5 de Novembro de 2011 – Alex Ferguson, 25 anos de Manchester United

Sir Alex Ferguson assinala, amanhã, 25 anos como treinador do «ManUnited», e, no ano em que completa 70 anos (a 31 de Dezembro) diz que não pensa na reforma. Muitos dos jogadores que orienta não eram nascidos quando o escocês, famoso pelos seus acessos de fúria, assumiu o comando do clube. Ferguson foi contratado pelos «red devils» em 1986, na altura com 44 anos, o que faz dele o segundo treinador com mais longevidade e estabilidade no mesmo clube (o francês Guy Roux, no Auxerre, supera esta «marca»). Filho de um operário, estreou-se enquanto jogador no «Queens Park Rangers», e, antes de ser treinador «a tempo inteiro», trabalhava também na construção naval. Chegou a estar iminente a sua demissão, por várias vezes, mas a própria cultura do clube sempre foi avessa às «chicotadas psicológicas». Não me lembro de ver outra cara à frente do Manchester United, desde que me interesso (não em demasia) por futebol. É, de facto, motivo para destacar o «feito».

4 de Novembro de 2011 – Itália, ou «o senhor que se segue»

Seja graças a uma qualquer «teoria da conspiração», seja porque o Primeiro-Ministro não é credível há muito (ou desde sempre), seja porque o Estado não está a fazer o suficiente, seja porque a economia não responde como deve ser, desenganemo-nos. A Itália é «o senhor que se segue», nesta «espiral crítica» da Europa. Christine Lagarde, directora-geral do FMI, disse-o, embora com outras palavras. Falta credibilidade às medidas de consolidação orçamental anunciadas pela Itália. Nos dias que correm, tudo é político e tudo é económico, e não se sabe o que é que gera o quê. Todavia, os políticos, bons e maus, acabam por sofrer «na pele» as consequências do que fazem ou não fazem, e, com eles, os mercados, essa entidade que já não temos bem a certeza de nos governar. Seja como for, tudo indica que este será o princípio do fim de Berlusconi.

«O problema, que foi claramente identificado tanto pelas autoridades italianas como pelos seus parceiros, é a falta de credibilidade das medidas que foram anunciadas».

(Christine Lagarde, directora-geral do FMI, em declarações dos jornalistas, durante a cimeira do «G20»)

3 de Novembro de 2011 – O que é aquilo na Grécia?

George Papandreou, Primeiro-Ministro grego, num completo golpe de teatro, decidiu referendar o programa de ajuda ao seu país. Aos olhos de quem não percebe nada do assunto, especialmente sobre as «jogadas políticas» internas da Grécia, a ideia não faz sentido absolutamente nenhum. Papandreou está a tentar que o ónus da crise grega seja colocado sobre o povo, desresponsabilizando-se (a si, e em si a toda a classe política) quanto ao descalabro em que o país se encontra. E toma esta atitude quando tem plena consciência de que as suas acções não são apenas para consumo interno. Estas coisas têm impactos, e, numa altura em que a «zona Euro» não vive dias fáceis, «brincar à política» não é a atitude mais avisada. Em causa está um «envelope financeiro» de 130 mil milhões de euros, de que a Grécia precisa bem mais do que de Papandreou.

2 de Novembro de 2011 – Concerto com o Vocal Ensemble, na capela da Vista Alegre

Hoje foi o corolário de alguns dias de trabalho intensivo, em torno do «Requiem» de Tomas Luis de Victoria e de algumas obras de Frei Manuel Cardoso, nomeadamente o Responsório de Defuntos, «Sitivit Anima Mea» e «Non Mortui». A experiência musical foi intensa, profunda em alguns momentos. E o resultado pareceu interessante. Surpreendeu-nos, creio, a quantidade de público, apesar do espaço não ser muito grande. A noite terminou com doces conventuais de Arouca e um belo vinho. O concerto repete-se, desta vez para a Antena 2, em directo, no próximo dia 6 de Dezembro, a partir das 19:00. É capaz de valer a pena ouvir um bocadinho.

28 de Outubro a 1 de Novembro de 2011 – Em trabalho com o Vocal Ensemble

Nos próximos dias, e a convite do meu mestre Vasco Negreiros, terei a honra de estar a trabalhar com o seu Vocal Ensemble, para um concerto que terá lugar na capela da Vista Alegre, em Ílhavo, no próximo dia 2 de Novembro, integrado nos Festivais de Outono, da Universidade de Aveiro. O local onde vamos trabalhar é encantador: o complexo da empresa Vista Alegre, com um museu interessantíssimo, uma capela de um enorme bom gosto, e todo um enquadramento urbano e paisagístico que dizem bem da importância desta empresa para o desenvolvimento desta terra, a ponto de ser considerada uma marca de excelência, a nível nacional. O Vocal Ensemble é um grupo especializado em Música Antiga, com uma interessante componente investigativa, sob a direcção do maestro Vasco Negreiros, que existe desde 1998. Para além de inúmeros concertos em Portugal, apresentou-se na Alemanha, no Reino Unido e no Brasil. Fica uma das coisas que se poderá ouvir, na próxima quarta-feira, na capela da Vista Alegre, a partir das 21:30.

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Requiem | Tomas Luis de Victoria – Introitum (Tallis Scholars)

27 de Outubro de 2011 – Nem Saramago escapa à cruzada do novo (des)acordo ortográfico

Nuno Pacheco escreve, hoje, no «Público», um texto feroz contra o (des)acordo ortográfico. Bem sabemos que, como alguém dizia, as opiniões são como as vaginas, mas não é por isso que não devemos tê-las (salvo seja). De facto, o novo «bom português» não deixa de ser questionável, e talvez por isso, e pelo facto de este (des)acordo ter sido negociado no maior secretismo dos gabinetes, para nos ser servido pronto a usar, levanta-nos muitas dúvidas, para além das que resultam de termos de voltar a aprender a escrever a nossa própria língua. Nuno Pacheco dá logo um exemplo. «O lote de livros, livrinhos e livrecos editados para que nada nos falte em matéria de aplicação e conhecimento da aberração a que se convencionou chamar acordo ortográfico não pára de aumentar». Mas, se a frase fosse «(des)acordada», seria «não para de aumentar». Enfim. Valham-nos os conversores informáticos, que nos podem facilmente pôr a falar «acordês». Livrinhos de instruções e programas serão, pois, boas fontes de negócio, mas também de «emburrecimento». E as obras literárias, também vão (des)acordar? A forma como os escritores as escreveram também vai ser adulterada para «acordês»? E, por fim, fica também a questão sobre se quem nos «vendeu» isto saberá escrever bem em português de Portugal.

«Pois é o que asseguram os defensores do “bom português”, muitos dos quais (senão mesmo a maioria) chumbariam em qualquer exame primário do português corrente. O que interessa, para eles, é que a coisa se cumpra, a pretexto de salvar o acordo. O que nem é difícil. Basta a qualquer analfabeto instalar no computador um conversor como o Lince para, com um simples toque de tecla, escrever “acordês” e ficar contentíssimo».

«Mas voltemos a Saramago. O livro foi acabado de escrever a 5 de Janeiro de 1953 e só agora se edita devido a peripécias já explicadas e que, neste caso, não são relevantes. Relevante, mesmo, é uma pequena frase escrita na página 6: “A presente edição reproduz fielmente o original.” Fielmente? Que noção de fidelidade é esta? Como se pode reproduzir “fielmente” um texto onde, na página 224, se lê: “tudo isto e mais a recetividade, o aguçamento da perceção”; ou “o pai aparecia-lhe com outro aspeto”; e na página 229: “Quis poupar o filho àquele espetáculo degradante”; e na página 394: “(…) que a atividade não leve a cometer vilanias”; ou “ativo sim, mas lúcido”. Há dezenas e dezenas de exemplos de idêntico calibre. Ora como podia Saramago, em 1953, ter escrito tal coisa, se o inefável acordo só surgiu nos anos 90? Como é possível assassinar “fielmente” uma escrita sem que ninguém reaja ou, pelo menos, exija que seja retirada do livro a mentira óbvia (ou será “óvia”?) resumida na tal frase da página 6? »

(Nuno Pacheco, jornalista, em texto publicado hoje no jornal «Público»)

26 de Outubro de 2011 – Ouvi bem, dr. Paulo Campos?

A 28 de Setembro de 2007, Paulo Campos disse, em Arouca, quando nos preparávamos para a Feira das Colheitas, e na presença de várias entidades oficiais, que a via estruturante ia ser construída ainda durante aquela legislatura, afirmando mesmo que estavam reunidas todas as condições para que a obra estivesse concluída em 2011. Aliás, mais, este senhor assinou um contrato, perante os representantes do povo de Arouca, para a continuidade da obra. Isto, por si, já poderia dizer bem da credibilidade deste personagem. Houve, depois, outros episódios, relatados abundantemente pelos jornais e pelas televisões. Mas hoje, Paulo Campos teve uma tirada de génio. Afinal as parcerias público-privadas não foram um mau negócio para o Estado. Chegou mesmo a argumentar que o custo, por exemplo, com as SCUT, podia ser diluído no benefício para as economias locais. Mas foi mais longe. Assegurou que o Governo do PS a que pertenceu reduziu os custos com estas parcerias em cerca de 300 milhões de euros. Este senhor ainda é deputado, convém lembrar.

«As novas parcerias público-privadas lançadas pelos Governos de José Sócrates não trouxeram nenhum encargo para o Orçamento de Estado de 2012. Ou seja, os encargos que hoje aqui temos são inferiores aos existentes em 2005, quando o PS chegou ao Governo».

(Paulo Campos, deputado e ex-Secretário de Estado das Obras Públicas)

25 de Outubro de 2011 – (In)formação em contexto

Sobre o palácio de Mafra, as histórias são conhecidas. Quanto mais não seja, através do «Memorial». D. João V, o «Rei Magnânimo» fez questão de o construir para cumprir uma promessa, relacionada com a sua necessidade de descendência. Eram tempos do ouro do Brasil, de riqueza, de domínio dos mares, condicionantes que fizeram com que esta obra resultasse numa obra-prima do barroco português. Em 1747, o Rei quis que se criasse a Real Tapada de Mafra, uma área natural de 1187 hectares, com um muro de 16 quilómetros de extensão. Aí, podemos contactar com a natureza tal como ela é, com espécies florestais bem preservadas e animais selvagens que vivem no seu habitat natural. Foi neste contexto que decorreu a acção «(In)formação em contexto».

Para além da presença do Secretário de Estado das Florestas, Daniel Campelo, a acção contou com apresentações e debates sobre quatro temas: «Informação em contexto: das interligações abstractas ao (re)conhecimento concreto», por Elizabeth Silva (CN UNESCO) e Sílvia Alves (RTP); «Biodiversidade e florestas: as várias escalas da realidade», com o professor Jorge Paiva, da Universidade de Coimbra; «Alterações climáticas: como lidar com um fenómeno abstracto, invisível e intangível», pela professora Maria João Cruz (Universidade de Lisboa) e «Desastres naturais: causas não identificadas – consequências reais», com a professora Maria José Roxo, da Universidade Nova de Lisboa. A descodificação da ciência, do jargão científico e a necessidade de estarmos alerta para a tremenda influência que estas questões podem ter (e têm) na nossa vida quotidiana, foram alguns dos apontamentos trazidos no bloco de notas.

24 de Outubro de 2011 – Mafra

Chego com a ideia, talvez colhida no «Memorial do Convento», de que Mafra foi ali plantada, como o palácio, num local onde ninguém imaginaria, e que só muita força humana, sobre-humana e sub-humana, tornaram possível. Leio, algures, que não, mas isso também não importa. Como imaginava, é o palácio, esse mesmo, o do «Memorial», que domina sobre toda a urbe. É já tarde, as ruas quase desertas, e a vontade de permanecer fora de portas é quase nula. Registo a pouca iluminação na zona fronteira ao monumento, e as obras de beneficiação aparentemente interrompidas, mas nada retira o brilho àquele edifício. Sei de antemão que vou ter de o conhecer apenas por fora, mas não faz mal. Será o pretexto ideal para regressar.

23 de Outubro de 2011 – O Inverno chegou, com pressa de ficar

O Inverno chegou. Veio instável, como é seu hábito. Veio alteroso. Veio com pressa. Com pressa de chegar. Com pressa de ficar. Não veio como o Inverno de Eugénio de Andrade. Aquele Inverno que vinha arrastado pelo Outono, o mesmo que os antigos previam que fizesse com que «dos Santos ao Natal, um saltinho de pardal». Agora, o tempo é escasso, e tudo acontece mais depressa. Por certo, uma borboleta bateu as assas, de flor em flor, algures do outro lado do mundo. E o Inverno veio logo, apressado, com a rapidez que nos caracteriza. Nem para o caminhar pastoso das estações do ano há tempo. Tudo acontece com pressa. Até a chegada do Inverno.

O Inverno | Eugénio de Andrade

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.
Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,
O chão onde passa
Parece um lençol.
Esqueceu as luvas
Perto do fogão:
Quando as procurou,
Roubara-as um cão.
Com medo do frio
Encosta-se a nós:
Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.
Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.