6 de Fevereiro de 2009 – Para quando o Auditório?

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Anadia volta a ter cineteatro dez anos depois

Público: 05.02.2009, Maria José Santana

Após dez anos em que esteve privada de um espaço onde pudesse ver teatro, cinema ou assistir a um concerto, a população de Anadia volta hoje a contar com um cineteatro. O equipamento conta agora com um auditório com 270 lugares, cafetaria e foyer e resulta de um investimento de 2,1 milhões de euros, comparticipado, a 60 por cento, por fundos comunitários.
O cineteatro, que será inaugurado pelo Presidente da República, Cavaco Silva, pelas 21h30, vem preencher uma “lacuna” sentida após o encerramento do antigo Cineteatro S. Jorge. “Durante décadas, a população do concelho acorreu a esta sala para assistir a um bom cinema ou espectáculo, mas a degradação do edifício acabou por ditar o seu encerramento”, recordou Litério Marques, presidente da câmara municipal. Após o fecho, a autarquia ainda ponderou recuperar o edifício. Contudo, o Ministério da Cultura “reprovou a ideia, uma vez que não havia condições de adaptar a velha sala de espectáculos às novas normas de funcionalidade”, recordou Litério Marques.

Com a alteração de planos, acrescenta o autarca, Anadia recebe “uma sala multifuncional, moderna e de qualidade”, “com excelentes condições para acolher tanto as realizações do tecido associativo local, como grandes espectáculos nacionais e exibições regulares de cinema”, sublinha. O equipamento ocupa 2180 metros quadrados e dispõe de parque de estacionamento.

Pedrógão Grande: QREN financia sala de espectáculos

Público: 05.02.2009

A Câmara Municipal de Pedrógão Grande, no Norte do distrito de Leiria, vai construir a primeira sala de espectáculos do concelho, uma obra só possível com o financiamento do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN). “É uma obra de que o concelho precisa urgentemente, mas que, sem o apoio do QREN, se tornava impossível”, admitiu ontem à agência Lusa o presidente da autarquia, João Marques (PSD). A obra, denominada Casa da Cultura/Cine-Teatro, no valor de 1,2 milhões de euros, tem uma comparticipação de 50 por cento de fundos comunitários.

Ambas as notícias foram publicadas no jornal Público de ontem. O desafio é pensarmos o que é que estes municípios têm que nós não temos.

5 de Fevereiro de 2009 – Santos Silva prefere «malhar»

santos-silva«Eu cá gosto é de malhar na direita, e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam, de facto, à direita do PS. São das forças mais conservadoras e reaccionárias que eu conheci na minha vida, e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chique. Refiro-me, obviamente, ao PCP e ao Bloco de Esquerda».

Entre outras «pérolas», esta foi uma das preciosidades com que o Ministro Augusto Santos Silva brindou os militantes do PS, numa reunião que decorreu ontem, no Largo do Rato, com o objectivo de discutir as várias moções de estratégia para o próximo congresso. Instado por um dos históricos socialistas, Edmundo Pedro, a alargar o debate à situação interna do partido, o Ministro respondeu que era «provavelmente a última pessoa interessada em discutir, numa sessão de debate entre moções, aberta, as questões de governança interna e de pequena ou micro escala de um partido político».

Augusto Santos Silva é sociólogo, com escritos muito interessantes sobre Cultura e Cidades, e confesso que até nutria um certo respeito pela personalidade. Contudo, os tiques «controleiros» e estas tiradas absolutamente despropositadas (e até rudes) têm esboroado por completo a imagem do sociólogo e teórico da Cultura. Eu cá também estou farto deste tipo de socialismo, com tiques totalitários, prepotentes, «controleiros» e manipuladores, de debates vazios e sem respostas a nada nem a ninguém. «Malhar» é um verbo demasiado plebeu para um erudito da estirpe de Santos Silva. Não lhe fica nada bem. Até porque o povo português pode estar a preparar-se para «malhar» neste tipo de socialismo e neste tipo de Governo, que, de certeza, não é o que quer para um Portugal «de jeito».

4 de Fevereiro de 2009 – A Guerra Colonial na internet

guerra-colonialTrinta e cinco anos depois, faz-se nova luz sobre a Guerra Colonial. Para nós, é relativamente fácil falarmos destas coisas, que não nos disseram nem dizem muito «na carne». A Guerra Colonial foi uma verdadeira sangria do país, privando muitos jovens de uma vida, conduzindo-os, lenta e sarcasticamente, à morte, ou marcando-os, como um ferro quente, de uma forma definitiva. Foi também motivo para que muitos ficassem sem nada a não ser a si mesmos, aos seus e às roupas que traziam vestidas, regressando à metrópole com o epíteto de «retornados», olhados com desconfiança, forçados a começar tudo novamente. Foi tudo isto e muito mais. Mas porque existiu, foi feita de coisas, pessoas e situações concretas, que se passaram, que existiram, e porque 35 anos é tempo suficiente para se olhar o passado com alguma objectividade, há agora um novo olhar sobre ela.

A RTP, sob a orientação de Joaquim Furtado, mergulhou neste tema, realizando vários documentários sobre a guerra. Agora, essa e muito mais informação chega à internet. Neste espaço, pode encontrar vídeos, textos, imagens, cronologias, e muito mais. Praticamente tudo o que precisamos de saber sobre a Guerra Colonial. Porque a memória é, provavelmente, a única coisa que não conseguimos apagar com facilidade.

3 de Fevereiro de 2009 – No futuro, devo ficar mais ou menos com este aspecto

old-manO «Face of the future» é um projecto da Universidade de Andrews (Escócia), agora disponível na internet. Aqui, poderá, com base numa fotografia sua, estimar o aspecto com que ficará quando for mais velho (daí o nome do projecto). Mas não só. Com base na mesma fotografia, pode «transformar-se» em membro de outra etnia, retocar o seu retrato, como se o tivesse encomendado a El Greco ou a Botticelli. Enfim, uma série de potencialidades. Eu fiz a experiência, e o resultado está aí. Mas o melhor é mesmo descobrir por si mesmo. Os resultados são, no mínimo, engraçados.

O que me intrigou não foi tanto o aspecto exterior. Imediatamente fui buscar referências e parecenças à «árvore ginealógica». De imediato me lembrei de como alguns dos romances de Vergílio Ferreira fazem constante referência ao envelhecimento do corpo, à velhice e de como nem sempre o corpo e o seu interior envelhecem ao mesmo tempo. À medida que o corpo se curva, vai-se encontrando com a terra, o destino final. Mas como será ter uma mente sã num corpo que já não lhe responde. Quando não se conseguir exteriorizar nada. A grande questão será: como e o que é que eu vou sentir, pensar, dizer, que expressões vou ter quando tiver este aspecto?

2 de Fevereiro de 2009 – Parabéns, Professor

mario-claudioHoje, por volta das 18 horas, o Presidente da República entregou ao escritor Mário Cláudio o Prémio Literário Fernando Namora. Há alguns anos atrás, Mário Cláudio foi o responsável por incutir num grupo de «universitários» algumas noções de Cultura Portuguesa. As suas aulas eram um misto de desafio à personalidade, de erudição e de confronto com a nossa quase miserável situação. Desse tempo, ficou uma amizade, que (infelizmente apenas) a espaços temos alimentado, com fantásticas conversas sobre música, literatura, a sociedade.

Os livros entram-nos pelos olhos dentro, normalmente, por acaso. Houve dois acasos de que me lembro com alguma ternura: «Guilhermina» e «O Anel de Basalto e Outras Narrativas». Às vezes, é difícil acompanhar o autor, tal a filigrana de palavras que hábil e sabiamente compõe. Mas vale a pena. Porque há ali uma outra dimensão do mundo, porque volta a lembrar-me da nossa situação de (quase) miseráveis «cultos».

O homem cujo nome se confunde já com o pseudónimo, diz que os prémios apenas o incentivam a continuar. Afirmou categoriacamente que não reconhece qualquer significado ao (des)acordo ortográfico. E diz que parecemos espectadores numa espécie de circo romano diário, assistindo às «lutas» políticas. Depois do Prémio Pessoa e de vários prémios que foram reconhecendo o seu trabalho, orgulho-me de ter como amigo uma personalidade assim. Do fundo da minha situação de «(quase) miserabilidade» cultural: parabéns, Professor.

1 de Fevereiro de 2009 – «Ler devia ser proibido»

Hoje o dia provou-se-me particularmente difícil de caracterizar. Lá fora chove, e a temperatura tende a descer. O cansaço e a lassidão não hesitam em apoderar-se de cada músculo, sem pedir licença. Tenho uma vontade imensa de não fazer rigorosamente nada (o que, em si, pode ser considerado «fazer algo», sendo o «algo» o «nada»). Por outro lado, apetecia-me ter vontade de fazer música, de estudar, de escrever alguma coisa de jeito. De ler. Sim, de ler. E é nessa altura que me vem à memória um texto ouvido na Antena 2 ontem, escrito por Guiomar de Grammon, para uma campanha de incentivo à leitura no Brasil. O título pode parecer um paradoxo, mas vai ver que faz sentido. Leia, por favor, apesar da proibição. Entretanto, regresso à lassidão…

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Ler devia ser proibido (por Guiomar de Grammon)

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.

Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

31 de Janeiro de 2009 – O(s) mapa(s) da(s) guerra(s)

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O sítio «Maps of War» revelou-se uma interessantíssima surpresa. Tendo por base a geografia mundial, pode ficar a conhecer, com o pormenor necessário, a história do terrorismo, a evolução dos vários sistemas de poder, as evoluções das guerras mundiais, etc., etc., etc. O que é entusiasmante é que não só pode ver tudo isto com recurso a animações em «flash» muito bem construídas, como pode fazer o «download» destas aplicações, para lhes dar o fim que muito bem entender. O «Maps of War» tem também fantásticas ligações a outros «sites», com qualidade idêntica e com explicações… bem, o melhor é mesmo explorar. E, se quiser, pode também contribuir para o crescimento deste espaço. Geopolítica, história, globalização. Aceda, e aculture-se.

30 de Janeiro de 2009 – O consumo cultural dos portugueses

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Foi publicado recentemente um estudo do Instituto Nacional de Estatística que dá conta da vida cultural dos portugueses. Os resultados não andam muito longe daquilo que nos parece, sem grandes análises. Basicamente, no decurso de um ano, cada português visitou um museu e viu um espectáculo ao vivo, o cinema americano (como seria de se esperar) continua a ser o «mainstream», a música ligeira é o sector que gera mais lucro e Lisboa continua a concentrar o grosso das actividades culturais. Curioso foi, ainda, verificar que a tauromaquia faz mexer mais dinheiro do que a ópera e a música erudita juntas. O estudo tem por referência o ano de 2007, mas parece-me que não andaremos muito longe das cifras actuais.

Vamos a números (de 2007). Os museus portugueses tiveram 9,9 milhões de visitantes. Os espectáculos ao vivo, 9,8 milhões. Houve 27 650 espectáculos ao vivo, 12 012 apresentações de teatro (com cerca de 2 milhões de espectadores), 5660 concertos de música ligeira (com 6 milhões de espectadores) e 2261 concertos de música erudita (cerca de 600 mil espectadores). Houve 190 espectáculos tauromáquicos (300 mil espectadores) e 184 récitas de ópera.

A música ligeira rendeu cerca de 30 milhões de euros. O teatro gerou 10,5 milhões. A tauromaquia movimentou mais de 5 milhões de euros. A música erudita gerou 3,15 milhões. A ópera, 2,25 milhões. A dança moderna terá movimentado pouco mais de 1 milhão de euros.

Em termos da dispersão regional dos espectáculos, a tendência «concentradora» de Lisboa é óbvia: 11 460 espectáculos, tantas como as que ocorreram nas regiões  Norte e Centro em conjunto. Em termos médios, em Lisboa houve um espectáculo para cada 233 habitantes, ao passo que no Norte a média foi de 1 para 657. Cerca de 40% oferta cultural nacional está em Lisboa, bem como cerca de 70% das receitas.

Em linhas gerais, é este o retrato da nossa vida cultural. A mim, faz-me pensar no papel que as autarquias devem ter para colmatarem estas lacunas. E fico sem saber muito bem como, quando o PSD diz que um espaço cultural não é importante para Arouca.

29 de Janeiro de 2009 – O Primeiro-Ministro e a comunicação social

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José Sócrates preferiu falar em «fugas de informação» e da orquestração de uma «campanha negra» baseada em várias coisas, incluindo a «insídia» (de notar que insídia também pode significar traição), do que numa certa ligeireza na forma como as autoridades policiais inglesas estão a tratar o chamado «caso Freeport». De facto, é sempre mais fácil «bater» em quem é menos forte, e, neste caso, Sócrates «deu forte» na comunicação social. Tratando-se de um Primeiro-Ministro de um país, ainda que o país em causa seja Portugal, não parece que a Polícia inglesa tenha conduzido as investigações da forma que o caso e as personalidades em causa mereceriam. Contudo, José Sócrates disse, e bem, que todos os cidadãos devem estar ao dispor da Justiça, e ele ainda mais, por desempenhar funções da mais alta responsabilidade.

O que fica no ar, depois de mais esta declaração, é que, para o Primeiro-Ministro, a comunicação social está a dar ênfase a uma onda de calúnia que o visa, pessoal e políticamente. Não será tanto assim. Há factos, há documentos que o visam, e a isso não se pode escapar. Se há uma carta rogatória, em que a Polícia inglesa solicita a colaboração da Procuradoria Geral da República, de acordo com a Lei e dentro dos acordos vigentes, e se esse documento foi tornado público, então a comunicação social não fez mais do que o seu dever.

É curiosa esta trica, sobretudo vinda de um político extremamente preocupado com a comunicação. Esta declaração ao País, aliás como praticamente toda a comunicação política, partidária e/ou pública de Sócrates, foi aparentemente planeada ao detalhe. Os jornalistas foram previamente avisados de que deveria haver silêncio quando o Primeiro-Ministro entrasse na sala, evitando assim perdas de ritmo causadas pelas introduções dos jornalistas nos seus directos. Foram também alertados de que haveria lugar apenas a três perguntas (uma para cada estação televisiva). Depois, acabou por deixar espaço para mais duas questões, às quais respondeu lateralmente, ou seja, «deu o corpo às balas», numa atitude corajosa, mas não avisou que tinha um colete blindado.

O Primeiro-Ministro José Sócrates apareceu sozinho, num espaço amplo, com as câmaras colocadas a uma distância que o deixavam isolado, centrando em si, claramente, todas as atenções. Este homem, solitário, austero, obstinado pelo «bem da nação», do qual se conhece muito pouco do dia-a-dia da vida privada, faz-me lembrar alguém com características semelhantes. Será mesmo disto que a gente precisa?