30 de Abril de 2009 – Novamente o financiamento dos partidos

votoHoje foi aprovada uma alteração de fundo no que diz respeito ao financiamento dos partidos políticos. Num gesto de «auto-regulação», em debates tidos «à porta fechada» e em votações «relâmpago», não só se aprovou o aumento da comparticipação do Estado como se atingiu o acordo quanto a um novo valor máximo para as ofertas em dinheiro (não declaradas nem documentadas), traduzido num aumento de mais de um milhão de euros. Quando se fala em crise e em contenção nas campanhas eleitorias, num ano em que as eleições vão custar aos cofres do Estado cerca de 100 milhões de euros, esta notícia destoa. Talvez seja altura de os partidos repensarem as suas formas de diálogo, de abandonarem as formas cada vez mais «kitsch», pesadas e logisticamente complicadas de fazerem campanhas. Precisamos de novas formas de fazer política, sob pena de aumentarmos o, já de si, enorme descrédito que paira sobre quem nos representa.

29 de Abril de 2009 – Obama, 100 dias

obamaCumprem-se hoje os primeiros 100 dias do «novo sonho americano». Foi com Roosevelt que se estabeleceu este «barómetro» dos cem dias. No caso de Barack Obama, a coisa tomou proporções nunca antes vistas. A campanha já havia sido francamente original, e teve uma adesão e uma empatia nunca vistas. Mal chegou à Sala Oval, Obama não desiludiu, e começou imediatamente a tomar as decisões que se esperavam. Fechou Guantánamo, tratou de refrear os ânimos guerreiros, instituiu uma nova forma de estar no cenário internacional. Já o acusam de estar a trabalhar a um ritmo demasiado elevado, mas nós, o «povo», não nos importamos muito que assim seja. Hoje ouvi-o dizer que a América é, de facto a nação mais rica e poderosa do mundo, mas que, mesmo assim, continua a ser apenas uma nação do mundo. E gostei.

28 de Abril de 2009 – «Arouca Fantasy»

arouca-fantasyCom o reatar dos jogos da Liga dos Campeões, está de volta a «febre» da «Fantasy». «Em Arouca não se vive futebol, RESPIRA-SE». É este o «slogan» de um grupo de amigos que «lançou o vício» das ligas «Fantasy Football», um jogo «online», ao estilo dos conhecidos «managers», mas bastante mais simplificado. É possível jogar em várias ligas, desde a «Premier League», à Taça UEFA, até à mais popular, que é a Liga dos Campeões. Neste caso, a liga «Arouca Champions» conta já com 100 jogadores arouquenses, o que prova bem que, de facto, aqui o futebol não se vive, mas respira-se. É interessantíssimo ver as «discussões» futebolísticas que este jogo proporciona, com os vários «managers» a torcerem por duas ou mais equipas ao mesmo tempo, esperando que um avançado de uma equipa marque, mas que a mesma equipa sofra golos… Enfim. Um «mundo futebolístico» virtual, no qual vale a pena estar envolvido. O blogue «Arouca Fantasy», que, para além da vida quotidiana dos «managers» arouquenses, nos brinda frequentemente com informações muito interessantes, pode ser lido aqui.

27 de Abril de 2009 – Cuidado com a gripe

gripeLembro-me que a crise que agora sentimos claramente na pele também começou assim. Primeiro era algo meio longínquo, aparentemente confinado ao imobiliário. Mas a comunicação social continuou a falar sobre o assunto, e continuou, e continuou, e a coisa começou a estender-se, e a agravar-se, e a expandir-se, e a vir ao nosso encontro. E ei-la. Agora é a gripe, que alguns «media» foram chamando «suína», porque parece que há alguns «genes de porco» que estão presentes nesta mutação do vírus da gripe. Inicialmente a coisa estava confinada à cidade do México, que é uma das mais emblemáticas «megalópoles» do mundo, com a dimensão, praticamente, de um país de pequena/média dimensão.

A Organização Mundial de Saúde já elevou o risco de epidemia global, porque cada vez são mais os casos conhecidos, sobretudo fora do México, onde já cerca de 150 pessoas terão sofrido as consequências desta  quase pandemia, «pagando-o» com a própria vida. E parece que a coisa não vai ficar por aqui. Para já, qualquer consequência continua mais ou menos longínqua, se bem que parece que Espanha já teve um caso.

Esta é uma das consequências da Globalização. Não são só as pessoas que podem mais facilmente viajar ou mesmo migrar. Também as doenças, que vão encontrar novos contextos, mutar-se e criar novos e (em alguns casos) devastadores desafios aos Estados e a todos nós. Esperemos que, neste caso, uma boa aspirina ou um medicamento forte, daqueles que costumamos usar, seja suficiente. Sob pena de, sob o efeito dominó, assistirmos a uma espécie de «Lei de Murphy».

«It is found that anything that can go wrong at sea generally does go wrong sooner or later».

26 de Abril de 2009 – Dia Mundial da Propriedade Intelectual

propriedade-intelectualHoje assinala-se o Dia Mundial da Propriedade Intelectual. Os organismos competentes tentam, a todo o custo, regulamentar o registo de marcas, patentes e demais direitos que tenham a ver, neste caso concreto, com os problemas ligados à autoria (e, no caso concreto que mais me interessa, de obras de arte). As obras que se criam deveriam ter uma espécie de «DNA» ou «impressão digital», que salvaguardassem sempre os direitos de quem as concebeu. Mas a internet veio baralhar toda esta esquemática e toda esta estrutura de protecção da propriedade intelectual que os Estados, mais ou menos, têm em funcionamento. Se, por um lado, amplia imenso a visibilidade das obras, pode, por outro, mais facilmente conduzir a que as desvirtuem, utilizem indevidamente, plagiem, «assassinem». Como todos os assuntos que são motivo de «Dia Mundial», é um tema que ainda não está «resolvido». Caso contrário não precisaríamos de um «Dia Mundial» para se reflectir sobre o assunto.

25 de Abril de 2009 – A liberdade de Paulo Rangel

paulo-rangel

No seu discurso, durante a sessão evocativa do 25 de Abril, o deputado do PSD Paulo Rangel colocou o «dedo na ferida» de um debate que talvez já há muito devesse ter sido travado. Não só denunciou, e bem, uma verdadeira «quase ditadura mediática» deste Governo, como lançou a debate a questão do investimento público como resposta à crise. Se é verdade que muitos analistas políticos (e mesmo políticos) defendem a intervenção do Estado como «motor» da resposta à crise, Paulo Rangel levantou a questão de como esse investimento pode transformar-se numa hipoteca para o futuro das gerações mais novas, que ficarão responsáveis por «pagar a factura» destes investimentos. Poderão responder que ficarão também com equipamentos e infra-estruturas para usufruirem, mas os custos existirão, desde a manutenção à reparação ou mesmo reformulação, bem como ao pagamento propriamente dito destes «empréstimos a longo prazo». Onde termina a nossa liberdade para avançarmos com estes investimentos, que muitos consideram megalómanos e desproporcionados, e que, de certeza absoluta, resultarão em (no mínimo) resquícios de dívida para as gerações mais jovens? Por outro lado, não nos caberá, no exercício dessa mesma liberdade, investir num futuro melhor para essas mesmas gerações? O debate é complexo, e haverá razões de parte a parte. Mas o que é certo é que este debate, sim, é interessante. Mais do que uma «conversa de surdos» sobre corrupção ou enriquecimentos ilícitos.

«Um Governo em fim de mandato, cheio e ufano da arrogância do presente, tudo tem feito para roubar a liberdade – a liberdade de escolha – às gerações seguintes».

«Hão-de as gerações seguintes, carne da nossa carne, sangue do nosso sangue, ficar agrilhoadas a uma dívida monstruosa».

24 de Abril de 2009 – «Música e Revolução», na Casa da Música

musica-revolucaoEste deve ter sido, provavelmente, o concerto mais «improvável» a que assisti. Improvável por várias razões. Primeira, porque na primeira parte surgia Maria de Medeiros, encantadora enquanto actriz mas ainda não muito reconhecida enquanto cantora. Segunda, porque na segunda parte surgia a «Sinfonia» de Luciano Berio, com a Orquestra Nacional do Porto dirigida por Michael Zilm, e com os «Neue Vocalsolisten Stuttgart». Terceira, porque acabei por ter o privilégio de ser convidado pela Casa da Música, e de ficar próximo de pessoas ilustres como Manoel de Oliveira, Nuno Azevedo, o maestro José Luís Borges Coelho, entre muitos outros. Quarta, o absolutamente excêntrico Stéphane Sanseverino. Quinta, porque o conceito de «Revolução» não é propriamente algo que me cative, embora o respeite e até considere justo e necessário.

Na primeira parte, Maria de Medeiros começou quase logo por «dizer ao que vinha». A um trio composto por Pascal Salmon (piano), Ricardo Feijão (baixo) e Edmundo Carneiro (percussão), juntou-se Stéphane Sanseverino (guitarra eléctrica e voz), que acabou por ser quase a estrela da noite. Um verdadeiro «show-man», com uma aparência excêntrica e uma abordagem ao espectáculo completamente «contra o sistema». A «cereja em cima do bolo» acabou por ser uma versão «multinacional» do tema da «Internacional», em que até Michael Zilm cantou, em alemão, a parte que lhe cabia.

Na segunda parte, a «Sinfonia» de Berio transformou-se numa verdadeira torrente avassaladora de som, a que os «Neue Vocalsolisten Stuttgart» deram o toque final, que Berio pretendia. «Oh, King», dedicado a Martin Luther King, que faleceu no ano em que Berio compôs a obra, foi a primeira surpresa. Mas o grande apogeu da obra foi, para mim, o terceiro andamento, em que surgem reminiscências da Sinfonia n.º 2 de Mahler, bem como citações de Debussy, Stravinsky, Ravel e do próprio Berio, com o coro a recitar textos de James Joyce e Samuel Becket, numa torrente de palavras absolutamente fantástica e em perfeita consonância com a música. Michael Zilm, à frente de uma Orquestra Sinfónica do Porto quase irrepreensível, foi garante de qualidade máxima.

dudamelHoje, o «Ípsilon», suplemento cultural do jornal «Público», dedica a capa a Gustavo Dudamel, «o supermaestro», como lhe chama. Nas páginas interiores, é explicada a dinâmica do «sistema», que retira crianças da rua e lhes dá formação musical e um sentido à vida. Textos de leitura obrigatória, aqui.

23 de Abril de 2009 – Os políticos discutem a corrupção

corrupcaoA discussão começa logo com um aligeiramento do termo em causa. Deixou de se falar de «corrupção» e acentua-se o «enriquecimento ilícito». O que é curioso é serem os políticos a discutirem, projectarem e legislarem sobre este assunto. É um pouco como, passe a comparação, colocar os contribuintes a cobrarem impostos aos funcionários das Finanças, ficando os primeiros isentos de pagar.

É paradoxal discutir-se isso quando assistimos diariamente a mais episódios do «folhetim BPN», ou «Freeport», ou inúmeros outros, em que as «estrelas» são políticos. Ou quando são os próprios peritos na matéria a dizerem que as propostas de lei são, tecnicamente, piores que más. Ou quando todos se desentendem, porque querem um Provedor de Justiça da sua confiança. Ou quando já cheira fortemente a eleições.

O povo português pratica a «pequena corrupção» diariamente. Porque fala com um amigo para passar à frente de quem está à espera no médico. Porque dá um contacto de um amigo para preencher uma vaga de emprego. Porque paga (ou recebe) para resolver situações delicadas. Será assim tão difícil reconhecer casos de enriquecimento ilícito?

Contudo, no dia-a-dia, talvez a preocupação devesse estar nos quase 500 mil desempregados, que continuam a aumentar, e que seriam 350 mil se o Eng. Sócrates tivesse cumprido o que prometeu aos portugueses, que lhe deram, se calhar também por isso, uma maioria absoluta. Mesmo assim, são muitos. E andamos nós a discutir a riqueza (lícita ou ilícita) uns dos outros. Em casa onde não há pão…

22 de Abril de 2009 – Arouca nas rotas da UNESCO

geoparqueA partir de hoje, o «Geoparque Arouca» é membro efectivo e de pleno direito (aliás, um «forte membro», como diz a comunicação oficial) da «European Geoparks Network», um organismo tutelado pela UNESCO. Este é o corolário de um trabalho iniciado em 2005, desenvolvido com passos firmes e cuidadosamente pensados. Em Agosto de 2008, é apresentada formalmente a candidatura, em Fevereiro de 2009 dois peritos visitam Arouca e assinam um relatório altamente favorável à adesão do projecto arouquense, e, hoje, a EGN reconhece, por unanimidade, a excelência do projecto. Estão, portanto, de parabéns todos aqueles que mais directamente tornaram este projecto viável e reconhecido. Têm, agora, uma forte responsabilidade. Muito do futuro de Arouca pode «jogar-se» no Geoparque, mas sabemos que esta equipa estará à altura.

Um «Geopark» não é um «parque de diversões para geólogos», como dizia o Professor Artur Sá, nem tão pouco uma espécie de «zoológico», em que se paga bilhete e se vêem as raridades. Muito pelo contrário. É um espaço de todos e para todos, importante e valioso por tudo o que abrange. No caso de Arouca, falamos de todo o Município. Falamos, portanto, para além das 41 ocorrências classificadas, do património natural, da cultura, da história, da etnografia, do artesanato, da gastronomia e da doçaria, em suma, de tudo o que se constitui como diferenciador e motor de desenvolvimento sustentável desta região. E tem, sobretudo, uma forte componente educativa. Para que todos aprendamos a preservar um legado que, no fundo, não é nosso.

«The report was largely positive and noted the high potential of Arouca to become a strong member of the network».

21 de Abril de 2009 – De como o público pode ser perverso

susan-boyleSusan Boyle é a mais recente «estrela» do mundo do audiovisual, depois de ter concorrido ao «Britain’s Got Talent» e de ter deixado toda a gente (júri, público e telespectadores) absolutamente siderados. Ao chegar ao palco, Susan foi respondendo, no seu estilo mais ou menos desajeitado e quase «simplório», às perguntas que lhe foram fazendo, e logo as reacções foram adversas. Imbuídos de um snobismo e um cinismo que nos são mais ou menos normais, os que a viam e ouviam pensavam tratar-se de mais uma «bimba» que ia dar um qualquer espectáculo deprimente. Nada mais errado.

Mal atacou as primeiras notas de «I Dream a Dream», do musical «Les Misèrables», de Carl-Michel Shönberg, a atitude foi mudando. No final, foi a própria Amanda Holden, membro do júri, que verbalizou o que acabara de se passar. «Ao fim e ao cabo, estávamos todos a rir-nos de si e a ser uns grandes cínicos». Mas a voz de Susan Boyle tratou de colocar as coisas em outro ponto. Em poucos minutos, perante o público, passou «de besta a bestial», da mesma forma que poderia ter sucedido exactamente o contrário. Há, em geral, duas lições a retirar. Uma, é a de não se fazer julgamentos precipitados «a priori», porque se corre seriamente o risco de errar. Outra é a de que o público é absolutamente perverso. Consome o que lhe é dado e reage frequentemente de forma instintiva e raramente de forma racional.

Paul Potts, que era um tímido funcionário de uma seguradora e que poucas palavras emitia, «trucidou» o público com a sua voz de tenor, que, aparentemente, poucas vezes tinha usado. Agora, com Susan Boyle, que vivia quase apenas para cuidar da mãe, acontece mais ou menos o mesmo. Quando se depende da aprovação de uma «massa» com as características deste «público», essa entidade pouco clara, as coisas complicam-se. Mas estas «histórias de sucesso» servem, pelo menos, para dar que pensar.