Segundo se pode ler em alguma imprensa de hoje, o governo pretende gastar 439 milhões de euros com trabalhadores a recibo verde. O mesmo governo que anuncia uma «guerra» contra a precaridade e contra este regime laboral, é um dos principais contratadores deste tipo de mão-de-obra. Segundo os números do governo, 10 mil dos seus trabalhadores estão em regime de avença ou tarefa, mas os sindicatos dizem que são 10% do total de trabalhadores. Números à parte, é muita gente, de uma forma ou de outra. E é muito dinheiro. Mas a notícia serve, sobretudo, para chamar à atenção para a realidade de quem é «trabalhador independente». É alguém que não tem apoio na saúde, que não tem horário mas que tem de o cumprir, que não tem direito a subsídio de desemprego, que tem de fazer os seus próprios descontos em sede de IVA, IRS e Segurança Social, que não tem hora certa para receber, que tem a seu cargo todas as despesas necessárias para poder trabalhar e que o Estado considera arrecadar de lucro 70% do que factura. Hoje mesmo, sabe-se que esse mesmo Estado resolveu aumentar a taxa contributiva para a Segurança Social destes trabalhadores, que, como se não bastasse a precaridade e as dificuldades, também têm de pagar a crise. Passam, assim, a pagar 29,6% (mais 5% do que actualmente). Há gente, como eu, que sempre trabalhou a recibo verde, e que sabe bem o que significa estar neste regime. Em termos de pagamentos, em termos fiscais, em termos contributivos, ou até mesmo para se conseguir um empréstimo para qualquer eventualidade. Hoje o governo dá sinais completamente contrários ao que devia e ao que propagandeou. Apetece voltar atrás no tempo, e voltar a gritar: «os ricos que paguem a crise».
20 de Outubro de 2010 – Abandonemos a cultura
Com o fim do abismo cada vez mais próximo, parece inevitável que se vá abandonando o que é (pelo menos aparentemente) supérfluo e desnecessário. Assim sendo, vai sendo tempo de abandonarmos a cultura. Porque, ao contrário do que nos dizia a Ministra, no início do mandato, a cultura não nos vai ajudar a salvar da crise. A cultura é, para quem governa, um gasto. É um entretenimento. É um palco dentro de um palco, para passear vaidades. É uma montra. Abandonemos, portanto a cultura. Comecemos por deixar de parte os eventos marcantes e importantes para a elevação do espírito. Passemos depois pelos cortes na cultura que é levada ao chamado «Portugal profundo», e abandonemos também essa gente, deixando-os sem qualquer oferta de nível. Progressivamente, vamos secando as fontes de sobrevivência do movimento associativo. Não percamos tempo, e escondamos as nossas misérias dentro das nossas quatro paredes. Não abandonemos o futebol. Mas abandonemos a cultura.
19 de Outubro de 2010 – Apesar da crise, o Estado vai gastar mais dinheiro em publicidade
A dúvida já pairava há algum tempo, mas agora soube-se. Apesar da crise, o Estado (ou o PS?) nunca abdicou de cuidar muito bem das suas cerimónias públicas, para que as transmissões televisivas corressem bem, para que a mensagem ficasse bem decorada, para que a pompa exigida não faltasse. Dezassete milhões de euros, foi quanto custaram as rubricas de «publicidade e exposições», durante este ano. Mas não é só. Para o ano, o Estado prevê gastar mais seis milhões, elevando para 23 milhões de euros o valor previsto para estes gastos. Na rubrica «publicidade», o aumento é de 30%, e em «seminários» de 46%. A Presidência do Conselho de Ministros aumenta a sua despesa em 500%, alegadamente porque os Censos 2011 precisam de muita divulgação. Mais. A rubrica «artigos honoríficos e de decoração» tem um aumento de 30%. Isto são factos. Factos que denunciam estratégias caras de prolongamento de poder, pagas pelo erário público. E, apesar da crise, a despesa aumenta. Dá que pensar.
18 de Outubro de 2010 – Juizes pagam a «factura» por incomodar «boys»
Foi preciso alguma pesquisa para encontrar a notícia, que, com o passar das horas lentas de mais um dia banhado pela crise, se foi esfumando. O presidente da Associação Sindical de Juízes afirmou que os cortes nas remunerações dos magistrados são uma espécie de «factura» a pagar pelo incómodo de alguns «boys» do PS em alguns processos. Em declarações à «TSF», António Martins chegou mesmo a referenciar os processos «Face Oculta» e Casa Pia, como os exemplos mais gritantes desta situação. As «picardias» entre magistrados e políticos é algo que pauta o nosso dia-a-dia, porque, queiramos ou não, são uns e outros quem nos governa. Mas o que, de facto, dá que pensar é a forma como, sub-repticiamente, a notícia foi desaparecendo na espuma do dia, apesar da gravidade das afirmações. Não houve reacções, não houve contra-ataques, nem defesas, nem acusações. Só um estranho e ensurdecedor silêncio. Como o de José Sócrates sobre o país que (ainda) governa.
«Os juízes sofrem um corte global de 18% porque, além da remuneração, os seus suplementos, neste caso um único suplemento que têm de compensação, é reduzido em 20%. É a única classe profissional que vê esta machadada. Estamos efectivamente a pagar a factura, de no exercício das nossas funções, não olharmos a quem e, portanto, termos incomodado os ‘boys’ do Partido Socialista.»
(Juiz António Martins, presidente da Associação Sindical dos Juízes)
17 de Outubro de 2010 – Na ressaca da história
«Nunca perdemos aqui», lia-se numa faixa, em pleno Estádio da Luz, antes do início do jogo Benfica – Arouca. E foi exactamente por aí que se fez história. Independentemente da derrota, dos números, das diferenças, o FC Arouca, que ainda há pouco tempo lutava por uma sobrevivência nos campeonatos distritais, no campo pelado do Afonso Pinto de Magalhães, esteve ontem num dos maiores (para mim o maior) palco futebolístico nacional, defrontando jogadores de nível internacional. No final do jogo, a faixa poderia ser alterada para «perdemos aqui pela primeira vez», mas isso pouco importa. A partir de agora, o FC Arouca pode iniciar uma outra estatística, em que os termos de comparação já estão muito para além das quatro linhas do saudoso Afonso Pinto de Magalhães.
16 de Outubro de 2010 – «Boy» do PS oferece «tacho» a deputado «incómodo»
Em estados menos evoluídos, a confusão entre partido de Governo e Estado é tolerável. Em Portugal, não deveria ser, mas é. Victor Baptista, deputado eleito por Coimbra e candidato à liderança daquela distrital socialista, acusa o chefe de gabinete de Sócrates de várias irregularidades no processo eleitoral, incluindo mesmo um convite à desistência de Baptista, a troco de um cargo numa empresa pública, pago a peso de ouro. O artigo do deputado, publicado no «Diário As Beiras», é elucidativo, denunciando o que conhecemos bem do interior dos partidos nestas alturas: ofertas, ameaças, processos pouco claros no acerto de quotas. Mas o que é mais grave é que, descaradamente, se ofereça a um «camarada» um cargo público, que custa várias dezenas de milhar de euros ao erário público, a troco de uma desistência de umas eleições internas. O PS não é o Estado, e isto diz bem de como somos governados. Pena que os órgãos de comunicação social desvalorizem um acto tão pouco dignificante de uma democracia que se diz evoluída, mas que não passa de um pântano sujo e mal cheiroso, em que nos chafurdamos incansavelmente.
«A tramóia começou muito cedo, contactos, ofertas para escolher um qualquer lugar de gestor público, desde o metro em Lisboa, à CP, ou REFER, até acenavam com a cenoura de 15 mil euros mensais»
(Victor Baptista)
15 de Outubro de 2010 – Júlio Pereira vence prémio «Disco do Ano»
«Graffiti» é o nome do trabalho que dá o prémio «Disco do Ano» a Júlio Pereira. Trata-se de um verdadeiro objecto de arte, que conta com as suas composições e prestações multi-instrumentistas, com as letras de Tiago Torres da Silva, e os desenhos de Tiago Taron (que criou um desenho para cada canção, bem como a capa e o próprio cd). Como se não bastasse, Júlio Pereira escolheu dez vozes femininas de eleição. Sara Tavares, Dulce Pontes, Olga Cerpa (oriunda das ilhas Canárias), Marisa Liz (ex-vocalista dos Donna Maria), Nancy Vieira, Manuela Azevedo (dos Clã), Maria João, Sofia Vitória, Filipa Pais e Luanda Cozetti. Vale a pena fazer parte deste «Graffiti», ainda que como ouvinte/espectador. Porque é, como é hábito em Júlio Pereira, um objecto em que toda a arte nele contida é de superior qualidade. Coisa (cada vez mais) rara em Portugal.
14 de Outubro de 2010 – Leituras sobre Camarate
Francisco Sá Carneiro, pela sua acção e pela forma trágica e obscura como desapareceu, conservará sempre uma auréola muito própria de estadista, uma imagem de seriedade, progressismo e modernidade, que foi, de uma forma ou outra, impedida de vingar e de pugnar por um Portugal melhor. A sua morte, bem como a morte de Adelino Amaro da Costa e dos respectivos colaboradores e familares de ambos, constitui um dos mistérios lusos, que, vemos hoje, não será nunca resolvido. Portugal tem esta propensão para a mitologia sebastianista, e parece que a máxima de que a história se repete é verdadeira. De dois fôlegos, praticamente «devorei» o livro de Inês Serra Lopes, escrito em 1995, sobre o desastre de Camarate. Nele são levantados factos, contradições, depoimentos, afirmações que levam a crer que não se terá tratado de um mero acidente, mas que alguém quereria, deliberadamente, aniquilar os principais pilares da vida política nacional da época (a saber, Sá Carneiro e Amaro da Costa, «cérebros» da AD, e Soares Carneiro, candidato presidencial da coligação). Quando se aventava a possibilidade de concretizar o lema de Sá Carneiro («um governo, uma maioria, um presidente»), tudo desabou, a bordo de um pequeno «Cessna». Sebastianista ou não, a sensação de que Portugal seria bem melhor se isto não tivesse acontecido é enorme. E nunca saberemos quem foram (ou se houve) os responsáveis por tudo isto. Enquanto isso, também nós vamos perdendo altitude, à espera do embate no solo, com ou sem explosão, onde acabaremos carbonizados e sem qualquer fractura, porque não teremos grandes possibilidades de nos libertarmos.
13 de Outubro de 2010 – A esperança que sai da terra, do outro lado do oceano
Às vezes, por acidente, descemos às profundezas. Às vezes somos também resgatados. Mas o resgate só acontece quando a esperança faz o seu trabalho, do lado de quem está preso ao subsolo. Foram mais ou menos estes os termos em que, hoje, se foi escrevendo a última página do resgate de 33 mineiros em Atacama, Chile. Algumas das primeiras palavras que foram sendo lançadas, no meio das emoções à flor da pele, dão que pensar. Eis, pois, vemos agora, o que um país e um povo podem fazer quando trabalham duramente e em conjunto. Disse o presidente chileno que «quando nos unimos somos capazes de grandes coisas. A alma do nosso país mostra o melhor de nós. O melhor do nosso país é o que vamos construir juntos». Nós, por cá, vamos continuando, nas profundezas de uma mina, à espera de uma fénix que nos ajude a resgatar as palavras de esperança que, há muito, abandonámos.
12 de Outubro de 2010 – Um sobrevivente de Varsóvia
Começa a deixar de se estranhar, e vai-se começando a entranhar a sonoridade que Shoenberg criou para emoldurar a peça «A Survivor from Warsaw». A música procura ser fiel ao relato de um judeu, sobrevivente do gueto de Varsóvia, quando os nazis separavam as famílias, matavam indiscriminadamente, ou indicavam o lento e doloroso caminho da morte nos campos de concentração. A peça será ouvida no próximo dia 30, conjuntamente com a Sinfonia n.º 9 de Beethoven, na Casa da Música.