Acaba de chegar, fresquinho, pelo correio, o DVD do concerto de São Silvestre, da Orquestra Filarmónica de Berlim. Trata-se de um concerto gravado a 3o de Dezembro de 2010, com direcção de Gustavo Dudamel e a participação de Elina Garanca. E, ao olhar para este DVD, ficamos ainda mais com a ideia de «produto», em que a música dita «clássica» se está também a tornar, muito graças à força do «marketing» da conhecida gravadora alemã «Deutsche Grammophon». Os músicos, para além de excelentes executantes, aparecem-nos com um cuidado estético invejável, quase como se o DVD fosse uma película da Sétima Arte. A música é excelente, de facto, sempre pelos melhores intérpretes e gravada com qualidade de topo. Neste caso, o programa escolhido também é muito bom: Berlioz, Saint-Saëns, Bizet, Manuel de Falla e ainda alguns «encores». Com uma imagem cuidada ao pormenor e com músicos «bonitos» (que, ainda por cima são excelentes intérpretes), o produto só podia ser bom.
10 de Agosto de 2011 – «Descalcetar»
A história é simples. Uma autarquia (no Alentejo) adjudicou um trabalho a um empreiteiro, para pavimentação em cubos dos passeios de uma avenida. Não pagou. O empreiteiro não recebeu, e, por sua vez, não pagou a pedra que utilizou ao seu fornecedor. A solução, para o empreiteiro, foi simples, pelo menos aparentemente. Fazer as contas à pedra em dívida, ir buscá-la ao local onde havia sido aplicada, retirá-la e devolvê-la ao fornecedor, ficando, pelo meio, com o prejuízo da mão-de-obra, mas com o ganho da honra de uma dívida. Entre o passeio calcetado e a lama, a distância pode não ser grande, pelo menos para quem investe e desinveste os milhões dos contribuintes. Para quem tem de escolher, no dia-a-dia, cada uma das pedras da calçada da vida, pouco importa a burocracia, quando o dinheiro devido não chega.
9 de Agosto de 2011 – Os problemas da Água
Que a água começa a ser o negócio do século, já se previa e já se começou a sentir. Mas que esse negócio pudesse ser um negócio de risco, talvez ninguém estivesse à espera. Foi notícia hoje que um estudo realizado pela Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica prova que podem existir bactérias resistentes a antibióticos em água potável e em estações de tratamento de águas residuais, pelo país. O sistema de tratamento em ETAR, afirma o estudo, já não é suficiente para garantir uma água de qualidade, o que vem pôr em causa todo o investimento que tem sido feito para que Portugal chegue aos patamares europeus, no que diz respeito à cobertura das redes de abastecimento de água e de saneamento, bem como dos sistemas de tratamento de efluentes. Água é condição de vida, e o nosso organismo é prova viva disso. O negócio é de risco. Mas a vida, e esse é que é o problema principal, assim também.
8 de Agosto de 2011 – Texto 900
Esta é a 900.ª vez que escrevo neste espaço. Um espaço «pessoal e transmissível», que, desde que começou a acolher textos diários, já teve cerca de 45.500 visitas. Nem sempre é fácil ter assunto, e nem sempre o assunto é agradável ou interessante. Mas é assim a espuma dos dias. Uma espuma com sabor a sal, umas vezes, e sem sabor, outras. Com sol, umas vezes, sem ele, outras. Um dia, e outro, e outro. Os agradecimentos da praxe ao «Arouca.Biz», pelo acolhimento e ajuda na manutenção, na pessoa do meu amigo Rui Gato. E a todos os que vão passando por aqui, ou aqui chegam. Que sabem que a agenda está sempre aberta na página dos dias. Ou da espuma de cada um dos dias.
7 de Agosto de 2011 – A crise, a Europa e nós
A ideia de que o capitalismo está, definitivamente, em crise não é nova. Tem, pelo menos, uma década, senão mais. As lições que a história nos foi dando, se bem estudadas, chegavam perfeitamente para, mesmo nessa altura, percebermos que «isto» era inevitável. O que não se previa (ou talvez até sim) era que chegaríamos a este ponto sem verdadeiras lideranças. Os «motores» da Europa (especialmente a Alemanha e França) terão, eventualmente, os piores líderes de sempre, e isso reflecte-se na qualidade do projecto europeu, na visão de futuro e na resposta eficaz aos desafios da crise. As notícias que nos chegam de Londres, de uma «criminalidade de reacção» que promete generalizar-se, são um sinal do que pode estar a caminho. Uma sociedade descontente, mas que não sabe o que quer, indignada, mas que não tem alternativa, farta, cansada e desgastada, mas sem qualquer noção de futuro. «A fogueira das vaidades», o célebre filme de Brian de Palma, baseado no livro de Tom Wolfe, explica bem o que a comunicação social pode fazer nestes casos (e faz). Mas, visto de um país que tem a (des)vantagem de andar algumas décadas atrasado em relação à Europa, convém usar esse atraso para reflectir. Sobre o futuro, sobre a crise, sobre estas reacções, sobre nós.
Europa querida Europa
[audio:http://aminhaagenda.aroucaonline.com/wp-content/uploads/2011/08/Europa-Querida-Europa-Fausto.mp3|titles=Europa Querida Europa – Fausto]
(Fausto Bordalo Dias)Europa nascida na Ásia profunda
ó filha do rei fenício Agenor
que Zeus entranhado no corpo de um touro
levou-te p’ra Creta cativo de amor
Europa é de Homero
de helénicas formas
do fórum romano e da cruz
de tantas nações
ariana e semita
ventre das descobertas
da luz
do diverso sistema do modo diferente
da era da guerra e agora da paz
és assim querida Europavem que eu te quero toda do mar à montanha
vem que eu te quero muito mais bela que o mar
vem vencendo cizânias que os povos sem feudos
sempre se amaram brilhantes em todo o lugar
o teu chão não é traste
de meros mercados
de pauta aduaneira
ou cifrão
é um terrunho de almas
uma ideia
um desejo
de uma nova maneira
em fusão
desfazendo complexos de mapas cor-de-rosa
sem a má consciência no verso e na prosa
só por ti querida Europapara que sejas tu mesma a decidir o teu uso
para que sejas tu mesma ainda mais natural
não me toques o “beat” à americana
que esse já nós conhecemos na versão original
aguenta-te firme
livre de imitações
espera só mais um pouco
já vai
o que resta e o que sobra
aquela mesma saudade
toda a imaginação
ainda mais
não sentes um vago um suave cheiro a sardinhas
a algazarra nas ruas e o troar dos tambores
somos nós querida Europa
6 de Agosto de 2011 – Segunda parte mais «à Benfica»
O Benfica venceu, hoje, a «Eusebio Cup». Contra o Arsenal, o Benfica começou a perder, mas, fruto de uma segunda parte mais conseguida, acabou por, de forma justa, dar a volta ao resultado, conseguindo manter o troféu «em casa». Duas questões ficam, depois desta vitória. Uma, tem a ver com o facto de se saber se a equipa está ou não segura de si o suficiente para se afirmar candidata ao título. A outra, mais conjuntural, tem a ver com a pouca participação de jogadores portugueses nas opções do treinador (em consequência das opções de contratação). É certo que o importante é serem jogadores do Benfica, mas este clube, embora seja uma referência internacional, não deixa de ser o maior clube português.
5 de Agosto de 2011 – Um hotel musical
O conceito é alemão, e dá vontade de replicar. Um hotel musical. Equipado com dois estúdios, sistema sonoro «topo de gama» nos quartos, e com funcionários e «managers» especializados em música, no apoio aos hóspedes. Chama-se «NHow», e fica em Berlim, nas margens do rio Spree, com vista privilegiada sobre a cidade. O projecto de arquitectura é de Sergei Tchoban e os interiores desenhados por Karim Rashid. No topo do edifício, a mais de 21 metros de altura, numa estrutura parcialmente suspensa, é onde ficam os estúdios e demais compartimentos «mais musicais». O «NHow» tem 303 quartos e uma suite de 258 metros quadrados. O preço médio (mínimo) por noite é de 115 euros.
4 de Agosto de 2011 – Acho que vou precisar disto
Estima-se que cerca de 10% dos «terráqueos» sofram de dislexia, uma disfuncionalidade que se manifesta pela dificuldade em associar sons a letras, na leitura e na escrita, ou na confusão de algumas letras na organização das palavras. Christian Boer, holandês, tipógrafo disléxico, desenvolveu um tipo de letra que ajuda a combater a dislexia. Chamou-lhe «dyslexie». A Universidade de Twente já desenvolveu um estudo que comprova a funcionalidade da «fonte». O que é bom, especialmente para quem, mesmo que só de vez em quando, «torca sa lteras dsa plavarsa»…
3 de Agosto de 2011 – Moatize
Difícil de arrancar da memória a fabulosa reportagem de José Pedro Castanheira, na revista «Única», do «Expresso» de sábado passado. Pela escrita, sobretudo. Que nos transporta no tempo e para o local exacto em que tudo aconteceu. Com quem tudo aconteceu. Com quem viveu e sentiu tudo. Há 34 anos. Foi em Moatize, Moçambique. Primeiro, uma explosão numa mina. Depois, a chacina. Depois o silêncio cúmplice dos políticos portugueses e moçambicanos. A explosão matou 64 mineiros, mas os que ficaram, inebriados pelo fumo e pelo desejo reprimido de vingança, mataram, à pedrada e a golpes de picareta, nove responsáveis brancos, que pagaram, assim, com a vida, outras chacinas, outras mortes, outras vidas que não as suas ou dos seus. A guerra é a guerra, mas talvez não tivesse de ser assim. Só que foi.
2 de Agosto de 2011 – Músicos da Orquestra do Norte querem fim da precariedade
Os músicos da Orquestra do Norte emitiram hoje um comunicado, pedindo ajuda ao Estado, no sentido de verem regularizada a sua situação. Desde a criação da instituição, há 19 anos, que todos os seus trabalhadores (excepto dois casos de serviços administrativos) são precários, com recurso ao expediente do recibo verde, o que, dizem os músicos, se tornou insustentável, até porque havia directrizes do Estado para a regularização das situações laborais. Numa altura destas, em que a conjuntura «aperta», uma instituição que luta pela divulgação da música junto de públicos que, de outra forma, não teriam acesso a este nível de cultura, que faz um trabalho notável na fidelização de público, que procura, dia a dia, retirar o «Portugal profundo» dessa profundidade, pode ter, com estas dificuldades, o seu futuro seriamente comprometido. Esperemos, sinceramente, que não.



