Não, esta foto não é minha, nem tão pouco sou eu. Apenas ilustra a actividade dos últimos dois dias. Ontem e hoje, no Conservatório de Aveiro, decorreu um «masterclass» de canto, sob orientação do professor António Salgado. A voz é um dos instrumentos mais interessantes que temos, porque é inteiramente nosso, do nosso corpo, da nossa identidade. E há muitas formas de a usarmos, muitas delas más. Não se fica «doutor» em dois dias, mas a experiência valeu a pena, como alerta para algumas práticas, que, quando corrigidas, se tornam muito mais interessantes e menos ofensivas. Defendendo algo que é muito nosso: a voz.
9 de Abril de 2010 – Concerto de Gala do 5.º aniversário da Casa da Música
Parece que foi ontem. O edifício polémico, anos de obra, derrapagens orçamentais e peripécias várias, a Casa da Música é, hoje, uma instituição credível, de qualidade reconhecida, dinâmica e mobilizadora. A abertura deu-se há cinco anos, e o percurso feito é, no mínimo, interessante. Houve concertos melhores e menos bons, mas houve, sobretudo, muita música, boa música. Houve também abertura para que alguns dos que menos acesso costumam ter aos palcos pudessem ter essa oportunidade. Esta noite houve, ainda, o concerto comemorativo. Cheio. Vivo. Com uma vibrante 5.ª Sinfonia de Tchaikovsky e uma surpreendente peça em primeira audição do Prof. António Chagas Rosa. Ficou patente a vivacidade da Casa. Em Outubro há mais um momento interessante: a 9.ª Sinfonia de Beethoven, com a primeira apresentação do Coro Casa da Música em versão sinfónica. «Eu vou».
8 de Abril de 2010 – Benfica: não pode ser só sonho
Os adeptos vivem, por vezes, demasiado inebriados por uma sucessão de sucessos. Mas, sabemo-lo bem, a vida não é feita apenas de sucessos. Aliás, os benfiquistas estão, nos últimos anos, muito mais habituados aos insucessos do que aos sucessos. Não é fácil «regressar ao passado» desta forma, mas, costuma dizer-se, é com as derrotas que aprendemos a reinventar-nos, para que possamos alcançar vitórias. A derrota não surge por acaso. Em princípio, é fruto do erro, da má preparação ou (frequentemente) do excesso de confiança. No caso do futebol, a derrota gera discussão exagerada, descabida, sem justificação. O Benfica não pode viver apenas no sonho. Tem de regressar, agora, à realidade de seis pontos de avanço no primeiro lugar da I Liga, e continuar a disputar (e vencer) as finais que lhe restam, para terminar a temporada como Campeão Nacional.
7 de Abril de 2010 – Nem Sócrates, nem Mexia, nem nada
Não. Hoje não me apetece falar (nem sequer pensar) nos projectos (e que feios) do engenheiro técnico Sócrates, nem tão pouco falar (nem sequer pensar) na choruda quantidade de dinheiro que o administrador Mexia recebeu por ter ultrapassado os objectivos estipulados. Está um sol fantástico, mas o que apetece é fechar os olhos e descansar, depois de um dia completamente «espremido», e ficar a perscrutar os sons lá fora, como se estivesse a chover, até adormecer. E como seria bom que, ao acordar, toda esta sujidade tivesse desaparecido.
6 de Abril de 2010 – O(s) problema(s) da comunicação
Há vários problemas com a comunicação. Desde logo, o problema de todos acharmos que percebemos de comunicação, porque todos comunicamos e estamos sujeitos a fluxos de informação. Outro, é o facto de nem sempre termos a certeza de que as mensagens chegam ao destinatário nas condições que queremos, e sem interferências indesejadas. Mas há mais. E um deles, talvez o mais importante, é o facto de o processo de comunicação ser muito à semelhança do provérbio chinês que diz que «há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida». Comunicar é, desde logo, uma questão de pertinência, de oportunidade. Ou acontece na hora certa, ou não acontece de todo. Mas, uma vez «lançada a flecha», ou «dita a palavra», é como se disparássemos uma arma. Nunca mais conseguimos recolocar a bala na arma. E disparamos sempre demais, rápido demais e sem termos o cuidado de ver se o alvo é mesmo aquele.
5 de Abril de 2010 – Os (dois) sustos do Benfica
Não tem sido normal, mas às vezes acontece. O Benfica resolveu, hoje, pregar-nos um pequeno susto (ou melhor, dois). Começou o jogo contra a Naval 1.º de Maio a perder 2-0, mas acabou por dar a volta, e ganhar por 4-2. Numa altura em que já estamos todos com a cabeça em Liverpool, o arranque do jogo não prenunciava nada de bom. Mas as coisas lá se encarreiraram, e os passos em direcção ao título continuam. Nota-se algum cansaço, próprio de quem tem jogado muitas vezes, mas temos (finalmente) o tal «Benfica à Benfica» de que há já muito se falava. Se os resultados continuarem a ter estas reviravoltas, sempre podemos tolerar alguns (poucos) destes sustos…
4 de Abril de 2010 – Cantar a (nova) Páscoa
Hoje foi dia de voltar a ajudar Carregosa a cantar a (nova) Páscoa. Pela segunda vez, o grupo coral da paróquia local interpretou a liturgia de Páscoa composta pelo arouquense Fernando Valente, insigne compositor e pedagogo, que, na dificuldade própria de tudo o que é belo, concebeu páginas notáveis de música destinada ao louvor divino. Estão de parabéns todos os que, em Carregosa, lutam por fazer, todos os domingos, a melhor música possível, contrariando o (tão mal, por vezes verdadeiro) que se diz da música praticada nas igrejas da Igreja Católica. Numa altura em que parecem abundar os maus exemplos, falar (ainda que pouco) do muito de bom que a Igreja tem, parece hipócrita e sectário. Mas não deixa de ser verdadeiro. Parabéns ao padre Artur, pároco de Carregosa, por continuar a acreditar que é possível obter sumo das laranjas que, na Primavera da Páscoa, regeneram, sabendo que se regeneram todos os domingos. Parabéns ao Vasco Silva, pela mobilização e pela qualidade musical que consegue obter dos seus colaboradores. E nós, vamos continuando sempre por aí. A cantar a (sempre nova) Páscoa.
3 de Abril de 2010 – Algo está mal com a ópera nacional
Das duas uma. Ou as produções operáticas do Teatro Nacional de São Carlos (a companhia nacional de ópera, paga com dinheiros de todos nós) são constantemente fracas, ou então os críticos são demasiado exigentes ou «vaziamente» críticos. A acreditar nas crónicas recentes do caderno cultural do jornal «Expresso», as óperas que têm subido ao palco do São Carlos têm sido sucessivamente fracas, sejam com cantores de renome, sejam com cantores jovens, sejam com maestros portugueses ou estrangeiros. É estranho, quando sabemos que temos bons cantores, bons músicos, bons maestros e um bom espaço. O que nos leva a reflectir sobre a forma como os dinheiros são geridos nestes casos. Ou então sobre a eventual má-fé dos críticos. Seja de uma forma ou de outra, algo não está bem com a ópera nacional. E isso deve preocupar quem se preocupa com a cultura.
2 de Abril de 2010 – Páscoa (também) da Igreja
O período pascal é propício à reflexão. Etimologicamente (e mesmo como rito/ritual), Páscoa significa passagem. Da morte à vida, pela ressurreição. Seja porque acreditamos em Deus, seja porque a Primavera é também tempo de renovação, de brotarem as flores depois das folhas caídas, de voltar a surgir o sol depois das nuvens carregadas. Ao fim e ao cabo, a vida é mesmo assim. Curiosamente (ou não), a Igreja Católica é, neste preciso momento, abalada por um escândalo que terá a sua quota parte de verdade e a sua quota parte de ampliação mediática, com todas as consequências que têm uma e outra situação. Talvez seja também tempo de a própria Igreja pensar na sua «Páscoa contemporânea», reagindo firme, ponderada e decididamente às graves investidas que têm sido feitas. Fazendo jus à verdade, como é sua vocação. Fazendo valer a sua justiça, em tantos momentos providencial. Talvez seja tempo de ser Páscoa na Igreja, no mundo, em cada um de nós.
Foto: Filipa Oliveira
1 de Abril de 2010 – Não, não é mentira
O Benfica venceu o Liverpool por 2-1. Não é mentira. Apesar de a justiça só ter sido possível com duas grandes penalidades (e outras ficaram por sancionar), o Benfica deu-se ao luxo de desperdiçar várias oportunidades flagrantes, permitindo ao Liverpool jogar em contra-ataque, quase sempre muito perigoso. O resultado não garante nada, mas é vantajoso, e permite ao Benfica uma certa folga na disputa desta eliminatória. A euforia deve ser contida, porque ninguém é invencível. Mas que apetece «dar um salto» a Liverpool, isso apetece.
«O futebol é ciência, arte, guerra, ballet, teatro, terror, alegria, tudo isto junto num só».
(Tom Utley, jornalista – in Público)