8 de Dezembro de 2009 – Somos o que somos, o que queremos ou o que sonhamos?

big_fishTim Burton tem a capacidade, aparentemente infindável, de, recorrendo à fantasia, nos deixar a pensar seriamente na realidade. Somos o que somos, mas também as histórias que vivemos, que contamos, que fantasiamos, somos também o que queremos e sonhamos. E, no fim, somos tudo isso, e fica de nós tudo isso. É assim, em termos talvez demasiado filosóficos, que Tim Burton conta a história de «Big Fish». Uma história de histórias, resumida num final em que tudo acontece e se desvenda, em que a fantasia é, afinal, a realidade. É bom pensarmos assim, que é possível realizar a fantasia, que ela não é tão fantástica assim, mas que, no fundo no fundo, é bem real. Está, apenas, à distância do nosso olhar.

7 de Dezembro de 2009 – Boa noite, Ary

ary-dos-santosJosé Carlos Ary dos Santos nasceu a 7 de Dezembro de 1936. É um dos maiores poetas portugueses, tendo muitas das suas palavras imortalizadas em canções. «Os Putos», ou a «Desfolhada» são só alguns exemplos. Mas há muito mais do que «as palavras das cantigas». Há um poeta que nunca se deixou castrar, que nunca escondeu a sua «costela» comunista, que nunca renunciou à sua vontade de escrever, e escrever bem. Conhecer a obra de Ary dos Santos é conhecer uma parte de um Portugal diferente, de uma visão nova da poesia, de uma vontade de, como dizia Pedro Homem de Melo, fazer a poesia «subir ao povo». Há poemas de Ary que, de tanta intensidade, quase nos tiram a respiração. Era assim, Ary, como quando dizia a sua poesia em público. Intenso, vibrante, incisivo. É assim, Ary. Boa noite.

Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

6 de Dezembro de 2009 – Dirigir coros é 10 vezes mais complicado que dirigir orquestras

koenigChristoph König é o maestro titular da Orquestra Nacional do Porto há um ano. Ainda não tive a oportunidade de o ver em acção, mas, desde logo, fico invejoso. König tem, neste momento, todas as condições para fazer um excelente trabalho no Porto. Tem a Casa da Música, um edifício onde até apetece mais trabalhar, tem uma orquestra com 10 anos de experiência sinfónica ao mais alto nível, tem um leque de músicos de altíssima qualidade. Hoje, em entrevista à «Notícias Magazine», dá-se a conhecer um pouco mais, bem como o seu trabalho. König estudou piano e canto, e só mais tarde enveredou pela direcção. E, no final da entrevista, quando questionado sobre o seu desejo de ser maestro, revelou ter surgido devido à sua participação num coro da sua cidade natal. Voltando à carga, o entrevistador pergunta-lhe se não desejava ser maestro de coro, ao que König responde da forma menos esperada possível: dirigir um coro é dez vezes mais difícil do que dirigir uma orquestra. Os directores de coro, muitos deles com aspirações a «darem o salto» para a experiência de orquestra, agradecem a sinceridade do maestro. E continuam, digo eu, a sonhar, um dia, poder ter o privilégio de König. E poderem, nessa altura, dizer o mesmo.

5 de Dezembro de 2009 – Portugal é o verdadeiro culpado de eu não ter conhecido Sá Carneiro

sa-carneiroOntem cumpriram-se 29 anos sobre o desaparecimento de Francisco Sá Carneiro. Não quero ser sectarista ao ponto de esquecer Amaro da Costa, mas o facto é que, por engano ou não, por coincidência ou não, Portugal perdeu, naquela noite, o Primeiro-Ministro e, provavelmente, um dos mais brilhantes e influentes pensadores políticos que já conheceu e que, acredito, não encontrará, num futuro próximo, semelhante. A RTP, perseguindo, bem, o seu objectivo de serviço público de televisão, ofereceu ontem ao povo português um documentário extremamente bem realizado e documentado, onde vários especialistas, de várias áreas, são unânimes na prova da tese de atentado. Só que já é tarde. O Portugal de ambição, de concretização de anseios e liberdades, de busca da modernidade, do equilíbrio e justiça sociais, está, definitivamente, comprometido. Porque o seu principal visionário e construtor desapareceu. Concluo, assim, que é esse Portugal, que não quis a vanguarda, que rejeitou um futuro promissor, que decidiu enterrar-se nas querelas provincianas do costume, onde procuramos, todos, mandar mais que o vizinho; é esse Portugal, digo, o culpado por eu não ter conhecido Sá Carneiro.

«Quem representa o 25 de Abril é essencialmente o povo português. Que é que o 25 de Abril deu de essencial ao povo português? Liberdade, possibilidade de democracia e possibilidade de eleger. Quem representa o povo são os eleitores. Portanto se o 25 de Abril é representado pelo povo, se este, graças ao 25 de Abril, pode eleger, o povo pode exercer a democracia. Quem representa o 25 de Abril são os representantes eleitos pelo povo, mais do que ninguém, dado que esta data já não é uma revolução, foi-o, e ainda bem que foi. Agora somos um regime democrático e neste o critério reside na democracia representativa. Logo, a Assembleia da República, os seus deputados, a maioria, o Governo e o Presidente da República representam o povo português, logo o 25 de Abril».

«O Estado é um sistema bem coordenado de serviços e de instituições e quando estas funcionam mal não nos podemos conformar, porque equivale a favorecer a corrupção política e o mau funcionamento da democracia».

(Francisco Sá Carneiro, em entrevista à Rádio Renascença, a 13 de Janeiro de 1980)

4 de Dezembro de 2009 – Precisamos de jor(a)nalistas?

mediaSabemos bem o quanto a imagem hoje é tudo. O «design» é a «ciência» da moda. É, pelo menos, nesse sentido, também, que os jornais e as publicações jornalísticas (mesmo as online) têm caminhado. Sobra, no entanto, uma questão. De que adianta termos novas roupagens se todo o resto do processo (e mesmo do conteúdo) se mantém tradicional? É que, para além de tudo isto, hoje o paradigma da comunicação é um pouco diferente. Todos podemos produzir e aceder a informações praticamente em tempo real, e o repto ao cidadão/repórter é cada vez maior. É por isso que Juan Senor, vice-presidente da «Innovation International Media Consulting Group», afirma que as notícias não podem ser apenas isso mesmo. Têm de ir mais longe, têm de ter profundidade, têm de ser completas, têm de se transformar (um pouco ao estilo já praticado na América) em histórias. E, para tal, diz Senor, não nos bastam jornalistas, precisamos de jor(a)nalistas. Só que, da forma que está o mercado de trabalho e a formação destes profissionais, o caminho a percorrer vai ser, certamente, longo. Demasiado longo.

3 de Dezembro de 2009 – Afinal querem fazer ladrão do que fica à porta

blocoSegundo o projecto de lei do Bloco de Esquerda, hoje aprovado com o apoio da restante oposição, a pena a aplicar nos casos de corrupção passiva vai ser equiparada à aplicada nos casos de corrupção activa. «Trocando por miúdos», afinal vai ser ladrão tanto o que rouba como o que fica à porta. O caso «Face Oculta» despoletou, de repente, uma «fúria legislativa» contra a corrupção que nenhuma outra situação anterior parece ter conseguido. Portugal é assim, feito de «oitos» e «oitentas», reagindo sempre com exageros em vez de prevenir, correndo sempre «atarantado» depois do mal feito, sempre muito «casa roubada, trancas à porta». «Mas pronto», como se costuma dizer. Sempre é melhor que nada.

«Uniformizar a pena aplicável à corrupção activa e passiva, bem como criar um único tipo criminal de corrupção, independentemente de se tratar de corrupção por acto lícito ou ilícito».

(Projecto de Lei do Bloco de Esquerda, aprovado hoje no Parlamento)

2 de Dezembro de 2009 – Arouca, do tamanho do vale

aroucaArouca continua a ser o mais perfeito lugar para se viver, mas continua também a deixar os nossos sonhos esbarrarem contra as montanhas que limitam o vale. Há outros lugares, de pobreza, de falta de esperança, de dificuldades de toda a ordem, mas onde o horizonte está mais além do que essas outras montanhas que limitam. Dizia Fernando Pessoa, através de um dos seus heterónimos, que somos do tamanho do que vemos e não do que somos. Só que, neste caso, o que vemos continua a ser curto. Continua a terminar no horizonte próximo das montanhas da Mó, do Gamarão e da Freita. Sim, somos do tamanho do que vemos. Do tamanho de um horizonte que não conseguimos transpor nem com a visão. É destas contradições que somos feitos.

1 de Dezembro de 2009 – Dudamel de novo em Portugal e as ironias do destino

dudamelEste blogue retomou a sua actividade em Outubro do ano passado, mais ou menos quando me preparava para rumar a Lisboa, atrás da oportunidade de ver Gustavo Dudamel a dirigir a Orquestra Gulbenkian, no concerto de abertura da temporada daquela casa. Desde essa altura, mais de 300 textos foram aparecendo, e passaram por cá mais de 15 mil visitantes, deixando mais de 250 comentários. Hoje, Dudamel regressa a Portugal, para dirigir (amanhã) a recentemente criada Orquestra Ibero-Americana, no mesmo local. Há cerca de um ano, fui a Lisboa atrás do «sonho» de ver Dudamel «em acção». Na altura, o maestro cancelou a sua presença, por motivo de doença. Hoje, está em Lisboa, pronto para o concerto de amanhã, e sou eu que não posso ir, porque a constipação é mais forte. Ironias do destino…

30 de Novembro – Carlos Belém volta a expôr(-se)

carlos-belemAcredito que, como em qualquer outra arte, quando um artista plástico expõe a sua obra, também se expõe. A ser assim, há uma nova oportunidade de entrarmos um pouco no universo do pintor arouquense Carlos Belém, com uma nova exposição, no Museu Municipal de Arouca, de 5 de Dezembro a 5 de Janeiro. Artista de uma inteligência e de um talento notáveis, homem de metáforas, de humor, de sarcasmo, de crítica, mas também senhor de uma mão atenta e cuidada nas formas e nas cores dos seus quadros, sempre povoou o território da minha admiração. Atrevo-me pouco em artes que não domino, mas sei que estas exposições me ensinam sempre algo de novo. Parabéns, «professor», e bem-vindo de volta «a casa».

29 de Novembro de 2009 – Notas soltas sobre o ensino da música

musicaHoje, o «Jornal de Notícias» traz em destaque um panorama risonho do ensino da música em Portugal. Não admira, quando as escolas visitadas são talvez duas das melhores escolas do país: as academias de música de Espinho e Vilar do Paraíso, curiosamente, ambas separadas por poucos quilómetros. Quando o universo é «curto», corremos o risco de estar a ver a «paisagem» de uma forma deturpada. As academias (e mesmo os conservatórios públicos) debatiam-se, até há bem pouco tempo, com sérias dificuldades em conseguirem manter as suas instalações minimamente condignas para o ensino da música. Lembro-me bem dos exemplos de São João da Madeira (que, agora, tem um projecto de remodelação), Espinho (a mesma que agora é de excelência, mas que, até há pouco tempo funcionava numa casa antiga) e até mesmo Vilar do Paraíso (que embora oferecendo boas condições, funcionava também num edifício já antigo e junto a uma estrada onde o estacionamento era quase impossível). São estes, agora, os exemplos da excelência. Porque sempre primaram por um ensino rigoroso, mas cativante. Sério, sem deixar de ser lúdico. Porque primaram pela escolha dos melhores professores. Em suma, porque são instituições privadas que prestam um serviço público, sem que o Estado, muitas vezes, reconheça esse trabalho. Atirar com exemplos de excelência é fácil, se esquecermos estes «pequenos pormenores». A Academia de Música de Arouca continua a subsistir com dificuldades, por exemplo. O Conservatório de Música do Porto só graças à integração na Escola Secundária Rodrigues de Freitas pôde assegurar melhores condições de ensino. E poderíamos citar muitos outros exemplos. Dizer-se bem do ensino da música em escolas modelo é mais simples. Demasiado simples, quando se é do «interior», do dito «Portugal profundo», de onde a paisagem que se vê é ligeiramente diferente.