20 de Abril de 2010 – De como a nossa ignorância pode ser um vulcão em erupção

O vulcão que está em erupção (mais ou menos adormecida) na Islândia, e que tem deixado a Europa completamente aérea, chama-se Eyjafjallajokull. Segundo o jornal «Público», «Eyja» significa ilha, «fjalla» significa montanhas e «jokull» glaciar. Trata-se, portanto, de um vulcão localizado num glaciar de montanhas próximas das ilhas Westman. Esta nuvem de cinzas, para além de, metaforicamente, estar a turvar a visão da Europa, é, também metaforicamente, um alerta para como a nossa ignorância pode entrar em erupção a qualquer momento. Não sabemos, muitas vezes, os porquês das coisas que vão fazendo o «mundo global» girar, e que acabam, mais tarde ou mais cedo, por nos afectar. Como neste caso. Como em outros. Continuamos a sorrir, sem pensar nas consequências dos nossos actos sobre a natureza onde nos movemos e da qual somos apenas ínfima parte. Esquecendo que, nestes largos milhões de anos, muitas espécies surgiram e se extinguiram, e o planeta persistiu, evoluiu, transformou-se. Mais certo que o fim do mundo será a nossa rejeição enquanto espécie «eleita». Por este andar, extinguir-nos-emos, como os dinossauros. Na lava da nossa ignorância.

19 de Abril de 2010 – Omnipresença, precisa(va)-se

Devíamos, de vez em quando, ter o dom da omnipresença. Dizia alguém que a quem nada faz nada se lhe pede. Talvez sim. Mas não é fácil fazer-se mais quando já se faz muito (ou, pelo menos algo). Era bom, pelo menos algumas vezes (uma vez que fosse) podermos estar nos sítios (vários) que quiséssemos. Experimentar alguma plenitude. Mas, como o homem é intrinsecamente insatisfeito, iríamos querer mais, e depois mais, e mais ainda. Por isso, talvez por isso, não temos o dom da omnipresença, substituído pela liberdade (ou condicionamento) da opção. A opção de acertar ou errar, de aprender ou ignorar, de ter coragem ou desistir. Cada uma com as suas consequências, mas todas possíveis. E mais ainda, talvez. Tantas opções, para substituir apenas uma coisa: a tão desejada omnipresença.

18 de Abril de 2010 – «Restart»

Como nos tornados ou nas trombas de água, às vezes a espiral das coisas torna-se incontrolável, e apetece-nos poder começar tudo de novo, sem os erros, pequenos ou grandes. É nessa altura que dava jeito termos um botão de emergência, ou, melhor, de «restart». Apagando o que fizemos mal. Retirando-nos de onde não deveríamos estar. Progressivamente apagando tudo, talvez até nos apagar por completo. Evitando, assim, as tremendas inconveniências para onde as nossas idiossincrasias nos teimam em empurrar, e às quais (pecado) não conseguimos resistir.

17 de Abril de 2010 – O Papa

Bento XVI terá sempre o estigma de ter sucedido a João Paulo II. Como se não bastasse, junte-se a perfeita inabilidade comunicacional da maioria dos altos responsáveis do Vaticano e, mais ainda, o(s) recente(s) escândalo(s) dos abusos sexuais, que quase se assemelham a uma praga contaminadora. A aura de grande pensador, de teólogo respeitado, de músico interessado caem por terra, sobretudo com a forma como o Vaticano comunica. A palavra do Papa é clara, profunda e assertiva, mas muito pouco eficaz. O que, quando se trata de uma entidade que deve primar pela clareza e efectividade da comunicação, é fundamental. Mas o receptor da mensagem não está a conseguir recebê-la com clareza e em canal «limpo». E isto, para um papa tímido e com fama de «antipático», é (quase) fatal.

16 de Abril de 2010 – Prendas e subornos, contadas por Moita Flores

O texto já é antigo. Foi publicado em finais de Março no jornal «Correio da Manhã», na coluna de opinião de Moita Flores. Chegou hoje por e-mail, e dá que pensar. Entre prendas e subornos que quem está exposto ao público (e lhe gere os recursos) costuma receber, há várias «nuances». Há gestos sinceros, cujo valor é, quase sempre, mais simbólico que outra coisa. Há gestos de presença, para que não se esqueça que o outro existe. Há gestos de interesse velado, do género de «dar um presunto para receber um porco». Há de tudo. Moita Flores sugere, contudo que se dê um fim condigno e asumido a tudo isto (tudo isto, excepto as flores, sinceras, singelas e afectuosas). Se os políticos pensassem assim, mais do que dizerem, era capaz de não ser necessário lutar-se contra a corrupção por decreto. Sem esquecermos que quem legisla é quem, na mais gritante fatia dos casos, está envolvido nas histórias mais significativas. Vale a pena ler.

PRENDAS E SUBORNOS

«Quando tomei posse como presidente da Câmara de Santarém fui confrontado com a quantidade de prendas que chegavam ao meu gabinete. Era a véspera de Natal. Para um velho polícia, desconfiado e vivido, a hecatombe de presuntos, leitões, garrafas de vinho muito caro, cabazes luxuosos e dezenas de bolos-rei cheirou-me a esturro. Também chegaram coisas menores. E coisas nobres: recebi vários ramos de flores, a única prenda que não consigo recusar.

Decidi que todas as prendas seriam distribuídas por instituições de solidariedade social, com excepção das flores. No segundo Natal a coisa repetiu-se. E então percebi que as prendas se distribuíam por três grupos. O primeiro claramente sedutor e manhoso que oferecia um chouriço para nos pedir um porco. O segundo, menos provocador, resultava de listas que grandes empresas ligadas a fornecimento de produtos, mesmo sem relação directa com o município, que enviam como se quisessem recordar que existem. O terceiro grupo é aquele que decorre dos afectos, sem valor material mas com significado simbólico: flores, pequenos objectos sem valor comercial, lembranças de Natal. Além de tudo isto, o correio é encharcado com milhares de postais de boas-festas que instituições públicas e privadas enviam numa escala inimaginável. Acabei com essa tradição. Não existe tempo para apreciar um cartão de boas–festas quando se recebe milhares e se expede milhares.

Quanto às restantes prendas, por não conseguir acabar com o hábito, alterei-o. Foi enviada nova carta em que informámos que agradecíamos todas as prendas que enviassem. Porém, pedíamos que fosse em géneros de longa duração para serem ofertados ao Banco Alimentar contra a Fome. Teve um duplo efeito: aumentou a quantidade de dádivas que agora têm um destino merecido. E assim, nos últimos dois Natais recebemos cerca de 8 toneladas de alimentos.

Conto isto a propósito da proposta drástica que o PS quer levar ao Parlamento que considera suborno qualquer oferta feita a funcionário público. Se ao menos lhe pusessem um valor máximo de 20 ou 30 euros, ainda se compreendia e seria razoável. Em vários países do mundo é assim. Aqui não. Quer passar-se do 8 para o 80. O que significa que nada vai mudar. Por isso, fica já claro que não cumprirei essa lei enquanto funcionário público. Enquanto autarca aceitarei prendas que possam ser encaminhadas para o Banco Alimentar. E jamais devolverei uma flor que me seja oferecida».

(Francisco Moita Flores, in «Correio da Manhã»)

Foto: C.M. Santarém

15 de Abril de 2010 – Uma novem de fumo sobre a Europa

Há uma nuvem de fumo que, vinda de um vulcão em erupção na Islândia, está a pairar sobre a Europa, impedindo os aviões de percorrerem as suas rotas normais. Os aeroportos vão sobrevivendo aos relativos caos instalados, e a natureza manifesta-se. Enquanto isso, sobre a Europa abate-se uma nuvem de fumo paralisadora. Uma nuvem de fumo densa, possessiva, incómoda. Uma nuvem de alerta para o que se passa acima de nós. A espessa nuvem dos dias, afinal os mais duros, os piores que temos vivido.

14 de Abril de 2010 – A música clássica não tem de ser aborrecida

http://www.youtube.com/watch?v=pI-PloJWbSk

A novidade chegou por e-mail, mas a dupla «Igudesman & Joo» já era conhecida, especialmente pela sua «saga» musical «Mozart Bond», em que se misturavam, completamente, as músicas de Mozart e dos filmes de James Bond. Neste vídeo, a dupla associa-se a uma orquestra de câmara e a um baterista incógnito, para nos dar uma outra visão musical do tema «I will survive», sem deixar de parte fragmentos de Bach, Tchaikovsky e outros grandes compositores, que se cruzam com a estrutura harmónica do «hit». Uma das provas cabais de que a música dita clássica não tem de ser aborrecida. E ganha mesmo vida, quando vivida assim. Porque não dizê-lo, inteligentemente.

13 de Abril de 2010 – A Ministra da Cultura defende o (des)acordo ortográfico, o que é francamente mau

O primeiro impacto foi o de pensar que não podia ser, mas, lendo e relendo, fica um tremendo amargo de boca pelas palavras convictas (sempre convictas) da Ministra da Cultura acerca do tremendo erro que é o tal (des)acordo ortográfico. Como se não bastasse todos nós sentirmos (e sabermos) que com isto abdicamos de boa parte (toda?) a nossa identidade enquanto povo, e que vai ser lançado o absoluto caos sobre a utilização de uma das línguas mais ricas, senão a mais rica, há subtilezas que ainda contribuem mais para o ridículo da situação. O Governo encomendou a concepção de um conversor electrónico, bem como (pasme-se) um vocabulário, para que todos possamos usar e saber como converter a nossa língua para essa coisa que vamos passar a utilizar. É mau. Mau demais. Que nos tirem a nossa língua, que lancem sobre nós a confusão, que se adopte o caminho mais fácil, e, como se não bastasse, ridicularizem-nos, obrigando-nos a termos de andar de «máquina de calcular» para podemos falar a «nossa» língua uns com os outros. Por favor, digam (ou façam com) que isto não seja verdade…

«Será 2010 o ano da entrada em vigor do Acordo Ortográfico?

Será, com certeza. Está a ser feita uma articulação entre o MC, o Ministério da Educação, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e a PCM, que tutela a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e o “Diário da República”. Vai ser produzida uma resolução do Conselho de Ministros, muito em breve, que vai fasear e dar indicações ao longo do ano 2010 a cada organismo do Governo para começar a aplicar o Acordo. Estão a ser dados passos todos os dias. Estamos a aguardar que nos seja entregue um conversor e um vocabulário feitos por encomenda do Governo, que serão de descarga grátis para qualquer pessoa ou instituição e que será um instrumento fundamental para que todos o possam ir integrando no seu quotidiano».

(Revista «Única»; edição do jornal «Expresso» de 10 de Abril de 2010)

Foto: Expresso

12 de Abril de 2010 – Música, para o Turismo Porto e Norte de Portugal

Uma representação da Entidade Regional de Turismo Porto e Norte de Portugal está de visita a Arouca, e quis visitar o Mosteiro. Durante o percurso, houve tempo para conhecer melhor o órgão de tubos, de que tanto nos orgulhamos. A imponência da sua construção, a sonoridade única, o equilíbrio notável, o minucioso trabalho de recuperação puderam ser dados a conhecer, de forma breve, a Melchior Moreira, presidente da ER, com fortes ligações a Arouca, bem como aos colaboradores que o acompanharam. E ficou no ar a ideia de que talvez a música pudesse ter sido um pouco mais longa.

11 de Abril de 2010 – Os Bombeiros

Os Bombeiros Voluntários de Arouca assinalam, hoje, 33 anos de vida. Ontem foi Dia Municipal do Bombeiro. São dois dias de reconhecimento pelo desprendimento com que os bombeiros trabalham, pela vida que disponibilizam em prol de outras vidas. Mas, ainda assim, é pouco. É pouco para cerca de uma centena de homens e mulheres que se privam da família, das horas de lazer, de tudo, para acorrerem a casos urgentes, doenças, acidentes, cenários de incêndio, o abismo da morte e da degradação humana. É pouco para cerca de uma centena de homens e mulheres que, muitas vezes, recebem em troca da sua solidariedade o insulto e até mesmo a agressão. É pouco para cerca de uma centena de homens e mulheres que nem sempre recebem o justo reconhecimento, por parte (de algumas) das autoridades civis. Mas é muito, imenso, o que dão ao povo de Arouca. Aos amigos bombeiros, da Direcção ao Comando, passando por todos sem excepção, sincero reconhecimento e admiração, pela forma desprendida como continuam a servir o povo de Arouca, dando, diariamente, «vida por vida».