Hoje é «Quinta-feira Santa». Inicia-se a última etapa da caminhada em direcção à Páscoa. Cristo, em acto de humildade e serviço, lava os pés aos seus discípulos, e prepara-se (se é que alguma preparação era possível) para o sofrimento do calvário. Há-de cear com eles, dizer-lhes que um deles o há-de trair, há-de transformar-se, Ele mesmo, em cordeiro pascal imolado. Será crucificado, morto, e ressuscitará ao terceiro dia, re-edificando o templo, como prometera. É isto a Páscoa. Uma passagem da morte à vida, um renascimento, a descoberta de um oásis depois da passagem pelo deserto. Essa última etapa, depois da Quaresma, inicia-se hoje. Num turbilhão de coisas para se pensar, fazer e viver. Não será fácil parar e reflectir calmamente, e com a intensidade que tudo isto merece. Mas tentar já é bom. Como se costuma desejar, «Santa Páscoa».
8 de Abril de 2009 – 70 anos da «Blue Note»
Actualmente, é a mais antiga etiqueta de jazz no activo. A «Blue Note Records» nasceu há 70 anos, fruto da vontade de Alfred Lion e Max Margulis. Associado ao logótipo da «Blue Note» está uma expressão que claramente a identifica: «The Finest in Jazz Since 1939» (qualquer coisa como «o melhor do jazz desde 1939»). De facto, sempre foi assim. Só os melhores gravaram com a «Blue Note»: Ornette Coleman, Wayne Shorter, Sonny Rollins, Lee Morgan, Thelonious Monk, Herbie Hancock, Miles Davis, Horace Silver, mais recentemente a portuguesa Jacinta, etc., etc., etc. Mas a «Blue Note» não se ficou pelos «standards», acompanhando a evolução dos tempos e dos estilos, sendo a máxima qualidade o único requisito. E assim tem sido.
Os 70 anos da editora estão a ser comemorados por um «set» de músicos, que se juntaram especialmente para o efeito: a «Blue Note 7», que conta com nomes como Nicholas Payton, Bill Charlap, Steve Wilson e Ravi Coltrane, entre outros, e irá percorrer os Estados Unidos em «tournée».
7 de Abril de 2009 – O efeito dominó
A história é, no mínimo, insólita. Segundo se lê no «Jornal de Notícias» de hoje, uma senhora alemã de 69 anos sofreu três acidentes de viação praticamente seguidos (em menos de uma hora). O menos mau da história, é que a senhora, apesar de tudo, apenas sofreu ferimentos ligeiros. Primeiro, ao sair de um parque de estacionamento de um supermercado, embateu contra três carros. Depois, sem querer, provavelmente confundindo os pedais, acelerou a fundo e despistou-se. Como se não bastasse, quando era transportada para o hospital de ambulância, um camião chocou contra o veículo de socorro que a transportava. Ironicamente, o balanço apenas traduz sete veículos estragados, após um verdadeiro «efeito dominó». Por que razão é raro que este efeito aconteça com coisas boas?
6 de Abril de 2009 – Mais de 90 mortos em sismo na Itália
A manhã acordou cinzenta, com a notícia de um terramoto, bem no centro da Itália. O número de vítimas, desde então, não parou de aumentar, cifrando-se, neste momento, em 92. Os desalojados, ao que tudo indica, já ultrapassam os 50 mil, sendo a cidade de L’Aquila (a cerca de 100 quilómetros de Roma) a mais afectada. Mais de 15 mil edifícios ficaram inabitáveis. As palavras são escassas para dizer o que quer que seja, depois desta terrível evidência. A terra engoliu uma boa parte do que os homens e mulheres daquela região criaram, com as suas próprias mãos. «Engoliu-os», em muitos casos, a eles próprios. É injusto, mas aconteceu. Resta desejar àquela gente força suficiente para reconstruirem, dentro do possível, aquilo que este sismo destruiu.
5 de Abril de 2009 – Domingo de Ramos
O Afonso trouxe-me hoje um pequeno ramo de oliveira, como é tradicional os afilhados fazerem neste dia. Ainda é cedo para ele perceber plenamente o gesto, mas, com tempo, há-de dar-se conta de que, de uma forma simbólica, está a comemorar a entrada e aclamação de Jesus em Jerusalém, montado num humilde jumento, poucos dias antes de ser crucificado. De uma forma simples, hoje comemora-se a coroação da humildade e, simultaneamente, o início do «calvário» de Jesus, que culminará na ressurreição, no domingo de Páscoa. Paralelamente, o ramo de oliveira foi sendo também associado à paz. Mas, apesar de tudo isso, o que eu acabei por sentir foi que, de forma simples e humilde, o Afonso «coroou-me» hoje. Não foi a primeira vez, mas soube bem.
4 de Abril de 2009 – «Day off»
Hoje, o dia é dedicado a reorganizar material sonoro, fotografias, registos áudio e vídeo. Há novos projectos na calha, ideias a fervilhar e vontade de criar. Mas hoje é dia de folga. Só para projectar…
3 de Abril de 2009 – «Cinematic Orchestra» no Sá da Bandeira
De repente, parece que tudo desaguou naquele concerto. Quem ia à espera de encontrar aquilo que alguma imprensa previu, depressa se desenganou. Não se tratou de mais um «set» de reprodução do mais recente álbum («Ma Fleur»), mas antes uma viagem aleatória pelos vários trabalhos da banda britânica, tendo como fio condutor uma intensidade crescente. Ao ouvido desarmado, o som da «Cinematic Orchestra» pode soar a demasiado minimal ou repetitivo, mas uma escuta mais atenta destas texturas sonoras (sobretudo ao vivo) permite-nos ir um pouco mais além. Cada tema é uma espécie de paisagem sonora, uma imagem. Talvez por isso seja uma «orquestra cinemática».
A ligação desta banda ao Porto é quase afectiva. Pouco depois de lançarem o seu primeiro álbum («Motion», em 1999), a «Porto 2001» lança o desafio de inaugurarem a temporada da «Odisseia nas Imagens», com a banda sonora ao vivo de «Man with the Movie Camera», que redundou em novo sucesso. Desta vez, a principal «baixa» foi, de facto, Fontella Bass. Contudo, Heidi Vogel esteve à altura do desafio. Boa surpresa constituiu também Grey Reverend, com uma versão «semi-acústica» de «To Build a Home». Luke Flowers revelou-se um baterista versátil e completo, e, como não podia deixar de ser, Jason Swinscoe, com a sua programação e «batuta», soube conduzir a «orquestra» por um concerto em que não se deu conta do tempo passar. De resto, a toada seguiu um pouco a linha do último álbum, um registo ao vivo, gravado no Royal Albert Hall. Temas como «Flite», «Breathe» e «Child Song» não podiam faltar, bem como «All That You Give», provavelmente o tema mais agradavelmente «plano» deste punhado de composições. Valeu a pena.
2 de Abril de 2009 – O sentimento de impotência
Um dos piores sentimentos que a vida de todos os dias nos pode proporcionar é o da impotência. É terrivel quando sentimos que não podemos fazer nada para que isto ou aquilo mude, para que as coisas melhorem, para que desejos justos se concretizem. Nessa altura, apetece desistir. É assim, o ser humano. Fraco, falível, pequeno. Depois, vem o vento da vida e leva-nos para outro lado. Para outra situação. Para outro contexto. Para outra quantidade infindável de questões. Há dias assim. Em que gostávamos de ter podido mudar o mundo. Ou mesmo um pequeno grão de areia. Mas nem sempre é possível.
1 de Abril de 2009 – Náufragos do sonho
É irónico que uma notícia destas surja no dia «dos enganos». Sucede que, desta vez, não é engano. Mais de 300 corpos perderam a vida, enquanto atravessavam um mar, em busca de um sonho. O sonho da liberdade, de uma vida melhor, o sonho de, simplesmente, fugir ao pesadelo em que vivem. A realidade dos migrantes ilegais africanos é, quase inevitavelmente, esta. Tentam a sua sorte na Europa, no velho continente, espraiado ao longo do Mediterrâneo, tão perto e tão longe de onde e como vivem. Em Lampedusa ou em Tripoli, na Sicília ou no sul de Espanha há já associações que se dedicam a apoiar os que conseguem chegar a terra firme, e têm a sorte de não deixar o sonho interrompido. Desta vez, não aconteceu assim. Os números não são muito precisos. Apenas se sabe que o naufrágio se deu a cerca de 30 quilómetros da costa da Líbia e que apenas uma das embarcações terá conseguido voltar sem perder ninguém. Para trás terá ficado um «mar» de corpos, cerca de 300 desta vez, perfazendo mais de 5000 em dois anos. Náufragos de um sonho por concretizar.
31 de Março de 2009 – A morte de Maurice Jarre
Aos 84 anos, o cancro «levou-nos» Maurice Jarre, um dos mais proeminentes compositores de bandas sonoras. Levou-nos Maurice Jarre, mas deixou-nos a sua obra e a sua memória. Criador da música de «Lawrence of Arabia», ou de «Dr. Jivago», trabalhou com realizadores como Alfred Hitchcock e Luchino Visconti, entre outros. Compôs, no total, 164 bandas sonoras, tendo vencido vários «Oscars», «Grammys», «Bafta», «Golden Globes» e muitos outros prémios. «Os grandes realizadores com quem trabalhei já desapareceram», terá dito recentemente. O seu filho, Jean Michel Jarre, tem-no como uma referência. Chegou tarde à música. O seu rumo estava traçado em direcção à «Sorbonne», para o curso de engenharia, mas trocou esse rumo pela música, tendo convivido de perto com referências do seu tempo, como, por exemplo, Pierre Boulez. Agora, surgem na tela as palavras «The End», mas com a certeza de que o filme pode sempre ser visto de novo. Ainda bem.