comida saudável e contribui para fazer crescer as facturas de electricidade. Duas ou três coisas que dão que pensar.

23 de Setembro de 2019 – A discussão ao lado

Falar sobre as alterações climáticas, ou sobre a necessária alteração de comportamentos, ou até mesmo sobre Greta Thunberg e a sua legitimidade, coerência ou activismo militante (des)interessado, leva-nos a um poço sem fundo de discussões possíveis. A questão, se quisermos, a um nível micro (apesar de ser gigantescamente macro para a nossa escala miserável de humanóides), é económica. E, nesse sentido, é preciso encontrarmos a ponta do novelo, para percebermos como todas as questões podem ser desenroladas e os nós retirados. Mas, no essencial, essa mesma questão essencial está ao lado do que está a (a)parecer. Não se trata de uma problemática sobre o planeta. A terra, mesmo que possamos cometer as maiores agressões possíveis, encontrará sempre forma de regenerar-se e de, numa escala de tempo razoável, desenvolver novas formas de vida. A menos que façamos o nosso próprio ‘big bang’ e acabemos com tudo isto com uma explosão. A questão tem a ver somente com a nossa espécie. O que estamos é a arranjar maneira de extinguirmos a nossa fantástica espécie. Sem a qual o planeta até viveria bastante bem, provavelmente.

22 de Setembro de 2019 – Os monges cartuxos, na escada para o céu

Foto: António Pedro Ferreira (Expresso)

Os monges da Cartuxa de Évora vão deixar o Mosteiro Scala Coeli, depois de terem resistido trinta anos a uma decisão já então tomada. São quatro, idosos, convictos, fiéis ao chamamento. Os cartuxos têm uma dimensão contemplativa radical, com o tempo muito bem distribuído ao longo do dia, com os momentos de oração cantada claramente estabelecidos, vivendo longe do nosso mundo e disponíveis para a oração pelos outros. Ao viver num tempo diferente, o seu posicionamento perante o mundo é, também, diferente. Pouco lhes interessarão uma série de questões práticas, políticas, pseudo-sociais, ‘fait-divers’. Mas o espírito, sim. Essa disponibilidade para aprender, meditar, orar. Sem pressão do tempo, esse tempo que nos empurra para aqui e para além, que nos impele ou impede de fazer isto ou aquilo. Vão, devagar, ao seu ritmo, para Espanha, onde os esperam condiscípulos que, muito provavelmente, os ajudarão a morrer. Algo para que estão preparados, porque, vistas as coisas do nosso lado, já deixaram que uma parte importante de si morresse. Vão continuar a subida da Scala Coeli (a escada para o Céu). Contemplando, cultivando o silêncio, vivendo nesse microcosmos monástico que muito bem reproduz o que é (devia ser?) uma sociedade. Porque são raras as visitas de gente exterior aos mosteiros cartuxos, a reportagem do jornal ‘Expresso’ deste sábado vale bem a pena ser lida.

Stat Crux dum volvitur orbis (O mundo gira, a Cruz fica)

21 de Setembro de 2019 – Sobre contramão

Fica um sentimento estranho, quando vamos ler as notícias e verificamos que alguém morreu de acidente de viação no sítio onde passámos quatro horas antes. Talvez tenha sido a sorte, o acaso, ou o universo a jogar aos dados, que fez com que tudo se alinhasse para que aquele acontecimento em particular se desse quatro horas depois da minha passagem por ali, e não comigo. Há coisas que não queremos que nos aconteçam, e por isso seguimos pela via que todos seguem. E há coisas que queremos, e por isso não temos qualquer problema em circular em contramão, se for preciso, porque o risco faz parte do processo para atingirmos o objectivo. Isto, em concreto, acabou por acontecer, porque o carro seguia (aparentemente de forma deliberada) em contramão. E quantas vezes, no dia-a-dia, andamos em contramão…

20 de Setembro de 2019 – Audivi vocem de coelo

O dia de hoje passou como um foguete, todo o tempo a pensar na última tarefa prevista. E a última tarefa do dia era dar voz (tão próxima do céu quanto possível) a Duarte Lobo, um polifonista português de referência. Estas coisas da música antiga, como lhe chamam, tem o seu quê de interessante e de gratificante. Sobretudo, porque cada programa é uma descoberta. Acabamos por verificar que há um respeito muito grande pelos textos (maioritariamente sagrados), mas também um grande arrojo na forma como são musicados. Com todo o misto de sensações, foi bom chegar ao fim do percurso, e ouvir, ali bem perto, bem de dentro, essas vozes do Céu, que são os meus queridos amigos Cupertinos.

19 de Setembro de 2019 – O grande educador

Tentar ensinar a arte é dos desafios mais interessantes que há. O que implica, antes de mais, que tenhamos a capacidade de um deslumbramento constante, de preferência com as coisas mais pequenas que nos possam acontecer. A curiosidade é o motor da aprendizagem, na mesma medida que ensinar e aprender são verbos que se conjugam em simultâneo, e só resultam se forem colocados juntos, em cada acção. Agostinho da Silva tem esse condão de nos deslumbrar com cada pequena coisa, que na realidade se transforma em grande coisa, quando dita por si. Nas suas ‘Considerações’, como em vários escritos e entrevistas, sempre dedicou muita reflexão às questões da Educação e da Escola. E não teve grandes mesuras ao comparar a escola e a oficina, porque é preciso que se ensine e se aprenda a fazer. Mas também a escola e a arte. Porque nem uma nem outra o são apenas em si, ou apenas por serem. Mas pontos essenciais do universo, ou do mundo. Do nosso mundo. Esse que teimamos em dizer que queremos melhor, mas que talvez seja hora de irmos fazendo mais por isso.

O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. 

‘Considerações’ – Agostinho da Silva