20 de Janeiro de 2014 – Requiem para Cláudio Abbado

http://www.youtube.com/watch?v=Ct4YJpzXhxM

«For me, listening is the most important thing: to listen to each other, to listen to what people say, to listen to music» («Para mim, ouvir é a coisa mais importante: ouvirmo-nos uns aos outros, ouvir o que as pessoas dizem, ouvir música»). É com estas palavras de Claudio Abbado que a Deutsche Grammphon o homenageia. Viena, La Scala, Sinfónica de Londres e Filarmónica de Berlim (onde fez a «ponte» entre Karajan e Rattle) terão muito a dizer sobre ele. Bem como a Orquestra de Jovens da União Europeia, que fundou, e a Sinfónica Simón Bolívar, da Venezuela, com quem trabalhou recentemente. Muita gente terá muitas e muito mais importantes coisas a dizer sobre Claudio Abbado. O cancro, contra o qual lutou desde 2002, não o venceu, ao contrário do que possa parecer. Em vez de flores, quis que o homenageassem com donativos a entidades que lutam contra a doença. Aqui, fica o Requiem de Verdi, que pude ver pela televisão quando estive, em 2007, na mesma cidade onde Riccardo Muti o dirigia: Florença. Fica, em vídeo, a obra completa, como que dizendo que Abbado, com o legado e a memória que deixa, nos permitirá, também, acabá-la.

19 de Janeiro de 2014 – Mais uma opinião contra o (des)acordo ortográfico

pacheco-pereiraPacheco Pereira é mais um dos fervorosos “desapoiantes” do (des)acordo ortográfico, e isso fica bem explícito na sua crónica de ontem, no jornal “Público”. Como muito bem lembra, a decisão de aplicar esta verdadeira farsa foi política, e não técnica ou resultante de uma necessidade social. É uma medida facilitista, que aproxima um património com a dimensão da língua portuguesa do “SMSês”. E se mais provas faltassem para demonstrar a vacuidade deste (des)acordo, basta vermos quantos países o adoptaram. E veremos que, curiosamente, nenhum o fez. A não ser Portugal, numa atitude absolutamente provinciana, atentando mesmo contra a sua própria identidade. Juntamente com as famosas PPP, encontramos aqui uma fonte de despesa absolutamente desnecessária, que acaba por ser repartida por todos nós, todos os dias. Mas enfim. Leia o artigo de Pacheco Pereira. Logo nos dois primeiros parágrafos, ele diz ao que vem. Mas é melhor ler. Tudo.

“O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação.

É um acto político falhado na área da política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele”.

(Pacheco Pereira: “Acordo ortográfico: acabar já com este erro antes que fique muito caro”, no “Público” de ontem)

18 de Janeiro de 2014 – No 28.º Encontro de Janeiras de Arouca

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Acontece todos os anos. Todos os anos é diferente. Este ano, talvez tenha sido o melhor. Há coisas que não podemos deixar morrer, e esta é uma delas. Podemos fazê-lo sem ter em conta uma enorme excelência musical, mas se o convívio entre quem tem este objectivo em comum for salutar, já teremos ganho algo. Hoje, foi assim. Cantando e tocando, descontraidamente, como se entrássemos em casa de algum amigo. Dando a música em troca de qualquer coisa que engane a fome e o frio. E havemos de continuar. Sempre.

17 de Janeiro de 2014 – No “Discurso Directo”: A Academia de Música

logo-ddDe repente, chegámos a 2014. O tempo passou, como sempre mais rápido do que esperávamos, e damos por nós a olhar para trás, a pensar em como, num instante, vivemos tantas coisas. Passou o Natal, passou aquela «euforia momentânea» de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, já se vão deixando de cantar os Reis, e começamos a olhar em frente, para um ano que, mais do que tudo, se nos apresenta com 12 meses de oportunidades.

Esta transição, em que, ao mesmo tempo, olhamos para o que passou e para o que há-de vir, é o tempo certo para nos lançarmos alguns desafios. Pequenos, mas que, se lhes correspondermos, podem trazer-nos boas surpresas. Assim é, julgo, com a Academia de Música de Arouca.

A maioria dos arouquenses, por certo, não fará ideia do tremendo trabalho que é desenvolvido por esta escola, oficial, reconhecida pelo Ministério da Educação, e que está, neste momento, a trabalhar lado a lado com os agrupamentos de escolas do concelho, no sentido de proporcionar a quase duas centenas de jovens arouquenses o chamado «ensino articulado», um ensino vocacional, que podemos considerar praticamente de carácter profissionalizante, na área da música. Desta forma, o ensino da música é levado «para dentro» da escola, e passa a fazer parte das disciplinas quotidianas dos alunos que optem por esta via.

A Academia é gerida de uma forma absolutamente exemplar, tanto administrativa como pedagogicamente, e conta, nos seus quadros, com mais de duas dezenas de professores especializados, de competência profissional reconhecida, e que ajudam, dia a dia, a formar jovens músicos, mas também, certamente concordaremos, melhores homens e mulheres. Arouca é uma terra de músicos, todos o reconhecemos, mais ou menos instintivamente. As bandas de música, também na sua componente formativa, prestam um inestimável serviço à iniciação e à prática musical, mas é na Academia de Música que podemos encontrar um reconhecimento e validação das competências, uma certificação curricular, um ensino pedagogicamente validado pelo Ministério da Educação.

Certamente reconhecemos que, como se costuma dizer, há lugar para todos. As escolas de música das bandas e das associações concelhias continuarão a formar (e muito bem) jovens músicos. Alguns deles, irão aprofundar os seus conhecimentos na Academia, e regressarão aos seus grupos, com um acrescento de conhecimento que ajudará ao aumento da qualidade. É assim que funciona, e bem. O desafio, porém, será o de colaborarmos, todos, dentro das possibilidades de cada um, na «luta» pelo alargamento do ensino da música ao secundário, objectivo pelo qual a Academia tem lutado incansavelmente. Arouca merece-o. Merece um ensino completo, merece uma aposta séria numa escola que tem trabalhado arduamente e que tem mostrado resultados, ainda que muitos não o vejam.

No ano de 2014, devemos acrescentar mais este aos nossos desafios. Porque se a crise se estende aos valores, à educação e à cultura, aí talvez estejamos irremediavelmente perdidos.

16 de Janeiro de 2014 – E se os portugueses descobriram a Austrália?

manuscr-canguruE se foram os portugueses que descobriram a Austrália, e não os holandeses? E se os lusos navegadores chegaram ao outro lado do mundo vinte ou trinta anos antes do que se pensa? A questão está a ser colocada, porque foi descoberto um manuscrito português com um desenho do que parece ser um canguru, o que, a ser verdade, pode querer dizer que os nossos navegadores terão chegado à Austrália antes de Willem Janszoon, o seu descobridor oficial holandês, em 1606. Isto porque o manuscrito, tudo indica, terá sido concebido entre 1580 e 1620, por uma religiosa chamada Catarina de Carvalho, num convento das Caldas da Rainha. Neste pequeno livro de orações, uma das partituras litúrgicas tem como capitular um desenho com as formas de um canguru, animal que, como sabemos, abunda naquelas paragens. Se Fernando Pessa tivesse descoberto esta notícia, provavelmente diria: “E esta, hein?”

15 de Janeiro de 2014 – A urgência da literatura

vasco-graca-mouraLeio hoje, com avidez e bebendo a sabedoria de cada palavra, um texto com este título, no “Diário de Notícias”, escrito, como sempre, de forma sublime, por Vasco Graça Moura. A atenção desvia-se de imediato para aquelas linhas, pelo título. Depois, crava-se em cada linha, em cada palavra, pela pertinência do que diz. É urgente, de facto, a literatura. Onde aprendemos cada vez mais. Onde somos, vemos, sentimos o impossível. Onde fomos, somos e seremos. Há alturas em que o dia devia ter 50 horas. Todas para serem lidas. Porque há tantos livros ainda a ler…

 

“Hoje temos todos a consciência de que a literatura é um instrumento do conhecimento e corresponde a um meio de funcionamento ao nível da sociedade que vai muito mais longe. Penso que seria essencial que a escola portuguesa, tanto ao nível de docentes como de discentes, tivesse a capacidade de conjugar estas perspectivas com o território, tantas vezes esquecido, das humanidades. (…)

Aos que falam da crise das humanidades e da crise da literatura, há também que saber dizer que sem crise (sem pensamento crítico) não existe qualquer futuro reflexivo, seja em que domínio do conhecimento for. A literatura é um dos mais densos lugares em que essa reflexão e essa compreensão se constroem. A literatura é algo que nos define como cidadãos reflexivos de uma cultura historicamente situada, com um património que hoje, cada vez mais, devemos aprender a valorizar, a praticar e a transformar. É nessa conjugação que reside a eminente dignidade da literatura”.

Vasco Graça Moura – A urgência da literatura (DN de hoje)

14 de Janeiro de 2014 – Pequeno conto (ir)real

s-p-moelHaveria de voltar àquele sítio, perdido nas páginas de “Lunário”, de Al Berto. Haveria de ver adensada a espuma marítima, vista do cimo da pequena falésia, como que a reconhecer as ruas, os locais, a praia, desde as primeiras linhas. Mas agora ainda não. Agora, ainda mergulho os cabelos compridos na água salgada da piscina. Mal os olhos deixaram escorrer os restos de água salgada, ela surgiu. Tímida, com movimentos rápidos primeiro, depois a passar lentamente. Com a mesma cadência, o olhar acompanha-lhe os contornos do corpo. Azul. Torneado. Como as ondas do mar, ela vai e vem. São trocados olhares, como se fossem proibidos. Ora próximos, ora afastados. Aproximamo-nos e afastamo-nos, sem nunca trocarmos palavras. Como duas ondas do mar, que não se encontram. Feitos de dúvidas, saímos. Eu primeiro. Algum tempo passa, e a vontade de vê-la outra vez faz-me voltar a percorrer o caminho até onde a havia visto pela última vez. Sem nos vermos, cruzámos ruas paralelas. Como as sereias, talvez tenha regressado ao mar, com a espuma das ondas. Deixando sobre a falésia uma quantidade infinita, até ao horizonte, de perguntas por responder. Nunca mais a vi. Mas sempre a lembro. De corpo esculpido em azul de mar. Seria uma sereia, por certo.

13 de Janeiro de 2014 – Pessoal… e transmissível

TSFSabe bem ouvir gente que conta. Que conta, porque vale por si. E que conta, porque conta histórias, quanto mais não seja a sua própria. Assim acontece com «Pessoal… e transmissível», uma das rubricas mais interessantes da TSF, em que Carlos Vaz Marques demonstra por que razão é um dos melhores entrevistadores portugueses. Hoje, graças ao arquivo de programas online,  ouço a entrevista a Mário Laginha. Respiro-a a cada segundo. Como quando fala, emocionado, de Bernardo Sassetti. Ou quando se diz, de forma humilde, compositor e pianista. Sabe bem ouvir. Parece, realmente, pessoal. E transmissível.

12 de Janeiro de 2014 – Esta Luz de Cristo

Esta-luz-cristoSão catorze faixas, num CD. Catorze partituras num livro. Felizmente, tive o privilégio de dar voz a estás partituras, precisamente para este CD, a convite do meu amigo José Joaquim Ribeiro, que concebeu os fabulosos arranjos para as melodias sublimes do Vitor Pereira. Olhando agora, nem nos lembramos que eram catorze faixas. Aparentemente simples, mas muito ricas. Na mensagem, na melodia e na harmonia. Na forma cuidada como estão preparadas para se integrarem na liturgia. Como diz, e bem, a apresentação deste livro/CD, trata-se de “um repositório de grande profundidade, riqueza rítmica e expressão musical com o objectivo inspirador de complementar e solenizar os vários tempos litúrgicos da Igreja, nos grandes momentos comunitários”.

11 de Janeiro de 2014 – Maestros

Há quem diga que são absolutamente desnecessários, se os músicos são suficientemente bons. Há, por outro lado, quem diga que são eles quem define a orquestra que lideram, e que cada maestro tem o seu “som”. Deste vídeo, fica um bocadinho de cada uma dessas ideias, mesmo tendo em conta que há muitas condicionantes que, certamente, a orquestra teve, a todo o tempo, controladas. Há, depois, maestros que “conduzem”, outros que são “conduzidos”. Mas isso, já seria outra história. Enfim, por último, que melhor música que a de Mozart para uma experiência destas?