29 de Junho de 2010 – Num imenso carrossel

Num carrossel de emoções, num carrossel de bom futebol, num carrossel de desgaste. Foi mais ou menos em tudo isto que Portugal embarcou, ao perder por 1-0 com a Espanha. Fomos, de facto, inferiores. Talvez nunca ganhássemos. Mesmo com Eduardo a superar-se, com Fábio Coentrão em grande, com uma defesa que se foi portando bem, talvez nunca ganhássemos, frente a uma Espanha com meia equipa do Barcelona, o que faz dela uma das melhores selecções do mundo, indiscutivelmente. Não precisamos de ser o que não somos, apesar de Deco, Ronaldo, ou o que quer que seja. Somos um país pequeno, onde se tudo o que vai mal fosse como o futebol, estaríamos bem. Num campeonato onde França, Itália e Inglaterra deram a imagem que deram, sair de cabeça levantada como Portugal saiu não é, de forma alguma, desprestigiante.

28 de Junho de 2010 – Portugal, um retrato social (a preto e branco)

Se não houvesse apoios sociais, os 20% de portugueses pobres teriam a companhia de outros tantos. Na prática, temos 40% de pobres em Portugal. Voltámos a um Portugal resignado, a preto e branco, que em muito faz lembrar «Deus, Pátria e Família», ou os três «F», só que desta vez todos bem condensados num grande «F» de «Futebol». Somos forçados a relegar para segundo plano as nossas expectativas e anseios, aprendendo a considerar felicidade a forma como nos desenrascamos. As conclusões são de um estudo promovido pela TESE – Associação para o Desenvolvimento, coordenado pela Fundação Gulbenkian e pelo Centro de Estudos Territoriais do ISCTE, e dão voz «científica» àquilo que sentimos na pele todos os dias. Àquilo que esbarra nos muros do autismo dos políticos que nos governam, absolutamente distantes, desligados, desinteressados e desdenhosos do povo que os elege.

«Um quinto dos inquiridos tem dificuldades no pagamento das contas da casa, 12 por cento não tem dinheiro para comprar todos os medicamentos de que precisa. Para 21 por cento das famílias-sanduíche a capacidade para suportar despesas inesperadas é inexistente. Mas isto é o que sucede também com 21,5 por cento do total de agregados portugueses. Gente normal, portanto. Como o são também Vera, de 35 anos, e Henrique, de 38, ela com um bacharelato, ele doutorado a viver de bolsas sucessivas e incertas. Vera diz sentir a vida “hipotecada”».

(in jornal «Público»)

«As pessoas silenciam as suas necessidades se não virem condições de as satisfazer, baixam as suas expectativas e acabam por se conciliar com a sua própria vida. Nesse sentido, a sociedade portuguesa embora tenha muitas privações, emerge como uma sociedade relativamente feliz e satisfeita consigo própria».

(Isabel Guerra, uma das autoras do estudo promovido pela TESE, em declarações à «TSF»)

26 de Junho de 2010 – Ontem, como irmãos

«Como irmãos», Brasil e Portugal carimbaram, ontem, a passagem aos oitavos de final do Mundial com um empate a zero. Soube a vitória aos portugueses, e aos brasileiros não custou muito. Agora, depois do «país irmão», temos de nos haver com «nuestros hermanos», os mesmos de quem não esperamos «nem bom vento, nem bom casamento», mas de quem esperamos (talvez) o apuramento.

25 de Junho de 2010 – Segunda audição dos guitarristas

Hoje foi dia de audição final da turma dos guitarristas. Fruto de um trabalho mais ou menos árduo, apresentámos algumas peças que demonstraram a nossa evolução desde a estreia. A experiência foi muito positiva, e, em princípio, irá continuar. Faltam aqui alguns, mas estes são os «meus» músicos, que se portaram à altura do grande desafio, e não perderam a oportunidade de promoverem o convívio e os bons sabores antes da «performance». Parabéns a eles.

24 de Junho de 2010 – Concerto de Órgão, a 4 de Julho

No próximo dia 4 de Julho vou ter a honra de partilhar o prazer que é tocar no órgão de tubos do Mosteiro de Arouca. O concerto está marcado para as 16:00, e vai contar com o talento e a musicalidade dos meus amigos e colegas de curso Vasco Soeiro e António Ricardo Toste. O domingo promete ser preenchido, com várias actividades a decorrerem de seguida, e esta poderá ser a melhor forma de terminar o dia. O programa promete ser variado, interessante e dignificar o instrumento. Temos procurado encarar este desafio de uma forma altamente profissional, embora (hábito geral) nem sempre quem promove ou assiste o encare como tal. São várias horas, vários dias de preparação, que não se contabilizam. O resultado pode ser «ouvisto» no dia 4 de Julho, a partir das 16:00, no Cadeiral do Mosteiro.

23 de Junho de 2010 – Alguns problemas quanto às portagens nas SCUT

E se os automobilistas, em protesto, retirarem as matrículas e passarem nos pórticos sem elas? E os estrangeiros, como vão pagar as portagens? E como temos informação de quanto nos está a custar a passagem na via, ou não temos direito a saber, e só vamos ver quando consultarmos o saldo de conta? Estas são algumas das questões por responder, e que aumentam ligeiramente a irritação de ouvirmos sempre os mesmos políticos, com timbre de voz autista, falarem cheios de pruridos, desmentindo (sem nunca desmentir) que esta medida está, basicamente, a onerar os bolsos dos nortenhos. Isto para não falar de quem não tem acessos dignos, nem «portajados» nem por «portajar».

22 de Junho de 2010 – Domenech não estende a mão

Raymond Domenech protagonizou, provavelmente, a imagem mais feia do Mundial. No final do jogo com a África do Sul, que por um golo (o mesmo golo que a França marcou nesse jogo, e que não serviu de nada) não se qualificou para a fase seguinte, evitou o cumprimento de Carlos Alberto Parreira, seleccionador sul-africano. De facto, a selecção francesa foi tudo o que de pior se poderia esperar neste Mundial, a começar, precisamente, pela forma como conseguiu a qualificação. A fama da parvoíce de Domenech ganha, assim, ainda mais consistência, fazendo cair o pano, da pior forma possível, sobre a sua passagem pela selecção gaulesa. O futebol, a esta escala, é um espectáculo de emoções, de grande pressão, mas também visto em todo o mundo. E de espectáculos como este o futebol não precisa.

21 de Junho de 2010 – «Sete pecados mortais», e agora o Brasil

Portugal «deu-lhe a sério», contra a Coreia do Norte. Depois dos 7-0, talvez as deserções entre os norte-coreanos aumentem, para se livrarem dos castigos do verdadeiro seleccionador nacional: o Imperador Kim Iong-Il. Ronaldo voltou aos golos, e Portugal, que praticamente parou para ver o jogo, rejubilou com cada um dos golos, antevendo, um após o outro, um melhor cenário contra o Brasil e uma presença quase garantida na fase seguinte do Mundial. O próximo jogo é na sexta-feira, precisamente contra o «escrete», e será, no mínimo, um jogo curioso.

20 de Junho de 2010 – As intermitências da morte

Saramago morreu. Um homem português, que alcançou o que, provavelmente, nenhum outro português alcançará tão cedo. Polémico. Ateu. Controverso. Agitador. À distância, e graças às «intermitências da morte», achamos provinciana a forma como o Governo português de então o «censurou». Hoje, e bem, criticamos. Tal como hoje ele nos prova que tinha razão. Cavaco Silva não se deixou intimidar por essas «intermitências», e não se esquivou das duras críticas de que seria tempo de «enterrar o machado de guerra». Mas, firme de convicções, manteve a sua postura, e não se fez representar no último adeus ao prémio Nobel, que recebeu do Governo, do Estado, do povo português as honras devidas. Mesmo sem o Presidente presente. O tempo dirá se foi provinciano ou se tinha razão, sendo mais provável a primeira hipótese. Mesmo que Cavaco queira passar a ideia que nem a morte o intimida. Embora saibamos que, inevitavelmente, ela também o espera. Talvez uma pequena intermitência tivesse sido preferível.

19 de Junho de 2010 – O automatismo dos dias

O tempo vai passando, implacável, e as coisas vêm chocando connosco, sem que nos possamos desviar delas. É preciso dar-lhes sequência, dar-lhes o tempo e espaço de que precisam. E voltam mais coisas, com menos tempo, que continua a passar, implacável. À frente, esperamos que as coisas abrandem, ou que possamos fechar os olhos a este turbilhão diário, sequencial, quase determinado. E há tanta coisa, lenta, bela, calma, com que podemos inebriar-nos. Se este automatismo diário nos permitir. Ou se nós nos permitirmos isso a nós mesmos.