Em Portugal nada é segredo. Quanto mais não seja, porque se diz, porque se comenta, porque alguém que está por dentro disse. E estimula-se essa espécie de «fofoquice» que envolve o meio político e o empresarial, que são sempre os primeiros a andar de mãos dadas. Toda a gente sabe (lá está, a frase chavão) que os serviços ditos secretos, em Portugal pelo menos, de nada servem, a não ser para darem «inside information» a políticos sobre empresários e a empresários sobre políticos, e a políticos sobre políticos e a empresários sobre empresários, e pouco mais. É apenas uma ampliação da aldeia a que tanto os citadinos, ditos urbanos e cosmopolitas, querem fugir. A Noruega chamou-nos a atenção para um problema que, de facto, existe. O extremismo. O racismo. O nazismo. Camuflados, mas em actividade, em expansão, em presença, de quando em vez. Mas sobre isso, as secretas não dizem nada. Apenas sobre coscuvilhices domésticas. E pouco secretas.
«Quem, por sorte ou azar, já leu algum relatório do SIS percebe não só a incompetência e a falta de informação como o primarismo das análises e a demência de muitas conclusões. Dito isto, chega de nevoeiro. Os serviços secretos não são nenhuma prioridade da pátria. São apenas palcos em que se travam guerrazinhas imbecis de poder e de coscuvilhice entre homens e mulheres que adoram andar de avental às escondidas.»
(António Ribeiro Ferreira, em artigo de opinião no jornal «I»)
Para o «leitor comum», pouco interessa. Mas para mim é significativo que o meu avô comemore hoje 97 anos. É significativo, não só pelo afecto e carinho, mas por me fazer lembrar que no ano em que o meu avô nasceu foi inuaurado o canal do Panamá, começou a I Guerra Mundial e não houve Prémio Nobel da Paz, e o quanto o mundo mudou 97 anos depois. Ele viu tudo. Sentiu tudo. Viveu tudo. Pode contar, de forma lúcida e pormenorizada, tudo o que nós só sabemos pelos livros de história e pela Internet. Ele viveu, ainda que à distância, os «loucos anos 20». A ascensão e queda de Hitler, com tudo o que isso implicou. Conheceu de perto (e na própria pele) a musculatura da ditadura salazarista. A II Guerra Mundial, e as histórias dos «mineráveis», em Arouca. O surgimento do cinema. O «sonho americano». O 25 de Abril. A descolonização. O meu nascimento. O início da globalização. O terceiro milénio. Tudo isto, sintetizado numa vida. Em 97 anos. Parabéns, Avô Miranda.
Interessante, a crónica de Pedro Mexia, a abrir o caderno «Atual» (raios, que estranho que é escrever com o [des]acordo), do «Expresso» de hoje. Sobre o refúgio na floresta, quando derrotados, ou a procura, nesse refúgio, de si mesmo, da dignidade, da certeza de que, afinal, não estávamos errados, um retiro para retemperar a força e regressar. O refúgio na floresta vale a pena, retempera, renova. A menos que, num acto criminoso ou de má fé, alguém lhe lance as chamas.
A convite do Professor Manuel Joaquim Moreira da Rocha, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e em conjunto com o Professor Nicolas Roger, organista titular do Mosteiro de Arouca, organizámos hoje um concerto comentado, que serviu de lição de encerramento da Universidade de Verão. Com a participação do Coro de Câmara de São João da Madeira (a quem devo um enorme agradecimento, pela colaboração voluntária, desde a primeira hora), voltámos a dar vida a alguns dos fragmentos musicais que se encontram nos manuscritos do Mosteiro de Arouca. Este foi, esperamos, o primeiro passo para que estes mesmos intervenientes possam continuar a trabalhar, no sentido de trazermos para o século XXI fragmentos da melhor música sacra dos séculos XIII a XVIII, guardados, como tesouros, na biblioteca do Mosteiro de Arouca. Ao meu amigo Franklin Ferreira, os agradecimentos devidos pela captação áudio. Fica, a título de exemplo, a sequência «Victimae Paschali Laudes», uma belíssima página do Canto Gregoriano.
Depois do triste espectáculo televisivo protagonizado por Teresa Caeiro e Alfredo Barroso, na «SIC Notícias», o mínimo que se poderia fazer era brincar com a situação. E foi o que fez o «Inimigo Público», ao sugerir, em forma de notícia que, «se não aconteceu, podia ter acontecido», a polícia norueguesa contratasse estes dois «comentaristas» para interrogarem Anders Breivik, o terrorista norueguês. Por certo que o mais provável de acontecer seria Breivik chegar à mesma conclusão de Mário Crespo, e verificar que não conseguiria moderar o interrogatório, preferindo confessar tudo rapidamente, e sem dor, do que ouvir uma espécie de «luta na lama verbal», absolutamente «non-sense». Ainda há bom humor em Portugal. Bastante melhor do que certos debates ditos políticos.
O «novo» Benfica ainda parece uma espécie de manta de retalhos, por coser, aqui e ali. Contra um adversário teoricamente bastante inferior, os benfiquistas talvez esperassem mais de uma equipa que mais tem parecido ainda apenas um excelente conjunto de jogadores. Houve algumas coisas que contribuíram para esta sensação de falta de tempero. Primeiro, os benfiquistas já têm saudades (há quase um campeonato) de ver aquele «futebol espectáculo». Segundo, faltaram mais situações de golo iminente (outra das coisas a que estávamos habituados). E, por fim, parece que o Benfica já não pertence a Portugal, pela quase «selecção do resto do mundo» (com mais sotaque sul-americano, contudo) em que a equipa principal parece ter-se transformado. Falta o sal e a pimenta, que Jesus parece ter usado pouco, nos tempos mais recentes.
A Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música termina hoje uma digressão por algumas salas brasileiras, onde tem, segundo as notícias, surpreendido pela positiva. Outra coisa não seria de se esperar dos excelentes músicos dirigidos por Christoph König (um grande, grande maestro). As notícias que nos chegam do outro lado do Atlântico dão conta de um público entusiasta, que lotou completamente as salas do Festival Internacional de Campos do Jordão (São Paulo) e dos Concertos Paulínia 2011 – Série Internacional (Campinas). Depois da Áustria, o Brasil. Como prova de que nem tudo é mau em Portugal, apesar das condicionantes.
A crise parece que também está a afectar os Estados Unidos, habitualmente imaculados, perante uma Europa em convulsão económica. Na hora de negociar os orçamentos, e nas contas do deve e haver, os americanos descobriram que também têm de passar a gastar menos, e a serem mais racionais na gestão da coisa pública. Só que parece complicado encontrar os consensos necessários, a ponto de o próprio Presidente se empenhar, de forma pessoal, na procura de um acordo, entre republicanos e democratas. Isto, com umas eleições presidenciais no horizonte. Perante um Euro forte, com uma Europa frágil, os Estados Unidos sentem, agora, os efeitos da crise, uma espécie de alerta para as consequências que tudo isto pode ter.
Há alguns dias que estou enredado na trama de um livro com uma capa igual a esta. Há esta sensação de cada vez se querer saber mais do que sabe o inspector Covas, na pista de um crime com contornos políticos e/ou passionais. A trama é apresentada por José Cardoso Pires quase como se de um argumento cinematográfico se tratasse. A história remonta a 1960, quando um corpo em decomposição é encontrado numa praia, rodeado de cães sem dono. Tratava-se do major Dantas Castro, um militar subversivo, que havia estado em prisão militar por insurreição, e de onde se evadiu na companhia de dois cúmplices, o arquitecto Fontenova e o cabo Barroca, com a cooperação no exterior da amante do major, Mena Ataíde. Do alto das paredes da Polícia, mirava sempre o retrato de Salazar, que, pelo que se percebe, estes homens e esta mulher tentavam combater, de forma desigual, por serem poucos, isolados e quase desprezados. O livro aparece escrito quase deixando cair, aqui e ali, pequenas pistas, que nos vão, página a página, capítulo a capítulo, espicaçando a curiosidade. Uma curiosidade que sabe bem alimentar.
Se há exemplo de alguém que, transpirando cultura «pop», trilhou o seu caminho no sentido mais inevitável possível, esse alguém foi, de facto, Amy Winehouse. A forma absolutamente decadente como se foi apresentando em público já prenunciava que, mais tarde ou mais cedo, isto ia acontecer. Com apenas dois álbuns gravados, alcançou, com o segundo, cinco «Grammy», em seis nomeações. Ficou apenas por ganhar o álbum do ano. Cinco «Grammy», um feito nunca alcançado por nenhum artista britânico. O espírito «pop» é excessivamente excessivo, e acaba por, às vezes, redundar nestas coisas. Aos 27 anos, Amy torna-se, para muitos, num mito. Sempre o exagero da «pop». Um mito fabricado. Quanto mais não seja, querendo ou não, por si própria.