Filipe Veríssimo e Tiago Ferreira são dois exímios organistas, e brindaram-nos hoje, na Casa da Música, com um fabuloso concerto, em que apresentaram os concertos para dois órgãos positivos de António Soler. É espantoso verificarmos a quantidade e qualidade de sons que um instrumento, aparentemente tão pequeno, pode produzir. E, ao mesmo tempo, verificarmos a mestria com que Soler joga com essa variedade, em melodias e harmonias que parecem, à primeira vista, simples, mas que são, no fundo, de um enorme virtuosismo. A excelência dos músicos e da música levou a que a Casa da Música tivesse de transferir este concerto para a Sala Guilhermina Suggia, num concerto, imagine-se, com entrada livre.
30 de Outubro de 2010 – Um (grande) hino à liberdade
Hoje foi o dia de, finalmente, ser apresentado o trabalho desenvolvido nas últimas semanas, na Casa da Música. Sob a fabulosa e contagiante direcção de Christoph König, Orquestra Nacional do Porto e Coro Casa da Música interpretam a Sinfonia n.º 9 de Beethoven e, antes da grande apoteose final, «A survivor from Warsaw», de Arnold Schönberg. Do lado de quem faz esta música, há a enorme vontade de, a plenos pulmões, transmitir um forte sentido de liberdade. Liberdade contra qualquer opressão, liberdade de pensamento e sentimento. Liberdade plena. Uma liberdade que só quem sente esta música consegue explicar. Através dos sons.
29 de Outubro de 2010 – Mais gente do governo metida na sucata
Segundo o «Diário de Notícias», a socialista Ana Paula Vitorino, enquanto Secretária de Estado dos Transportes, foi aliciada pelo (ao tempo) Ministro Mário Lino para facilitar os negócios com a empresa de sucatas de Manuel Godinho, por este ser «amigo do PS». A notícia é duplamente preocupante. Pelo conteúdo, porque, a ser verdade, significa que o PS e o Estado estão demasiado confundidos, não se sabendo onde acabam e começam os interesses de cada uma das partes. Pela forma, porque significa que as pessoas dos tribunais e das entidades de investigação não são de confiança, porque «deixam escapar» notícias destas, que, ao que parece, deveriam ser segredos de justiça. Por um lado, ainda bem. Por outro, dá que pensar.
28 de Outubro de 2010 – Coro Casa da Música em Arouca, a 13 de Novembro
Arouca vai ter o privilégio de receber o Coro Casa da Música, no Cadeiral do Mosteiro, no próximo dia 13 de Novembro, a partir das 18:30. Na «bagagem», o Coro traz polifonia sacra portuguesa, com especial enfoque em Frei Manuel Cardoso, compositor português do Renascimento. Passa-nos um pouco ao lado, mas trata-se de um dos expoentes máximos da polifonia deste período, sendo muita da sua produção uma referência em todo o mundo. Mas sofreu do mal de viver em Portugal, pagando, com séculos de esquecimento, o preço do isolamento. O espaço do Cadeiral do Mosteiro volta, assim, a receber um dos agrupamentos de referência no país, que nos mostra um pouco da (elevada) qualidade da música que ali se ouvia e praticava. É bom, com estas oportunidades, que ganhemos noção da importância do nosso Mosteiro para a evolução, divulgação e prática da mais alta cultura da sua época. Para que sejamos dignos herdeiros desse legado.
27 de Outubro de 2010 – Sócrates, ou a arte de gerir silêncios
Por um lado como resguardo em tempo de «guerra», por outro para que quando fale tenha mais impacto, José Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, e principal responsável pelo estado do país, vai gerindo o seu silêncio. Entretanto, Cavaco Silva assume a recandidatura, convida-nos a pensar em como estaria o país se não o tivéssemos como Presidente, diz que nem sempre o seu contributo foi bem acolhido e seguido pelas restantes forças do Estado. A crise continua sobre nós, como um machado, lado a lado com o cadafalso do Orçamento de Estado, que nem avança nem pára. As palavras vão sendo deixadas com cuidado, escolhidas com precisão e libertadas nos momentos tidos como oportunos. Estejamos vigilantes.
26 de Outubro de 2010 – Portugal continua mal posicionado nos «rankings» da corrupção
Apesar da ligeira subida, Portugal continua a não ver traduzidos na prática grandes esforços no combate à corrupção. Da «zona euro», só quatro países ficam atrás de nós, que ocupamos o 32.º lugar do «ranking» (Malta, em 37º; Eslováquia, em 59º; Itália, em 67º e Grécia, em 78º). Li algures, com dados de 2006, que 90% da corrupção praticada em Portugal surge nas autarquias. Neste momento, com o sistema informático de contratação pública, talvez os números estejam menos carregados, mas o que é facto é que, em 10 anos, a nossa posição foi, sucessivamente, piorando (de 23.º para 32.º). Melhorámos, mas, como diz um dos responsáveis pelos estudos, estamos na situação de um doente que tinha 40º de febre, e passou a ter 39,8º.
25 de Outubro de 2010 – Se nós também pudéssemos poupar…
É notícia hoje a poupança de 1,2 milhões de euros, no fornecimento de electricidade, que a «Refer» conseguiu, ao trocar a EDP pela espanhola «Iberdrola». Pena foi que a empresa portuguesa não pudesse ter alargado ainda mais o fornecimento por parte da eléctrica espanhola, podendo, com isso, talvez poupar ainda mais. É pena que nós, cidadãos portugueses, não consigamos fazer negócios destes. Continuamos a ter de viver com certos monopólios, claramente com a complacência do Estado, que, também por aí, vê os seus interesses salvaguardados. Assim, facilmente se explicam os prémios chorudos a gestores públicos, o exponencial aumento de lucros e investimentos que fazem títulos na imprensa. Mas os consumidores pouco sentem essa dinâmica. Resta-nos apagar as luzes com mais frequência.
24 de Outubro de 2010 – É a Cultura, estúpido…
Nos últimos 25 anos, há um sector em particular em que Portugal se tem imposto internacionalmente pela qualidade e pela quantidade de bons profissionais. É uma dinâmica que não se consegue no espectro de um qualquer governo ou de uma qualquer reforma política milagrosa, mas sim de um investimento sustentado na formação e no desenvolvimento. Os profissionais deste sector são reconhecidos um pouco por toda a parte no «mercado» em que se movimentam, e são, em muitos casos, dos melhores do mundo. Não, não é do desporto que se fala. É, neste particular, da música erudita contemporânea, e, por extensão, à cultura portuguesa. Portugal tem, neste momento, várias personalidades ligadas à composição que são verdadeiras referências internacionais, facto que a «opinião pública» vai negligenciando. Este ano, fruto de décadas de trabalho persistente, comemoram aniversários importantes o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, fundado por Jorge Peixinho há 40 anos, o Miso Ensemble (25 anos) e o Remix Ensemble (10 anos). Há um sítio na internet, o Miso Music, onde podemos ficar a saber mais coisas sobre isto. Porque nem só de futebol vive o homem.
23 de Outubro de 2010 – Um exemplo pouco Branquinho
Não é só da esquerda que vêm maus exemplos. No meio deste «salve-se quem puder», Agostinho Branquinho, deputado social-democrata que presidiu à «feroz» comissão de inquérito sobre a alegada interferência do governo no negócio da PT/TVI, renuncia ao mandato para «ponderar» um ingresso na «Ongoing», uma das «partes interessadas» nesse negócio. Verdadeiro «cruzado» da ética e paladino da rectidão, pleno de convicções fortes, como verdadeiro homem do norte, não resistiu ao forte apelo da «oferta» privada, porque os tempos não estão para aventuras na política, onde alguns se queixam de não ganhar sequer para comer. A outra escala, falou-se da saída de Jorge Coelho do governo para a Mota-Engil, de Fernando Gomes do governo para a Galp, e outros exemplos se poderiam seguir. Por muito ético e transparente que este processo tenha sido, não foi, de todo, «branquinho». Vai ter sempre a mancha, ainda que ténue, dos interesses. Sejam eles comuns ou não.
22 de Outubro de 2010 – Sócrates gastador, em tempo de crise
A revista «Sábado», depois de nos dar a conhecer os «boys» de Sócrates, resolver averiguar quanto nos custa ter um Primeiro-Ministro. Com 71 funcionários na sua dependência directa, as contas com Sócrates são de muitas somas. Em 2011, o nosso Primeiro-Ministro vai custar-nos, em salários, 95.886 euros. Em telecomunicações, serão 177 mil euros (numa média de 382 euros por dia, só em telemóvel). Em alojamentos, refeições e transportes, dentro e fora de Portugal, são previstos 135 mil euros, mais 101 mil euros para refeições só em São Bento (cerca de 276 euros diários). A Presidência do Conselho de Ministros tem estacionada à porta uma frota de 448 automóveis, alguns deles de alta cilindrada. Sócrates tem 20 motoristas ao seu dispor, todos nomeados por si, quando só deveria ter dois. Em combustíveis, prevê gastar 436,7 euros por dia (159.400 euros no ano). E há muitas mais destas «pérolas» na revista «Sábado» desta semana. Vale a pena ler.