De uma forma mais ou menos inesperada, a neve resolveu deixar-se cair no vale de Arouca. Juntamente com o frio, a neve foi a desculpa ideal para um domingo caseiro. Veio-me à memória o poema de Augusto Gil. «Fui ver, a neve caía». Não aquela neve que se acumula e se estende aos pés descalços das crianças que vão à escola ou em trabalhos. Hoje a neve é outra. Calma, que permite resguardo, e ainda assim fria, que empurra para o recato. Seja como for, sem muitas filosofias, a neve cai.
BALADA DA NEVE (Augusto Gil)
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.
Terá sido o frio que impediu que o Concerto de Ano Novo pudesse ter a «enchente» habitual. A Orquestra Clássica de Espinho propôs aos arouquenses um programa fora do «mainstream» dos concertos de ano novo. Numa formação adaptada ao espaço, e com a participação da soprano Dora Rodrigues, a OCE apresentou um programa alternativo, diversificado e original. Foi pena, contudo, que os arouquenses não tenham correspondido como habitualmente, tenha sido por causa do Benfica, tenha sido por causa do frio, ou por outra razão qualquer. Uma iniciativa deste tipo, com boas condições de fruição e, ainda por cima, gratuita, merecia mais público. Parabéns à Orquestra Clássica de Espinho pela dinâmica e organização.
Um texto do «Diário Económico» dá conta do «domínio feminino» da economia. Segundo se lê, as mulheres são já cerca de 50% dos trabalhadores, e, sabemo-lo, em parte, por experiência própria, são elas quem decide o que fazer, na maioria dos casos, na hora de comprar. Mais de 90% dos artigos para a casa são comprados por mulheres. Em 92% dos casos são elas quem decide onde são passadas as férias. Em 91% dos casos é a mulher quem escolhe a habitação. As escolhas de carro são em 60% responsabilidade feminina. E nem a escolha de equipamento electrónico escapa: 51% são decisões das mulheres. Desta forma podemos averiguar o incomensurável poder económico das mulheres, porque cada vez mais se assumem como força laboral, num movimento «silencioso», mas que talvez merecesse «explodir». Os dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que já temos 2,3 milhões de mulheres em cerca de 5 milhões de trabalhadores activos. Desses quase dois milhões e meio, 466 mil têm formação superior (mais do que os 309 mil homens). Contudo, o reconhecimento delas enquanto quadros superiores é deficitário. Os executivos são 43 mil, ao passo que as executivas são apenas 32 mil executivas.
A cantora lírica italiana Daniela Dessì está no centro de um debate que começa a ganhar contornos no mínimo interessantes. A ideia que nos surge, quando falamos de grandes cantoras líricas, é a de senhoras avantajadas. Pois bem, já Maria Callas tinha subvertido essa lógica, e, mais recentemente, Anna Netrebko é um exemplo de elegância, beleza, sensualidade, quase erotismo. Sucede que Daniela Dessì, considerada uma das melhores cantoras líricas da actualidade (especialmente na interpretação de Verdi, apesar dos seus 50 anos), abandonou a produção de «La Traviatta», em que participava como Violeta, devido aos comentários do famoso encenador Franco Zefirelli. O encenador referiu-se a Dessì como uma senhora «com alguma idade e roliça», ao que a cantora respondeu que esses comentários só podiam resultar dos «caprichos de uma pessoa velha». O episódio de Dessì vem trazer à ordem do dia aquilo a que muitos chamam a «ditadura do belo». Cada vez menos há lugar para quem não tenha «imagem». E Daniela Dessì tem razão quando diz que «não se canta com o corpo».
Hoje foi dia longo, mas não podia deixar de haver tempo para manter a tradição. Em noite de Reis, o Orfeão de Arouca costuma sempre cantar as Janeiras na Rádio Regional de Arouca, como forma de antecipar o seu habitual Encontro de Janeiras (este ano na 24.ª edição, que irá decorrer no próximo dia 16), mas sobretudo para, desta forma, chegar aos arouquenses que povoam esse mundo, e que podem, mesmo à distância, manter connosco uma tradição que se começa a perder. Aliás, é esta a principal motivação do Orfeão de Arouca. Não deixar morrer as tradições dos cantares da nossa terra. E, por isso, orgulho-me. Pelo facto de poder contribuir para estas causas. Vieram-me à memória os inúmeros arouquenses que nos poderiam estar a ouvir em França, na Suíça ou mesmo no Brasil, e de como seria bom, de como seria gratificante, um dia podermos reviver com eles, «ao vivo e a cores», estas tradições. Fica o desejo, em início de ano, para 2010. Ou para quando for possível. Entretanto, fica um bocadinho do que se pôde ouvir através da Rádio Regional de Arouca.
Manuel Luís Goucha admite processar o programa televisivo «5 para a meia-noite», da RTP2. Na edição de 28 de Dezembro, Filomena Cautela apresentou uma rubrica em que dava a escolher aos candidatos várias hipóteses para «apresentadora do ano». Para além da própria Filomena Cautela, as hipóteses de escolha eram
O ano começa logo com música. De 1 a 3 de Janeiro, voltamos a Fátima para fazer música, em mais um encontro do Curso Nacional de Música Sacra. O trabalho tem tanto de intensivo como de compensador, sobretudo pelo encontro e pela possibilidade de partilharmos saberes e, desta forma, aprendermos (também, e sobretudo) uns com os outros. É por aqui que vou estar. Até 3 de Janeiro.
Ele aí está. Quase incolor, quase insípido, quase inodoro. Quase indolor. Um ano novo. Pleno de possibilidades, anseios, projectos, receios. Uma nova vida que se deseja, quando, popularmente, se diz «ano novo, vida nova». Sem excessos, sem grandes festas. Sem grande alarido. Ele aí está. Como o sorriso simples e despreocupado de uma criança, a convidar-nos a entrar. Contrariando a nossa pressa em concretizar os sonhos. Amenizando os nossos medos. Fazendo-nos calcular os nossos projectos. Simples. Acabado de nascer. Ele aí está. Feliz Ano Novo.
Há alturas, não se sabe bem porquê, em que as festas nos dizem mais do que outras. Estes são os tempos em que, pelo menos aparentemente, dizem menos qualquer coisa. Mesmo que não queiramos, os tempos que passaram (e os que se avizinham) não parecem auspiciosos. Quase não temos tempo de nos apercebermos de que as coisas acontecem, e, de facto, mais um ano passou, e outro se avizinha. O nosso tempo é o presente. Quase não conseguimos parar para pensar um pouco no passado, e quase nem tão pouco no futuro. As coisas quase não nos acontecem, antes «chocam» connosco, e nós temos de nos «desenvencilhar» delas. Era preciso mais tempo, ou outro tempo, para podemos saborear melhor o muito de bom que nos acontece, e para desvalorizarmos bem (ou aprendermos com) o que de mau nos passou. O fim do ano está aí, apressadamente, quase sem tempo. E eu desejo, para 2010, que o tempo fuja mais devagar.