30 de Maio de 2010 – O património musical do Mosteiro de Arouca

À guarda da Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda, no Mosteiro de Arouca, está um espólio musical a vários níveis notável. Há manuscritos religiosos de relevância, mas também antifonários (com música gregoriana, para ser executada a uma única voz) e até mesmo um caderno com polifonia (música para ser executada a várias vozes). E há, ainda, uma nota de polifonia que se crê ser a mais antiga conhecida até ao momento, de meados do século XIII. O Mosteiro de Arouca assume, também aqui, a sua imponência e importância. Não são só as paredes, nem só a arte tangível. É também este património «etéreo», que muitas vezes deve ter inundado estes espaços, que marca, que atesta a excelência deste espaço no contexto temporal em que se impôs. Cabe-nos a nós, também, sermos dignos dessa excelência.

29 de Maio de 2010 – A alma

A alguns, a alma pesa. A outros, serve de ponte para o infinito. No filme «Alma Perdida», Paul Giamatti quis ver-se livre da sua alma, acabando, depois, por descobrir que não pode viver sem ela. Em «Invictus», Mandela diz-se «guardião da minha alma», porque é aí que se manifesta, em primeira instância, a sua liberdade. A alma, pelo que parece, somos nós. Com os nossos defeitos, com o nosso «desenho genético», com a nossa liberdade de decidirmos o nosso futuro. E, pelo que vemos, quanto mais nos afastamos dessa ideia, mais acabamos por verificar que ela é verdadeira. Nós somos a nossa alma. Tenha ela um aspecto negro, sombrio, colorido ou a forma de um grão-de-bico.

28 de Maio de 2010 – Bons ventos sopram da Direita

As sondagens, sabemos bem, «valem o que valem», mas também «querem dizer o que querem dizer». Segundo o «Diário de Notícias» de hoje, o PSD venceria (hoje) as eleições, com maioria quase absoluta. Dos 804 inquiridos, perto de 44% dariam o seu voto a Pedro Passos Coelho, ao passo que o PS só arrecadaria cerca de 28%. Segundo a análise da TSF, trata-se de um cenário tirado «a papel químico» (mas ao contrário) do que aconteceu em 2005, quando o PS alcançou a maioria absoluta, com 45%, contra os 29% da AD. É um facto que a postura serena e assertiva de Pedro Passos Coelho tem um potencial gerador de confiança, que, numa altura em que os socialistas se «dizem e desdizem», pode pesar a seu favor. Bons ventos sopram da Direita portuguesa, onde parece que, finalmente, começam a aparecer alternativas credíveis e empenhadas em fazer o que tem de ser feito, a bem de todos. Talvez esta seja apenas uma, a primeira, de outras (boas) notícias a aparecer destes lados, nos próximos tempos.

27 de Maio de 2010 – Não nos dizem a verdade toda sobre o relatório da OCDE

O que vai aparecendo nas notícias, em grande destaque, é que a previsão da OCDE quanto ao crescimento da economia portuguesa é animadora. Os políticos (mais os governantes) congratulam-se, e demonstram que estão no caminho certo. A seguir, surge mais uma das incontáveis notícias sobre mortes, suicídios ou histórias macabras de um qualquer crime, e nós esquecemo-nos do resto, e mergulhamos no pântano da desgraça, que talvez até esteja a melhorar, de tão entulhados que estamos. E nem ouvimos o que, nas entrelinhas ou mesmo à «descarada», nos vão dizendo. Nem em 2025 (daqui a 15 anos) estaremos abaixo dos 3% de défice. Segundo a mesma OCDE (que foi tão optimista), teremos um crescimento médio de 1,6% (valor abaixo da média europeia) em 15 anos, e estaremos, em 2025, com 3,2% de défice. Nessa altura, deveremos estar com uma dívida externa de mais de 100% do que produzimos num ano, e o desemprego estará nos 6,9%, vindo de uma quebra de 1% em dez anos. Mas não é só isso que a OCDE nos diz. Diz-nos também que somos o maior défice do mundo desenvolvido, e que nos preparamos para suplantar a Islândia e a Grécia nesse domínio, com valores superiores a 10% do PIB. São estas as «boas notícias».

26 de Maio de 2010 – A (pesada) máquina do Estado

O jornal «i» traz hoje um texto curioso, sobre as adjudicações directas praticadas por entidades públicas. Agora, com o recurso obrigatório às novas tecnologias para as aquisições, há contas que ficam mais claras. Ficamos a saber, por exemplo, que só em ajustes directos de Câmaras Municipais, Tony Carreira arrecadou mais de 800 mil euros, e a fadista Mariza cerca de 257 mil. Em 2009, foram gastos cerca de 12 milhões de euros em viagens, o que, segundo o jornal, daria para comprar 5646 bilhetes de avião para voltas ao mundo. Em festas e festivais, foram gastos 13 milhões de euros. O «i» fez as contas, e verificou ainda que o recurso a máquinas de café que permitissem o «self-service» permitiria poupanças na ordem dos 650 mil euros, e a utilização de «software» livre permitiria poupanças superiores a 75 milhões de euros. Está provado, mais uma vez, que é o próprio Estado, a sua imensamente pesada máquina, que contribui significativamente para o estado das coisas. O Estado e os seus decisores, sub-decisores, adjutores e restantes, que continuam resistentes em adoptar soluções de poupança, como centrais de compras ou simplificação de processos, seja por ignorância, interesse, ambas ou outra razão qualquer.

25 de Maio de 2010 – Arouca, e um contributo para a compreensão da Música Medieval

Hoje deu-se a feliz coincidência de me cruzar com um livro (o primeiro de dois volumes) que parece ser de grande importância para compreendermos, como devemos, a música medieval portuguesa. Trata-se da obra «Aspectos da Música Medieval no Ocidente Peninsular», do professor Manuel Pedro Ferreira. A boa notícia não é tanto o facto de, finalmente, termos mais uma obra que nos ajuda a estudar e compreender melhor esta música, mas, sobretudo, o facto de este ser apenas o primeiro volume, sendo que o segundo terá, a encerrar com chave de ouro, um texto sobre um hino polifónico contido nos manuscritos do Mosteiro de Arouca, e que é uma verdadeira «pérola» para os estudiosos. O autor, Manuel Pedro Ferreira, é um eminente estudioso da paleografia musical, com um vasto percurso de excelência. Aguardamos, ansiosamente, o segundo volume, professor.

24 de Maio de 2010 – Memórias de Infância

A Associação Geoparque Arouca e a Câmara Municipal promovem uma interessante exposição, intitulada «Memórias de Infância no Geopark Arouca». Trata-se de uma recolha de testemunhos e histórias de personalidades arouquenses, que partilharam as suas memórias e peripécias vividas durante a infância, em Arouca. A exposição integra-se na programação da Semana Europeia de Geoparks, que a AGA (Associação Geoparque Arouca) está a promover. Por estes dias, se tiver oportunidade, passe pela Sala do Capítulo, no Mosteiro de Arouca, e fique a conhecer algumas das memórias de infância de Salomé Martingo (médica), Marina Perestrelo (professora), Maria de Lurdes Fernandes (vice-reitora da Universidade do Porto), José Carlos Noronha (médico ortopedista), Alberto Brito (sacerdote jesuíta), Elísio Brandão (professor catedrático de Economia), Arnaldo Pinho (sacerdote, membro do Cabido diocesano do Porto), Sobrinho Simões (médico e investigador) e António Vaz Pinto (sacerdote jesuíta).

23 de Maio de 2010 – «The Special One»

José Mourinho é, incontornavelmente, um fenómeno. As suas equipas jogam com uma precisão de relojoeiro, ganham, alcançam títulos aguardados há décadas (ou mesmo impensáveis). E, no auge, com a missão cumprida, Mourinho já pensa mais num desafio mais aliciante do que no festejo. A sua postura é firme, certeira, acutilante. E ele ganha, e obtém sucesso e reconhecimento mundiais. Ele é «the special one», ou «lo speciale» ou, agora, «el especial». Ele foi, provavelmente, a melhor coisa (talvez a única coisa boa) que Vale e Azevedo fez pelo Benfica, e a pior que Manuel Vilarinho podia ter feito. O FC Porto projectou-o para uma dimensão europeia e mundial. Mourinho prova, sucessivamente, que muitos e muito bons jogadores podem não fazer uma boa equipa. Mas as suas equipas são sempre as melhores, mesmo sem «estrelas». Honras ao «special one».

22 de Maio de 2010 – Concerto coral, em Gondomar

A convite do Orfeão de Gondomar, o Orfeão de Arouca apresentou-se hoje no Auditório Municipal daquela cidade, num concerto coral que festejou os 93 anos da associação gondomarense. Noventa e três anos só podem constituir uma história de vida repleta de peripécias, mas, sobretudo, um percurso sólido, como se pôde verificar pelo investimento na formação. O Orfeão de Arouca dignificou a sua terra e as suas gentes, continuando a «insistir» na divulgação do Cancioneiro de Arouca, que surpreendeu pela positiva os que puderam ouvir os «cramóis» que tão bem conhecemos. Arouca também é isto, por muito que não nos lembremos.

21 de Maio de 2010 – «Deolinda» a soar a «Madredeus»

Mais tarde ou mais cedo, a comparação era inevitável. O novo álbum dos «Deolinda», diz-se, e confirma-se, pelo menos em boa parte, soa mais a «Madredeus». O filão da música de raiz tradicional portuguesa parece, assim, ser imensamente mais fértil do que se poderia pensar, contrariando os que insistem em classificar o popular/tradicional de «parolo» e sem interesse. Goste-se mais ou menos, o que é facto é que o álbum tem muita qualidade, seguindo (e muito bem) a linha de evolução apontada por «Canção ao lado». Vale a pena, para «abrir o apetite», ouvir «Ignaras Vedetas».