12 de Dezembro de 2013 – Não me apetece falar da entrevista do Primeiro-Ministro

entrevista-passos-tviNão me apetece falar da entrevista do Primeiro-Ministro. Não me apetece pensar se o PSD irá concorrer junto com o CDS às eleições europeias. Nem começar a realizar que os pensionistas vão voltar a ser penalizados. Não me apetece olhar constantemente para esta imagem, de um homem que não tem outra alternativa senão tentar encontrar alguma ordem num caos, parte dele gerado também por si. Não me apetece ter de estar a ver ali atrás as bandeiras de Portugal e da União Europeia, como fantasmas a pairar sobre nós. Seja de quem for a culpa, roubaram-nos os sonhos. Roubam-nos a alegria, dia a dia, euro a euro, quando continuam a pressionar-nos economicamente, fazendo-nos pagar por uma crise que não criámos. Espremem a nossa vontade, que se eleva e começa a procurar outros destinos. Não me apetece. A menos que seja inevitável, e o não me apetecer seja o de ter de ir para longe desta gente.

11 de Dezembro de 2013 – Pode alguém ser quem não é?

HamletHá dias assim. Em que nos apetece o silêncio. A distância. Uma interrogação constante, para a qual a ausência de resposta é também constante. Voltar a percorrer o caminho desde a despedida, junto à praia, ante um mar infinito de onde não se sabe se haverá regresso. Há dias em que músicas, simples, com palavras, também simples, nos deixam muito para absorver nas entrelinhas. Música e palavra são-nos tão marcantes quanto a capacidade que têm de ter a ver connosco. Assim foi com este tema de “O irmão do meio”, de Sérgio Godinho. Em que as palavras deixam margem para se pensar em muita coisa, mesmo não querendo pensar em nada. Neruda dizia acontecer cansar-se de ser homem. Há dias assim. Em que somos, apenas. E em que pensamos, também sobre os outros dias, se pode alguém ser quem não é.

Sérgio Godinho; Teresa Salgueiro – Pode alguém ser quem não é (O irmão do meio)

Sérgio Godinho (com Teresa Salgueiro) – “Pode alguém ser quem não é?”

10 de Dezembro de 2013 – O Mordomo

http://www.youtube.com/watch?v=seioe981TTI

A música de Rodrigo Leão podia ser motivo suficiente, mas havia mais. A curiosidade. A vontade de voltar a pensar sobre várias coisas. De como não escolhemos onde nascemos, nem o que nos dão. Mas podemos escolher o que fazer com isso. Ir a favor ou contra a corrente. Alinhar ou desalinhar. Embarcar no sonho, ou desembarcar quando este se transforma em pesadelo. Depois, há quem passe por tudo isso. Quem veja as coisas acontecerem e “desacontecerem”. Quem vá ajudando, grão de areia a grão de areia, a mudar um pouco do mundo. Quem veja o mundo a mudar. Perdendo, ganhando ou apenas ficando na bancada. Muitas vezes sem ver nada, sem ouvir nada. Apenas servindo. Como o mordomo.

9 de Dezembro de 2013 – Os demónios de Da Vinci

davincisdemons-img«A História é uma mentira, que foi afiada como uma arma por aqueles que suprimiram a verdade. O conhecimento que estás destinado a adquirir derrubará a ordem estabelecida. (…)”O tempo é um rio” (…) O que a maioria não compreende, é que o rio é circular». É com estas palavras que começa a série «Da Vinci’s Demons». Não se trata de uma série biográfica, antes bem fantasiosa. Mas só o facto de permitir chegar mais perto deste génio, já vale a pena. O exemplo de Da Vinci demonstra bem as dificuldades com que se debate quem não tem a certeza absoluta do propósito que o espera. Todos os génios perseguem essa busca, e raramente a conseguem terminar em vida, vindo o reconhecimento sempre muito depois. Há fantasia, há realidade. De forma despreocupada, despretensiosa até, vale a pena ver.

8 de Dezembro de 2013 – Por entre livros

Gabriela, Cravo e CanelaAdquiri, recentemente, um livro de leitura obrigatória. Chama-se «História Política do Diabo», escrito por Daniel Defoe, em 1726. As páginas que já li merecem que volte a ele mais tarde, depois de uma leitura mais profunda. Passei, entretanto, pelo «Homem de Constantinopla» e por outras leituras. Há Mandela e Dan Brown para serem lidos. Talvez Hemingway, quem sabe. Mas é «Gabriela, Cravo e Canela», de Jorge Amado, que mais se impõe. É que não é apenas a história da mulata, nem tão pouco as comparações entre o livro e as imagens da televisão. É a forma como Jorge Amado consegue tecer, entrançar as histórias, de modo a que não sejam apenas histórias, ou apenas uma história, mas como que histórias dentro de histórias, em que as personagens são mais do que personagens ou classes. E de como a simples Gabriela, sem grande artefacto, sem nada, consegue interrogar-nos sobre as complicações que se criam, ou que nós próprios criamos. Apenas para sermos uns com os outros.

7 de Dezembro de 2013 – Jobs

http://www.youtube.com/watch?v=Lx-PC1KZS3Y

Steve Jobs era “out of the box”. Por isso viveu (ou construiu toda a sua vida) também “fora da caixa”. Uma vida assim, era difícil de transpor para o ecrã, mas houve quem tentasse. Fruto de adiamentos sucessivos, finalmente houve um espacinho para ver “Jobs”. Ficou, pelo menos, a vontade de ler a biografia. Que, dizem, também não diz tudo. Pelo que se vê, ouve e lê, talvez seja impossível dizer tudo sobre Steve Jobs. Assim como assim, vamos conhecendo, aos bocadinhos.

6 de Dezembro de 2013 – Quando o Criador escuta

Uma das grandes vantagens da música é sobrepor-se às várias línguas. Esta é uma prova disso mesmo. Um hino tradicional islandês, do qual não percebemos uma única palavra, mas em que a música nos diz tudo o que há para dizer. Um grupo vocal resolver aproveitar a acústica de uma estação ferroviária alemã para fazer ecoar uma prece. Simples. Harmoniosa. Universal. Como, no fundo, é a própria música. A peça chama-se “Heyr, hiena smiour”. O que, dito assim, pouco diz. A tradução, feita de forma mais ou menos literal, será “Escuta-me, Criador celestial”. E o texto que acompanha esta música fabulosa diz mais ou menos assim: “Ouve, do alto dos céus, o que o poeta Te pede. Deixa que venha até mim a Tua misericórdia. Clamo por Ti, porque me criaste. Sou Teu escravo, e Tu o meu Senhor. Peço-Te que me cures, que Te lembres de mim, ó Rei gentil, porque preciso de Ti. Vem, ó Rei dos sóis, generoso e grande, atender à tristeza humana e aos nossos corações. Vela por mim, porque preciso de Ti a cada momento. Ao mundo dos homens, envia-nos o filho de uma virgem, para fazer o bem, e de onde vem todo o calor para o meu coração”. Boa escuta.

5 de Dezembro de 2013 – Madiba

Nelson-Mandela-1994Nelson Mandela deixou, hoje, de fazer parte do mundo dos vivos. Se já não o havia alcançado, alcançou, agora, o estatuto de mito.  O punho fechado de Madiba é sinónimo de vitória, mas também da força que é preciso fazer, do sacrifício que é preciso suportar para alcançá-la de forma nobre, limpa, superior. Mandela é um símbolo de paz. De pacificação. De como, de facto, as coisas nem sempre se conseguem com uma revolução que, facilmente, descamba em destruição e anarquia, porque tem como fim apenas esse processo de revolução, sem mais. O projecto de Mandela era a longo prazo. Era eterno. E tinha como objectivo ser alcançado, com a participação de todos. E foi. Madiba voltou a ressuscitar o apelo fundo que África exerce sobre mim. Sobretudo vozes como estas, dos «Ladysmith Black Mambazo». Aqui, cantam «King of Kings». Onde o amado pede à amada que o venha beijar antes que se vá. No caso de Mandela, porque eterno, iremos, por certo, sempre a tempo.

King of Kings
Ladysmith Black Mambazo – «King of Kings»

4 de Dezembro de 2013 – Toda a obra de Mozart

mozartO «site» não é especialmente bonito, mas é extremamente eficaz. Agora, a obra completa de Mozart está disponível para audição e «download» legal. No total, são cerca de 700 peças, que constituem mais de 180 horas de música, da ópera à música de câmara, das obras para piano às sinfonias. Mozart viveu apenas 35 anos, mas foi tempo suficiente para compor 41 sinfonias; 19 missas (incluindo o Requiem); 27 concertos para piano; concertos para trompa, flauta, oboé, clarinete, fagote e harpa, 12 árias de concerto; 13 serenatas; 50 canções para voz e piano e 24 óperas, entre as quais as famosas «A Flauta Mágica», «Idomeneo», «Don Giovanni», «O Rapto do Serralho», «Cosi Fan Tutte« e «As Bodas de Fígaro». O site chama-se «Mozart Weltweit», e merece uma visita.

3 de Dezembro de 2013 – Outra vez Sá Carneiro

sa-carneiroQuando Francisco Sá Carneiro morreu, eu ainda não tinha completado três meses de vida. Não senti a consternação da perda. Não conheci o percurso de vida, a acção política, a evolução do pensamento. Tudo isso, fui descobrindo. Lendo. Revendo. Revivendo. Aprendendo. Sá Carneiro passou pela vida com a velocidade e a força de um meteorito, deixando atrás de si um rasto de mudança, de força, muitas vezes de choque ou confronto com uma realidade que parecia custar cada vez mais mudar. Não acreditava na revolução, antes na mudança a partir de dentro. Tinha relutância em desistir das suas causas. Era convicto. Fazia o que fosse preciso, lutava até ao fim pelo que julgava ser o melhor. Hoje, em especial, toda a gente pergunta que país teríamos se não tivesse morrido. Seria, certamente, um país diferente. Mas não um país fácil, especialmente para personalidades como a sua. Muito provavelmente, as circunstâncias tratariam de afastar Sá Carneiro, como o fazem com tudo o que é incómodo. Como, de certa forma, já fazem, mesmo com o seu legado. Não sendo um homem grande, foi um grande homem. Não sendo um homem robusto, foi um homem forte. Hoje, ainda que ao de leve, irão lembrá-lo. Que aprendamos algo.