Numa altura em que o Presidente angolano visita Portugal, voltei a tomar contacto com um texto que não só conta a vida do meu amigo Rui Tukayana, como também nos dá a conhecer uma página tão importante quanto sangrenta da história daquele país. Já em tempos, Fernando Alves tinha dado os seus «Sinais» com este texto. «A 27 de Maio de 77, ainda eu não tinha nascido, Luanda acorda acorda ao som de tiros. A população estava nas ruas e havia uma marcha em direcção ao palácio presidencial. Hoje em dia a opinião geral é que se tratava de uma tentativa de golpe de estado liderada por dois homens: Nito Alves e José Van Dunen», escreve o Rui aqui, num notável texto, de cortar a respiração. A revolta foi aplacada sem contemplações, com recurso a detenções, torturas, desaparecimentos e mortes quase indiscriminadas. São, de resto, vários os testemunhos sobre o sucedido. Perante isto, perante a minha pequenês ante estas revelações, perante o fabuloso texto do meu amigo Tuka, resta-me o silêncio.
9 de Março de 2009 – Governo britânico apoia tratamento contra a crise
A princípio estranhei a notícia, pareceu-me mesmo pouco credível. Mas as ondas sonoras da TSF e a agência EFE provam que não, é mesmo verdade. O Governo britânico está a preparar-se para apoiar, em larga escala, o combate à depressão decorrente da crise. Serão cerca de 14,5 milhões de euros (cerca de 13 mil libras) para apoiar a terapia psicológica contra a depressão e a ansiedade que a crise económica está a gerar. Para o efeito, estarão à disposição dos utentes do serviço público de saúde britânico 3600 terapeutas e várias centenas de enfermeiros, numa rede que irá funcionar, progressivamente, até 2010.
Segundo dados oficiais, serão mais de 6 mil os britânicos que, perdendo o emprego ou contraindo dívidas excessivas, acabaram por «cair» na depressão ou em algum tipo de perturbação psicológica, e cujo acesso à terapia não está a ser possível, alegadamente devido às carências financeiras. O Governo pretende, assim, trabalhar junto de espaços laborais diversos, no sentido de combater mais este cenário, que a tão malfadada também está a criar. Será que nós por cá também não precisávamos de uma coisa semelhante?
8 de Março de 2009 – O «post» número 60
Já que estamos na onda das efemérides, quase sem dar conta, chegámos ontem ao «post» número 60. À boa forma portuguesa, acho que é tempo de relaxar um pouco, dar espaço ao ócio, não fazer rigorosamente nada. E entretanto, retemperar forças, para voltar «à carga», já amanhã.
7 de Março de 2009 – Amanhã é Dia Internacional da Mulher
A entrevista de Maria José Magalhães no «JN» de hoje fez-me antecipar as comemorações. Custa-me um pouco ter de conviver com este conceito de ter de haver um dia em que toda a gente pensa em determinada situação, fazendo-nos pensar que realmente é importante, esquecendo o assunto nos restantes 364 dias do ano. A entrevista começa logo com um panorama absolutamente desolador. Em três anos, Portugal conheceu 132 mil casos de violência, ou seja, 50 vítimas por dia, ou seja duas vítimas em cada hora. Isto, se falarmos apenas nos números que são conhecidos, esquecendo quem sofre em silêncio absoluto, pelas mais variadas razões.
Chegamos, assim, à conclusão que, de facto, se justifica haver um Dia Internacional. Mas prefiro que este seja um Dia Internacional não para fazermos balanços trágicos, não para darmos importância excessiva a quem desrepeita, quotidianamente, a condição feminina; mas precisamente para demonstrar às mulheres que, de facto, elas podem, elas são. Para lhes demonstrar que são elas quem nos ensina o amor, o afecto, o belo. Para colocar, em cada uma delas, toda a força do beijo esculpido por Rodin.
Feliz Dia.
6 de Março de 2009 – Os livros que (não) leu
Quando, por vezes, resolvemos ter conversas mais intelectuais, a coisa acaba sempre por resvalar para os livros que lemos, que são obrigatórios, os clássicos, etc., etc. O que, agora, uma sondagem feita pelo «World Book Day» revela é que 2/3 (dois terços) das referências que os inquiridos fazem a livros que leram são, de facto, falsas. Ou seja, simplificando e generalizando (com o respectivo perigo que isso constitui), dois terços dos livros que, em geral, dizemos que lemos, não lemos. O objectivo, confessado pela maioria dos que responderam ao inquérito, terá sido o de impressionar o interlocutor, para além de confessarem ir à última página «cuscar» o final da história, sem ler o meio. A notícia está no jornal «Público» de hoje.
Os títulos mais frequentemente referidos como (não) lidos são «1984», de George Orwell (42%); «Guerra e Paz», de Lev Tolstoi (31%); «Ulisses», de James Joyce (25%); e a Bíblia (24%). O livro «Dreams from my father», a autobiografia de Barak Obama, surge em nono lugar, a par de outros títulos relevantes, como «Em busca do tempo perdido», de Marcel Proust, ou «Madame Bovary», de Gustave Flaubert.
Boa leitura.
5 de Março de 2009 – O «site» que faz os trabalhos de casa
Uma das notícias da edição «online» do «Jornal de Notícias» apresenta-nos um «site» que tem como missão fazer os trabalhos de casa dos mais novos. O «Fais Mes Devoirs» ainda não está a funcionar em pleno, mas já aceita subscrições. Os preços variam entre os 5 e os 30 euros, os «prazos de execução» podem estender-se até três dias e a disponibilidade é manifestada a todos os alunos interessados, do básico ao secundário.
Não fica muito bem claro se o «site» em questão «pesca o peixe» ou se «ensina a pescar», mas que levanta algumas questões, levanta. Se, por um lado, há quem defenda que «mercantiliza a educação», coloca-se também a dúvida se o ponto fundamental destes trabalhos está no resultado ou no processo de identificação e ultrapassagem da dificuldade. Fica para reflexão.
4 de Março de 2009 – Línguas em vias de extinção
A diversidade linguística mundial é algo notável. Como é possível termos evoluído de formas tão semelhantes, em determinados aspectos, e de formas tão diferentes em outros? O quanto de cultura, de tradições, usos e costumes, de pormenores antropológicos povoam cada um desses territórios. Sucede agora que a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Ciência, Cultura e Educação) publicou um estudo que nos revela que 2500 das 6900 línguas que actualmente ainda se falam estão muito perto da extinção.
Participaram no estudo 25 linguistas, que produziram o trabalho aqui exposto (texto em inglês), e que chegaram a conclusões que nos fazem reflectir. Se recuarmos três gerações, verificamos o desaparecimento de 200 línguas durante esse período, encontraremos 538 em «situação crítica», 502 «seriamente em perigo», 623 «em perigo» e 607 «vulneráveis», segundo os parâmetros do estudo.
Há muito mais referências dignas de registo, mas o que fica para reflexão será o que é que isto irá originar. Que consequências enfrentará um povo que se vê privado de algo tão seu como a sua língua? Onde ficam a sua história, o seu percurso, a sua cultura autóctone, o seu património, a sua herança? Qual o papel da Educação neste contexto?
3 de Março de 2009 – O PS, ou o «Partido Sócrates»
Tem sido interessante acompanhar o «fenómeno» que tem surgido, cada vez mais frequentemente, na política, e que centraliza as atenções na pessoa, mais do que no partido. Já há muito tempo que se falava disto no âmbito autárquico («o que conta são as pessoas», e outras frases habitualmente ouvidas), voltou a sentir-se isso, nos antípodas, com Barak Obama, e agora, ao que parece, chegou a vez de José Sócrates.
Na sequência do congresso de Espinho, a imagem de Sócrates saiu fortemente reforçada, fruto dos quase 100% de votos, após uma eleição «a solo». A par da apresentação de Vital Moreira como «cabeça de lista» às eleições europeias, o congresso foi, mais uma vez, como vem sendo hábito, uma sequência de situações pensadas ao pormenor, claramente alinhadas para uma mais fácil absorção por parte da comunicação social.
A recta final do conclave ficou marcada por uma mudança radical de cenário, das cores nacionais e do PS para um «azul relaxante», muito na linha de Obama, esbatendo a simbologia socialista e focando o Primeiro-Ministro. No palanque utilizado por José Sócrates aparecia inscrito o endereço do espaço na internet em que, a partir de então, se lançou um movimento de apoio à recandidatura: Sócrates2009.pt. O espaço é altamente interactivo, com fortíssimo recurso ao vídeo e às imagens, e com um espaço de apelo à adesão a este movimento, bem como uma secção dedicada aos «desafios» temáticos.
O rumo apontado parece ser, neste momento, o de concentrar as atenções em Sócrates «candidato a Primeiro-Ministro». O próprio logótipo do PS aparece apenas discretamente, em cima, a fotografia utilizada é exactamente a mesma de há quatro anos, e, sob o funo azul, o escudo nacional e o Palácio de São Bento. O «unanimismo» em torno deste «actor político» chega a ser embaraçoso para alguns socialistas, e quase só é comparável a situações como a de Chávez (salvaguardando, logicamente, as devidas diferenças). A aposta tem sido a de estar permanentemente na comunicação social, «himself» ou por interposta pessoa, com toda a comunicação orientada para si ou em cerimónias milimetricamente desenhadas para a «colagem fácil» das imagens. O PS está «refém» de Sócrates, que se apresenta como única alternativa para um futuro de médio prazo. Conseguiu criar canais de comunicação que parecem perfeitamente eficazes, e que «secam» qualquer oposição. Apesar de todas as «desmontagens» e análises, a «máquina» prossegue, e vai transformando cada vez mais o Partido Socialista numa espécie de «Partido Sócrates».
2 de Março de 2009 – As auto-estradas
Uma das páginas do jornal «Público» de hoje é dedicada a Vilares da Vilariça, aldeia de Alfândega da Fé. Ao que parece, a «auto-estrada da informação» chegou à aldeia a uma velocidade superior à da verdadeira e necessária estrada de alcatrão. A aldeia já tem acesso gratuito à internet via «wireless», e já há retransmissor de televisão. Contudo, os outros acessos (a tão falada «estrada alcatroada») ainda estão por acautelar. O texto não se alonga em grandes considerandos, mas deixa no ar um bocadinho daquilo que somos.
Cada vez mais, estamos a tornar-nos «experts» em construir a casa pelo telhado. Uma das expressões mais populares tem sido a de que se faz isto ou aquilo «para a estatística». Este caso é um pouco exemplo, imagem daquilo que somos ou daquilo em que nos estamos a tornar. Cada vez temos mais dificuldade em distinguir o essencial do acessório, estamos demasiado concentrados em investir no que talvez não seja prioritário, fazemos e dizemos coisas grandes porque queremos ser vistos.
Neste caso concreto, é questionável a prioridade da estrada da informação sobre a de alcatrão, ou provavelmente sobre o saneamento, ou o abastecimento de água de qualidade, ou a recolha de lixo, ou outra coisa qualquer. Mas o que é facto é que agora há televisão e internet naquela aldeia. Isto, «na estatística», já deve significar algo.
27 | 28 de Fevereiro e 1 de Março de 2009 – Festival Internacional de Águas Bravas
Durante estes três dias, tive o privilégio de, junto de camaradas, companheiros e colegas, trabalharmos para o sucesso do Festival Internacional de Águas Bravas. O objectivo era, simplesmente, o de pôr a «estrutura» a funcionar, para que faltasse o mínimo possível a quem participava. Nestes três dias, nenhum de nós leu com grande atenção os jornais, ou viu televisões, ou sequer passou os olhos pelas imagens do (apagão do) Congresso do PS. Pelo que me pareceu, a missão foi cumprida.