16 de Fevereiro de 2009 – Ópera na internet

classical-tvDepois de um dia carregado de palavras (escritas, ditas, usadas, alteradas, ouvidas), a única coisa que me apetecia era chegar a casa, acender a luz, e ter um imenso palco com a Anna Netrebko a cantar só para mim. Antes, estes pequenos milagres só poderiam acontecer se eu tivesse um DVD, ou suporte semelhante, que colocaria interminavelmente a funcionar, até adormecer. Agora, há uma alternativa interessante: o Classical TV. Trata-se de um «canal de televisão pela internet», que funcionará (pelo menos parcialmente) em regime de «pay-per-view» (pagar para ver), mas que está ainda em fase de experiências. O objectivo é ter disponíveis bailados, óperas, peças de teatro, concertos, etc. Estão já asseguradas as colaborações do «Bolshoi» e do «Marinsky», da «Oper Zürich», da «Paris Opéra» e da «Metropolitan Opera» de Nova Iorque.

Neste momento é possível ver, sem custos, «La Bohème», de Puccini, pela English National Opera. É uma óptima solução para varrer da mente todas as palavras de um dia. Pena que esta versão é em inglês, retirando algum do brilho que o «bel canto» italiano confere à ópera, que, quando não tem esse sabor a Mediterrâneo, não nos satisfaz totalmente. Valha-nos a recompensa de podermos também ver um documentário do «backstage» e de podermos ficar a saber mais sobre esta ópera e o seu compositor. Um «site» a ter em conta.

Já agora, para se perceber o porquê da referência a Anna Netrebko, para além da magnífica voz, fica o «site» pessoal da cantora.

15 de Fevereiro de 2009 – As novas lepras

lepraDo Livro do Levítico (Lev 13,1-2.44-46)

O Senhor falou a Moisés e a Aarão, dizendo: «Quando um homem tiver na sua pele algum tumor, impigem ou mancha esbranquiçada, que possa transformar-se em chaga de lepra, devem levá-lo ao sacerdote Aarão ou a algum dos sacerdotes, seus filhos.

O leproso com a doença declarada usará vestuário andrajoso e o cabelo em desalinho, cobrirá o rosto até ao bigode e gritará: ‘Impuro, impuro!’. Todo o tempo que lhe durar a lepra, deve considerar-se impuro e, sendo impuro, deverá morar à parte, fora do acampamento».

 Hoje, as lepras são outras. Muitas delas, instaladas no nosso próprio olhar, fazendo-nos esquecer que quando apontamos um dedo a alguém temos três a apontar para nós. Que não somos exemplo. Que nos refugiamos na crítica vazia. Que não agimos construtivamente. Quantos «leprosos» encontramos no dia-a-dia? Quantos ajudamos? Quantos de nós o somos, até? Quantos de nós não deveríamos gritar: «Impuro, impuro»? Quantos de nós iríamos receber ajuda, então?

14 de Fevereiro de 2009 – O dia dos «sem namorada»

s-valentimEstou a pensar seriamente em propor a oficialização de uma «contra-corrente» ao dia dos namorados: o dia dos «sem namorada». O objectivo é, por um lado, manifestar uma enorme inveja pelos que, neste dia, podem passear as suas belíssimas namoradas, devidamente apetrechadas e altamente apresentáveis, fazendo inveja aos amigos e inimigos; e, por outro, repudiar veementemente os que passam os restantes 364 dias do ano sem «passar cartão» à sua cara-metade, guardando todo o amor para o dia em que, efectivamente e com propriedade, têm de ser namorados. O manifesto incluirá, ainda, uma forte reprovação aos que são casados e, por esse facto, deixaram de namorar.

A «solidão» tem destas coisas, que se manifestam mais acentuadamente nestes dias «especiais». Entretanto, a «Microsoft» apresentou um estudo com uns números substancialmente curiosos. Versa sobre a internet como espaço de partilha e comunicação do amor. Segundo os números deste estudo, 65% dos portugueses preferem utilizar os programas de conversação virtual do que o contacto presencial. Pelo menos 41% dos portugueses admite já ter feito pelo menos uma declaração de amor através da internet, e cerca de 50% dos nossos compatriotas admite que tem «flirts» virtuais. No mundo, 67 milhões de pessoas admitem ter encontrado o amor na internet, estando o número de relações que resultaram em casamento nos 5 milhões e as relações de longa duração em 19 milhões.

Como se já não bastasse o facto de não ter namorada, agora estes números e, por fim, um «post» exageradamente carregado de advérbios de modo. Alguém me arranja uma psicóloga, uma psiquiatra…?

13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-feira 13

sexta-13Hoje, supostamente, é dia de azar. Pelo andar da coisa, não deve, portanto, ser um dia muito diferente dos outros. Pelo menos para mim. Da forma que as coisas têm andado, quase toda a gente pode dizer que mais azar do que o que tem tido será praticamente impossível. Em 2009, contas feitas, vamos ter mais duas sextas-feiras 13: uma em Março e outra em Novembro. É dose.

Há vários mitos, rituais e superstições em torno das sextas-feiras 13. Uma das explicações tem a ver com a extinção dos Templários, que se deu a 13 de Outubro de 1307 (sexta-feira). Outra, com o facto de Jesus Cristo ter sido crucificado a uma sexta-feira, depois de ter estado à mesa com 13 apóstolos, contrariando o 12, que é o número da plenitude. Acabou por ser traído, curiosamente, pelo 13.º elemento a chegar à mesa. Outra explicação, ainda, tem a ver com o facto de ser o dia em que, alegadamente, a deusa da fertilidade e do amor, Frigga, na mitologia nórdica, se reunia com as restantes bruxas e criaturas diabólicas.

Eu não acredito em bruxas, mas… se porventura virem alguma que valha a pena, dêem-lhe o meu contacto.

12 de Fevereiro de 2009 – A Eutanásia

eutanasiaPerturbou-me a ideia de se voltar a trazer ao debate a eutanásia. E perturbou-me, porque parece que há outros problemas que merecem prioridade. Talvez a eutanásia seja importante depois de se resolverem os cerca de 20 mil casos de violência doméstica, depois de se resolverem as dificuldades que imensas famílias têm em conseguir o que comer no dia seguinte, depois de se resolverem as dificuldades que muitos portugueses têm em encontrar trabalho digno com salário digno. Aí sim, talvez possamos falar sobre eutanásia com outra propriedade.

Normalmente, estes debates surgem a partir de uma generalização de um caso concreto, com incidências e particularidades muito específicas das circunstâncias e envolventes que tem. Assim foi com Eluana, e logo os fervorosos do costume se apressaram a agitar uma bandeira completamente desproporcionada e descontextualizada, demagógica, até. Para cada história de «desistência» perante as «intermitências da morte», há várias de luta, de esperança, de exemplo, de dignidade, de confronto com cada situação que a morte e a vida vão colocando, passo a passo. E isso, quando 99% dos portugueses desconfia dos políticos, não pode ser nenhum decreto, feito levianamente, por quem está cada vez mais afastado de quem representa, a ditar.

11 de Fevereiro de 2009 – Enquanto lemos, o cérebro imita

leituraUm estudo recente conclui que, enquanto lemos, não estamos a desenvolver uma actividade que, à partida, poderia parecer monótona e passiva. O que este estudo nos diz, é que, enquanto lemos, o nosso cérebro está a criar uma imagem de cada novo quadro que nos está a surgir. Cada estímulo aos sentidos, cada sugestão de movimento, som ou sabor estimula precisamente as mesmas partes do cérebro que são estimuladas quando verdadeiramente o fazemos.

A leitura é um pouco como os afectos. Aparece-nos, entra-nos pelos olhos, pelas mãos, pelos sentidos dentro sem pedir licença. Umas vezes, insistimos, e não entramos. Outras, viciamo-nos. Outras, ainda, reencontramos antigas «separações», e reconciliamo-nos rapidamente. É uma espécie de um percurso paralelo, que nos leva tão longe que nem sequer desconfiamos que, cada vez mais, nos aproxima de nós mesmos.

10 de Fevereiro de 2009 – Sócrates sabe quem é rico

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«Nós sabemos quem é rico e quem não é rico. O que me dá impressão é que aqueles que não querem fazer nada arranjam sempre boas desculpas para não se fazer nada».

O Primeiro-Ministro afirmou, com todas as letras, sílabas e palavras, que sabe perfeitamente quem é rico. E isso é bom. Qual Robin dos Bosques, promete tirar aos ricos para dar aos pobres, de episódio em episódio, até à eleição final. «A questão essencial», como diria Pacheco Pereira, não está nesta afirmação. «A questão essencial» é que só agora é que «sabemos quem é rico e quem não é rico», num acto de uma certa hipocrisia e populismo disfarçado, ao mesmo tempo que outros arautos voltam a anunciar uma tentativa de assassinato público.

A tão badalada série sobre Salazar ilustra bem isto. «Umas espécies de políticos» cuja «capa» pública marca claramente a separação entre opostos. As semelhanças são cada vez mais acentuadas, sejam cultivadas ou nem por isso. Será que estamos mesmo «entregues à bicharada»?

9 de Fevereiro de 2009 – O ponto sem retorno do PSD

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«Estou preocupado, o que está a puxar o PSD para baixo é a imagem da líder e não vale a pena negar a evidência».

O Professor Marcelo preocupou-se, reflectiu e chegou à conclusão de que o PSD está perto de «um ponto sem retorno», em que «deixa de concorrer para ganhar e passa a concorrer como o PP, o PCP e o BE, para tirar a maioria ao PS e perder por poucos». A culpa não é, segundo o Professor, de Manuela Ferreira Leite, mas da sua imagem, (mal) moldada pelos seus conselheiros, que se tem vindo a degradar «brutalmente».

O Professor Marcelo acertou em cheio no diagnóstico. «Isto» não é o PSD, e isso está a evidenciar-se praticamente a todos os níveis. Eventualmente, o principal problema do PSD é o facto de os seus militantes (todos, qualquer um deles) pensarem que podem ser «o» PSD, mais do que «do» PSD. «Isto» de um certo pedantismo diletante dos tais «conselheiros», não é o PSD. O PSD é o partido que sempre se preocupou com o crescimento de Portugal, que não hesitou em colocar-se ao serviço dos portugueses, construindo Portugal ao lado de quem trabalhava no terreno para isso, que arregaçou as mangas e mobilizou os que queriam ajudar nessa construção. O PSD é, e deve ser, o partido que serve, e não o que se serve. É, e deve ser, o partido que luta por um Portugal mais justo e melhor.

O que me preocupa, não é tanto o diagnóstico do Professor Marcelo. Até aí, ele foi correcto. O que me preocupa é o facto de um militante com as responsabilidades do Professor Marcelo se limitar a fazer o diagnóstico, quando o mais interessante e importante seria sugerir soluções.

8 de Fevereiro de 2009 – A Escola de Sagres não existiu

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O que a História tem de assustador são coisas como esta. De repente, alguém nega algo, reformula algo, acrescenta ou retira algo. A História é, muitas vezes, construída com base nos mitos de cada nação, uma forma de «enformar» o povo, de o exaltar, de recriar esses mitos, de produzir ideologia, sobretudo quando os factos são mais recentes. O tema não é novo, mas Fábio Pestana Ramos, historiador brasileiro, troxe-o, de novo, para a discussão. Segundo o estudioso, não há suportes documentais que sustentem a existência de qualquer escola em Sagres. Mais, tratar-se-á de um mito, uma «construção romântica» da identidade portuguesa. A única referência a qualquer coisa semelhante com edifícios naquela zona, seriam de um pirata inglês, e vindo desta gente deve ser de desconfiar.

Pelo meio da tese deste estudioso brasileiro, há algumas ideias interessantes, como a de que o Brasil não era propriamente um paraíso, antes um desterro. Há também relatos de como se vivia a bordo dos navios portugueses, de como se processava o «choque de civilizações», e até mesmo a tese de que o Brasil não terá sido descoberto por Cabral, mas por Bartolomeu Dias ou outro navegador.

O debate foi lançado por uma peça da Lusa que o jornal «Público» tem disponível online. O meu maior receio é que as investigações prossigam até um ponto de se chegar à conclusão de que Portugal não existe.

7 de Fevereiro de 2009 – Paciência de Job

paciênciaJob é o exemplo de como se pode passar do 80 ao 8. De como é fácil, num sopro, perdermos tudo, perdermo-nos, ser-nos tirado o que nos foi dado. De como às vezes parece que Deus se esquece do mundo. Job personifica a dificuldade que temos em lidar com o que de mau nos aparece. De como nos é fácil dizer que quando alcançamos o bem, o alcançamos sozinhos, e de como quando o perdemos, pensamos que o perdemos por causa de Deus. A paciência, por outro lado, é o saber esperar pelo que de bom há-de vir. O saber que o mal não é eterno, mas parte do processo. Job passou do 80 ao 8 e ao 80 novamente. É por isso que dizemos que é preciso «ter paciência de Job». Porque, mais tarde ou mais cedo, algo de bom acontece. Porque não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe. Porque «a vida não passa de um sopro».

Job tomou a palavra, dizendo:
«Não vive o homem sobre a terra como um soldado?
Não são os seus dias como os de um mercenário?
Como o escravo que suspira pela sombra
e o trabalhador que espera pelo seu salário,
assim eu recebi em herança meses de desilusão
e couberam-me em sorte noites de amargura.
Se me deito, digo: ‘Quando é que me levanto?’
Se me levanto: ‘Quando chegará a noite?’
e agito-me angustiado até ao crepúsculo.
Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear
e desvanecem-se sem esperança.
Recordai-Vos que a minha vida não passa de um sopro
e que os meus olhos nunca mais verão a felicidade».