O «caso» Ricardo Carvalho mostra-nos o quão ilusórios e efémeros podem ser os «ídolos». Os intocáveis e super aconselhados «pop stars» do futebol também têm dias maus e acções irreflectidas. Sabemos bem que as coisas nunca são totalmente explicadas na (e pela) comunicação social. Por vontade própria, ou porque a história não é toda contada por toda a gente. Mas que ninguém fica bem na fotografia, não. Ricardo Carvalho demonstra o seu lado mais emocional e menos racional. Que os ídolos, mesmo os do futebol, nem sempre têm os pés firmes na relva. Que também são infantis, às vezes. Que também fazem coisas sem pensar. E que isso terá consequências. Um ídolo do futebol com pés de barro nunca é uma boa notícia. Seja culpa dele ou de quem (não) manda nele.
1 de Setembro de 2011 – Ele anda aí…
Cheira-me que Sócrates mudou de fonte de inspiração. No início, tudo indicava que Salazar era o seu modelo. Um fato e gravata «standard», cabelo curto rente, pouca conversa sobre a família, o homem vivia para o país, e até algumas inflexões de vozes eram parecidas com o (saudoso, para muitos) ditador. Entretanto, o mundo deu voltas, e a «máquina socrática» deixou de conseguir controlar as coisas. Agora, Sócrates é um mero estudante, quase anónimo, mas parece que anda por aí, um pouco ao estilo de Santana Lopes. Até visita os grandes líderes europeus antes do Primeiro-Ministro de Portugal. Por enquanto, ele apenas «anda por aí», à Santana Lopes. Rezemos para que não se «cole» ao modelo de D. Sebastião. Andar por aí, ainda vá. Mas regressar numa manhã de nevoeiro, com o Inverno a aparecer aí em breve, Deus nos livre…
31 de Agosto de 2011 – Jorge Coelho diz que Passos Coelho tem razão
No dia em que o Ministro das Finanças anunciou um aumento de 2,5% no último escalão de IRS («os mais ricos») e de 3% no IRC (para empresas com lucros superiores a um milhão e meio de euros), o presidente da Mota-Engil (que também já foi ministro, e que lidera a empresa que, provável e curiosamente, mais trabalha em parceria com o Estado) afirmou que, face à crise, os mais ricos e as empresas têm de dar uma resposta positiva, e também a sua empresa tem de contribuir para a normalização do estado de coisas. Depois de uma frase tão longa, pouco mais há a dizer hoje.
«Como cidadão e presidente da Mota-Engil, acho que é correcto e justo haver uma partilha de contribuições para que o país fique melhor».
(Jorge Coelho, presidente executivo da Mota-Engil)
27 de Agosto de 2011 – «Sons da Água», Cantata Cénica «D. Garcia» na Paradinha
«Dom Garcia: Cantata Cénica» foi composta por Joly Braga Santos em 1971, sobre textos de Natália Correia, tendo sido estreada no mesmo ano, no Festival de Vilar de Mouros. A obra, imponente na sua concepção, tem o condão de aliar dois vultos maiores da cultura em Portugal. Joly Braga Santos, figura incontornável da nossa música erudita, compositor de seis sinfonias e de uma vasta e inteligentíssima obra, em que colhe inspiração em elementos estruturantes da nossa cultura. E Natália Correia, acérrima defensora da cultura portuguesa, defensora dos direitos das mulheres e dos direitos humanos, mulher das letras e personalidade política de raro relevo na cena cultural e social.
A concepção de «Dom Garcia» aproxima-se do que Wagner entendia por «gesamtkunstwerk» («obra de arte total»), uma conjugação entre música, canto, arte dramática e bailado, neste caso concreto com a recuperação de uma ocorrência histórica, de cujos testemunhos são escassos, e a que a memória e a tradição oral popular foram conferindo um carácter romanesco. Natália Correia conta-nos, à sua maneira, a história de Dom Garcia, um dos filhos do rei Dom Fernando I de Castela, que, durante a segunda metade do século XI, divide o seu reino pelos herdeiros, cabendo a Dom Garcia os territórios de Portugal e terras a sul. O «reinado» de Dom Garcia não podia ter sido mais efémero e desastroso, tendo sido feito prisioneiro durante 17 anos, no castelo de Luna, onde terá morrido. Joly Braga Santos terá procurado inspiração nas famosas «Cantigas de Santa Maria», de Afonso X, o sábio, bem como no espírito musical trovadoresco daqueles tempos, nas terras ibéricas. O resultado é uma obra única, surpreendente até, de interpretação por vezes difícil. Complexa, ainda, pela sua concepção ainda recente, e de acordo com tendências estéticas que, ainda hoje, vemos serem amplamente exploradas.
De referir que a estreia da obra foi protagonizada pela Banda da Guarda Nacional Republicana, dirigida pelo maestro capitão Silva Dionísio (a quem o compositor dedica a obra), e, para além dos músicos, dos solistas, dos narradores e do coro, contou, ainda, com a participação de um grupo de bailarinos, cuja concepção da coreografia foi acompanhada pelo próprio Joly Braga Santos.
Apesar da (ainda) complexidade da interpretação desta obra, Dom Garcia não deixa de ser uma página notável da música portuguesa, que Arouca tem o privilégio de acolher, naquela que será (apenas) a quarta execução em público.
Texto escrito como nota de programa para o concerto «Sons da Água». Hoje, os meus queridos amigos do Orfeão de Arouca juntam-se ao Grupo Coral de Urrô, ao Grupo Cultural e Recreativo de Rossas, à Banda Sinfónica Portuguesa e aos solistas Cláudia Pereira Pinto, Carlos Guilherme, Magda Brandão e Sandra Magalhães, sob a direcção de António Costa, para a apresentação desta obra. Infelizmente, estarei ausente, mas com um ouvido na Aldeia da Paradinha.
23 a 30 de Agosto de 2011 – Últimos dias do Curso Nacional de Música Sacra
Chega ao fim, esta semana, uma caminhada de três anos. Três anos de amizade, de estudo, de muita música. É tempo de olhar para trás e ver o percurso feito. Avaliar. Fazer música. Rever gente. Estudar. Procurar o rumo para sabermos para onde ir e o que fazer depois disto e com o que nos fica disto. Até lá, será uma semana de trabalho e de estudo. De reflexão. De amizade. Acolhidos na forma de um abraço no centro Domus Carmeli, teremos, por certo, todas as condições necessárias para um bom trabalho. Faremos por isso.
16 a 22 de Agosto de 2011 – «Off: vacation»
Há alturas em que temos de parar, nem que seja durante pouco tempo. Deixar de estar. É difícil parar o pensamento, que, às vezes, corre veloz, à procura do que está para vir, ou a tropeçar em preocupações que, no fundo, podem esperar. Estamos habituados à voragem dos dias, das preocupações, do sermos melhores sempre, mais e mais. Mas talvez a felicidade não esteja aí. No que se pode comprar em qualquer lugar. No que se acumula nos nossos bolsos, ou, mais cedo ou mais tarde, no nosso caixote do lixo. A felicidade pode estar no sorriso ao nosso lado, no abraço, sem pensar no dia de amanhã, na agenda, no que há por fazer. É difícil desligarmo-nos disso, mas temos, pelo menos, de tentar. Por isso, até breve…
15 de Agosto de 2011 – Foi mais ou menos assim…
Eles tinham-se conhecido melhor alguns dias antes. Com gestos e palavras irreflectidas, ele tinha-se afastado, mas as circunstâncias eram mais fortes, e, naquele dia, ou melhor, naquela noite, a determinada altura, ficaram sozinhos. Foram caminhando, conversando, sorrindo, descobrindo, pouco a pouco, que talvez houvesse mais do que os unisse do que separasse. A noite apenas começava, como algo mais. Um caminho comum, que as estrelas, acima deles, pareciam traçar. Ele, levado pelo coração, pergunta-lhe: «queres ser minha namorada?» Ela sorri, diz que sim. Há um beijo, um abraço, prolongados, as mãos que se dão. Foi mais ou menos assim que tudo começou.
«Zorro» | Luís Represas & João Gil
«Zorro» | Luís Represas & João Gil
14 de Agosto de 2011 – Peregrinos e romeiros de Nossa Senhora do Campo
O segundo domingo do mês de Agosto é sempre dedicado a Nossa Senhora do Campo, na freguesia de Rossas. É tempo de celebrar a colheita, o aroma e o colorido da fruta nos campos. É tempo de regressar a alguns locais da infância, à família, a algumas memórias, histórias e conversas por terminar. É dia de voltar a ouvir os discursos, escritos pelos antepassados, de voltar a viver a festa que eles também viveram intensamente. É dia de de visitar amigos, de conviver com gente boa, que se empenha em tudo o que faz. Gente dinâmica (especialmente a sua juventude). Gente com quem partilhamos algumas das melhores recordações.
13 de Agosto de 2011 – Um porquê da crise
«Inside Job» é um filme que devia ter sido visto por toda a gente, mas, como sempre nestas coisas, apesar de ter estado em exibição em algumas salas «grandes», o horário nunca foi favorável. Felizmente, a internet permite-nos saber o que se vai passando, apesar dos controlos, das tentativas de silenciamento ou das manobras de diversão. O porquê da crise não é muito difícil de se saber, de se conhecer, de se compreender. Nos Estados Unidos, um «motor» da economia mundial, alguns homens da economia e das finanças foram-se entretendo a desregular a economia nacional e a «saltarem» entre grandes grupos económicos, agências de «rating» e os corredores do poder. Destas decisões, que geraram milhões nas contas de meia-dúzia de gestores, a quem nada aconteceu, que se saiba, resultou que muitos americanos ficaram sem capacidade de pagar a sua casa, e acabaram sem ela. Como de costume, no mundo global, o bater de asas de uma borboleta gera um terramoto do outro lado do mundo. Este foi o bater de asas. O resto, ainda estamos a ver passar.
12 de Agosto de 2011 – Lost in vacation
O último dia de trabalho é sempre uma espécie de limbo. Não queremos que fique nada por fazer, para que não nos incomodem durante o descanso. Por outro lado, nem sempre conseguimos «apontar» para um destino de sonho, onde nos possamos esquecer completamente do telefone, do horário, dos dias de chuva, até mesmo do mundo, se não estivéssemos em outra parte dele. Neste limbo, somos uma espécie de «message in a bottle». Levados pela incerteza das correntes marítimas, à espera de, no primeiro dia de férias, sermos «recolhidos», «resgatados» algures em outra parte. Para, sem a pressão dos dias, apenas na espuma, podermos dizer: «Olá, por aqui?».