A Fundação Calouste Gulbenkian é uma das instituições de referência da cultura portuguesa, tanto em Portugal como no estrangeiro. Sempre «na crista da onda» das manifestações culturais, tem também importantíssimos acervos, um dos quais é o seu arquivo fotográfico. Esse espólio está agora disponível numa galeria do «Flickr». São cerca de 3000 (três mil) fotografias, raríssimas, que até há bem pouco estavam conservadas num arquivo a uma temperatura ambiente de 5ºC. Agora, estão à nossa disposição na internet, tendo este catálogo já ultrapassado largamente os 200 mil visitantes. Destaca-se, de entre as imensas imagens, a galeria dedicada ao Mosteiro de Arouca. São 42 fotografias belíssimas, da autoria de Robert Chester Smith, que fotografou em Arouca entre 1962 e 1964. Vale a pena (re)ver o que de fantástico o nosso Mosteiro tem.
25 de Fevereiro de 2009 – A tecnologia está a fazer os nossos cérebros preguiçarem
Diz o «Jornal de Notícias» de hoje que os nossos cérebros estão a ficar preguiçosos. Descanse, não se trata de nenhum desafio ou quase insulto. Aliás, o que o texto diz, mais especificamente, é que a tecnologia, mais concretamente os vários «gadgets» que vão estando ao nosso dispor, tornam o nosso cérebro cada vez mais preguiçosos. Os «PDA’s» e os telemóveis dispensam-nos de memorizarmos notas e contactos, os «GPS’s» dispensam-nos de termos pontos de referência e sentido de orientação, as calculadoras (e agora o famoso «Magalhães») substituem o cálculo manual e o raciocínio que lhe é inerente. Em suma, como refere o texto, o nosso cérebro funciona como um músculo, que precisa de ser exercitado. Caso contrário, corremos o risco de estarmos a contribuir para um atrofiamento dos cérebros que estão para vir. Bonito, hem?
24 de Fevereiro de 2009 – Quando tudo anda devagar, como se quer
Hoje é um daqueles dias em que tudo anda devagar, como se quer. Depois da intensa folia, abre-se os olhos devagar, e quase que choca a forma como, apesar de devagar, voltamos a acordar para o mundo. Desrespeitamos os horários das refeições, e descansamos, enquanto a folia toma conta de outros mascarados. Hoje é um dia de perfeito ócio.
Anda tudo tão devagar, que até o «Gmail» sofreu um «apagão», entre as 9:30 e as 13:45, deixando mais de 100 milhões de internautas à beira de um ataque de nervos. A empresa já se desculpou, mas o que é facto é que, durante este período, os utilizadores apenas receberam uma única mensagem: «O servidor encontra-se com problemas e não pode efectuar o seu pedido. Por favor, tente outra vez nos próximos 30 segundos». Só que isto não durou 30 segundos, mas quatro horas. A alternativa foi dar aso à indignação no «Twitter».
A boa notícia de hoje, é que Woody Allen continua activo, e bem activo. «Whatever works» é o título do próximo filme do realizador, a ser conhecido pelo público no próximo Verão, ao mesmo tempo que entrará em rodagem o seu filme seguinte. E aqui reside a «boa notícia da boa notícia»: esse filme vai ter como protagonistas as belíssimas Naomi Watts e Freida Pinto (que se estreou com o grande «Slumdog Millionaire»). Para além das duas beldades, estão também confirmadas as participações de Josh Brolin e Anthony Hopkins.
Agora, é a altura em que bocejamos, ociosamente, como convém, espreguiçamo-nos, e esperamos pelos desfechos dos «combates» da Liga dos Campeões.
23 de Fevereiro de 2009 – Contra o desperdício de alimentos
Há alguns dias escrevi sobre a eficiência alimentar, e de como desperdiçamos desmesuradamente os nossos recursos alimentares. Hoje, enquanto praticava as habituais navegações, encontrei um «site» que vale a pena conhecer melhor. Chama-se «Love food; Hate waste», qualquer coisa como «Ame a comida; odeie o desperdício». Aí poderá encontrar dicas para poder cozinhar na proporção correcta, sobre como poupar nos alimentos, conhecer receitas, perceber melhor os números do desperdício e, «last but not least», dar o seu «feedback», que, aliás, é pedido com alguma insistência. Bom apetite.
22 de Fevereiro de 2009 – O problema genético do PSD
Pedro Passos Coelho, em entrevista à revista «Pública», afirmou que o PSD se está a afastar daquilo que deveria ser a sua genética, enquanto Partido. Mudou demasiadas vezes de líder, mas continuou sem um rumo que pudesse configurar-se como alternativa. Continuou e continua a viver das ascensões e quedas de personalidades, fruto da conjuntura e das vagas de apoio. Continuou e continua a ser demasiado democrático e pluralista, dando a palavra a todos, sem construir uma alternativa sólida e fundamentada. Continuou e continua a falar demasiado, sem se afirmar com argumentos indestrutíveis. Continuou e continua, muitas vezes, a fazer oposição por oposição, sem dizer de que forma faria melhor. Continuou e continua a discutir muito e a executar pouco. Continuou e continua a ser território dos ditos «barões», que mais não fazem do que fomentar o «jogo» político. A entrevista não diz isto tudo, mas faz pensar nisto tudo. Há um parágrafo que me ficou na memória, e que diz muito do que pode e deve ser lido na revista «Pública» de hoje:
«O facto de não fazermos a reflexão estratégica que é preciso fazer, de nos atermos demasiado ao formalismo e não à substância das decisões políticas, de nos fecharmos sobre nós próprios em vez de nos abrirmos à sociedade civil e conversar com as pessas, o facto de não marcarmos o nosso território ideológico, com medo de que o eleitorado central se assuste e nos torne mais difícil o regresso ao poder, o facto de menosprezarmos as ideias políticas e nos tornarmos oportunistas no comportamento que exibimos perante o eleitorado. Tudo isto se foi acumulando ao longo dos anos».
21 de Fevereiro de 2009 – O Carnaval de Veneza
Um pouco por toda a parte, já cheira a Carnaval. A época em que, como dizia Vergílio Ferreira, as pessoas não se mascaram, mas se desmascaram. O Carnaval é uma festa engraçada, sobretudo porque só dura um dia, ou, entre nós e na maioria dos casos, apenas umas horas. Pelos olhos adentro, via praticamente todas as televisões, entra-nos a exuberância frenética do Carnaval do Rio, pleno de batuque, samba e corpos nus e oleados. Mas quem já teve oportunidade de passar por Veneza, no Carnaval ou não, é literalmente «tomado de assalto» por um outro universo. Um universo sentimental, histórico, de memória e beleza, de tranquilidade e nobreza, de sonho e de sobriedade. Veneza é uma cidade absolutamente única, onde se respira história a cada passo, e onde a nobreza e mitologia da máscara estão omnipresentes.
Para acompanhar e divulgar, passo a passo, a evolução das festividades, a cidade tem um espaço na internet, onde podemos acompanhar, dia a dia, o que se passa. O «site» não é propriamente uma beleza, mas é minimamente suficiente para lhe despertar o apetite. Não por uma inundação de som, luz e cor, não por uma sensualidade imediata, não por um ritmo avassalador. Mas pela calmaria, pela poesia, pelo sonho, pelas memórias, pelo passado histórico, por um espaço ecléctico, cheio de uma outra luz, de uma outra cor, de uma outra beleza e de uma outra sensualidade.
20 de Fevereiro de 2009 – Eficiência alimentar
A edição de hoje do jornal «Público» dedica uma página a um assunto que, de certeza absoluta, se vai tornar um dos pontos principais na ordem do dia, um destes dias. O título é suficientemente forte para confirmar este ponto de vista: «Metade da comida que se produz é desperdiçada».
Segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente, produz-se o suficiente para alimentar toda a população mundial, mas há demasiadas perdas (cerca de 50%) em todo o processo de produção e distribuição. Por volta de 2050, prevê-se que existam mais 2700 milhões de seres no mundo, o que nos obrigaria a aumentar a produção actual em 50%, precisamente os 50% que estamos, neste preciso momento, a perder ou desperdiçar.
As causas são várias, desde as guerras e conflitos, à dificuldade de acesso aos mercados, o que faz com que 1/4 (um quarto) dos produtos vegetais, nos Estados Unidos, apodreçam no circuito de distribuição; ou com que metade dos resíduos colocados nos aterros da Austrália sejam detritos alimentares; ou com que, na Inglaterra, não se coma 1/3 (um terço) do que se compra.
A juntar a este cenário, o preço dos bens alimentares deverá aumentar entre 30 e 50%, o que fará com que os que vivem em situação de pobreza extrema gastem praticamente todos os seus recursos em alimentação, não sendo, mesmo assim, suficiente. Outra condicionante prende-se com a produção de cereais. Prevê-se que 50% da produção seja necessária para o fabrico de rações animais.
Sendo assim, o ideal será que, ao mesmo tempo que pensamos em eficiência energética, comecemos a pensar em eficiência alimentar. Caso contrário, uma boa parte da população mundial não poderá sequer sobreviver para consumir qualquer quantidade, por mais ínfima que seja, de energia.
19 de Fevereiro de 2009 – «I Love my Job»
Antes, ainda havia a brincadeira de se discutir sobre a validade do termo «emprego» para designar «trabalho». Mas, neste momento, isso já faz pouco sentido. Neste momento, o mais importante é ter-se e manter-se aquilo que constitui a nossa fonte de rendimento. É por isso que a fotografia de Rick Wilking (da Agência Reuters) suscitou interesse. Mesmo que não se goste muito dele, há alturas em que somos mesmo obrigados a reconhecer que gostamos do nosso emprego. Porque há muita gente que não pode sequer gostar.
18 de Fevereiro de 2009 – A linguagem das imagens
Hoje não me apetece a crise, nem os debates sobre pactos de regime, nem tão pouco as intrigas sobre o casamento homossexual. Hoje não me apetece nada. Rigorosamente nada. Apetece-me, apenas, vaguear o olhar por imagens, mesmo que desconexas, e retirar delas o máximo de mensagem possível. Não me apetecem as palavras, não me apetece a escrita, nem o som. Apetece-me conhecer o «site» de Pete Souza, o fotógrafo oficial de Barak Obama, a quem os portugueses queriam, a toda a força, lembrar a luso-descendência, em mais um «fait-divers» pré-presidencial. Pete Souza é mais do que o fotógrafo de Obama, e isso pode ver-se nas galerias que tem à disposição e nos livros que já editou. Os teóricos da comunicação dizem que, hoje, é considerada iliteracia a incapacidade de «ler» imagens, de fruir, de interpretar. Porque o mundo é visual. Porque o mundo é imagem. Se assim é, Pete Souza é um excelente «poeta», neste sentido.
17 de Fevereiro de 2009 – Marx tinha razão
De certa forma, o homem tem tendência para o consumo até à exaustão, tal como «consome» a sua própria vida até ao limite que lhe é imposto. Tudo depende da forma como «agarra» as coisas ou é «agarrado» por elas, retirando daí o máximo proveito possível, até encontrar novo interesse. Creio que seria Sócrates (o filósofo, não o outro) a dizer que «o homem é um eterno insatisfeito». Talvez por isso não se possa dizer que se «é» feliz, mas mais propriamente que se «está» feliz, porque a felicidade nunca chega, nunca é suficiente, tal como o dinheiro. Tudo isto para dizer que Marx, em 1867, no seu «Das Kapital», tem uma frase lapidar, que não poderia estar mais actual:
Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado