A mística é uma espécie de sentimento de identificação, mobilizador e inexplicável, que nos liga a uma massa. Basicamente, é isso a mística benfiquista. O Benfica, queiramos ou não, é um clube mobilizador, o que, agora, ganha ainda maior força, com o regresso da equipa aos bons resultados, às boas exibições e aos lugares cimeiros da tabela classificativa. Na revista «NS» de sábado passado, o tema central era, precisamente, a mística benfiquista, bem como a «máquina» que trabalha para que essa mística se mantenha. O «efeito bola de neve» já se faz sentir. Foram ultrapassados os recordes de bilheteira/assistência, os «scores» desportivos também surpreendem pela positiva e a «massa associativa» e simpatizante cresce a olhos vistos. Para um clube com a grandeza do Benfica, esta recuperação era necessária. Só falta o tão esperado título, esperamos nós de forma justa e sem «casos». Porque sabe muito melhor assim.
19 de Janeiro de 2010 – O Governo falhou no apoio ao emprego
Facto: o Governo admitiu publicamente que as medidas excepcionais de apoio ao emprego, em 2009, ficaram muito aquém do esperado (43 mil novos postos de trabalho, quando o objectivo era 66 mil). Estas medidas excepcionais tinham como objectivo atender as necessidades de 700 mil pessoas, mas apenas cerca de 300 mil puderam beneficiar delas. Opinião: o Governo falhou, e admitiu o falhanço. Mas não é disso que os portugueses precisam. Não num sector como o emprego, que acaba, directamente, por afectar a situação social do país. Ontem mesmo, a SIC dava conta de que há famílias portuguesas a tentarem sobreviver com 15 euros diários. E não nos basta que o Governo diga que vai reafinar as políticas para 2010. Era preciso sentirmos, pelo menos, o conforto de haver já, neste momento, algo a ser feito para, pelo menos, remediar a situação.
18 de Janeiro de 2010 – A pedagogia musical de Bernstein, 50 anos depois
Em 1958, os «Young People’s Concerts», de Leonard Bernstein, com a Filarmónica de Nova Iorque, começaram a ser gravados e emitidos na televisão. Recentemente, estes programas foram editados em DVD (um «set» de nove discos), mas continuam apenas disponíveis mediante importação. Isto começou a ser emitido há cerca de 50 anos. Em Portugal, mais concretamente no Norte de Portugal, as primeiras tentativas mais ou menos organizadas de concertos semelhantes têm cerca de 10 anos, e só com o surgimento da Casa da Música se começou a levar estas coisas mais a sério. É interessantíssimo vermos a forma como Leonard Bernstein, com as restrições técnicas da época, consegue contornar tudo isso e fazer televisão com música, de uma forma que, ainda hoje, podemos considerar perfeitamente actual. E isto foi há cerca de 50 anos.
17 de Janeiro de 2010 – Vasco Soeiro na Casa da Música
Hoje tive o prazer incomparável de ver o meu colega Vasco Soeiro brilhar no palco da Casa da Música. Integrado no ciclo de concertos de órgão, o Vasco apresentou-nos a Tocata, Adágio e Fuga em Dó Maior, BWV 564, de Johann Sebastian Bach, e a Sinfonia n.º 6 em Sol menor, op. 42 n.º 2, de Charles-Marie Widor. Há cerca de 10 anos que o Vasco é um verdadeiro lutador. Sem nunca desistir do seu sonho, decidiu estudar, com empenho e dedicação, o instrumento que é por muitos considerado o rei dos instrumentos: o órgão. Passado este tempo, Vasco Soeiro é um organista que, estou certo, vai dar que falar. Não só pela sua prestação de hoje, mas por tudo aquilo que é. No final do concerto, os elogios vieram, até em inglês. Perante uma Sala Suggia com muito público, Vasco Soeiro apresentou a todos uma «wonderful piece of music. Wonderful».
16 de Janeiro de 2010 – XXIV Encontro de Janeiras de Arouca
Hoje, o Orfeão de Arouca organiza o 24.º encontro de Janeiras de Arouca. Já não há cantadores de janeiras pelas ruas da vila, em Janeiro. E é pena. Com o passar do tempo, ficou apenas esta manifestação como símbolo do que era tradicional. Já não temos o Zé Luís a cantar ao desafio com a sua belíssima voz. Já não temos a Nádia, a irradiar alegria de dentro do seu xaile e do seu lenço. Mas temo-nos a nós, e não queremos desistir de preservar estes cantares, que (quase) nenhuma partitura imortalizou. E é bom ver que também os mais jovens aderiram ao repto, e apresentam-se hoje pela segunda vez nestes encontros. A chuva vai, por certo, impedir o tradicional desfile, mas o espírito vai manter-se. Apareça.
15 de Janeiro de 2010 – A ausência de Carlos Pinto Coelho
É uma pena que Carlos Pinto Coelho continue afastado dos ecrãs. O programa «Acontece» foi sempre uma «pedrada no charco» no panorama cultural nacional, mostrando, de uma forma altamente bem feita, como se pode fazer cultura em televisão. Depois disso, nada (ou quase). Como se não bastasse, o seu projecto «Tele 5», que pretendia ser o quinto canal nacional generalista, foi chumbado, o que, a acreditar nas palavras de Pinto Coelho, é necessariamente mau para todos nós. O debate que se gerou foi sempre em torno das viabilidades económicas, dos volumes de publicidade ou das empresas que tutelavam os projectos. Mas nunca ninguém falou do que Carlos Pinto Coelho falou. Que o desejo era o de se fazer algo de muito melhor do que se tem feito, proporcionando condições dignas a quem trabalhasse nesse projecto. Hoje, Pinto Coelho foi convidado no «5 para a meia noite». Algumas razões (suficientes) para lamentarmos a ausência de Carlos Pinto Coelho.
14 de Janeiro de 2010 – O Haiti (não) é aqui
Nunca como nos dias que correm a música de Caetano e Gil esteve tão actual. Quando se pensava no que parecia ser o pior do pior, pensava-se que ainda poderia haver pior, e esse pior era o Haiti. Um país assolado por terramotos, cheias, uma ditadura, uma situação política absolutamente caótica. E agora isto. As ondas sísmicas atingiram os Açores em cerca de 8 minutos, mas a proporção do que aconteceu só algumas horas depois nos fez despertar. Curiosidades da globalização, a natureza, às vezes, ainda consegue ser mais rápida. Há quem diga que os mortos são 100 mil, outros que chegarão aos 500 mil. Não sabemos. Há como que uma força, como um terramoto, que nos retira a energia, e nos deixa sem acção. O Haiti não é aqui, mas podia muito bem ser. O Haiti da anarquia. Mas (cremos) não este. Porque, como diz a música, neste momento, resta-nos pensar no Haiti e rezar pelo Haiti.
HAITI (Caetano Veloso/Gilberto Gil)
Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
13 de Janeiro de 2010 – As dificuldades da democracia
Em entrevista ao programa «Bairro Alto», da RTP2, Joan Margarit, poeta espanhol, deliciou quem o pôde «ouver». Numa conversa bastante bem conduzida, por José Fialho Gouveia, Margarit falou da arte e da democracia, e das dificuldades que uma levanta à outra. Partindo da experiência da ditadura franquista, afirmou claramente que a democracia não sabe o que fazer com a arte, porque a arte não é democrática. Quando vivemos condicionados, centramos o nosso foco em libertarmo-nos da opressão. Só que, lembra Margarit, isso é o mais fácil. Difícil é fazer com que as massas passem, depois de alimentadas, a aculturar-se, em vez de «vegetarem» pelo entretenimento. E nisto, Margarit tem toda a razão. Pensarmos que da queda de uma ditadura à leitura de Shakespeare é automático, é errado. Porque alimentar uma população faz mexer muita coisa, inclusive a economia. Podemos dar de comer a muita gente de uma só vez. Mas fazer chegar a arte a muita gente de uma só vez… essa é (ainda) a grande dificuldade da democracia.
«Muitas vezes, as críticas à democracia… A democracia tem muitas dificuldades, evidentemente. Nós não as vimos. Um dos grandes erros da nossa geração, nos anos 60, foi pensarmos que, com a barriga cheia, quando as pessoas estivessem bem alimentadas, quando o pão chegasse para todos, depois da substituição da ditadura, ler Shakespeare era imediato. Era o passo seguinte, automático. E não é automático. Se há um passo difícil, é o de dar de comer, porque nisso influem as máquinas, a organização… A ciência pode dar de comer, mas, depois de estarem alimentadas, as pessoas não vão ler Shakespeare. As pessoas vão ao futebol. Nós pensávamos que isso tinha acabado com Franco, e não acabou. Agora temos uma sociedade alimentada, que não se molha à chuva, mas que não lê Shakespeare. Esse passo é muito mais difícil. Porque podemos dar de comer a milhões de uma vez, mas não podemos pôr milhões a ler Shakespeare de uma vez».
(Joan Margarit, em entrevista ao programa «Bairro Alto», da RTP2)
12 de Janeiro de 2010 – Até onde vai a criatividade dos «hackers»…
Não pude deixar de ficar sem saber muito bem como, ao receber uma mensagem de correio electrónico, aparentemente igual a qualquer outra. No remetente, apesar de o endereço não condizer, dizia «Sapo.pt News», e o conteúdo era absolutamente petrificante. O assunto era exposto de forma a que não houvesse qualquer hesitação em continuar a leitura: «Morre o nosso Presidente da Republica, Anibal Antonio Cavaco Silva». Incrédulo, continuei a leitura, que se revelou ainda mais petrificante. «Acidente de carro mata Aníbal António Cavaco Silva (Presidente da República). Aníbal António Cavaco Silva (Boliqueime, Loulé, 15 de Julho de 1939) é um economista e político português e, desde 2006, o décimo nono Presidente da República Portuguesa. Foi primeiro-ministro de Portugal de 6 de Novembro de 1985 a 28 de Outubro de 1995, tendo sido a pessoa que mais tempo esteve na liderança do governo do país desde o 25 de Abril. A 22 de Janeiro de 2006 foi eleito Presidente da República, tendo tomado posse em 9 de Março do mesmo ano. Veja as imagens de filmadas por celulares». Aqui, fez-se luz. A construção frásica da mensagem deixava bastante a desejar, parecendo claramente «wikipediana», e «imagens de filmadas por celulares» fez o «click». Só podia tratar-se de uma mensagem «hackada». A palavra «imagens» estava «linkada», provavelmente para se instalar um qualquer executável, com um vírus, ou coisa semelhante. A internet é um mundo de possibilidades e de total liberdade, mas isto…
11 de Janeiro de 2010 – Vem aí o FMI?
O facto de os automóveis terem rádio proporciona-nos termos notícias (umas vezes boas, outras menos boas) enquanto viajamos. João Salgueiro, em entrevista à saída de uma audiência com o Presidente da República, afirmou que estamos a «seguir as pisadas» da Grécia. A Grécia está, neste momento, sob «vigilância» do Fundo Monetário Internacional (FMI), estando em equação a intervenção daquela instituição no «endireitamento» do país, a vários níveis. Deve ser extremamente frustrante para um povo sentir que os seus políticos não conseguem governar, que é aquilo que deviam saber (pelo menos minimamente) fazer. Segundo João Salgueiro, o nosso Governo também não nos está a dizer a verdade toda, e corremos sérios riscos de nos virmos a sentir assim. Isto é preocupante, quando a situação já não é nada famosa. Nunca como agora o Governo esteve tão «em estado de graça», com uma opinião pública mais ou menos acalmada e com uma imprensa tão favorável, apesar da maioria relativa. Ao pensar em tudo isto, ficamos com a sensação de que Portugal está a ir (todo ele) juntamente com a enxurrada das últimas chuvas. Passivo, amorfo, acrítico e conformado. Será que vem aí o FMI, para nos tentar reanimar?
«Temos tido estabilidade nos últimos quatro anos e tivemos um desempenho pior que a média europeia. Temos o pior desempenho da Zona Euro e dos 27 da União Europeia».
«[José Sócrates] diz que estamos a recuperar e que vamos ter um desempenho melhor que a Europa. Isso não tem fundamento».
João Salgueiro, em entrevista à TSF