Às vezes não temos bem a certeza, mas no caso de Jesus, Jorge, dava para perceber que, afinal, ele era como o comum dos mortais, apesar da sua propensão para o «milagre». E foi isso mesmo que demonstrou a reportagem especial da «SIC», numa grande entrevista, que foi passando pelos locais relevantes para o treinador do Benfica, que foi falando da sua vida e da sua carreira, não falando quando achou que não devia falar. Num dos vários momentos interessantes da reportagem, Jesus afirma que o treinador não tem de ser poliglota, tem é de dominar a ciência do treino. Se calhar, se todos nós falássemos menos, e menos bem, e percebêssemos melhor da ciência de cada um dos nossos ofícios (e, claro, se quem manda nos deixasse que isso acontecesse), talvez pudéssemos também ser campeões.
19 de Maio de 2010 – A escuta diária de Fernando Alves devia ser obrigatória
Se há coisa que deveria ser obrigatória é a escuta dos «Sinais» de Fernando Alves, todos os dias, na «TSF». Os «Sinais» são um saboroso correr de palavras, ditas com tudo o que cada uma delas precisa. Hoje, Fernando Alves fala sobre o Tango em que vivemos nos dias que correm. Um compasso descompassado, regular, mas diferente dos tempos fortes e fracos a que estamos habituados. É quase um «tango masoquista», de sedução impossível, de uma proximidade efémera, de movimentos rápidos e violentos, que rapidamente nos trazem de novo a uma aparente normalidade, para voltarmos a fazê-los. Vale a pena ouvir. Hoje, e todos os dias.
18 de Maio de 2010 – O trabalhador estudante
O trabalhador estudante deve ser a «criatura» mais ambivalente e injustiçada do «mercado». Ele não é totalmente trabalhador. Ele não é totalmente estudante. No trabalho, não consegue deixar de pensar no estudo. No estudo, não consegue deixar de pensar no trabalho. Os colegas de trabalho acham que ele não deve ser pago para estudar. Os colegas de estudo acham que ele usa o estatuto para se «baldar» e recolher benesses dos professores. Muitas vezes, não consegue fazer totalmente bem as coisas num lado nem no outro. Apetece-lhe desistir, muitas vezes, apesar de sentir, no fundo, que pode ter no estudo uma nova oportunidade de carreira. Tem pouco «apetite» para o estudo, quando chega a casa cansado de um dia de trabalho intenso. Raios partam o trabalhador estudante, que não está bem nem sequer onde não está.
17 de Maio de 2010 – O casamento gay já pode ser
Em cerca de três minutos, Cavaco Silva explica o porquê de ter promulgado a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A declaração é significativa, tanto pelo dia em que é produzida (dedicado ao combate à homofibia), como pela justificação que o Presidente apresenta aos portugueses. Há alturas em que as convicções pessoais têm de ser postas de lado, ao serviço da resolução de problemas em tempos conturbados. Sobretudo quando as instituições competentes não conseguiram (ou não quiseram) alcançar um consenso alargado, que permitisse aceitar esta resolução de uma forma mais «cordial». Voltamos ao velho debate português sobre o que se deve ou não deve deixar poder. Resposta que só o tempo pode dar.
16 de Maio de 2010 – «Ola Swing» no auditório da Biblioteca Almeida Garrett
Hoje aconteceu a primeira «internacionalização» da Orquestra Ligeira da Banda Musical de Arouca («Ola Swing»). A convite da «Let’s Groove Big Band», dirigida por Tony Alves, a «Ola» participou no III Encontro de Orquestras Ligeiras do Porto, e, a avaliar pelas reacções, não se saiu nada mal. Pelo meio, houve tempo para desfrutar um pouco dos belíssimos jardins do Palácio de Cristal e para recordar histórias antigas. Por todos os motivos, valeu a pena.
15 de Maio de 2010 – A quem disse que a música não era uma linguagem
As frases dos professores marcam-nos sempre, pelo respeito que nos merecem, pela sabedoria que (devem) ostentar, pelo conhecimento da matéria de que falam. Contudo, uma vez por outra, há desilusões. Esta foi uma delas. Ouvir um professor de Semiótica e Psicossociologia da Comunicação afirmar, categoricamente, do alto da sua cátedra, que a música não é uma linguagem. Mesmo das verdades indesmentíveis, somos livres de discordar. Aqui, ainda mais. Se a música não é uma linguagem, como podemos explicar que ela nos toque, que provoque em nós sentimentos, que nos faça recordar situações, imagens, ambientes? Só porque ambos os interlocutores podem não dominar totalmente o «idioma», isso não quer dizer que não possamos reagir ao estímulo, sentir, percepcionar a obra de arte de determinado ponto de vista (o nosso). Há anos que me apetecia dizer isto, entre outras coisas.
14 de Maio de 2010 – Vamos ter cortes (na cultura)
Há quem diga que o Governo aproveitou o facto de os portugueses estarem «distraídos» com a vinda do Papa para mexer nos impostos e anunciar cortes. E é possível, embora possamos reconhecer que é, também, de certa forma, inevitável. Preparemo-nos, porque a histeria dos cortes vai alastrar-se. Vão apoderar-se de nós como uma praga. E vão fazer-se sentir naquilo que poderia ajudar-nos a ganhar auto-estima, naquilo que poderia contribuir para nos envolvermos socialmente, naquilo que nos poderia proporcionar enriquecimento cultural. Desenganemo-nos, é na cultura (e, por inerência, no turismo) que vamos ter cortes. E isso são más notícias. Porque se é por aí que estamos a estruturar o nosso desenvolvimento, vemo-lo, agora, esfumar-se, esvair-se na rota das estradas por construir. Depois de nos negarem acessos de alcatrão, vão, agora, aos poucos, negar-nos também o acesso à cultura.
13 de Maio de 2010 – Fátima, e um discurso também para dentro
Se há situação que tem surpreendido é a simplicidade (mas também assertividade) com que o Papa tem comunicado com os vários interlocutores. O que prova que a comunicação da Igreja não está a falhar totalmente no seu seio, mas antes nos circuitos da comunicação social. Hoje, em Fátima, o Papa não fugiu às questões fracturantes nem às questões internas, e abordou-as com firmeza, mas de forma delicada. Portugal ouviu com atenção, e não teve como não compreender, tal a clareza com que a mensagem lhe foi transmitida. Depois, à noite, o mar de luz habitual povoou o Santuário, com imagens sempre tocantes. O Papa trouxe a comunicação para um registo familiar. Era esse o «F» que faltava. Depois do Fado, do Futebol e de Fátima, como costumamos dizer em jeito jocoso. Talvez esteja também aí parte do segredo. Nessa relação de família, de que, no fundo, queiramos ou não, estamos carentes.
12 de Maio de 2010 – Os nervos
Todos sabemos que o sistema nervoso anda algures na nossa cabeça. Seja pela localização física, seja porque é aí, na nossa cabeça, que processamos os problemas, sensações, ideias que podem conduzir a situações de nervosismo. Os dias que correm são férteis. Porque nos empurram cada vez mais contra a parede das obrigações fiscais. Porque as coisas nem sempre correm como queremos. Porque nos exigem mais do que pensamos poder dar. E tudo isto se manifesta no nosso corpo, de uma forma ou de outra, mais drástica ou leve, e altera-nos, e suga-nos a energia, ou faz-nos disparar qualquer gatilho esquecido. «São os nervos», como costumamos dizer.
11 de Maio de 2010 – Habemus Papam
O Papa vem a Portugal. Concorde-se ou discorde-se, seja-se cristão ou não, trabalhe-se ou não nesses dias, é uma evidência a que não podemos escapar. Os «media» mobilizaram-se, e o Governo cavalgou a onda, para poder dar-nos a notícia subliminar de que vamos apertar (ainda mais) o cinto. O principal objectivo desta visita, parece, deverá ser a (re)aproximação do Vaticano a Portugal, depois da forte ligação criada por João Paulo II. Mas não só. É muito provável que a visão que os portugueses (e os que irão contactar mais de perto com o Papa) têm de Bento XVI mude quase radicalmente. E, entretanto, Portugal continua, neste vale de lágrimas, à procura de uma esperança cada vez mais distante. Resta-nos, por estes dias, a «euforia» dos «vivas» ao Papa. E talvez ele nos diga algo que precisamos de ouvir.