Apesar da tremenda chuva diurna, a Procissão dos Fogaréus pôde cumprir o habitual percurso. A chuva esperou que o habitual mar de luzinhas chegassem ao destino, atrás dos andores seculares, para voltar. Há esta espécie de «acordo com São Pedro», sempre que se chega a quarta-feira da Semana Santa. Por mais que a chuva persista, há (quase) sempre uma aberta que permite que povo demonstre a sua devoção, durante esta noite. Numa quase Via Sacra, o povo sobe ao Calvário, passando pelas cruzes da vila, levando os andores que retratam os momentos que Cristo viveu até à morte. Sempre à luz das velas (talvez daí os «fogaréus»). É talvez uma das maiores (senão talvez a maior) manifestação pública da fé deste povo. Que resiste a tempos, modas, investidas ou adulterações, formas sinceras ou hipócritas de encarar a religião.
30 de Março de 2010 – Sermos (des)necessários
Às vezes temos uma necessidade tão grande de nos mostrarmos necessários, que acabamos por nos tornar (isso sim) absolutamente dispensáveis. Sempre que tentamos trabalhar organizadamente, tendemos a criar procedimentos sem sentido, demasiado formais, morosos, que não servem para mais nada a não ser para nos fazermos notar, para nos tornarmos (des)necessários. O português, como verdadeiro académico, tem esta mania de formalizar tudo, de pôr tudo no papel, de tirar cópia em triplicado e arquivar. E continuamos, eternamente, a fazer isso. Mesmo com a informática, mesmo com todas as formas de trabalho que nos permitem simplificar as coisas, continuamos arcaicos. Antiquados. (Des)necessários.
29 de Março de 2010 – Terrorismo na Rússia
Os actos terroristas são, provavelmente, os actos mais estúpidos a que podemos assistir. Porque carregam o enorme peso da cobardia de quem os pratica, escondendo-se atrás de uma «pseudo-instituição», que parece que tudo desculpa, com base em objectivos que, por muito nobres que pareçam, não condizem com a perda de vidas humanas que em nada se relacionam directamente nem com os problemas nem com os objectivos que norteiam essa gente. Hoje, foi a vez da Rússia. Em pleno metropolitano, que mais se assemelha, em alguns casos, a verdadeiras galerias de arte. Onde cerca de 40 mortos e mais de 70 feridos deixaram o seu sangue e a sua vida. Sem saberem bem porquê.
28 de Março de 2010 – Audição da classe de guitarra do Grupo Coral de Urrô
Hoje virou-se mais uma página na (ainda) curta carreira de «professor»: a primeira audição pública de uma classe. Desta vez, foi a classe de guitarra do Grupo Coral de Urrô, que está a funcionar desde Janeiro, mas que já conseguiu apresentar algumas pequenas peças, numa espécie de «mini-orquestra», que vamos, agora, tentar explorar. As primeiras indicações não poderiam ser melhores, e agora «o céu é o limite». Não sem um trabalho minucioso, todos os sábados, a partir das 14 horas, sempre à procura do som ideal.
27 de Março de 2010 – Nespresso, «why not»?
O sistema Nespresso é único e original em vários aspectos. Seja pela forma como deve ser utilizado, seja pela preocupação social/ambiental, seja, ainda, pela forma como a marca se posiciona no mercado. Não é possível adquirir cápsulas deste maravilhoso café a não ser nas lojas da marca, e hoje foi dia de visitar a loja. O atendimento é verdadeiramente «topo de gama», como se de uma loja «gourmet» se tratasse (o que, de facto, não deixa de ser verdade). No mostrador, escolhemos as variedades que mais nos agradam, damos o nosso número de cliente, conferimos a factura, e, depois, «la crème de la crème», degustamos um belíssimo café, como deve ser. Sendo assim, «why not?»
26 de Março de 2010 – Portugal esqueceu-se de Alexandre Herculano
Todos nos esquecemos. Até quem nos governa, e isso é que é mau. Alexandre Herculano faria 200 anos, se fosse vivo, e Portugal não vai ter nenhum tipo de comemoração oficial. Numa altura em que o romance histórico está na moda, esquecemos um dos portugueses que primeiro (e mais) se destacou neste domínio, bem como nas áreas do jornalismo, da política, da investigação, e em muitas outras. Arouca deu-lhe nome de uma das ruas mais antigas, em pleno centro histórico, pela sua passagem por estas terras, em pesquisa. Figura proeminente do liberalismo e do romantismo nacionais, Portugal responde-lhe, agora, com um silêncio ensurdecedor, com um olhar para o lado, com um esquecimento estranho.
25 de Março de 2010 – In memoriam
Há dois anos, o jantar ficou a meio, e as imagens começaram a passar a uma velocidade cada vez maior pela memória. Houve um frio que teimava em não desaparecer, e por dentro parecia que uma folha de papel se ia queimando a partir do meio, até desaparecer totalmente. Os porquês persistiam sem resposta. Os projectos idealizados pareciam difusos e irrealizáveis a partir dali. Parecia um sonho mau, demasiado real para ser verdade. O tempo passa, os sedimentos acumulam-se ao correr dos dias, mas a marca persiste. Uma marca indelével. Suave. Profunda. Irrepetível. Há pessoas assim, que parecem não ser daqui, e, talvez por isso, passam fugazmente, arrastando todo o brilho atrás de si, como um cometa. Há vivências, partilhas, fotografias tiradas com a mente, que nunca mais desaparecerão. E é aí, na memória, que tudo fica, que tudo permanece. Aí, de onde ninguém pode apagar nada. E onde podemos voltar a viver tudo, as vezes que quisermos.
24 de Março de 2010 – Trabalho vs. Produção
Cada vez mais me parece que sofremos de um mal endémico. Por muito que trabalhemos, produzimos sempre pouco. Ao olhar mais ou menos distraído, ou descomprometido, a resposta é simples. Trabalhamos muito e mal, por isso produzimos pouco. Mas há uma explicação importante a dar, para além dessa, também possível. É que a nossa «elite» é francamente má. Tão má, que não sabe o que pretende. Por isso, por muito que trabalhemos, mesmo que bem, vamos sempre trabalhar insuficientemente, e produzir pouco ou mal. A solução, pelo menos aparentemente, é termos uma «elite» esclarecida e pró-activa. A partir dessa altura, talvez a dicotomia entre trabalho e produção comece a fazer mais sentido.
23 de Março de 2010 – Alice no País das Maravilhas
A experiência de ver «Alice no País das Maravilhas» em 3D é muito interessante. Mais interessante se torna quando o «anfitrião» é Tim Burton. Mais interessante, ainda, quando a companhia é a melhor que se pode desejar. A entrada no País das Maravilhas é feita pela mão de Tim Burton, ao seu melhor (e habitual) estilo. Com muita fantasia, cor e movimento, mas com muita substância subliminar. Esta Alice resume as duas obras complementares de Lewis Caroll («Alice no País das Maravilhas» e «Alice do outro lado do espelho»), e mostra-nos uma viagem fantasiosa pelo caminho da maturidade, o eterno conflito/convivência com o nosso interior, com os nossos medos, com o nosso subconsciente, com «o outro lado do espelho», que muitas vezes reprimimos, pela conveniência social ou para criarmos falsos equilíbrios. A viagem vale a pena. E, porque não, fazer, a partir daqui, uma viagem mais longa, pela filmografia de Tim Burton.
22 de Março de 2010 – Ontem foi Dia Mundial da Poesia
Ontem foi Dia Mundial da Poesia, e as referências são tantas e os poemas que nos marcam tantos, que é difícil escolher um. Vem-me, de imediato, à memória o génio e a intensidade vibrante de Ary dos Santos, a quem desejámos boa noite, a 7 de Dezembro. Mas sobrepõe-se um certo Rafael Alberti, que, a par da música de Vicente Amigo, renasce num disco fabuloso: «Poeta». E sabe bem ouvir. Porque a poesia sabe bem, quando ouvida. E quando ouvida na língua em que é sentida, pensada e dita. Nestes «retornos del amor recién aparecido», Alberti fala-nos da escuridão solitária e desorientadora, e de como o amor, sempre o amor, regressado, regressando, nos devolve tudo. Foi ontem, mas vale a pena desejar na mesma. Feliz Dia.
Retornos del amor recién aparecido
(Rafael Alberti)
Cuando tu apareciste,
penaba yo en la entraña más profunda
de una cueva sin aire y sin salida.
Braceaba en lo oscuro, agonizando,
oyendo un estertor que aleteaba
como el latir de un ave imperceptible.
Sobre mí derramaste tus cabellos
y ascendí al sol y vi que eran la aurora
cubriendo un alto mas en primavera.
Fue como si llegara al más hermoso
puerto del mediodía. Se anegaban
en ti los más lucidos paisajes:
claros, agudos montes coronados
de nueve rosa, fuentes escondidas
en el rizado umbroso de los bosques.
Yo aprendí a descansar sobre sus hombros
y a descender por ríos y laderas,
a entrelazarme en las tendidas ramas
y a hacer del sueño mi más dulce muerte.
Arcos me abriste y mis floridos años
recién subidos a la luz, yacieron
bajo el amor de tu apretada sombra,
sacando el corazón al viento libre
y ajustándolo al verde son del tuyo.
Ya iba a dormir, ya a despertar sabiendo
que no penaba en una cueva oscura,
braceando sin aire y sin salida.
Porque habías al fin aparecido.