19 de Fevereiro de 2010 – Afinal há deputados de Aveiro em Lisboa

Afinal, Aveiro também elegeu deputados. Até ontem não havia tanta certeza, tal era o silêncio ensurdecedor com que passavam completamente ao lado dos problemas da região em relação à qual assumiram compromissos. Mas afinal não, os ciosos e empenhados deputados afinal trabalham, mesmo que lá longe, desterrados, coitados. E eis senão quando, agastado, na sua tremenda ira, o deputado Paulo Cavaleiro ergue o dedo em riste,  e denuncia a «propaganda política do Partido Socialista no distrito de Aveiro», que trouxe José Sócrates a Arouca para anunciar que, afinal, iríamos ter estrada. E mais, diz a notícia que o deputado «procurou esclarecimentos sobre quais os critérios que iriam definir a concretização das obras anunciadas para a concessão do Vouga». Mas «cadê» as conclusões? Onde estão as respostas? Ou é isto mais um daqueles «anúncios de graça»?

Quem leu «A Queda de um Anjo», de Camilo Castelo Branco, conhece bem o dilema em que vivem estas gentes que, desterradas da sua «aldeia», depressa se inebriam com o cosmopolitismo da cidade, ao ponto de esquecerem que têm raízes em algum lado que não ali. E esta «novidade» é tão interessante quanto o facto de o Eurostat dar conta de que a região de Lisboa tem um PIB por habitante de 105%, ultrapassando a média europeia, quando o Norte tem apenas 60% (dados de 2007). Não restam dúvidas de que o horizonte fica cada vez mais perto de Lisboa, e esse Portugal profundo, que, talvez por uma réstea de pudor, não chamam de «parolo» ou «saloio», cá continua. Cada vez mais «orgulhosamente só».

18 de Fevereiro de 2010 – Será que só neste país é que controlar a comunicação social é lícito?

Só neste país é que se diz «só neste país», diz (e muito bem) Sérgio Godinho na canção. Há alturas como esta em que parece que o mundo anda mesmo todo ao contrário. Hoje, o «Jornal de Notícias» escreve que o senhor Procurador Geral da República não considera que tentar controlar a comunicação social seja crime contra o Estado de Direito. Por outras palavras, «venham  daí, senhores, instaurem de novo a censura prévia, pressionem donos e directores de órgãos de comunicação social, influenciem à vontade, Ave, ó paladinos do poder». Há aqui algumas falácias no discurso, que nunca ninguém tentou desmistificar, e que fazem alguma diferença. Sim, é verdade, a isenção não existe. A imparcialidade não existe. Porque são homens e mulheres que fazem informação, que a tratam à sua maneira, com a sua perspectiva sobre os factos. Heisenberg já preconizava que até na Física o observador interfere no campo/objecto observado. Não é novo. Portanto, não venham vender-nos a ideia de uma comunicação social neutra. Mas outra coisa, bem diferente, é que a comunicação social não seja neutra sendo parcial, controlada, vítima de caprichos do poder. E, no entretanto, quem se senta na «cadeira» continua a distribuir privilégios aos seus, como altos cargos em empresas públicas, lugares políticos, em Portugal ou na Europa, e favor troca favor. Só mesmo neste país.

Só Neste País

«Só Neste País» – Sérgio Godinho

Unamo-nos
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
Para provar quem vai à frente
Ou fica atrás

Se é por
Ir estabelecer um novo record
Compremos o Guinness
Ao preço que for
E fica o assunto homologado
E sai espumantes
Às vezes dá p’ra um banquete
Ou dele as sandes

Sempre
Complicamos a coisa mais simples
E simplificamos a complicada
Sai em rajada
O tiro pela culatra
Às vezes mata
Às vezes ressurreição
Foi de raspão

Só neste país
É que se diz:
Só neste país
Só neste país

São muitos séculos em morna ebulição
A transitar entre o granizo e a combustão
E um qualquer hino
P’ra qualquer situação
A pessimista, a optimista…
E vai abaixo e vai acima
E vai abaixo, e vai acima
(e agora a rima):

Portugal é nosso p’ro bem e p’ro mal

E o mal que está bem
E o bem que está mal
E o bem que está bem

Juro
P’lo fado
P’lo baile e p’lo kuduro
Que este país ‘inda tem futuro
É verde e maduro
Como a fruta, às vezes brota
Às vezes, consternação
Secou no chão

Por isso unamo-nos
Nós somos os famosos anónimos
Mesmo assim já cumprimos os mínimos
Somos todos únicos
Que mais vão querer de nós
Para provar
Quem vai à frente
Ou fica atrás…

Só neste país
É que se diz:
Só neste país

Portugal é nosso p’ro bem e p’ro mal

17 de Fevereiro de 2010 – A relação doentia com a comunicação social

José Manuel Fernandes, ex-director do jornal «Público», foi hoje ouvido na Comissão de Ética, na Assembleia da República. E não teve meias palavras: a relação do Governo com a comunicação social é doentia. E é doentia, e sentimo-lo, porque Sócrates está quase sempre lá. Falando ou calado, no passado ou no presente, sobre tudo ou sobre nada, seja em notícias favoráveis ou desfavoráveis, pelas melhores ou pelas piores razões. Não é difícil fazermos as contas, e verificarmos que tanta presença só se deve ao facto de haver uma «máquina», que pode não exercer um controlo tão apertado como se diz, mas que produz factos políticos, e, fazendo-o, cria notícias, e, criando notícias, influencia decisivamente. Relatou mesmo uma situação em que o próprio Primeiro-Ministro revelou ter uma «táctica» na sua «cedência» à comunicação social, e não teve problemas em dizer (e bem, por ser de opinião) que o texto de Mário Crespo só não seria publicado por si se o autor assim o desejasse. Hoje foram ouvidos José Manuel Fernandes (ex-director do Público) e Mário Crespo (jornalista da SIC). Amanhã, serão ouvidos António Costa (director do Diário Económico) e Alberto Arons de Carvalho (que teve, no Governo, a tutela da RTP). Dia 19 de Fevereiro, serão ouvidos Felícia Cabrita (jornalista do Sol) e Armando Vara. Isto promete.

«Ao longo dos últimos cinco anos, houve uma relação [do gabinete do primeiro ministro] com os media que foi, em muitos aspectos, pouco saudável, para não dizer doentia e criadora de um ambiente o mais desfavorável à liberdade de expressão».

«Na véspera [da entrevista] fomos informados pelo gabinete do primeiro ministro que a entrevista tinha sido dada a outro jornal por instruções do primeiro ministro, que não queria que a primeira entrevista saísse no Público».

(José Manuel Fernandes, ex-director do jornal «Público», à Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura)

16 de Fevereiro de 2010 – A Banda de Arouca no Carnaval da FAMA

Há alguns anos que a Federação das Associações do Município de Arouca (FAMA) se empenha na organização do corso carnavalesco, que anima a tarde de Carnaval na vila (mérito da sua direcção, liderada por Pedro Magalhães). Este ano, contudo, apesar de todo o sucesso da iniciativa, a que o MFA – Movimento Fotográfico de Arouca também se associou, a Banda Musical de Arouca também esteve presente, com alguns dos seus (mais jovens) músicos a abrirem o cortejo com a diversão, boa disposição e a alegria na música que os caracteriza. Nos vários grupos participantes, havia sátira, crítica, paródia, humor, alegria. Aqui, houve um pouco de tudo isso, mas, sobretudo, muita música, muito bem dirigida pelo nosso amigo Joaquim, como se pode ver…

15 de Fevereiro de 2010 – A orientar um «workshop» musical, na Igreja da Lapa (Porto)

Hoje, um dos «workshops» integrados no encontro ibérito de Taizé, a decorrer no Porto, vai ser orientado por mim, em parceria com o organista Filipe Veríssimo, na Igreja da Lapa. Vamos procurar mostrar a importância do órgão de tubos na celebração da fé, de como a música e o sagrado têm muito em comum, de como o órgão é o «rei dos instrumentos», de como a música é fundamental para o ritual de culto. Para os que não puderem passar pela igreja da Lapa, a partir das 16 horas, aquilo que vou dizer será mais ou menos o que se segue. Ficarão, contudo, a perder a música que Filipe Veríssimo vai fazer e nos vai ajudar a fazer.

«Orar com Música»: o papel do órgão de tubos na celebração da fé
Ivo Brandão e Filipe Veríssimo (Igreja da Lapa, 15 de Fevereiro de 2010)

Olivier Messiaen terá sido o compositor que melhor se aproximou da síntese perfeita entre música, palavra, oração, Deus, a natureza, o homem e as suas sensações. Messiaen teve, de resto, como que uma visão do que idealmente deveria ser a música ao serviço da fé: uma música que torne presente e possa impelir-nos a vivenciar essa realidade imaterial que é a fé, tornando a música mais do que um ornamento ou um embelezamento, mas um verdadeiro sacramento, que nos incentiva à comunhão e nos revela, mesmo que não o consigamos exteriorizar, muitos dos mistérios a que, de outra forma que não através da música, não conseguiríamos aceder. É esta, de resto, a visão que a própria Igreja tem da música ao serviço do culto, e que podemos encontrar em alguns dos seus documentos oficiais.

Obviamente que, neste caso, falamos de um criador contemporâneo, e de obras que ainda nos soam complexas, não totalmente descodificadas e ainda pouco aplicáveis a muitas das nossas realidades quotidianas. Contudo, podemos concordar que se trata de um quase regresso às origens, quando o homem aliou o som primordial ao sentimento, e o exprimiu, criando, assim, um dos mais poderosos canais de comunicação entre o terreno e o divino. Falar de música sem falar do sagrado, sabemo-lo, é, historicamente, impossível, e mesmo os compositores menos próximos da religião admitem esta possibilidade.

Na mesma óptica deste quase regresso às origens, este compositor contemporâneo desenvolveu uma linguagem musical única, que envolvia o canto dos pássaros, as cores e sensações associadas, transformando quase todas as suas obras em obras de fé e para a fé. É também neste aspecto que o órgão se assume como o instrumento por excelência. O órgão é considerado o rei dos instrumentos, precisamente porque, por um lado, recupera os sons da criação, e, por outro, confere ressonância aos sentimentos humanos na sua plenitude, levando a música a transcender o humano e a conduzir-nos ao divino. Do pianíssimo ao fortíssimo, e pela sua imensa variedade sonora, o órgão é, de facto, um instrumento superior a todos os outros, e corporiza, de certa forma, e como o próprio Papa Bento XVI o referiu, «a imensidade e a magnificência de Deus».

No Salmo 150 podemos ler sobre como trompas, flautas, harpas e cítaras, cravos e tímpanos podem (e devem) contribuir, todos, para o louvor de Deus. O órgão contém, num só corpo, todos estes instrumentos. É um verdadeiro símbolo de unidade, na variedade de registos e tubos. Mas essa imensidão de sons e de componentes não poderá funcionar em plenitude se apenas um dos tubos estiver danificado ou desajustado. Inicialmente só poderemos dar-nos conta disto se o nosso ouvido for preparado. Mas se mais tubos, fruto do uso e da exposição a mudanças de temperatura, se desajustam ou desafinam, as dissonâncias e desafinações começam a tornar-se insuportáveis.

O órgão é, assim, uma imagem do que é (ou deve ser) a comunidade cristã. Na variedade dos nossos dons e carismas, pela fé que nos une, devemos procurar encontrar, como na variedade dos sons, o acorde perfeito, tocado pela mão experiente de Jesus Cristo, para onde e por quem caminhamos, irradiando, como num órgão, os sons da bondade, da misericórdia e do amor do mesmo Cristo pelos homens, que tem de ser, cada vez mais, também o nosso amor de uns pelos outros.

Aqui, na Igreja da Lapa, irão ter a oportunidade de ouvir e visitar um fantástico exemplar de organaria. O Grande Órgão tem 1337 tubos. O Positivo tem 928 tubos. O Expressivo tem 1306 tubos. As trombetas têm 232 tubos. O Pedal tem 504 tubos. No total, o Grande Órgão de Tubos da Igreja da Lapa tem, assim, 4307 tubos. Foram utilizados na sua construção, por Georg Jann, em 1995, tubos de metal (estanho e cobre) e madeira (pinho e pereira). O tubo maior é de madeira (10,12 metros) e o mais pequeno é de metal (9 milímetros). Tem um peso de cerca de 34 toneladas e assenta numa estrutura em ferro. O órgão tem 14,18 metros de altura, 10,20 metros de largura e 5,10 metros de profundidade.

É organista titular e mestre de capela neste espaço Filipe Veríssimo, licenciado em Música Sacra pela Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa (Porto). Teve o privilégio de contactar com organistas como Olivier Latry, Franz Lehrndorfer, e Franz Stoiber entre muitos outros. Em 1995 obteve o primeiro prémio no Concurso Nacional de Órgão. Gravou para a Numérica a obra integral para órgão de Brunhs e as 4 sonatas para órgão de Carlos Seixas. Desde a sua nomeação para titular deste espaço, tem desenvolvido, em estreita colaboração com o Cónego Dr. Ferreira dos Santos, um intenso trabalho como director de coro e orquestra, tendo preparado e dirigido algumas das mais importantes obras do repertório coral sinfónico. Neste contexto, Filipe Veríssimo apresentou, durante o ano de 2006, a integral das Missas e Sonatas de Igreja de W. A. Mozart, celebrando, desta forma, os 250 anos deste genial compositor. Colaborou com vários maestros de renome, destacando-se Robert Hix, Álvaro Cassuto, Jorge Matta e com Cesário Costa, entre outros.

Como organista, tem realizado várias “tournées” de concertos, a maior parte das vezes integrados em Festivais nacionais e internacionais de Órgão, em Portugal, Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Tem-se dedicado à apresentação, em primeira audição, de algumas obras do P. Ferreira dos Santos.

Agora, é tempo de meditarmos sobre tudo isto em silêncio, deixando a música fluir e operar em nós estas mudanças, convidando-nos à consonância, ao equilíbrio do som, à afinação, à harmonia de um instrumento de que todos fazemos parte (a Igreja), cada qual com o seu som e função específicos, construindo, dia a dia, hora a hora, a mais perfeita obra musical.

Muito obrigado pelo vosso convite e pela vossa participação.

14 de Fevereiro de 2010 – A cena final de «Cinema Paraíso»

O filme «Cinema Paraíso», de Giuseppe Tornatore, termina com uma montagem das mais famosas cenas amorosas de clássicos do cinema, depois de terem sido (no filme) censuradas pelo padre local, e que o responsável pela sala de cinema daquela pequena aldeia italiana montou, para deixar como herança ao seu pequeno ajudante (que, entretanto, se tornou num famoso realizador). Num dia em que se fala (ou não) muito de amor, prova-se assim que, muitas vezes, são as coisas mais pequenas que mais facilmente se transformam em arte, em sentimento, em amor, em mensagem do que de mais puro, forte, intenso, inexplicável e de busca de complementaridade se pode imaginar.

13 de Fevereiro de 2010 – Restaurante Casa da Música

No sétimo piso (o mais alto) da Casa da Música, há um restaurante que merece ser conhecido. Não só pela belíssima decoração, um aproveitamento soberbamente bem feito de uma instalação de Pedro Cabrita Reis, concebida inicialmente para figurar em duas óperas apresentadas na Casa, mas também pelo simpatiquíssimo atendimento, e, sobretudo, pelos sabores. Experimente começar com um creme de nabos com ervilhas, passe pelos pequenos  filetes de perca com emulsão de tomilho ou por um peito de peru recheado com castanhas, e termine com um leite creme de framboesas. No fim, desfrute da paisagem do terraço da Casa, e arrume na memória a subtileza de cada um dos sabores que aqui se podem conhecer, como se fossem sons. Conselho: leve a sua melhor companhia.

12 de Fevereiro de 2010 – «O Polvo», ou a «Face Oculta» de Sócrates

A insegurança, o nervosismo e as tiradas cáusticas (mais do que o habitual) de Sérgio Sousa Pinto, no «Corredor do Poder» de ontem, na RTP, juntamente com as últimas notícias, indiciavam, claramente, que vinha aí bomba. Depois da «novela» da Providência Cautelar, e de várias entrevistas, a roçar o desastroso, por parte do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o jornal «Sol» (já não) está nas bancas, e promete «edição extra» à tarde. Entretanto, o Ministro da Presidência também disse umas coisas, dando a entender que, em Portugal, a verdadeira oposição ao Governo e ao PS, que tem uma estratégia de «assalto» ao poder e pouco respeito pelos resultados eleitorais, é o «Sol». Pelo menos, é o que se depreende. De qualquer forma, quem ler a edição de hoje do jornal fica com um panorama pouco abonatório da forma de se fazerem negócios (e da forma de se fazer política) em Portugal. Pode, eventualmente, também ficar com um panorama pouco abonatório de se fazer jornalismo (o que não me parece). Ou sã0 coincidências a mais, ou andamos todos loucos. Ou ambas as coisas.

Comunicado

A Edição do Sol que foi hoje para as bancas, cumprindo o que a Direcção anunciou em comunicado divulgado ontem, esgotou em todo o país às primeiras horas da manhã.

Assim, a Administração e a Direcção do jornal decidiram a publicação de uma EDIÇÃO EXTRA, em que já se inclui a providência cautelar interposta contra a saída do Sol e comunicados da Administração e da Direcção. Esta Edição Extra será ainda complementada com toda a investigação relativa ao caso Face Oculta publicada pelo Sol na passada semana, cuja edição também esgotou em muitos pontos de venda.

Com esta iniciativa, o Sol está convicto de que presta um serviço aos leitores e ao país.

A Edição Extra do Sol estará nas bancas a meio da tarde de hoje.

Lisboa, 12 de Fevereiro de 2010

A Administração e a Direcção do SOL

11 de Fevereiro de 2010 – A entrevista de Paulo Rangel ao «Público»

Paulo Rangel surge, hoje, em entrevista ao jornal «Público». A entrevista merece leitura atenta, mais sob o ponto de vista da substância do discurso do que da (eventual) concretização das ideias. A «ruptura», que surge, repetidamente, no discurso do (agora) candidato é, de facto, a maior necessidade que enfrentamos. Ruptura com o passado. Ruptura com o preconceito. Ruptura com esta forma «controleira» e arrogante de se fazer política por se fazer. E, sobretudo, ruptura de uma visão parva de se pensar o futuro ano a ano, ou de ciclo eleitoral em ciclo eleitoral, hipotecando, pouco a pouco, o futuro e o bem-estar dos vindouros. Ainda do ponto de vista do discurso, Paulo Rangel é verdadeiro quando aponta que a unidade é algo «de fachada», procurando ser mais amplo do que um simples pacificador das hostes ou interlocutor entre «barões» e «notáveis», com simples preocupação com as bases para o voto, e mais nada. E, a cereja no topo do bolo, alerta os portugueses para o facto de aquela senhora, que nos cartazes não ficava, de facto, muito bem, mas que se comprometeu a «falar verdade» aos portugueses, tinha, de facto, razão, apesar de todo o desastre que tem sido o PSD nos últimos tempos. Do ponto de vista do discurso, Paulo Rangel está onde um sério candidato à vitória tem de estar. Mas todos sabemos que vai uma grande diferença entre o discurso e a operacionalização. E quando a «máquina» é o PSD, as coisas não passam tão facilmente.

Três candidatos representam três visões (mais ou menos diferentes) do objecto. Nesta altura, o PSD precisa de um candidato que, verdadeiramente, represente um partido transversal, com grande implementação, e que possa devolver aos portugueses o Portugal pensado por Sá Carneiro. Não havendo um candidato único, que possa cumprir o desiderato de devolver-nos Portugal, continuamos a assistir à ascensão e queda de segundas escolhas. Talvez porque, internamente, o PSD é democrático demais, permitindo, muitas vezes, que «qualquer um» possa sonhar.

«Não pode uma sociedade pôr encargos tais sobre o futuro das suas gerações que elas fiquem sem nenhum espaço de liberdade e que tenham uma de duas soluções, serem escravas da dívida anterior ou emigrar. A grande ruptura que se tem de fazer nas políticas tem de ser voltar a dar outra vez a oportunidade a cada geração de gerir o seu destino».

«A grande tarefa do PSD não é a unidade, mas a clarificação do seu projecto. É saber se quer ser o partido de ruptura pela terceira vez. A unidade não deve ser a nível ideológico. Unidade é não fazer distinções entre aparelho e elites, bases e barões, os regionalistas e os dos continente. Unidade é o respeito pela idiossincrasia de cada um».

«Isto é uma candidatura solitária. Não conversei com estruturas partidárias, não conversei com dirigentes do partido, muitos deles foram apanhados de surpresa. Informei a dr.ª Manuela de que ia avançar, como informei outras pessoas. Mas o apelo que mais senti era na rua».

«Foi um mandato [de Manuela Ferreira Leite] no qual tive muita honra e gosto em colaborar e credibilizou o partido. Manuela Ferreira Leite teve ainda a felicidade de ser presidente do partido quando o país já percebeu que ela teve razão na maioria das suas bandeiras. Três meses depois das legislativas, é evidente para todos que as suas principais preocupações eram aquelas que verdadeiramente podiam afligir o país. Significa que ela, ao contrário do Governo, estava em sintonia com a realidade».

(Paulo Rangel, Eurodeputado, em entrevista ao jornal «Público» de hoje)

10 de Fevereiro de 2010 – «Três Marias» na disputa do PSD

Em poucas horas, o PSD passou de um para três candidatos à liderança, o que constitui um facto político que, facilmente, vai apagar do espaço mediático toda a trapalhada socialista dos últimos dias, contribuindo, assim, decisivamente, para que se deixe de debater coisas incómodas. É um bom serviço que o PSD presta aos socialistas. Pedro Passos Coelho, uma espécie de «produto de marketing», já tinha apresentado a sua candidatura, obedecendo, de forma escrupulosa, à sua agenda comunicacional de «produto». Entretanto, quando Paulo Rangel anunciou a sua apresentação para as 20:00 de hoje, Aguiar-Branco disse pronunciar-se em breve, seguindo a sua agenda de uma «espécie de político profissional», que, sem o rótulo PSD, «não vende». Por fim, Paulo Rangel apresentou candidatura à hora dos telejornais, fazendo uma espécie de síntese entre as formas de estar dos outros dois candidatos, fazendo-se aparecer num estilo preparado, abrangente, «basista» e dirigido directamente aos portugueses, militantes ou não. Rangel tem o «handicap» de fazer lembrar Durão Barroso, que foi saltitando de lugar em lugar, numa ascensão «engraçada» de independente a líder de bancada e a deputado europeu, vencendo umas eleições feitas de candidatos de uma perfeita segunda linha. Uma espécie de produto de marketing, uma espécie de político profissional e uma espécie de Durão Barroso são os três candidatos à liderança do PSD. Quando se esperava que uma verdadeira alternativa a este pântano, na acepção mais perfeita dos dois termos («alternativa» e «pântano»), pudesse dar uma réstea de esperança a Portugal.

«O PSD é o partido da ruptura em Portugal. Foi o PSD que pilotou a ruptura com a tutela militar e assegurou a passagem definitiva para uma democracia tipo ocidental. Foi o PSD que nos libertou da colectivização da economia. (…) Já não é ‘normalizar’ a democracia civil; já não é libertar o país do colectivismo de Estado. É pura e simplesmente a de libertar o futuro. (…) Neste estado de coisas, já não basta mudar, é preciso romper. (…) [A candidatura] não dispõe de exércitos alinhados, nem foi inspirada em almoços ou reuniões com estruturas partidárias ou com personalidades gradas do partido”. “É uma candidatura desprendida, aberta igualmente a todos, porque solitária, que se começa a organizar. (…) A esperança, essa que veio a ser o último direito que os socialistas nos espoliaram. Somos hoje, desgraçadamente, um país sem esperança. Como disse Sá Carneiro. ‘Portugal não pode ser isto e não irá ser isto’. (…) A partir do PSD vamos dar um novo sentido à política em Portugal».

(Paulo Rangel, Eurodeputado, na apresentação da sua candidatura à liderança do PSD)