1 de Março de 2010 – A democracia já não basta

A democracia já não nos chega. Sabemos bem que, de todos os maus sistemas, a democracia é o menos mau. Mas, mesmo sendo o menos mau, o tão mau em que se está a transformar é mau demais. Os nossos representantes já não nos representam, ou então representam o pior de nós, fazendo-nos desacreditar na ideia política de que o homem é intrinsecamente bom, mas a sociedade é que o corrompe. O que parece acontecer, é que a sociedade, ou melhor, a política amplia o que de pior temos. Quantos de nós não precisariam, neste momento, de se «desenrascar», de «ter um bom emprego», de poder «pôr e dispor», de ter poder? Talvez sejam só algumas das razões para sentirmos que delegar poder, como a democracia nos pede, já não nos chega, sendo uma das soluções possíveis decretar que os votos brancos, nulos e as abstenções possam contar para o preenchimento de lugares no Parlamento. Porque em alguns casos, apesar de haver quem as preencha, parece que temos, de facto, as cadeiras vazias.

28 de Fevereiro de 2010 – A diferença entre estar e não estar

Apesar de nem sempre o sentirmos da melhor forma, muitas vezes a diferença reside apenas entre estar e não estar. Mesmo que impere o silêncio, porque se temos dois ouvidos e uma só boca, algo deve significar. Mesmo que não encontremos as palavras correctas, das muitas que nos povoam. Mesmo que só consigamos apresentar um olhar confuso e impotente. A diferença substancial é entre estarmos e não estarmos. Mesmo que nos desculpem as palavras que não ajudem nada. Mesmo que o que digamos não altere um grão de areia que seja, em todo o universo. A diferença substancial é entre estarmos e não estarmos. Haja o que houver, eu quero estar. Sempre.

27 de Fevereiro de 2010 – Redescobrir Barack Obama

Numa altura em que a chama de Barack Obama parece não estar tão vigorosa, curioso ou não, redescubro o homem (ou o que se faz dele), através do livro «A minha herança». Fruto de uma oferta generosa e muito simbólica, primeiro estranhei mas, confesso, começo quase a entranhar. O conflito interior de um negro, na América das oportunidades, quando a afirmação dos negros era tudo menos pacífica. As dificuldades de expressar um sentimento de revolta e inadaptação. Os erros e os acertos de um homem que, no fundo, apesar da cor, dos defeitos e maus caminhos, apesar de ser o homem mais importante do mundo, apesar do Nobel da Paz, apesar de tudo, no fim de contas, um homem como outro qualquer, com um percurso como outro qualquer. Mas que é interessante acompanhar, redescobrir.

26 de Fevereiro de 2010 – «Silêncio», música sacra contemporânea

Acredito firmemente que precisamos de silêncio. Precisamos de silenciar o pântano, o correr das águas das intempéries, os alertas intermináveis, esta chuva, este granizo imparáveis. Porque, ao mesmo tempo, apetece perguntar a Deus o porquê disto tudo, se a Ele tudo é possível, se Ele nos quer bem. Porquê? Porque nos dá a hipótese de escolhermos, quase sempre, entre dois ou mais caminhos, apesar de, às vezes, chegarmos a becos sem saída. Para nos ajudar a fechar os olhos e procurar esse silêncio quase «oracional», apareceu-me este projecto: «Silêncio». Trata-se de uma edição discográfica de música sacra contemporânea, que surge devido às comemorações dos 25 anos do Departamento do Património Histórico e Artístico da diocese de Beja. É um conjunto de obras que foram encomendadas para este efeito, e que são interpretadas pelo «consort Sete Lágrimas», obras essas que foram compostas por um católico (João Madureira), um ortodoxo (Ivan Moody) e um protestante (Andrew Smith), que usaram textos do Génesis, das Lamentações e da Paixão. Façamos silêncio.

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25 de Fevereiro de 2010 – MFL: o último canto do cisne?

Nestes dias, que são os últimos, Manuela Ferreira Leite, finalmente, desempenha completamente o papel de líder do maior partido da oposição. Toda a gente sabe que sempre disse a verdade, embora quase ninguém o reconheça, mesmo depois de comprovada. E agora, andamos entretidos com «fait-divers» mediáticos, sobre (des)controles na comunicação social, esquecendo, enquanto passamos os olhos distraídos pela desgraça da Madeira, que o país (ainda) está (e estará?) de «tanga». Estamos «taco a taco» com a Grécia, não há que enganar, por muito que nos custe admitir. Por muito que a (aborrecidíssima) arrogância de Jorge Lacão, ao pedir a retirada das declarações da líder do PSD, tente desmenti-lo, ou sequer disfarçá-lo. Somos um país de disfarce, de falsas aparências, de «varrer para debaixo do tapete», de ir buscar fora quando não temos, e de ficar a dever mesmo que não possamos pagar nem sequer a médio/longo prazo. É pena que Manuela Ferreira Leite não tenha podido ser uma líder mais carismática. É pena que só agora tenha este «à-vontade» político. Mas fica o registo.

«Aquilo que eu disse sobre a Grécia foi uma verdade, que era a de que nós estaríamos num caminho semelhante que, se não fosse travado, se não fosse alterado, chegaríamos exactamente ao mesmo ponto. (…) E aquilo que eu disse, do meu ponto de vista, foi uma ajuda ao Governo, que é pena que o Governo não o entenda. Dei-lhes a abertura para eles perceberem que nós compreendemos que há um conjunto de medidas extremamente penosas para cidadãos, culpa das políticas erradas que este Governo tem seguido, mas que nós solidariamente nos absteremos para permitir que o país entre noutra rota. Portanto, foi uma ajuda que eu dei ao Governo. (…) O ponto mais grave é o Governo não estar consciente daquilo que vai ter de fazer e depois, de repente, os cidadãos vêem-se perante factos concretos, de que não estão à espera, para os quais não estão preparados».

(Manuela Ferreira Leite, presidente do PSD, em declarações aos jornalistas, após reunião do Grupo Parlamentar)

24 de Fevereiro de 2010 – Director do «Expresso» também se diz pressionado

Henrique Monteiro, director do jornal «Expresso» afirmou hoje, na audição da Comissão Parlamentar de Ética, que foi ilegitimamente pressionado pelo Primeiro-Ministro, por causa de uma notícia sobre a famosa licenciatura. Mas não só, e pior, é que a pressão não se deu depois, mas antes da publicação. E, como se não bastasse, o acesso a informação governamental passou, a partir de então, segundo o Director, a ser muito mais difícil. E é aqui que Henrique Monteiro fala do que tem de ser falado. O principal problema é que as entidades são, muitas vezes, simultaneamente objecto e/ou fonte de notícias, e as situações têm sempre um revés, quanto mais não seja na contenção do acesso às informações. Não é preciso fazer-se censura, nem prévia nem «póstuma». É mais um caso para se discutir.

«Na noite de uma quinta para sexta-feira o senhor primeiro-ministro telefonou-me e pediu-me por tudo para não publicar uma notícia sobre a sua licenciatura».

(Henrique Monteiro, director do jornal «Expresso», durante a audição na Comissão Parlamentar de Ética)

23 de Fevereiro de 2010 – «The cool hunter», para encontrar novidades «cool»

Já há algum tempo que o meu amigo Nobre Silvestre me tinha recomendado este espaço, mas ainda não tinha digerido por completo a imensa qualidade do «The Cool Hunter». Basicamente, trata-se de um «site» que procura divulgar as novidades mais recentes da arquitectura ao design, da música aos «gadgets», da moda à publicidade, etc., etc. Um dos artigos é sobre uma casa no Gerês, com assinatura portuguesa e italiana, um exemplo de arquitectura moderna e arrojada. Mas há mais, muito mais, como anúncios de publicidade absolutamente surpreendentes, fotografias de espaços com um design de interior inacreditável, algumas novidades musicais, e muito mais. Numa altura em que faltam as boas notícias, sabe bem vermos que há vida para além do pântano.

22 de Fevereiro de 2010 – A vontade de ter um botão «off»

Hoje é um daqueles dias em que a sucessão de acontecimentos, aparentemente casuais, desaguam numa vontade imensa de pressionar um botão de «off», e desligar tudo. Deligar as notícias da Madeira. Desligar a chuva e o vento copiosos, que não nos largam. Desligar os maus estares que nos povoam. Desligar o cansaço que toma conta de nós. E depois, ligar tudo outra vez, mas em bom. É pena não termos, pelo menos, alguns créditos destes, para, de vez em quando, podermos ir pelo caminho mais fácil, e não pelo único que se nos apresenta.

21 de Fevereiro de 2010 – Vozes do Renascimento, na Casa da Música

O programa era aliciante: Duarte Lobo, Carlo Gesualdo e frei Manoel Cardoso, três grandes compositores da época renascentista, inovadores em muitos dos elementos que utilizaram, e, frequentemente, relegados para segundo plano. Intervenientes, o Coro Casa da Música, dirigido por James Wood. A proposta de Wood era arrojada, quer pelo facto de ter uma reconstrução musicológica sua de uma das obras, quer pelo facto de se tratar de um concerto que se adivinhava longo. Colocar num mesmo concerto os «Motetes de Sacrae Cantiones II» de Gesualdo (a tal versão reconstruída por James Wood), a «Missa Regina Caeli laetare», de Manuel Cardoso e «Audivi vocem de caelo» e «Pater peccavi», de Duarte Lobo parecia ser quase hercúleo. E revelou-se, de facto, longo. O concerto começou de uma forma absolutamente áurea, com uma sonoridade que parecia perfeita, mas, com o passar do tempo, o cansaço foi-se notando e, aqui e ali, algumas quebras forçaram mesmo o maestro a recomeçar logo após o primeiro acorde. Contudo, a aventura valeu a pena, quanto mais não seja para conhecermos alguma da música obrigatória deste período, muita dela feita dentro das nossas fronteiras, e que em muito pouco ou nada fica atrás do que de melhor se fazia pela Europa.

20 de Fevereiro de 2010 – Catástrofe na Madeira

Nunca visitei a Madeira. Sei, contudo, por alguns amigos oriundos da ilha, como vive este povo. E é injusto tudo isto, mesmo que nada do que façamos, digamos ou pensemos altere nada do que aconteceu. O que aconteceu é que havia risco, como sempre há onde há pessoas. A Natureza manifesta-se, quer haja intervenção abusiva do homem ou não. Sucede que, na maioria dos casos, não sabemos como devemos agir. Optamos, muitas vezes, por proceder exactamente ao contrário do que devemos, tentando salvar bens em vez de vidas, ou então querendo «ver o que se passa», esse terrível vício, que só nos prejudica e a quem está no terreno. Seja por que razão for, aconteceu o que aconteceu. Curiosamente, na região que suscitou altos debates na nação, e sob a direcção política de um dos políticos mais controversos do país. Há destas coisas.