30 de Março de 2009 – Música medieval e electrónica

dufayO professor e compositor britânico Ambrose Field parece ter aberto caminho, com bastante seriedade, a um novo campo de intervenção artística, no âmbito da música e do cruzamento de estilos (ou melhor, de épocas). John Potter «ofereceu» a sua voz de tenor às composições de Guillaume Dufay (1397-1474), ao passo que Field vai inserindo texturas sonoras, geradas com recurso à electrónica. O resultado deste cruzamento é «Being Dufay», um álbum que a editora de renome internacional «ECM» (com forte dedicação à música contemporânea) publicou. O resultado pode ser melhor conhecido aqui, e para saber mais sobre Ambrose Field pode também ver isto.

29 de Março de 2009 – TED.com

untitled«Technology, Entertainment and Design» foram as premissas que deram origem, em 1984, à «TED».  Os vários especialistas destas áreas, oriundos de todo o mundo, passaram a reunir-se anualmente, numa conferência onde debatiam a vanguarda e a forma como estavam a construí-la nos seus domínios. Hoje, a «TED» tem um campo de acção muito mais vasto, proporcionando, no seu «sítio», várias conferências «on-line» interessantíssimas, sobre temas relacionados com as artes, a economia, o ambiente, e muito muito mais. A «TED» reconhece, também, anualmente, uma personalidade, atribuindo-lhe um prémio, seja como «pensador» ou «fazedor» de um mundo melhor. Jane Goodall, Al Gore, e, mais recentemente, José António Abreu (o criador do sistema de aprendizagem musical venezuelano, de onde surgiu Gustavo Dudamel) foram alguns dos agraciados com o «TED Prize». Vale a pena ficar a conhecer melhor este espaço, até porque, como é filosofia do «site», vale a pena propagar estas ideias.

27 de Março de 2009 – Barack Obama, «Communicator-in-Chief»

obamaPOTUS, «the President of United States of America», Barack Obama, parece ter inaugurado uma nova forma de comunicar. Obama pretende, tudo indica, contornar os «media» convencionais, de modo a que a sua mensagem passe directamente. A última acção nesse sentido foi um «town-hall meeting» interactivo, transmitido através da internet, em que Obama respondeu às questões colocadas (ou, pelo menos, às que conseguiu). Mais de 90 mil internautas enviaram mais de 100 mil perguntas, que foram triadas por mais de 3 milhões de votos. No total, ficaram 10 perguntas para Obama responder. Os planos de educação, o desemprego, a importância dos professores e enfermeiros, a legalização de drogas leves e as ajudas ao sector automóvel foram as questões dominantes. O «Communicator-in-Chief» teve ainda tempo para actualizar o seu «Twitter» e aparecer no programa de entrevistas de Jay Leno. Segundo se diz, começa a ser difícil ligar a televisão nos Estados Unidos e não ver o Presidente a falar, e, independentemente de tudo, a popularidade de Barack Obama continua em bom nível. Sabemos que não basta comunicar, mas estamos, certamente, de acordo que ajuda bastante.

26 de Março de 2009 – O «meu» órgão de tubos

orgao-aroucaHoje resolvi lembrar-me do instrumento musical mais fantástico que alguma vez tive oportunidade de experimentar: o órgão de tubos do Mosteiro de Arouca. Há cerca de 14 anos que me deixei adoptar por ele, e passei, por «brincadeira», a considerá-lo «meu». De facto, nunca me senti totalmente capaz de o «dominar», mas que é um instrumento absolutamente fantástico, é. Recentemente, terminaram as obras de restauro, que o deixaram com características praticamente idênticas ao tempo em que foi construído. Agora, mãos à obra. É preciso estudar, praticar, analisar obras e fazer soar estes mais de 1300 tubos. Se tempo houvesse, quase arriscaria dizer que gostava de viver aqui.

25 de Março de 2009 – Manuel Maria Carrilho, «full version»

dnO «Diário de Notícias» de hoje, em boa hora, publica na íntegra o documento redigido por Manuel Maria Carrilho, em que este sustenta que a Cultura deve ser utilizada como «arma» contra a crise, aproveitando para refundar as políticas culturais. Contudo, o texto que se pode ser aqui é enquadrado num contexto quase ilegível, num fundo preto que não ajuda nada à leitura. É uma pena que, num contexto de renovação gráfica, o «DN» peque por este tipo de pormenores. Contudo, fica a indicação de um texto pertinente nos dias que correm, em que todos achamos que percebemos de Cultura, mas acabamos por mentir acerca dos livors que (não) lemos. Talvez se, de facto, fôssemos mais cultos, mais sensíveis às artes, mais «contagiados» pelo cosmopolitismo que advém da Cultura, não continuássemos na cauda da Europa (e de boa parte do mundo) em quase todos os «rankings».

24 de Março de 2009 – Algumas (boas) ideias para o Futebol

futebolA forma como o Benfica venceu a «Taça da Liga» despoletou um (ainda mais) intenso debate existencial sobre o Futebol, mais concretamente sobre o papel dos árbritos. Contrariamente ao que acontece em muitos países da Europa, os árbitros portugueses não são profissionais (nem sequer semi-profissionais). Trabalham, em alguns casos, 12 horas diárias, e treinam outras duas horas no final do dia, e estão, na sua actividade secundária, envolvidos numa estrutura «megalomanamente» profissional. No «P2» do jornal «Público» de hoje há um texto interessante sobre a actividade da arbitragem. A certa altura, Hugo Daniel Sousa escreve: «Amadores num mundo de profissionais, os árbitros são também seres solitários. Correm cerca de dez quilómetros em cada encontro, tomam perto de 200 decisões em cada 90 minutos, têm permanentemente de vigiar uma área de um hectare, onde muitas vezes, como destaca Luís Guilherme, os jogadores “os tentam enganar com simulações”». E termina o texto com uma citação de Eduardo Galeano, escritor uruguaio, que diz: «Bode expiatório de todos os erros, explicação de todas as desgraças, os adeptos teriam de o inventar se ele não existisse. Quanto mais o odeiam, mais dele necessitam».

Pois bem, da minha parte não sugiro a erradicação dos árbitros. Sugiro antes a erradicação do «penalti». O «penalti» é a coisa mais perversa do Futebol. Dá aso a simulações, erros, e, em última análise, a um confronto absolutamente injusto entre marcador e guarda-redes. O «penalti» devia ser como o livre de sete metros do andebol. «Ah e tal, caí na área!»; «Ai sim, então, pumba. Livre fora da área, a ver se consegues ter habilidade suficiente para imitares o Roberto Carlos, o Ronald Koeman, ou outros que tais». Outra coisa que sugiro, para acabar com esta coisada toda, é que o Eng. Sócrates prometa, em campanha eleitoral, que o Benfica vai ser campeão para o ano. Se assim for, em princípio, as coisas deverão acalmar, até o PS voltar a ganhar as eleições e, três dias depois, decretar a extinção do futebol profissional.

23 de Março de 2009 – O coro da Casa da Música

coroEstá oficialmente constituído o Coro Casa da Música. Paul Hillier, maestro de renome, será o responsável artístico do projecto, e participou na escolha dos elementos que vão constituir o mais recente «inquilino» da Casa da Música. Será composto por 24 vozes, maioritariamente portuguesas, e tem, entre os seus membros, alguns «camaradas» da Universidade de Aveiro. A 4 de Outubro, deveremos poder ouvir a primeira apresentação do Coro, que se poderá estender até aos 80 elementos, para alguns projectos especiais. Esperamos, ansiosamente, a entrada em cena da «malta» de Aveiro.

22 de Março de 2009 – Um outro «Requiem»

scoreA tarde de hoje foi dedicada a ultimar o estudo da partitura do «Requiem Alemão», de Johannes Brahms. Normalmente, um «Requiem» é uma espécie de ode à morte, seguindo a sequência religiosa. Há, contudo, exemplos o mais diversificados possível, como o de Mozart, pleno de tensões e de confronto (derrota?) com a morte, há a abordagem de Maurice Duruflé, muito mais «luminosa», intimamente inspirada no Canto Gregoriano, abrindo paisagens sonoras inigualáveis, e há o «Requiem Alemão», de Brahms, que, mais do que uma ode à morte, é uma ode à vida. O estudo foi feito com recurso a uma ferramenta absolutamente imperdível para quem faz a grande música coral e/ou coral-sinfónica: o Cyber Bass. Neste espaço, há partituras, «midis» com as várias partes, exercícios vocais, etc., etc., etc.

Mas, mais do que a técnica, ficou a poesia desta música.

«Sede, pois, pacientes, irmãos. Vede como o lavrador aguarda o precioso fruto da terra e tem paciência até receber a chuva. Porque toda a carne é como a erva, e toda a glória como a flor da erva».

«Ah, como são nada todos os homens que vivem seguros de si. Passam como sombras, e em vão se preocupam. Amontoam riquezas, sem saberem quem as recolherá».

«Agora, na verdade, sentis tristeza, mas hei-de ver-vos de novo. O vosso coração se alegrará e a vossa alegria não vos será tirada. Pois não temos aqui cidade permanente, antes procuramos a futura».

«A morte foi absorvida pela vitória».

21 de Março de 2009 – «Eppur si muove»

carrilhoA frase ficou célebre dita por Galileu, quando, apesar de a Inquisição o condenar definitivamente, afirmou, convicto que, «apesar de tudo, ela move-se», referindo-se ao movimento de rotação/translação do planeta Terra. Todavia, aqui a frase aplica-se a Manuel Maria Carrilho. Provavelmente o mais emblemático Ministro da Cultura (talvez porque foi o primeiro, dos nossos dias), o homem que conseguiu alavancar o investimento na Cultura para 1% do PIB. Depois foram as lutas pela Câmara de Lisboa, os «fait-divers» da má-educação e do mediático casamento com Bárbara Guimarães. Mas, «eppur si muove». Filósofo de renome no meio académico, seria de espantar que a sua qualidade ficasse resumida às tricas pré-eleitorais numas eleições autárquicas ou ao «cor-de-rosa» das revistas da especialidade.

Hoje, no jornal «Expresso», pode ler-se como Carrilho foi «demolidor» para com os responsáveis da Cultura que militam no seu partido. Em missiva a António Vitorino, presidente da Fundação Res Publica, lamentou o facto de a Cultura estar «cada vez mais invisível, ilegível e incompreensível, ameaçando fazer dos anos 2005/2009 uma legislatura perdida». No entender do ex-Ministro, é necessário relançar-se a discussão sobre a política cultural, com o intuito de a refundar. «A cultura pode dar uma importante contribuição na resposta à crise que o país atravessa». A crise não desculpa «seja o estado de abandono a que a cultura tem sido votada, seja o desinvestimento de que tem sido objecto e que pode provocar – e enfatizo este ponto, uma vez que se trata de uma ameaça real – danos irreversíveis».