23 de Fevereiro de 2012 – Maior que o pensamento

Zeca. Foi precisamente neste quarto que te descobri, agarrado a um leitor de cd’s e a um gravador de cassetes, enquanto ia ouvindo a gravação que fazia do teu último concerto. Lembro-me, ainda pequeno, de ouvir-te partir. Busquei-te em vários acordes de guitarra. Descobri-te em muitas melodias. Tu és muito do que é (e do que deveria ser) a (boa) música portuguesa, mesmo que se atrevam a dizer que «não sabias música», como se o «saber música» se cingisse ao saber ler o que se escreve na pauta. A música vai muito para além disso, e a tua música vai ainda mais além de tudo. Tu és maior que o pensamento. Portugal não soube engrandecer-te, e quase te abandonou, porque, no fundo, era demasiado pequeno para ti. Obrigado, Zeca, por teres aparecido por cá.

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«Era um redondo vocábulo» (José Afonso) | Opus Ensemble

22 de Fevereiro de 2012 – Estado social ou político?

Os números deveriam ser notícia na exacta proporção de pontos de interrogação que deveriam trazer consigo. Segundo a agência «Lusa», o Estado pagou, em 2011, pensões de alimentos a cerca de 15 mil crianças e jovens, em vez dos pais que, alegadamente por dificuldades económicas, não cumpriram a sua obrigação, ordenada pelo tribunal. Estamos a falar de 14.740 pensões de alimentos pagas, no valor de 25.414.739,76 euros. E, segundo os últimos números, só em Janeiro deste ano já foram pagos cerca de 2 milhões de euros, tendo dado entrada 300 novos processos. As interrogações vêm em dois sentidos. Um, o de percebermos como é que é possível «deixar-se ao abandono» tantas crianças e jovens. Outra, e porque também as autarquias têm expediente, em relação às pessoas com carências, sobre se a motivação destes apoios é meramente social, cumprindo uma função que deve, de facto, ser do Estado, ou se há uma pontinha de motivação política, à espera de mais alguns votos em próximas eleições.

21 de Fevereiro de 2012 – Instantâneos de Carnaval

Se for olhado como um todo, e em boa verdade, o desfile de Carnaval em Arouca não prima pela excelência. É um facto que não somos uma terra com fortes tradições carnavalescas. Não temos caretos como em Podence, nem máscaras originais como em Lazarim, o que é pena. Mas também não temos escolas de samba, nem tradições «plantadas» ou «enxertadas», e ainda bem. Todavia, apesar de o todo não ser particularmente interessante, há pormenores que valeram a pena colocar na moldura. Aqui ficam oito, de muitos mais que poderiam estar cá. São «instantâneos». Instantes.

20 de Fevereiro de 2012 – Ó Entrudo chocalheiro

«Ó entrudo, ó entrudo / Ó entrudo chocalheiro / Que não deixas assentar / As mocinhas ao soleiro». As quadras, e a música respectiva, são tradicionais da Beira Baixa, e foram também popularizadas por José Afonso. A 23 de Fevereiro, passam 25 anos da morte de um dos mais importantes homens da música portuguesa. Mas, por agora, é tempo de Entrudo. Um ritual profano, de libertação, de fantasia, de quase proibido, ao que se seguem 40 dias de Quaresma, que culminam na Páscoa. Em Arouca, tem-se tentado «plantar» uma tradição, que, pelo menos à vila, nada diz. Queima-se o compadre e a comadre, numa espécie de ritual de expiação, depois de se ler os testamentos, em que «o não levar a mal» dá espaço a alguma crítica social. Imagens que ficam, no correr dos dias. Numa réstia de esperança que também começa a arder.

19 de Fevereiro de 2012 – Lisboa deve o triplo de Porto e Gaia

Provavelmente, são notícias como esta que fazem com que os senhores que planeiam a política nos gabinetes da República esqueçam que a realidade vai além da «fronteira de Alverca» e daquela pequena «ilha» a Norte, a que se chama Porto. Segundo se lê no «Jornal de Notícias», a dívida da Câmara Municipal de Lisboa é aproximadamente o triplo da soma das dívidas das câmaras do Porto e de Gaia. O «JN» fez as contas, e chegou ao valor de 1999 euros, que cada lisboeta, em teoria, deve. Porto e Gaia, em conjunto, teriam, «per capita», uma dívida de 746 euros. Adivinham-se condicionamentos fortíssimos às despesas das autarquias, o que, se olharmos para estes números, talvez se justifique. Contudo, a realidade autárquica do país vai além destes exemplos, e o que vai acontecer, escrevamos, é que o justo vai pagar pelo pecador. Esperamos para ver.

18 de Fevereiro de 2012 – «Schhh»

Às vezes é melhor não dizeres nada, e dizeres tudo, dizeres-te nesse não dizer nada. As palavras são, por vezes, inimigas do pensar, porque te põem letras onde tinhas a tua imagem das coisas. Não digas nada. Sê-te a ti mesmo em cada momento. O silêncio ensina-nos a esperar. Ensina-nos a paciência. Ensina, se o vives, que nele está todo o som que possas imaginar. O que seria da música sem o silêncio? Cala-te, e, nesse silêncio, diz tudo o que quiseres.

17 de Fevereiro de 2012 – A mão nas palavras

Às vezes, as palavras surgem-me na cabeça em torrentes, ávidas de serem pronunciadas, letra a letra, sílaba a sílaba, antes de serem alinhadas, umas após as outras, como se fossem música, a dizerem o que eu quero, mas, sobretudo, o que elas querem dizer. Outras vezes, elas fogem. Como que não querendo ser incomodadas. Leva-as o vento. Ou elas levam o vento. Ou. E desaparecem. Esvaziam-nos. Umas vezes, não temos mão nas palavras, quando elas querem, rapidamente, sair. Fixar-se. Dizerem coisas. Dizerem-nos. Outras, não as temos, pura e simplesmente. E não há nada para ser dito. «A folha em branco», ainda que virtual, é um medo. Tal como o é tentar-se preencher esse vazio com várias combinações de letras, mas nenhuma servir para dizer nada. Por excesso, ou por defeito, nunca tenho mão nas palavras. Respeito-as. Para fugir, sempre que possível, da banalidade das combinações e da musicalidade possíveis. E continuar, todos os dias, a lutar contra a «folha em branco». Mesmo que seja para não dizer nada.

16 de Fevereiro de 2012 – Mais do que discutir o desemprego, procurar porquês

Vai ser notícia durante muito tempo, porque ainda vai ser pior. A taxa de desemprego em Portugal já é a quarta mais alta da União Europeia (Espanha, Irlanda e Grécia são os restantes). Números do Eurostat, em Dezembro chegámos aos 13,6%. As televisões vão abrir telejornais com estes números, fazendo contas a quantos portugueses não têm emprego. Vão dissecar as razões, e vão chegar, direitinhas, ao destino da crise, e do pretenso excesso de austeridade como explicação para tudo. Estes são os óculos que nos vão querer colocar. Mas nós sabemos que a verdadeira explicação não está só aqui. Está também num modelo de escola que veio, desde há décadas, decrescendo progressivamente de qualidade, à medida que os números do desemprego subiram. Porque nos foram dando uma escola cada vez mais fácil, cada vez mais simples, cada vez menos exigente e, sobretudo, cada vez mais desligada do mercado de trabalho. A escola deixou de ensinar profissões, e passou a fabricar «estudiosos». Fruto de novas e velhas oportunidades, temos um país de doutores. Ficamos com alguns bons, exportamos os excelentes. E, no fim, por entre a mão cheia de nada, ou de muito pouco, sobram-nos estes números. Redondos como a ignorância que nos vendem, que nos dão de graça. E muitos de nós aceitamos de bom grado.

15 de Fevereiro de 2012 – Ser e parecer

«À mulher de César não basta ser séria. Tem de parecê-lo». É uma frase que quase toda a gente conhece, e usa com frequência. Pois bem, para se ser o «homem da casa» também não basta parecê-lo. É preciso sê-lo, de vez em quando. Assim, hoje, depois de um dia de trabalho, ultimando a pós-produção do disco do Orfeão de Arouca, foi preciso terminar a tarefa iniciada ontem: arrumar um tractor de lenha, porque o calor, o aroma e o som da lareira não se fazem sozinhos. É daquelas coisas em que a ciência está no fazer-se, e que tem mesmo de ser feito. Para nosso conforto, e honra da nossa genética. Venha o frio. Estamos prevenidos.

14 de Fevereiro de 2012 – Há mais quem seja contra o (des)acordo ortográfico

Afinal há mais quem seja contra o decreto que nos obriga a mudar de língua. Quando Vasco Graça Moura decidiu não aplicar o (des)acordo no CCB, soube-se que há mais quem defenda que este tipo de mudanças tem de ser feito «de baixo para cima», ou seja, depois de uma necessidade detectada na sociedade, e não imposta por decreto. Há várias iniciativas que visam tentar parar esta «onda assassina». As notícias dizem-nos que, hoje, um cidadão vai ao Parlamento defender uma petição que propõe um referendo. Continua em curso a Iniciativa Legislativa de Cidadãos que, desde 2010, luta por um projecto de decreto-lei parlamentar que suspenda o (des)acordo. Continua a circular uma petição que, dizem as notícias, já reuniu mais de 100.000 assinaturas. Há, ainda, uma queixa que deu entrada na Provedoria de Justiça, que alega que este (des)acordo é inconstitucional, sendo necessária uma revisão constitucional para alterar a ortografia. Uma língua não se muda por decreto, lê-se, e muito bem. Apesar de os labirintos jurídicos fazerem com que esta iniciativa subserviente não tenha oposição possível senão a da resignação de um povo ávido de tudo o que é simples, simplório, provinciano.