23 de Dezembro de 2014 – O filho de mil homens

valter-hugo-maeVoltei a ter o enorme prazer de receber de prenda um livro de valter hugo mãe. Assim mesmo, em minúsculas, como é seu hábito. Desta vez, «o filho de mil homens». A história de um Crisóstomo, pescador, que olha para os seus quarenta anos com a tristeza de não ter tido um filho. Como quem não quer a coisa, como criança curiosa, os olhos foram passando pelas primeiras páginas. Crisóstomo não falava propriamente com Deus. Nem tão pouco estava habituado a que lhe concedessem desejos. Mas bastou-lhe acreditar que talvez fosse possível. Que talvez também ele pudesse contribuir com a sua parte, para que fosse possível. Ali, começa uma viagem da faina, que tenta demonstrar que para sermos felizes temos de «aceitar ser o que se pode, nunca deixando contudo de acreditar que é possível estar e ser sempre melhor».

22 de Dezembro de 2013 – Apetece-me

chuvaPor estranho que pareça, apetece-me a chuva. Apetece-me, com tudo o que ela traz. Vontade de ficar em casa. Instinto de acender a lareira. Voltar a ligar o candeeiro de canto. Ajeitar o sofá. Esperar pelo crepitar da lenha. E abrir um livro. Um qualquer. Depois, viajar por aí. Dentro do livro, como dentro do vidro contra o qual podemos pôr a mão, e, de olhos fechados, sentir a chuva lá fora, sem sair. Apetece-me não me preocupar com nada a não ser deixar o tempo passar. O pensamento fluir. Não estar pensando em nada. Descansar de ser. Mas, para que tudo possa ser, para começar, apetece-me a chuva.

21 de Dezembro de 2013 – Habemus Papam

papa-franciscoA frase bem pode repetir-se quase todos os dias. Temos, de facto, Papa. Se receios havia, entre os cristãos, de se afirmarem, a identificação, simples e directa, com o Papa Francisco dissipa-os por completo. Por vezes, quase damos por nós a pensar «será possível?», ou «será que ele vai conseguir?», ou ainda «será que esta lufada de ar fresco veio para ficar?». Mas, na mensagem fundamental, há algures palavras semelhantes a estas: nada te perturbe, nada temas. Vale a pena deixarmo-nos surpreender por Francisco. Vale a pena ajudarmos a construir este futuro, mesmo com muitas dúvidas à mistura. Francisco constitui um desafio. Um desafio verdadeiro. Daqueles que não podemos recusar. Habemus Papam.

20 de Dezembro de 2013 – O Constitucional inconstitucional

Tribunal-Constitucional-2Por incrível que pareça, estávamos todos à espera de ouvir o que o Tribunal Constitucional tinha para dizer. Não o Primeiro-Ministro. Não o Presidente da República. Não alguém da civilização do espectáculo. O Tribunal. Microfones e câmaras ligadas, ouvimos a sentença. Depois da sentença, começámos a ouvir as explicações mais detalhadas do presidente do Tribunal Constitucional. Até aqui tudo bem. Interromperem o senhor para fazerem a volta dos partidos é que não havia necessidade. É que não desrespeitam apenas o senhor. Desrespeitam, sobretudo, quem está do lado de cá dos ecrãs. Enfim. Reflexos do país que temos.

19 de Dezembro de 2013 – Aquela vontade…

viajarHoje é um daqueles dias em que se sobrepõe aquela vontade que não conseguimos explicar. Aquela vontade de não estarmos onde estamos. De irmos para outro lugar. Aquela vontade de saborear cada bocadinho do processo de ir daqui para ali. E, depois, talvez dali para outro lugar ainda. Sair daqui, nem que seja para ali, dá-nos uma dupla visão das coisas. Do novo, do que estava ali e não conhecíamos, mas também nos ajuda a valorizar o que deixámos, ainda que temporariamente, por uma espécie de comparação. Hoje é um daqueles dias em que começa a ganhar forma, lentamente, a vontade. Aquela vontade. De viajar.

18 de Dezembro de 2013 – Carta ao Pai Natal

pai-natalEstimado Pai Natal:

 

Não imaginas, por certo, a incredulidade com que tive de aceitar a evidência de que não existes. Se, por um lado, foi bom sentir que já não era bem uma criança, por não acreditar em algo que não existe, por outro ficou uma melancolia pequenina, mas aguda, por ter de deixar essa magia para trás. Talvez o mal das coisas todas que por aí andam seja esse. Temos pressa de tornar tudo explicável. Não temos tempo de surpreender. Demora demasiado tempo atendermos às coisas pequenas, mas preciosas. É lamechas. Essa magia, essa fantasia, essa ausência de limites da imaginação já não estão na moda, pelo que me admira o facto de ainda conseguires, no meio da tua inexistência, estares tão presente.

O meu pedido, este ano, é simples. Não quero o Natal. Não quero esse Natal das árvores e das luzes que acendem e apagam. Não quero esse Natal das músicas que toda a gente canta. Não quero esse Natal de compras, só porque sim. Não quero ter prendas. Não quero também aquelas coisas bonitas, como a paz no mundo e a harmonia entre os homens, porque sabemos que não adianta pedir.

No fundo, mesmo sem querer, somos todos um pouco hipócritas, por deixarmos passar trezentos e sessenta e tal dias para sermos, de facto, humanos. Andamos um ano inteiro armados em racionais. Preocupados com o fio do tempo. Com o formato redondo do nosso umbigo. Com a vontade de andarmos em ombros, suportados pelos que dizem que nos admiram. Ou com a miséria das nossas misérias, para que seja maior que a miséria do vizinho. Mas, de repente, é Natal outra vez, e parece que o mundo é diferente. Nós somos diferentes. Até respiramos um ar diferente.

Por isso, Pai Natal, quer existas ou não, apenas te peço que deixes o meu sapato vazio. Não tentes consertar nada no mundo, porque nós não vamos deixar. Concretiza os desejos de toda a gente. Sacia o consumismo dos consumistas. Recarrega as baterias dos que têm sucesso. Ampara, protege e ajuda os que precisam de alento. Faz tudo o que quiseres, mas não nesse Natal de que falam por aí.

O que eu verdadeiramente queria, este Natal, era que ele fosse verdadeiro. Que fosse um exemplo para todos os dias. Que, como nestes dias, me lembrasse sempre dos que precisam, dos que lutam, dos que são vencidos, dos que erram, dos que têm a coragem de pedir ajuda. O que eu verdadeiramente queria, este Natal, era que cada um de nós conseguisse entrar dentro de si mesmo. Comprimir-se até não poder mais, ocupando apenas o espacinho de uma semente. A semente de um homem novo. Esse homem novo que deixámos esquecido no presépio, da mesma forma que desviámos o olhar há mais de dois mil anos.

O resto da carta, escrevo para o ano. Até breve…

17 de Dezembro de 2013 – A música portuguesa a gostar dela própria

Não sei se já escrevi sobre o assunto, mas, neste caso, mais nunca é demais. Há, na internet, um projecto que é de consulta regular absolutamente obrigatória. Chama-se “A música portuguesa a gostar dela própria”, e é praticamente o projecto de uma vida, abraçado pelo realizador Tiago Pereira (filho desse enorme músico português, chamado Júlio Pereira). Pelo site, pelo facebook, pelos canais de vídeo surgem várias recolhas feitas por todo o país, que nos faz ver que a música, quando verdadeira, genuína, simples, torna-se ainda mais bela. Já tinha visto algumas imagens na televisão, mas rever, na internet, a dona Ana Amélia Dutra, de 91 anos, natural da ilha do Faial, Açores, a tocar guitarra portuguesa desta maneira, não me resta senão deixar de escrever, e confiar que perceberão tudo o que quero dizer.

16 de Dezembro de 2013 – Como se começássemos a travar

travarDe repente, é como se começássemos a travar, pausadamente, aos poucos, porque parece que vem aí o Natal. Com ele, a vontade de voltar a casa. À família. Aos amigos. A algum tempo livre. Não aquele Natal das músicas comerciais, da euforia das compras, da preocupação com as prendas. O Natal dos encontros. É, então, como se estivéssemos naquele lanço de portagem, em que temos de começar a abrandar. Mas fazemo-lo com prazer. Com vontade. Hoje parece ser o dia em que entramos nessa via da portagem. Como se começássemos, calmamente, a travar.

14 e 15 de Dezembro de 2013 – Música na prisão de Braga

Passe o tempo que passar, não vou mais esquecer o sorriso rasgado do Gil. O flamenco do João. O olhar profundo do Igor. A timidez do João Paulo. Os rostos a abrirem-se, à medida que íamos fazendo música. Nunca mais vou esquecer as palavras cadenciadas, sentidas, postas lado a lado como um muro, não de uma prisão, mas quase de ouro. Há muitas formas de fazer música, mas esta tem-se revelado a mais surpreendente, a cada passo. Porque ensinamos, aprendemos e ficamos verdadeiramente unidos. Quando me disseram «tens de ir fazer música a uma prisão», primeiro veio a surpresa, depois um sorriso de desafio. Depois, o impacto de sentir a brutal diferença entre o «fora» e o «dentro». Entre a liberdade e a prisão. O resto, foi uma enorme aprendizagem. E o sentimento. Estas podem não ter sido as melhores notas que toquei, mas foram, sem dúvida, das mais sentidas. E o que é a música, se não for sentida?

13 de Dezembro de 2013 – Reno erat Rudolphus

Na música, pegar em algo antigo e preservá-lo, dando-lhe um toque de modernidade, é algo mais ou menos comum. Desafiante, mas quase natural. É uma forma de inovar com o que está na base dos recursos que temos disponíveis para usar. Mais desafiante ainda, e raro, diga-se, é fazer música como se faria, por exemplo, nos tempos do canto gregoriano. Este é um exemplo bem curioso disso. Alguém pegou na famosa canção «Rodolfo era uma Rena», e transformou-a num trecho gregoriano, digno de ter sido encontrado num qualquer manuscrito do século XII. A música está lá na mesma, mas com o rendilhado da técnica gregoriana. Quase uma obra-prima.