Por muito que nos custe, e por muito que, às vezes, não possa parecer, não é imediata a chegada ao ponto de se poder interpretar correctamente uma obra musical. Apesar de haver quem consiga fazer «milagres» (são poucos, na verdade), há um trabalho de interpretação, de coordenação, mesmo físico, até, que é preciso fazer, até se chegar ao ponto de se poder dar a ouvir convenientemente. Consola-me o facto de que os grandes músicos são, na maioria dos casos, grandes estudiosos. Apesar do calor e da necessidade de descanso, uma parte do dia de hoje é dedicada a esse trabalho, a esse estudo.
19 de Junho de 2009 – Maestro Álvaro Cassuto, 50 anos de carreira
Não é todos os dias que podemos assistir à comemoração dos 50 anos de carreira de alguém, ainda mais quando é músico e, ainda mais, quando se está num patamar invejável de qualidade. Assim foi com o Maestro Álvaro Cassuto. Neste momento, deverá ser o maestro português com maior projecção internacional, para além de ter o mérito de ter gravado a integral das sinfonias de Freitas Branco e Joly Braga Santos, entre imensas outras obras de compositores portugueses. Só por isso, já seria mais que merecida a condecoração que o Presidente da República lhe concedeu. Do programa, faziam parte as mesmas obras que Joly Braga Santos dirigiu há 50 anos, em que foi apresentada, pela primeira vez, uma obra de Álvaro Cassuto: a «Sinfonia Breve», que abriu o concerto. Seguiu-se a «Rhapsody in Blue», de George Gershwin, a «Suite Alentejana n.º2», de Luís de Freitas Branco e, para finalizar, o «Bolero», de Maurice Ravel. Participaram neste concerto o pianista António Rosado e a Orquestra do Norte, que se revelou a muito bom nível. Aliás, o Maestro Álvaro Cassuto, para além de comemorar os seus 50 anos de carreira, provou que a Orquestra do Norte tem potencial para se afirmar no panorama musical português, assim se queira.
18 de Junho de 2009 – O preço da Arte
Uma das retracções do Primeiro-Ministro após a moção de censura, após os resultados das europeias, foi admitir que deveria ter investido mais na Cultura. Logo o Ministro da Cultura, de resto um homem inteligente e altamente culto, que dá a ideia da mais não fazer por mais não poder, aplaudiu o reconhecimento, e «deixou cair» que é hora de se investir na Cultura, depois do «desenfreamento» com que se investiu na «Educação», na «Ciência» e no «Conhecimento» (leia-se «Novas Oportunidades» e afins). O que acontece é que, pelo menos em relação à Cultura, o investimento feito nesse conhecimento e nessa ciência não se traduziram numa efectiva pedagogia para a Arte. Isso traduz-se numa visão parcelar e, de certa forma, discriminatória da Arte, como algo que não pode (não deve?) ser pago da mesma forma que, por exemplo, uma infra-estrutura ou um equipamento. A Arte, mais do que um «dom», é um trabalho quotidiano, intelectual e físico, persistente e de constante aprimoramento. Se o «mercado» se permite fazer rodar milhões em torno do futebol, para jogadores que treinam diariamente e, mesmo assim, falham golos de baliza aberta, porque não há disponibilidade para se largarem algumas migalhas (1% do PIB, no caso de Portugal, não é nenhuma fortuna) em prol da Arte e da Cultura?
17 de Junho de 2009 – Arouca foi capital em Lisboa
Hoje pode dizer-se com propriedade que Arouca desceu em peso a Lisboa. Por iniciativa do meu queridíssimo amigo André Almeida, a Banda Musical de Arouca e a Confraria da Raça Arouquesa levaram a Lisboa um pouco (mas muito) do que de melhor Arouca tem: a cultura e a gastronomia. Para a Banda foi uma experiência interessantíssima, apesar de enfrentarmos uma viagem longa, da demora que é orientar a logística sob algumas medidas de segurança, apesar de tudo. De referir a presença de Jaime Gama durante todo o concerto, contrariando o que todos esperávamos (tinha compromissos com representantes da Tunísia), bem como de vários deputados de vários quadrantes políticos, que, por certo, ficaram com uma pequena noção de como Arouca é grande.
16 de Junho de 2009 – Noites mal dormidas
A sucessão quase insuportável de noites mal dormidas, levou-me a fazer uma pesquisa rápida (e um tanto tosca) sobre noites mal dormidas. Vale o que vale, mas o «Google» apresenta 108 mil resultados para a expressão, e, de entre essas 108 mil, há um artigo interessante, publicado nas notícias do «Yahoo» Brasil. Segundo este artigo, uma das causas das chamadas insónias é a apneia do sono. Uma das manifestações da apneia do sono é uma breve paragem respiratória (não mais que 10 segundos), que leva a que haja perda de oxigénio no sangue, que leva a que acordemos mais vezes. Segundo estudos, a longo prazo, os distúrbios de sono acabam por privar-nos de um descanso que possa ser reparador, podem estar relacionados com diabetes do tipo 2 e podem causar problemas cardiovasculares. Eu só pesquisei por curiosidade, mas chegou para me assustar. Bastante.
15 de Junho de 2009 – BPN vs. Ronaldo
Quase fiquei tentado a retirar tudo o que escrevi sobre a megalómana transferência de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid, depois de ouvir e de ler as declarações do governador do Banco de Portugal sobre o BPN. Segundo Vitor Constâncio, as perdas no Banco Português de Negócios não chegarão aos mil milhões de euros. Mil milhões de euros. Mil. Milhões. De euros. Mil milhões de euros que saem dos bolsos dos portugueses direitinhos para salvar um banco que foi (mal) gerido por gente que, de repente, fez fortuna, e que não sabemos se vai pagar pelos crimes que terá cometido. A diferença substancial, é que a transferência de Ronaldo não nos «vem ao bolso» desta forma brutal. Depois disto, haverá condições para confiar em quem nos toma conta das poupanças, em quem se apresenta com a arrogância de uma segurança que nenhuma dificuldade irá abalar, em quem é pago a peso de outro para deixar passar fraudes como esta? Ficam na memória pérolas de retórica, como estas:
«O senhor deputado revelou grande desconhecimento de factos e aspectos fundamentais».
«Ninguém pode fazer perguntas sobre aquilo que não sabe que existe».
«Não foi tudo perfeito».
«Foi tudo feito na direcção certa».
14 de Junho de 2009 – A magia dos pais
Ser-se pai (e mãe) é, só por si, um certo acto de magia. A magia de gerar uma vida, de a alimentar e fazer crescer, de lhe dar a independência, de fazer com que, um dia mais tarde, daí surjam novas vidas. Contudo, nos dias que correm, a magia dos pais vai um pouco mais longe. Quando os tempos que correm nos colocam extremas dificuldades praticamente diárias, uma das poucas certezas que temos é a de que, aconteça o que acontecer, os pais estarão sempre ali para nos ampararem, para voltarem a pegar em nós e a pôr-nos de pé, prontos para voltarmos a andar, até à próxima queda. Os pais têm esta magia, de nos conseguirem dizer (e ajudar a provar), com toda a calma, que tudo se resolve, uma capacidade fantástica de irem buscar, serenamente, soluções para os problemas que mais complicados nos parecem.
13 de Junho de 2009 – As sondagens
As sondagens são o que, em muitas eleições, mais ajudam a decidir um resultado. Seja porque influenciam os indecisos, porque produzem efeitos colaterais nas opiniões públicas e nos «opinion makers», porque condicionam estratégias de campanha, etc., etc. Contudo, o que raramente se questiona é a forma como elas são conduzidas. Já nos perguntámos o que é que se pergunta, a quem se pergunta, como se pergunta, quanto se pergunta? Há imensas condicionantes que envolvem estes trabalhos, e que fazem com que, muito frequentemente, eles sejam muito pouco representativos do que realmente se pensa. O que é facto é que apenas uma sondagem (apenas uma) acertou na vitória do PSD, ao passo que todas as outras davam ao PS uma vitória mais ou menos clara, mas sempre uma vitória. Mas não foi o que aconteceu. É caso para voltarmos a colocar as questões dos «porquês». Para além da derrota do PSD, houve quem previsse o quase desaparecimento do CDS, e talvez quem fizesse com que, dada a solidez que o PS apresentava, muitos ficassem em casa, em vez de depositarem o seu voto nos socialistas. Ninguém pode dizer ao certo, mas o que é facto é que o que mais houve foi quem se enganasse. E muito pouca gente pensou sobre isto.
12 de Junho de 2009 – Mas o que é isto?
Ontem já se falava, mas hoje parece que acordámos todos de ressaca e com a verdadeira noção da barbaridade de dinheiro de que se fala quando se fala sobre a transferência de Ronaldo para o Real Madrid. Verdadeiro «passe de mágica» de Florentino Perez, que já estipulou em quanto tempo irá recuperar o investimento no mais recente «galáctico». Os jornais de hoje fizeram as suas contas. Dá qualquer coisa como 18 euros por minuto. É, podemos dizê-lo, um absurdo. Mas, voltando ligeiramente atrás, o retorno já está planeado. Direitos televisivos, direitos de imagem (fala-se que o jogador dará 40% das suas receitas de imagem ao clube), vendas de «merchandising», etc. «Na vida anterior» à frente do clube, Perez «tirou um coelho da cartola» parecido: contratou Beckahm por 35 milhões de euros, conseguindo um retorno de 400 milhões. Cavaco Silva (e bem, pelo menos no domínio das palavras) já felicitou o jogador, mas disse que preferia ver Portugal reconhecido por outras coisas que não estritamente pelo mundo da bola.
No mesmo dia em que isto acontece, ficamos a saber que houve derrapagens no valor de 241 (duzentos e quarenta e um) milhões de euros em apenas 5 (cinco) obras públicas. Isto significa que houve desvios entre 30 (trinta) e 235% (duzentos e trinta e cinco por cento). Casa da Música (235,3% a mais), Ponte Rainha Santa Isabel (117,6% a mais), túnel do Terreiro do Paço (59,1% a mais), ampliação do Aeroporto Sá Carneiro e reabilitação do Túnel do Rossio (30% a mais, em ambas), deveriam ter custado 401 (quatrocentos e um) milhões de euros, mas acabaram por custar mais de 726 (setecentos e vinte e seis) milhões. É um facto que precisávamos destas infra-estruturas, que hoje nos são extremamente úteis, que adoramos usufruir delas. Mas podíamos ter ficado a saber, logo de início, quanto iam custar. Somos assim tão maus em contas? Mas afinal o que é isto?
10 e 11 de Junho de 2009 – Dedicação a uma causa
A dedicação à causa da Banda Musical de Arouca tem destas coisas. Quando a grande maioria das pessoas está a pensar em fins-de-semana prolongados ou férias antecipadas, nós estamos a preencher os dias com música, ou melhor, a dar música. São dias de levantar cedo e deitar tarde, de caminhar muito e de aguentar o calor, de entradas, procissões, etc. Mas, sobretudo, são dias de convívio, partilha, camaradagem. Há uma cumplicidade musical que se cria, e que sabe muito bem exercitar. Mas há também uma boa parte de um são convívio, que é o que de melhor estas instituições proporcionam, a par da enorme formação (artística e humana). Apesar do cansaço, das contrariedades, de tudo o resto, sabe bem estar por aqui. Mesmo quando toda a gente pode dizer que está de férias antecipadas, ou de fim-de-semana prolongado.