Passado algum tempo de reflexão, e certamente de aturado aconselhamento com os seus excelentes colaboradores da área mediática, José Sócrates voltou a «dar um ar da sua graça», depois de um estranho silêncio, seguido de uma reacção «tosca». Agora, «a todo o gás», Sócrates diz que afinal quem cometeu erros não foi ele, como a Justiça primeiro provou e depois «desprovou». Os que verdadeiramente estão errados são os que contribuiram para que se tornasse público que talvez o Primeiro-Ministro de Portugal não seja bem a mesma pessoa em quem as pessoas (pensam que) votaram. Mas Portugal, o verdadeiro Portugal, o que gostaria de pedir a José Sócrates era que, à parte das birras, e de um aparente excesso de «tiques de poder», na realidade governasse.
«Lamento que todos os partidos, todos sem excepção, não tenham tido o pudor de aproveitar o cometimento de um crime para com esse crime atacarem os seus adversários políticos e atacarem-me a mim em particular. (…) É um crime contra as pessoas e crime contra a justiça. Lamento que não tenha havido um único partido que tenha criticado esse crime, essa violação da lei, esse abuso por parte desses jornalistas. (…) Porque essas escutas como foram consideradas sem relevância criminal regressam ao domínio privado. (…) Mostra que para estes partidos já vale tudo. Isto é que é por em causa o Estado de Direito. (…) Mantenho tudo o que disse no Parlamento. Todos aqueles que referem uma ligação do Governo à PT para a compra de uma estação de televisão estão a faltar à verdade. Nunca o Governo deu nenhuma orientação à PT para comprar nenhuma estação de televisão. (…) O PSD nunca aceita o resultado das eleições. (…) O que o PSD hoje diz não é apenas para me atacar a mim, é para atacar as decisões do senhor Procurador-Geral da República e do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça. (…) Não há nenhum organismo político que se substitua àquilo que são competências da justiça. Se alguns dirigentes do PSD não estão satisfeitos com as decisões judiciárias, cumpre-lhes acatá-las e respeitá-las. (…) É lamentável que um político tenha de lembrar os outros da separação de poderes».
(José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, em declarações aos jornalistas, hoje)
Ainda bem que há «jornalismo de buraco da fechadura», porque, de outra forma, não podíamos, nós próprios, fazer as nossas contas. No editorial do «Jornal de Notícias» de hoje, Rafael Barbosa coloca o «dedo na ferida» sobre os investimentos rodoviários que, primeiro, eram para suspender totalmente, depois só os que não estivessem em andamento, depois não sabemos muito bem. Primeiro, taxativamente se afirmou que só avançavam as vias que tivessem sido adjudicadas. Depois, com a habilidade que se conhece, alargou-se a intenção às que estavam em fase final de concurso. Ora, caso flagrante é a auto-estrada do Centro, a que muitos chamam a «auto-estrada rosa», que deverá custar entre 1400 e 1700 milhões de euros (sim, entre mil e quatrocentos milhões e mil e setecentos milhões de euros). O valor dependerá de quem proceder à construção (ou a Mota-Engil, ou a Soares da Costa). E o processo só não foi mais rápido porque o concurso inicial tinha apresentado valores demasiado altos (parece que a Mota-Engil tinha subido a proposta de 535 milhões para 1100 milhões). Concurso anulado, concurso relançado. Os tais 1100 milhões eram muito, mas agora podemos estar a falar de 1700 milhões. Há qualquer coisa aqui que não bate certo.
Longos dias tem uma semana como a que passou. A determinadas alturas, dramáticos, a outras, absolutamente psicóticos, os dias foram-se sucedendo na cadência normal, só que muito mais frenéticos e loucos do que o costume. Ainda bem que temos esta capacidade de só andar em frente, porque, de outra forma, teríamos sido «engolidos» pela total negatividade das novidades que nos foram dando. Estamos reféns dos estados de alma de uma pseudo-maioria que nos (des)governa, e que, neste momento, está completamente desnorteada. Em 100 (longos) dias, cuja comemoração soa completamente a folclórica, quando coisas muito mais importantes estão em jogo a toda a hora, e depois de terem chumbado a vontade desta gente em fazer de cada um de nós polícia fiscal do vizinho, foi até aqui que chegámos. Cem dias depois. (Quase) sem Governo.
Está na moda o julgamento na praça pública quando a Justiça falha, o que prova, mais uma vez, o redondo falhanço do sistema judicial português. Desta vez, surge a novidade de que, no decurso do processo «Face Oculta», houve fortes indícios da existência de um plano para interferir (decisivamente) na comunicação social, nomeadamente afastando jornalistas incómodos. A notícia está no semanário «Sol» de ontem, e é absolutamente aparvalhante. Como é possível que o senhor Procurador-Geral da República continue a dar cobertura a esta gente? Como é possível continuar-se, impunemente, a passear arrogâncias e «novos-riquismos de poder», quando, umas a seguir às outras, as evidências nos apontam para um tremendo equívoco? Terá sido mesmo a pensar nisto que os portugueses confiaram no actual Primeiro-Ministro? Ou será que, agora, ninguém assume ter votado nele?
De forma mais ou menos velada, o país está outra vez no «pântano». Portugal, o país da crítica por excelência, tem de mudar de agulha, urgentemente. Já não nos basta sermos críticos, agora temos de ser verdadeiramente pró-activos. Já não nos basta a crítica, é preciso uma alternativa. Dizer que estamos mal não é mais suficiente, porque é por demais óbvio. Criticar quem fez mal não é mais suficiente, porque é por demais óbvio. É urgente surgir uma alternativa que seja verdadeiramente alternativa, que reme contra esta maré pantanosa, de casos por resolver, de coacções silenciosas, de problemas e soluções subliminares, de enganos nas contas e promessas não cumpridas. Se um outro país é possível, urge uma alternativa. Mas uma alternativa a sério.
A Madeira está no epicentro da propalada crise política. Mais dinheiro ou menos dinheiro, mais endividamento ou menos endividamento, mais milhões ou menos milhões, estranhamente o seu estilo cáustico e (quase) incendiário tem passado mais ou menos despercebido. Única excepção feita ao comentário, curto e seco, à possibilidade de crise política, desencadeada pela eventual demissão de José Sócrates («um favor ao país», segundo Jardim). Neste caso concreto, dizem os jornalistas, as contas dependem de quem as faz. Podemos estar a falar de mais 50 milhões, ou de menos 50 milhões. Ora, com tantos milhões em causa, e apelando ao sentido de boa gestão, de que a paisagem «arrumadinha» da Madeira é exemplo, talvez faça sentido sensibilizar Alberto João Jardim para a falta de um acesso digno a Arouca, para que possa dispensar, a estes humildes «cubanos», alguns desses milhões.
Nós somos o mesmo país que, há pouco mais de 500 anos, se aventurou dentro de uns barcos, muitas vezes sem nunca termos visto o mar, que é nosso, contra as ondas, à procura do mundo. Somos o mesmo país que cartografou esse mesmo mundo, e teve a oportunidade de enriquecer a sua cultura. Somos o mesmo país que não se conteve nas suas fronteiras, que lutou pela sua independência e se constituiu como nação antes de quase todos os países da Europa o fazerem. Somos o mesmo país que se mobilizou para implantar a República, baseada na igualdade, fraternidade e, sobretudo, liberdade. Somos o mesmo país que se libertou das correntes da opressão de uma das mais longas ditaduras da Europa, e abriu as suas fronteiras a uma União Europeia efectiva. Somos o mesmo país que deu os braços de força à construção e desenvolvimento de muitos outros países, como a França, a Suiça, o Luxemburgo, e muitos outros. Somos o mesmo país que viu nascer grandes vultos da ciência, do pensamento, da tecnologia, que estão hoje por esse mundo fora. Somos o mesmo país que tem gente que, mesmo a correr e em cima da hora de fim do prazo, concebe melhores projectos do que os que passam todo o prazo a pensá-los, discuti-los e executá-los. Somos tudo isto. Mas parece, cada vez mais, que somos outra coisa, completamente diferente. O que poderemos fazer para sermos esse outro país?
Comunicar em contexto de crise é sempre complicado. Mesmo que a crise seja relativa. Todos nós, quando não dominamos o sentimento de injustiça, acabamos, uns mais, outros menos, por ter dificuldade em comunicarmos o que quer que seja. Até porque as próprias ideias não são muito claras. Pior, quando a coisa se dá no meio político. Mas aqui não falamos nem só de comunicação, nem só de crise, nem só de política. Falamos de tudo isto, junto e misturado. À parte de todas as teorias e ferramentas, a melhor decisão é aquela que é tomada em tempo útil e resolve o problema, seja mais ou menos primitiva, mais ou menos básica, ou mais ou menos rebuscada. Comunicar é quase como disparar uma arma. Depois de saída, a bala não pode retornar. É por tudo isto que, nos entretantos, a grande dificuldade é saber-se como se pode comunicar o imenso sentimento de injustiça por se ver, agora, retirada uma promessa feita, desdita uma palavra dita, rasgado um compromisso assinado. É assim este país.
No dia em que as notícias vão e vêm no percurso da variante Arouca/Feira por construir, consta-se que Mário Crespo foi silenciado. Numa nota publicada no «Jornal de Notícias», onde o jornalista escrevia habitualmente, é dada a conhecer a cessação de colaboração de Mário Crespo, devido a um artigo (mais um) violento em relação ao Governo e a alguns dos seus elementos. O artigo não chegou a ser publicado no «JN», mas o Instituto Francisco Sá Carneiro fê-lo publicar no seu portal. Apesar da violência das palavras, o seu conteúdo levanta sérias questões quanto à acção mediática deste Governo. Mário Crespo tem uma carreira no jornalismo que todos conhecemos, e não será, por certo, por mero acaso que tem assumido uma posição extremamente crítica para com a atitute governamental face à comunicação social. A ser verdade o que afirma, ter sido referenciado em público como «um problema» para o qual era preciso uma «solução» (que agora surge), estamos mal. Muito mal. Até porque os casos se vão sucedendo. Enquanto nós, por cá, continuamos, sem saber muito bem em que sentido, a percorrer as vias de uma via que tarda em nos estruturar, e cujo «protesto», esperemos, não seja também silenciado.
Arrancaram hoje, oficialmente, as comemorações do centenário da implantação da República em Portugal. Fruto, talvez, da proximidade dos tempos, ou até mesmo de alguma complexidade dos factos que ocorreram há um século, tantas foram as personagens e «peripécias», não é dos períodos que tenhamos mais facilidade em contar fluentemente. Será mesmo, talvez, dos períodos da história portuguesa que menos bem conhecemos. Talvez seja um bom pretexto para debelarmos esse problema. Hoje, debaixo de chuva, as entidades oficiais disseram de sua justiça sobre a República e a sua importância histórica e política. Mas foi uma referência de José Sócrates à forma de se fazer história que me mais me prendeu a atenção. Sabemos bem de como a história pode ser (mal) ensinada, servindo, muitas vezes, uma visão política dos factos, o que é tão mais fácil quanto mais próximos estamos do tempo abordado. E é esse, precisamente, um dos perigos. O de vermos a história de uma forma demasiado politizada, de uma forma «oficial», dogmática. Que este centenário contribua para eliminarmos o que ainda resta dessa «história oficial», que ainda vai sendo ensinada por aí.