14 de Março de 2012 – Cavaco «versus» Sócrates

Cavaco Silva «abriu o livro», tanto no sentido figurado como metafórico, para se desculpar de uma coisa que, aparentemente, não tem desculpa, pelo simples facto de se ter tornado inevitável. Durante uma longa espera, em que o país ficou num impasse agoniante, Cavaco preferiu deixar que Sócrates se demitisse, para não ter de demiti-lo. Agora, faz uma espécie de «queixinha» ao povo português, acusando o anterior Primeiro-Ministro de falta de lealdade, por não ter, como devia, informado o Presidente sobre a verdadeira situação económica do país. O Presidente da República diz-nos, assim, que Sócrates era mau. Como viemos, infelizmente, e talvez alguns tarde demais, a descobrir. Mas, sobretudo, o que nos diz é que não fez nada por nós, para minimizar essa tremenda falta de carácter (político, se quisermos ser condescendentes) que um tal José Sócrates, afinal, sempre parece que teve (tem?). Aos «piquenos», costumamos ensinar que não se faz queixinhas. E também que não vale a pena chorar sobre o leite derramado.

13 de Março de 2012 – O tempo não pára

O tempo não pára. Como o sol, que nos empurra com força contra a terra, como se nos quisesse fazer sentir, à força, que é para ali que temos de ir, porque é dali que somos. Ficamos curvos, vergados pelo correr dos dias, avolumados de afazeres, prazos, pedidos, questões, discussões, compromissos, pressas e poucos descansos. A correr em direcção contrária, em contra-mão com o tempo, sempre mais veloz, sempre cruel, sempre. Dia sim, dia não, saltando etapas, sem se saber para que destino, para que pódio, para quê. O tempo não pára. E se, de repente, algo nos impede de avançar, talvez o mundo acabe. Talvez deixemos de ter de nos preocupar com o que parece tão importante. Porque nestas voltas de 60 segundos, 60 minutos, 24 horas, somos o elemento menos importante. Tudo passa. Como o tempo. Que não pára.

12 de Março de 2012 – Da Vinci ainda vivo, atrás de uma parede de Florença

Já tinha sido capa da edição portuguesa da revista «National Geographic», mas, não se sabe porquê, «passou ao lado». Há um grupo de investigadores que está a tentar interpretar as pistas que Giorgio Vasari terá deixado numa pintura que executou numa sala do Palazzo Vecchio (a Câmara Municipal de Florença). Segundo crêem, uma inscrição de Vasari com a expressão «cerca trova» (procura e encontrarás) indicaria que, por trás da pintura mais recente, estaria um Da Vinci. Os investigadores estão a utilizar um método semelhante à endoscopia para conhecerem o interior das paredes do Palazzo Veccio, procurando comprovar a ideia de que Vasari não destruía obras anteriores nos espaços que trabalhava. Hoje, a notícia chega aos «media» generalistas, e fica-se a saber das coisas «pela rama», como de costume. Mas não importa. Importa, apenas, salientar que Da Vinci continua vivo. Continua a surpreender, confirmando-se, cada vez mais, como verdadeiro homem do Renascimento. Pintor. Escultor. Músico. Gastrónomo. Fisiologista. Arquitecto. Físico. E um interminável «etc.» que o acompanhará pela história fora. E pensar que viveu há largas centenas de anos…

11 de Março de 2012 – Os suiços não querem mais férias do que as que têm

Uma larga maioria dos suíços acha que as férias que têm são suficientes, e que mais tempo de lazer (como propunham os sindicatos) não faz falta. O «não» às férias alargadas colheu 66,5% dos votos, num referendo em que se questionava a possibilidade de aumentar o tempo de férias de quatro para seis semanas anuais. Contas feitas, 772.000 dos 1.530.000 eleitores votaram pelo «não». O posicionamento da Suíça, tanto geográfico como político, sobretudo perante os demais países da Europa, sempre foi curioso. Um pequeno país no centro da Europa, passa completamente «ao lado» da União Europeia, e assume-se como a 19.ª maior economia mundial, com um crescimento, em 2011, de 1,3%. Enquanto o resto da Europa grita de forma histérica, perante o incêndio da crise que não consegue apagar, nem sequer esboçar uma reacção, a Suíça continua a fazer por manter a fama de um país que vive de e para o trabalho.

10 de Março de 2012 – Oboé, galinha o põe

A Banda Musical de Arouca organizou, hoje, um concerto pouco vulgar pelas nossas paragens. A classe de oboé do Departamento de Comunicação e Arte, da Universidade de Aveiro, apresentou algumas obras de música de câmara, no Cinema Globo d’Ouro. Foi bom rever colegas, ver que estão a um nível muito interessante, e que há gente de Arouca por aí a fazer coisas belíssimas. O oboé é um instrumento de sopro, de palheta dupla, da família das madeiras. O seu nome está ligado à sonoridade aguda que produz («hautbois» significa «madeira alta»). É conhecido por ser o instrumento que regula a afinação da orquestra sinfónica, que passou a integrar em meados do século XVII. Em tom de brincadeira, costumamos dizer «oboé, galinha o põe». Mas em verdade: parabéns, pessoal. Foi muito bom ouvir-vos.

9 de Março de 2012 – STOP

Estou cansado. Disperso. Parece que falta sempre fazer algo. Dizer algo. Estar em algum lado. Com alguém. Preciso de parar um momento. O tempo parece correr depressa demais, como o calor do sol que nos chega. Depressa demais. Pára. Respira. Penso muitas vezes o que aconteceria a estas coisas, que parecem urgentes e importantíssimas, se eu desaparecesse agora mesmo. O que seria mais importante? Talvez todas estas coisas, porque somos rápidos a esquecer os nossos semelhantes. Parece que esticamos, até não podermos mais. Porquê? Para quê? Estou cansado. «Velai o meu sono. Deixai-me dormir».

8 de Março de 2012 – «Stabat Mater», de Josef Rheinberger, em fase final de preparação

Josef Rheinberger é um compositor do final do século XIX, natural do principado do Liechtenstein, onde, ainda hoje, é considerado um quase herói. Imagine-se, por ter sido um homem de cultura. A obra coral deste compositor tem autênticas pérolas, plenas de beleza e lirismo, onde a música religiosa tem especial destaque. No Orfeão de Arouca, há algum tempo que preparamos o «Stabat Mater», uma obra que procura retratar o sofrimento de Maria perante a crucificação do seu filho. Estamos, agora, na fase final da preparação desta obra, para a apresentarmos no Concerto de Páscoa, que terá lugar a 31 de Março, com a Orquestra de Gaia. O desafio é interessante, e, para já, compensador. A primeira apresentação desta obra decorrerá na igreja do Colégio Salesiano do Estoril, apenas com órgão, em que seremos acompanhados pelo nosso muito estimado professor Nicolas Roger. Há muita música para se fazer. Esperemos que bem.

7 de Março de 2012 – Contos de fadas alemães

Os contos de fadas têm dois «poderes». Um, é o de nos abrir a porta da imaginação, e fazer-nos acreditar de que tudo é possível, desde que queiramos e lutemos por isso. Outro, é o de nos adormecer. Uma das notícias de hoje é curiosa, por estas duas razões e pela origem. Lê-se, por aí, hoje, que foram encontrados cerca de 500 contos de fadas inéditos. Segundo se sabe, a descoberta terá ocorrido em Regensburg, na Alemanha, onde se diz que estes textos estariam guardados há centena e meia de anos. Alguns são inéditos, outros são versões que alteram contos famosos, e fazem parte de uma colecção de mitos, lendas e outros textos reunidos por um historiador de nome Franz Caver von Schönwerth, que terá vivido na mesma época dos irmãos Grimm. A originalidade, a criatividade, a imaginação e o talento de hoje talvez não sejam tão acentuados como os desse tempo. Mas que bom seria que Merkel fosse um sapo, a quem pudéssemos dar um beijo tão grande, tão grande, que ela pudesse transformar-se em princesa. Que nem precisava de ser «sexy», bastava que fosse bonita e sorridente o suficiente para podermos acreditar que a Europa ainda tem futuro. Quem sabe.

6 de Março de 2012 – Numa espécie de zénite

O Benfica está entre as oito equipas de «top» da Europa. Depois de um jogo complicado, na Rússia, o Benfica conseguiu vencer o Zenit de São Petersburgo, em casa, e está, assim, nos quartos-de-final da Liga dos Campeões. O Benfica atinge um pequeno «zénite», chegando a uma fase da competição a que já há alguns anos não conseguia chegar. Além disso, o resultado positivo é uma espécie de «lufada de ar fresco», depois de alguns resultados menos bons, nos últimos jogos. Vêm aí mais finais, mas para já, há que saborear esta espécie de «zénite».

5 de Março de 2012 – Os meus livros (musicais)

Uma antiga professora minha, da Escola Secundária de Arouca, convidou-me para, um dia destes, ir falar aos alunos de música sobre (os meus) livros. O convite colheu-me de surpresa, mas essa surpresa funcionou como motor de curiosidade, e a curiosidade como motor para ir à prateleira ver o que havia de música na literatura. Podiam ter sido mais, mas trouxe «A Saga das Mãos», onde o pianista brasileiro João Carlos Martins conta como uma doença progressiva lhe tirou a sensibilidade nos dedos, e de como conseguiu «dar a volta» à sua vida, pelo lado positivo. Trouxe «O mundo da Música», o livro obrigatório de Leonard Bernstein. Trouxe muitos outros, como os «Vulcões de Lama», em que Camilo conta uma história passada em Arouca, e descreve um funeral acompanhado pela Banda Musical de Arouca. E trouxe, ainda, o obrigatório «O resto é ruído», de Alex Ross. Ainda não sei por onde vou começar, mas que há por aqui, por estes livros, coisas fascinantes, há.