28 de Outubro de 2019 – A rainy day in New York

Woody Allen é um realizador genial. Feita esta apreciação, de carácter meramente subjectivo, tudo o resto se constrói a partir daqui. Uma perseguição estranha, um boicote, um julgamento na praça pública (nada que, em Portugal, não se faça todos os dias). Mas também ‘A rainy day in New York’. Woody Allen costuma colocar bocadinhos de si nas personagens que faz passar pela lente e pelo ecrã, e a forma como tece os enredos e as relações entre elas é sempre engraçada, neurótica q.b., original e culta. Combinação só possível com ele aos comandos da coisa. O resto, é a arte de contar uma história. E isso, é melhor ser julgado por cada espectador. Sem outros preconceitos. Não vá chover e, com a chuva, vir uma série de contratempos, que põe a vida ao contrário do planeado. E, nessa altura, é preciso decidir. Às vezes, vale a pena andar à chuva. Saber andar à chuva. Ver Woody Allen.

27 de Outubro de 2019 – Catherine, the Great

É curioso vermos uma série de época centrada em páginas importantes da história da Rússia temperada com ‘british accent’. De qualquer forma, a mais recente série da HBO parece ser bastante interessante. ‘Catherine the Great’ tem os ingredientes habituais destas séries. Política, intriga, escândalo, conflitos de interesses e o facto de desenrolar-se numa região particularmente idiossincrática como a Rússia. É curioso como o país dos cossacos é, ainda hoje, uma incógnita para nós, ocidentais. Há afinidades claras com a Europa, e isso vê-se também nesta série. Mas há muitas outras coisas que desconhecemos, que nos parecem estranhas, que só parecem ser possíveis ali. Hoje, como sob o reinado de Catarina.

26 de Outubro de 2019 – Festival da Castanha

No ano passado, foi assim. Em outros anos, foi diferente. Quando se está por dentro da festa, sobra pouco tempo para desfrutarmos do que ela nos pode proporcionar. Agora, é diferente. Estar de fora, é como poder olhar para tudo de uma perspectiva nova. Hoje vai ser dia de ir à festa. Há quem diga ‘que quem vai à festa, três dias não presta’. Bem, haverá sempre a perspectiva de ressuscitar ao terceiro dia. Se festa é festa, e ninguém dorme, vamos a ela.

25 de Outubro de 2019 – Everything is (not) political

Desengane-se quem pense que quem decide tudo sobre tudo são os políticos. Não é verdade. Mesmo que queiram decidir em seu proveito, os políticos não conseguem decidir nada se não tiverem a conivência da máquina. E a máquina é toda a estrutura administrativa, burocrática, prática do sistema. Um conjunto de rostos que produzem uma entidade sem rosto, que verdadeiramente faz girar as rodas dentadas necessárias para dar corpo às decisões. Hoje, o ‘Sexta às 9’, da RTP, destapou um pouco do véu por trás das notícias do momento que envolvem gentes de Arouca em polémicas políticas nacionais. E o que fica, nas entrelinhas do que é factualmente apresentado, é isto mesmo. Os políticos podem decidir à vontade, mas é a máquina quem faz com que as coisas andem. Ao ponto de promoverem a decapitação da estrutura, porque sabem que, na realidade, a cabeça é a parte menos importante. Hoje, a máquina é que comanda a política. Desengane-se quem pense que é ao contrário. A máquina e alguns políticos que estão por dentro do funcionamento da máquina. Por isso resistem aos golpes mais mortíferos. Por isso, eventualmente, pactuam com (ou executam, ou ajudam a executar) as decapitações ou depurações da máquina. Por isso oferecem presentes envenenados, para que outros políticos pensem que podem, de facto, mudar alguma coisa. Depois, vai-se a ver, e nada. Afinal, era preciso alimentar a máquina. Alguém dizia que ‘everything is political’. Mas talvez seja mais adequada a música dos Pink Floyd: ‘welcome to the machine’.

24 de Outubro de 2019 – Trump e a obsessão pelos muros

Foto: Leah Millis / Reuters

Depois de dizer que a relação dos Estados Unidos com a Itália remonta ao tempo dos Romanos (os Estados Unidos da América só existem desde 1776), Donald Trump prometeu um ‘upgrade’ na construção do famoso muro na fronteira com o México. A obsessão pelos muros é tal que, desta vez, o presidente americano prometeu um muro magnífico, um muro grande, um muro verdadeiramente funcional, um muro que não dê para passar nem por cima nem por baixo. Um muro que estanque os fluxos migratórios e confira rigidez às fronteiras. Só que, desta vez, a promessa foi fazer um muro deste tipo no Estado do Colorado. Um estado que fica entre o Utah e o Kansas, que não faz fronteira com o México.

23 de Outubro de 2019 – O Pai Nosso de D. Tolentino

A Primavera está por toda a parte. É assim que tudo começa. Como se fosse parte de um ciclo de renovação, de renascimento, de vida. Para isso, como para tudo, é preciso escutarmos até ao fim. Escutarmo-nos, escutarmos o outro, escutarmos o silêncio. E, aí, procurar essa comunicação com o divino, com esse silêncio, com tudo o que o preenche, que pode ser o Universo todo ali. E, depois, as palavras ramificam-se. Em sentidos, em outras palavras, em ideias que já nos tinham passado pela cabeça, mas que, assim enquadradas, ganham sentido. A Primavera, como esse ciclo de vida, como a vida, como o Universo, como Deus, está por toda a parte. É só questão de darmos conta disso, e de percebermos que, com coisas simples como as palavras, ou até mesmo o silêncio, podemos fazer parte dessa mesma Primavera.

22 de Outubro de 2019 – Os autocarros de dois andares

Em miúdo, tinha um fascínio tremendo pelos autocarros de dois andares. Talvez pelo misticismo icónico dos veículos londrinos, ou pelo facto de podemos apreciar a paisagem a partir de um ponto mais alto em movimento. A idas ao Porto eram motivo de uma observação atenta da movimentação dos autocarros de dois andares, uma observação desejosa de entrar, e de viajar pela cidade, sem destino. Na realidade, nunca consegui viajar numa coisa destas. Fiquei-me pelas deslocações de ‘trólei’, aqueles outros que tinham umas anteninhas, e que travavam sempre a fundo antes das paragens, sacudindo toda a gente que ia lá dentro, como se fosse uma garrafa de iogurte líquido. Quando passei a ser mais portuense, os autocarros dos STCP já não tinham dois andares. Alguns, ainda eram laranja, da Volvo, mas a maioria já eram Mercedes, o que era, para nós, um privilégio. Andávamos de Mercedes para todo o lado. Hoje, posso ir de Mercedes para todo o lado, mas, não sei porquê, deu-me para ter saudades dos autocarros laranja. Sobretudo, os de dois andares.

21 de Outubro de 2019 – Conversa(s) da(s) Treta(s)

Às vezes, bate aquela nostalgia, quando nos lembramos de coisas boas, bem feitas, bem apresentadas (e representadas), como era a ‘Conversa da Treta’, de António Feio e José Pedro Gomes. Na realidade, era uma conversa como a de qualquer um de nós com um qualquer dos nossos (melhores) amigos. Sobre tudo e sobre nada, acertada ou enviesada, como são, muitas vezes, as conversas que temos. Porque cada um vê as coisas a partir do seu ponto de vista. A partir dos seus conceitos e preconceitos. E também a partir do seu próprio ‘nonsense’.

20 de Outubro de 2019 – Três palavras do Papa

O Papa tem o dom de conseguir economizar palavras, valorizando-as. Hoje, na sua homilia, centrou-se, muito rapidamente, mas com grande sabedoria, em três palavras, retiradas das leituras do dia: o substantivo ‘monte’; o verbo ‘subir’; o pronome ‘todos’. É interessante a relação que temos com os montes. A quantidade de pequenos templos que foram sendo construídos no cimo de montes, pela proximidade com o divino que a altitude proporciona. O cimo do monte é um local de encontro, primeiro connosco mesmos, depois com tudo o que vemos. É um local eleito pelos homens, desde sempre, para esse encontro. O monte da Galieia, o Tabor, o monte das Oliveiras ou o Sinai. Mas, como diz Francisco, para chegar ao cimo, é preciso subir. Desprendidos de bagagens ou coisas inúteis. Somos verticais, para podermos olhar para cima, e é para cima que devemos caminhar, orientar o olhar, aspirar às coisas que estão mais altas. Depois, é preciso descermos, para sermos com todos. Não somos apenas indivíduos, mas seres de encontros (e desencontros, também). Somos seres em movimento, no agir e no pensar, não apenas para alguns, mas para todos. De e para todos. Todos os povos, todas as nações, todos os homens. Também assim, em economia de palavras. Mas não de acções.

O monte leva-nos para o alto, longe de tantas coisas materiais que passam; convida-nos a redescobrir o essencial, o que permanece (…). A missão começa no monte: ali se descobre aquilo que conta. (…) Para mim, o que é que conta na vida? Quais são as altitudes para onde vou?

Para isso, porém, é preciso subir: é preciso deixar uma vida horizontal, lutar contra a força de gravidade do egoísmo, realizar um êxodo do próprio eu. Por isso, subir requer esforço, mas é a única maneira para ver tudo melhor, como o panorama mais bonito ao escalar a montanha só se vê no cimo.

[Deus] sabe que somos teimosos a repetir ‘meu’ e ‘nosso’: as minhas coisas, a nossa nação, a nossa comunidade. Ele não Se cansa de repetir ‘todos’. Todos, porque ninguém está excluído do seu coração, da sua salvação; todos, para que o nosso coração ultrapasse as alfândegas humanas, os particularismos baseados nos egoísmos que não agradam a Deus. Todos, porque cada qual é um tesouro precioso, e o sentido da vida é dar aos outros este tesouro. Eis a missão: subir ao monte para rezar por todos, e descer do monte para se doar a todos.

Papa Francisco – homilia de 20 de Outubro

19 de Outubro de 2019 – Política para perplexos

Numa altura de fortíssimas convulsões e incertezas na Catalunha, Daniel Innerarity tem sido frequentemente convidado a comentar e ajudar a enquadrar a situação actual, à luz da Política. A reflexão que tem vindo a fazer sobre a realidade política actual, da grande política, entenda-se, é muito interessante. Nunca como hoje a perplexidade foi tão comum, tão recorrente. Vivemos muito tempo baseados na estabilidade, na previsibilidade, na análise a médio prazo com francas possibilidades de acerto. Hoje, a indignação é mais fácil, a convulsão mais organizada e prática comum, a manifestação com repercussões globais. Mais facilmente distinguimos quem ganha e quem perde, quem é bom e quem é mau, quem manda e quem obedece. Ao mesmo tempo que tudo isto é claro, mais difusa e generalizada se torna a decepção com o estado a que chegou a democracia. E esta incerteza, esta decepção, projecta-se na análise (im)possível do futuro. Ao mesmo tempo, os corações vão-se esvaziando de ideias e de sonhos, de esperança e de vontade de construir, de justiça e solidariedade. Dá que pensar.

Pensemos em três assuntos de natureza muito difícil de determinar, mas que alguns manipulam sem o mínimo indício de hesitação: o povo, os especialistas e a identidade. É cada vez mais complexo identificar o que o povo realmente quer, questiona-se mais a autoridade dos especialistas e temos uma identidade, digamos assim, menos inequívoca. Mas nada disto impede que se multipliquem os apelos para que se ultrapassem os nossos debates com algum procedimento que acabe com todas as dúvidas sobre qual é a vontade popular, os especialistas impõem as suas receitas económicas com uma determinação que parece desconhecer os seus fracassos recentes e restabelece-se a divisória entre nós e eles com uma clareza meridiana. (…)

Hoje em dia, entender o que se passa é uma tarefa mais revolucionária do que agitarmo-nos improdutivamente, equivocarmo-nos na crítica ou termos expectativas pouco razoáveis. A política não pode continuar a ser aquilo que Grouxo Marx afirmava: a arte de fazer um diagnóstico incorrecto e depois aplicar os remédios errados. Uma nova cultura política devia começar por desmontar as más análises, desmascarando aqueles que prometem o que não podem proporcionar, protegendo-nos tanto daqueles que não sabem nada como daqueles para quem tudo é claro. Nunca o conhecimento, a reflexão, a orientação e o critério foram mais libertadores.

Daniel Innerarity – ‘Política para perplexos’