Não sou um seguidor atento da obra de Manuel António Pina, escritor que hoje foi galardoado com o «Prémio Camões». Cronista do «Jornal de Notícias», onde muitos o comparam a Ramalho Ortigão, na minha retina, de pouco conhecedor, ficou «Uma história que começa pelo fim», uma história para crianças, que começa pelo fim, mas também pelo princípio. Porque, mais do que «pseudo-intelectualices», talvez a simplicidade de se querer viver feliz para sempre logo no início da história seja o que deve ser.
11 de Maio de 2011 – Lorca
É irónico que o nome se possa confundir com o do escritor. Mas não. Lorca é, agora, sinónimo de desolação, de pânico, de «vingança» da natureza. O homem desafia o universo, e, por vezes, com ou sem justiça, é-lhe devolvido o desafio. Há morte, há destruição, há caos. Haverá, depois, o renascer, o reconhecer das cicatrizes, o reerguer-se. Espanha foi abalada por um terramoto cuja réplica foi mais intensa que o próprio sismo. Parte da memória de Lorca deixará de estar tão visível, e passará a ter, em cores vivas, as imagens destes dias.
10 de Maio de 2011 – «Dogguies at the beach»
Ainda houve tempo para um breve passeio na praia. Ele, sortudo. Ela, uma «lady». Escaparam por um triz ao abandono. Hoje fazem parte da família. Trocam afectos. Ensinam a humildade. Fazem algumas asneiras (poucas). Como, de resto, todos nós fazemos. Hoje ainda houve tempo para um breve passeio na praia. No largo areal. Com cheiro a mar. Com a espuma do dia. Com a melhor companhia do mundo.
9 de Maio de 2011 – «Please give»
Todos nós temos interrogações. Vizinhos. Problemas. Consciência. Pensamentos. O que nos rodeia. A morte. O que deixamos para trás. E há o nosso bom viver, e o mau viver dos outros, pensamento para o qual direccionamos também o que nos atormenta, mesmo sem querermos. Hoje vimos «Please give», que, sem ser um filme genial (longe disso), deixa algumas pistas ao pensamento.
8 de Maio de 2011 – Curso Nacional de Música Sacra
Chegou ao fim mais um fim-de-semana dedicado ao Curso Nacional de Música Sacra. As ausências foram muitas, mas as presenças foram muito boas. Houve o habitual e são convívio, que nada pode abalar. Houve o acertar de agulhas necessário, a definição de por onde se deve ir. Houve aprendizagem. Guardo, desta vez, o afecto no som que o meu querido amigo José Joaquim nos conseguiu transmitir. Alinhando o som pela mensagem, pelo fluir das harmonias e melodias. O José Joaquim foi o vencedor do concurso promovido para o hino do centenário das aparições de Fátima, e muito bem. Mostra que é um grande músico, em enorme progressão. Pela amizade, pela música, por estes momentos, por poder ver esta evolução, por tudo isto, e apesar de tudo, valeu a pena.
7 de Maio de 2011 – António Barreto: «José Sócrates deve ser severamente punido nas próximas eleições»
O Presidente da República, e bem, avisou-nos. Temos de mudar de vida. Temos de viver dentro das nossas possibilidades. Temos de consumir o que é nosso, e ajudar a dinamizar a nossa economia. E, nesta linha, António Barreto, em entrevista ao jornal «i», leva-nos o aviso um pouco mais longe, mas de forma certeira. De forma serena e desassombrada, explica por que razão José Sócrates deve ser severamente punido nas próximas eleições. Porque é, pessoalmente, responsável pelo estado a que o país chegou. Porque desfigurou o Partido Socialista. Porque pensou no país unicamente com o cenário de um Largo do Rato, projectado por si. A entrevista vale pelo seu todo, mas há frases que marcam.
«Esta democracia está a implodir».
«A capacidade de lóbi, de chantagem ou de ameaça que alguns corpos ligados à justiça exercem sobre o governo é enorme».
«O primeiro-ministro não está à altura, não é capaz de contribuir para as soluções futuras».
«José Sócrates quase levou o país à bancarrota por interesses partidários».
«O acordo com a ‘troika’ é bom e obriga a fazer muitas coisas que já sabíamos que era preciso fazer».
«A emigração voltou aos anos 60».
(António Barreto, em entrevista ao jornal «i»)
6 de Maio de 2011 – Leituras da reconstrução
Há leituras assim, que nos entram pela retina dentro no momento mais curioso que possamos imaginar. Assim foi com «Signo Sinal», de Vergílio Ferreira. Dos outros treze ou catorze livros lidos do mesmo autor, colhi um estilo próprio de pensar e de escrever, expressando de forma simples e pertinente o que muitos de nós já pensámos, mas a que nunca demos a devida importância. «Signo Sinal» relata a reconstrução de uma aldeia, depois de um terramoto. O terramoto teria sido o 25 de Abril, mas podia muito bem ser o «bulldozer» de José Sócrates. A aldeia de Luís é como se fosse um país, que se pode, finalmente, reconstruir, mas onde cedo chegam políticos, profetas, sindicalistas e burocratas acabam por complicar a trajectória. Luís lembra que a casa é o centro de tudo, que apesar de uma capa nova, as pessoas são as mesmas de antes. «Talvez destruam tudo outra vez do que construíram, porque escutam uma ordem nova e certa e irrecusável desde o ignorado da vertigem», como costumam fazer, sempre, os homens, Uma metáfora curiosa, nos tempos que correm, na repetição da história, no enjoo dos dias.
«E, com efeito, as obras recomeçaram. Outra vez os operários regressavam dos subúrbios de desemprego e dos retroactivos salariais, o comércio reanimou, havia putas novas vindas de fora. E imediatamente pás, picaretas e escavadoras, os cilindros de terraplanagem, uma grande rede de trincheiras foi-se abrindo para os alicerces. Um homem desconhecido, vestido de bruto, botas ferradas, um fato grosso, eu via-o com papéis na mão, ia de grupo em grupo dar instruções. Punha-me a olhar o emaranhado das valas, a imaginar a aldeia reconstruída e as distâncias e o jogo possível das relações humanas. Imaginava as ruas, as casas reerguidas, o reencontro dos homens consigo, com os seus sonhos e esperanças e enredos e conflitos, o envelhecimento das coisas pelos séculos e a nova ordenação da vida sob a eternidade dos céus. Então olhava com terror a maravilha os construtores do destino, delegados visíveis de uma ordem antiquíssima, mandatários de um império oculto, realizadores magníficos dos sinais tangíveis do signo que nos marcou. Era belo assim ouvir o estrépito das máquinas, dos motores, escutar a pulsação que vinha deles, no arranque do esforço dos homens, como a voz audível da grande voz inaudível, a que na zona obscura e impensável do homem, na anterioridade de tudo quanto é anterior, na distância máxima do horizonte dos horizontes, lhe ordena os passos a uma certeza animal. Porque as veredas são muitas e a rede possível de todos os desvios possíveis, mas não o sentido final da sua ordenação».
(Vergílio Ferreira, in «Signo Sinal»)
5 de Maio de 2011 – UEFA por um canudo
Os «Guerreiros do Minho» protagonizaram uma verdadeira «Batalha de Aljubarrota» futebolística, e estão na final da Liga Europa. Com paciência, Domingos desmascarou um Benfica que, claramente, foi vivendo à sombra do emblema de campeão nacional, garantindo apenas «serviços mínimos», ao longo desta época. A final da Liga Europa é, assim, portuguesa, de resto como se esperava. E o Benfica, com justiça, ficou a ver a UEFA «por um canudo». Faz-se festa em Braga, com merecimento. Esperemos, agora, que não suceda como com um clube do Porto, outrora conhecido na Europa por ter camisolas «estranhas», aos quadrados. Foi segundo classificado. Foi campeão. Foi longe na Europa. Esse clube era o Boavista.
4 de Maio de 2011 – (Peres)troika
O jornalista António Granado denuncia, hoje, no seu blogue, a ponta do «iceberg» que constitui o modo de agir, absolutamente vergonhoso (até mesmo calunioso para a inteligência dos portugueses) de um tal José Pinto de Sousa. Na suposta conferência de imprensa que deu, dando conta do fabuloso acordo que conseguiu com o FMI, o senhor Pinto de Sousa não permitiu que nenhum jornal o fotografasse, nem tão pouco permitiu qualquer questão dos jornalistas. As fotografias que fomos vendo nos jornais de hoje (à excepção das que foram retiradas da emissão televisiva) foram exclusivamente produzidas pelo fotógrafo oficial do senhor Pinto de Sousa. Mais do que isso, alguns jornais chegam mesmo a «travestir» (um verbo caro ao senhor Pinto de Sousa) a fonte da fotografia, dando-a como cedida pela «AFP» ou pela «Lusa». Nenhum jornal, nem nenhum jornalista denunciou a «farsa» que constituiu esta «conferência de imprensa», onde a informação só teve um sentido. O senhor Pinto de Sousa tinha de encontrar forma de apelar ao voto de forma mais ou menos descarada, «vendendo» aos portugueses um acordo que não tem «face oculta». Mas esqueceu-se que talvez nem todos os portugueses sejam tão ignorantes como pensa, porque as medidas da «troika» já são conhecidas. E vão mais longe e mais fundo do que meros foguetes eleitorais. O que vai acontecer em Portugal é uma verdadeira «Perestroika», que quer dizer «reconstrução», «reestruturação», «refundação». O «FMI» passa, de forma subtil e com elevação, um tremendo atestado de incompetência governativa aos políticos portugueses, e apresenta mais de 30 medidas para nos endireitarmos perante o mundo. Numa altura destas, não precisamos de «show-offs» do senhor Pinto de Sousa. Apenas que se reconstrua um país. «Perestroika», senhor Pinto de Sousa…
- Acordo abre porta a subida dos bilhetes dos comboios;
- Equipas especiais de juízes para processos fiscais acima de um milhão de euros;
- Tabaco e automóveis com mais impostos;
- Empresas vão poder pagar menos por horas extraordinárias;
- Acordo impõe aumento da concorrência nas telecomunicações;
- Corte na despesa com Saúde chega a 550 milhões de euros;
- Bancos de horas negociados directamente com trabalhadores;
- «Falsos» trabalhadores independentes passam a ter apoio no desemprego;
- Subsídio de desemprego passa a ser declarado no IRS;
- «Troika» exige cortes na ADSE;
- Despedimento individual por justa causa vai ser ajustado;
- «Golden shares» do Estado são para eliminar até Julho;
- Taxas moderadoras aumentam e atingem mais portugueses;
- «Troika» quer incentivar arrendamento;
- Portugal tem mais tempo para cortar défice mas não evita dois anos de recessão;
- Novo aeroporto sem fundos públicos e TGV Lisboa-Porto suspenso;
- «Troika» quer aumentar IVA na factura da electricidade;
- Menos oito mil funcionários públicos por ano;
- Patrões descontam menos para a segurança social;
- Proprietários de casa serão penalizados com mais IMI;
- Mais cortes na Transtejo e no Metro de Lisboa colocam serviços em risco;
- BPN será vendido até Julho e não tem preço mínimo;
- Governo tem 12 mil milhões para injectar nos bancos;
- Desempregados só vão ter subsídio durante 18 meses;
- TAP, EDP e REN para privatizar na totalidade este ano;
- Redução de pessoal no Estado é para continuar;
- Pensões acima de 1.500 euros vão ser cortadas;
- Acordo não prevê redução de salários nem corte nos subsídios de férias e Natal;
- Troika cobre 100% das necessidades de financiamento em 2011;
- Objectivo do défice para 2011 fixado em 5,9%;
- CGD deve aumentar capital com recursos próprios;
- «Troika» quer definir critérios específicos para extensão de portarias;
- Eliminação de serviços gera poupança de 500 milhões;
- Empresas do Estado têm que poupar 515 milhões de euros.
(As principais medidas, segundo notícia do «Diário Económico»)
3 de Maio de 2011 – Discussões ao contrário
À escuta do «Fórum TSF», começou a primeira discussão ao contrário. O debate centrava-se na possibilidade de proibição das inaugurações durante períodos próximos de eleições. A oposição queixa-se que o Governo faz campanha à custa de ser rosto do Estado. O Governo acha que está a fazer o que tem de ser feito. A Comissão Nacional de Eleições diz que não tem poder para intervir. A Lei não permite a proibição. Faz sentido que, como em Espanha, estes actos sejam proibidos? A resposta é dada pela constatação de que se está a entrar uma discussão ao contrário. Toda a argumentação pressupõe que o povo português não tem densidade intelectual suficiente para distinguir um acto de campanha eleitoral de um acto de justiça, que é dotar uma terra de um bem ou serviço necessários. À noite, José Sócrates «entalou-se» no intervalo do Barcelona/Real Madrid para desvendar a parte boa das más notícias pelas quais o país espera. Sócrates disse-nos que o acordo alcançado com o FMI não mexe no 13 º e 14 º mês dos trabalhadores e dos reformados, que não diminuirá o salário mínimo, que não haverá despedimentos na função pública, que não se privatizará a Caixa Geral de Depósitos. Não disse como iria diminuir a despesa do Estado, não disse se haveria reestruturação administrativa, não falou acerca do impacto do acordo ao nível das relações laborais, não esclareceu a que nível se dará o aprofundamento de medidas do «PEC4» e das novas medidas necessárias, nomeadamente ao nível dos impostos. O ressurgimento de Manuel Pinho, desta vez como comentador na RTP da «performance» de Sócrates, e de Teixeira dos Santos, ao lado do (ainda) Primeiro-Ministro despoletam a segunda discussão ao contrário. No intervalo da bola, o que realmente ouvimos, subliminarmente, foi «votai em nós, suaves carneiros». Amanhã serão dadas as verdadeiras notícias.