A cadeia de conhecimentos é interessante, assim como os valores e regalias em causa. Numa altura em que o país vai fazendo contas de sumir, e em poucas páginas, a revista «Sábado» dá a conhecer alguns dos «boys» que o PS e a máquina de José Sócrates colocaram nos respectivos «jobs». Sabemos bem como estas coisas são, e que, provavelmente, se as coisas fossem de outra cor, aconteceria o mesmo. É um mal endémico, «sortes» que só alguns conseguem alcançar. Salários altíssimos, telefone e viatura com motorista, despesas de representação, muitas vezes apenas para a participação em meia-dúzia de reuniões por ano. Dá que pensar.
10 de Outubro de 2010 – Em trabalho, com o Coro Casa da Música
Trabalhar na Casa da Música não é, sequer, trabalhar. É um prazer. Hoje começa o trabalho de preparação da formação sinfónica do Coro Casa da Música, para o concerto de dia 30 de Outubro. Na forja estão a Sinfonia n.º 9, de Beethoven, e a obra «A Survivor from Warsaw», de Arnold Schönberg, para orquestra e coro masculino. Fazer parte desta «Casa», ainda que fugazmente, é fantástico. Não há cansaço, tédio ou resistência. É um prazer, não é trabalho. Porque se fosse trabalho, a sério, seria ainda melhor…
9 de Outubro de 2010 – John Lennon, 70 anos
Se fosse vivo, John Lennon faria hoje 70 anos. Nos «Beatles», e em parceria com Paul McCartney, foi responsável por alguns dos mais emblemáticos e bem conseguidos temas «pop/rock». Ora trabalhando a palavra, ora trabalhando a música, Lennon destacou-se sempre pela originalidade, pela irreverência, pelo «avant-garde». Como quase todos os artistas da época que se destacaram, foi também irreverente, intransigente, talvez inconveniente, por vezes. Hoje faria 70 anos, se não tivesse sido morto a tiro por um fã. Certamente que o mundo não seria o mesmo se o compositor de «Imagine» tivesse podido lutar um pouco mais por algumas das causas que defendeu. Mas, sobretudo, não seria o mesmo, porque talvez tivesse ainda mais boa música trabalhada por si.
8 de Outubro de 2010 – Texto n.º 600
Obrigado. Não há muito mais palavras que se possam utilizar. São 600 textos, quase dois anos de um ritual diário, quase outros tantos comentários. São muitas visitas diárias, muitos reparos e incentivos, a que nem sempre há tempo de responder, mas este grande obrigado, do tamanho de 600 obrigados, estende-se a todos os que fazem o «lado de lá» deste blogue. Sem esse lado, isto não teria sentido. Nem valeria a pena assinalar os números redondos. É necessário, também, o agradecimento devido ao Rui Gato, mentor do «AroucaBiz», que acolheu esta ideia peregrina de um «caderno diário» electrónico, que, às vezes, pouco interesse tem. Mas cá continuamos. Amanhã será o 601.
7 de Outubro de 2010 – Obras de Misericórdia
Conhecer as Obras de Misericórdia é um passo natural no percurso da catequese ou da aprendizagem da doutrina social da Igreja. São sete temporais e sete espirituais. A saber: Dar de comer a quem tem fome; Dar de beber a quem tem sede; Vestir os nus; Dar pousada aos peregrinos; Assistir os enfermos; Visitar os presos; Cuidar dos que partem pela morte (temporais). Dar bom conselho; Ensinar os ignorantes; Corrigir os que erram; Consolar os tristes; Perdoar as injúrias; Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; Rogar a Deus por todos os necessitados, tanto vivos como já passados para além do véu da morte (espirituais). Bem lidas estas coisas, está aqui resumida a boa conduta social, à luz do catolicismo como da maioria das convenções da maioria das sociedades civilizadas. Sucede que, hoje, aparece no «Jornal de Notícias» uma notícia que surpreende. As Misericórdias não querem ter de obedecer aos bispos da diocese a que pertencem e, em consequência, a um decreto do Papa que sugere isso mesmo. Querem ter total independência na gestão do seu património (o que já acontece, daí não se perceber a crispação). A notícia pode ser lida aqui, e levanta muitas questões quando às motivações de quem gere estas instituições que, vai dizendo o povo, vão ficando cada vez menos misericordiosas e cada vez mais ricas em património. Estamos a falar de 400 instituições, duas dezenas de hospitais, mais de 400 lares, 500 serviços de apoio domiciliário, museus, terrenos e prédios vários. Seria bom que Misericórdias e Igreja não se desunissem, sob pena de, a pouco e pouco, a credibilidade destas instituições se deteriorar irremediavelmente.
6 de Outubro de 2010 – Formoso e Seguro
António José Seguro é conhecido pela sua verticalidade e seriedade, mesmo que, para isso, tenha de se «descarneirar» do seu partido, o PS. A sua voz é, por vezes, incómoda, o que faz com que nem sempre tenhamos o prazer de a ouvir. Mas, desta vez, António foi «formoso e seguro», e as palavras são setas apontadas directamente a quem decide e a quem tem mais. Não é justo que não sejam os mais ricos a dar o exemplo no combate à crise. É muito fácil escudarmo-nos na economia e nos seus processos, nas eternas leis da oferta e da procura, nas conjunturas, défices e números grandes. Difícil, muitas vezes, é ser-se verdadeiro. E Seguro foi, quando disse que era inaceitável que não fossem os mais ricos a dar o primeiro passo, no que diz respeito aos sacrifícios.
«Acho inaceitável que quando se pedem sacrifícios aos portugueses não sejam todos os portugueses, em particular aqueles que mais têm, a dar esse exemplo e a fazerem esses sacrifícios. (…) [Os portugueses] estão fartos de fazer sacrifícios sem ver resultados e é preciso que os sacrifícios estejam ligados aos resultados».
António José Seguro, em declarações à «Lusa»
5 de Outubro de 2010 – «Sabeis se eles são dignos?»
Durante as cerimónias de ordenações religiosas é sempre lançada à assembleia uma pergunta de carácter fundamental e decisivo: «Sabeis se eles são dignos?». Pois bem, hoje, 100 anos depois da implantação da República em Portugal, é esta a questão essencial. Sabemos se somos dignos? Sabemos, acima de tudo, se os nossos políticos são dignos? Dignos da memória e da identidade que carregamos. Dignos do que nos legaram. Cada vez mais temos dificuldade em exercitar a humildade. Porque somos hoje um país em que todos temos direitos, mas não cumprimos todos os deveres. Porque somos um país de doutores e engenheiros, mas a verdadeira educação, o verdadeiro civismo, a verdadeira cordialidade fica muito àquem. Cem anos depois, somos dignos? E os que temos a conduzir-nos, são dignos?
4 de Outubro de 2010 – O que o «Pravda» diz de nós
Ler o «Pravda», um dos mais emblemáticos jornais russos, pode ser um exercício de completa ignorância, sobretudo porque a nossa compreensão do cirílico (alfabeto russo) é diminuta. Contudo, há sítios onde podemos aceder aos artigos traduzidos, e ficamos assim a saber o que dizem de nós, Portugal. O texto em inglês pode ser lido aqui, e alguns excertos tomei a liberdade de os traduzir. Vale a pena ver.
«E não é por serem portugueses. Vamos ao Luxemburgo, que lidera todos os indicadores sócio-económicos, e veremos que 12% da população é portuguesa, o povo que construiu um império que se estendia por quatro continentes e que controlava o litoral de Ceuta, na costa atlântica, até ao Cabo da Boa Esperança; na costa oriental da África, no oceano Índico, o Mar Arábico, o Golfo da Pérsia, na costa ocidental da Índia e Sri Lanka».
«O maravilhoso sistema da União Europeia é controlado pelas agências de notação ‘Fitch’, ‘Moody’s’ e ‘Standard and Poor’s’, baseada nos EUA (onde mais?), que controlam virtualmente e fisicamente as políticas fiscais, económicas e sociais da Estados-Membros da União Europeia, através da atribuição das notações de crédito».
«As medidas de austeridade apresentadas por este senhor são o resultado da sua própria inépcia como primeiro-ministro no período que antecedeu a última crise mundial do capitalismo (em que os líderes do mundo vieram com três triliões de dólares de um dia para o outro, para salvar banqueiros irresponsáveis, enquanto nada foi feito para pagar pensões dignas, programas de saúde ou projectos de educação)».
«E, assim como seus antecessores, José Sócrates demonstra uma falta de inteligência emocional, permitindo que os seus ministros pratiquem uma política de laboratório e implementem políticas de laboratório, que acabam por ser contra-producentes».
Timothy Bancroft-Hinchey (Pravda)
3 de Outubro de 2010 – Mau tempo no canal
O cérebro a funcionar demasiado rápido e o vento a soprar com demasiada intensidade, aliado à chuva intensa, fizeram uma mistura explosiva, que resultou num terrível mau tempo. O clima adverso é, provavelmente a par da doença, o que mais nos faz pensar quão frágeis somos. Houve água, muita água. Vento, muito vento. E folhas e ramos, muitos, pelo chão. Dizem que chegou o Outono, mas parece mentira. A ideia de Outono como tempo de transição, já não existe. Andamos, como é normal nos tempos de crise, uns dias com sol e outros com chuva, uns dias de Verão e outros de Inverno. Há mau tempo no canal, e acabaram-se os meios-termos. Temos de viver com isso.
2 de Outubro de 2010 – «Festa das Nozes», em Gondomar
Segundo se conta, há cerca de 300 anos que Gondomar se engalana para uma festa a que uns chamam de Nossa Senhora do Rosário, São Cosme e São Damião, e outros chamam simplesmente «Festa das Nozes». Ao mesmo tempo que o povo coloca à janela a sua melhor colcha de linho, ao passar da procissão, provam-se as nozes, que o Douro ajuda a regar. É difícil não se dar conta de que Gondomar está em festa. Apesar do trânsito continuar a fluir (lentamente), há imensa gente na rua, e tudo acontece ao mesmo tempo. É curioso como, ao lado do Porto, as semelhanças com uma aldeia em festa podem ser tão grandes.