
A rotina foi-se impondo, com a suavidade do sorriso maroto do Quim. À sexta-feira, «hoje é dia». É dia de recolher os euros que cada um reserva para a sua semanada, como agradecimento pela sua forma de estar em comunidade. Mas hoje o dia foi mais do que isso, porque o Quim também tem destas surpresas, que o tornam ainda mais especial. Hoje, o Quim teve a iniciativa de trazer um magnífico bolo de profiteroles, para comemorarmos o aniversário de uma colega. Sem dizer nada a ninguém, sorrateiro, com uma réstea da marotice habitual, chamou, um a um, os amigos que achava que teriam direito a comemorar. E, no fim, aos que não puderam, ele levou a respectiva parte.
O Quim é meu amigo. Falamos todos os dias. Já percorremos várias estradas e participámos em inúmeras festas, com a Banda de Arouca. O Quim, já o disse, faz parte da paisagem de Arouca. A «lufa lufa» diária da vila, o bulício diário, a rua, os locais públicos, os eventos comunitários não são os mesmos sem ele. O Quim, também já o disse, um dia vai fazer falta. E nessa altura será demasiado tarde para lhe reconhecermos a longevidade, o sentido comunitário, a amizade, o bom humor e até a suavidade da sua marotice.
Com o intuito de melhorar o serviço, o meu amigo Rui Gato, que faz a manutenção técnica dos espaços «Arouca.Biz», esteve a trabalhar «nas informáticas» que fazem funcionar este espaço. Por isso, durante algum tempo, houve textos que apareceram e desapareceram, mas, felizmente, não se perderam, e cá estão. E nós cá estamos, também, de volta. Com os devidos agradecimentos pelas melhorias no serviço, um trabalho que não se vê, mas sem o qual a actividade deste espaço não é possível.
A partir de hoje, decorre em Berlim a maior feira de logística do mundo ligada à área dos legumes, frutas e flores. Pela primeira vez, 20 empresas portuguesas estão presentes, todas num único «stand», com cerca de 500 metros quadrados. A organização espera atingir um público de 75 mil visitantes, oriundos de todo o mundo, até sexta-feira próxima. Nesse 75 mil, não constará o nome de José Sócrates, nem, aparentemente, de qualquer governante, o que espelha bem o total desinteresse do Governo em relação a estes produtores, que já ultrapassaram o sector dos vinhos, no que diz respeito ao volume de exportações. Segundo números recentes, os legumes, frutas e flores geram um volume de exportações na ordem 780 milhões de euros anuais, contra cerca de 600 milhões dos vinhos. Isto só é conseguido, segundo os produtores, graças à excelência dos produtos, dos meios e das técnicas de produção. Em Portugal, estes produtos correspondem a um volume de negócios de 2.300 milhões de euros. E o poder assobia para o lado. Talvez porque a agricultura «não vende» nos órgãos de comunicação social.
O Secretário de Estado da Saúde, Manuel Pizarro, diz que o Tribunal de Contas não tem razão na apreciação que faz da acção do Ministério da Saúde no que diz respeito às operações oftalmológicas. Aliás, para o Secretário de Estado, o facto de o Tribunal de Contas referir a baixa taxa de execução, no que diz respeito à diminuição das listas de espera, e a imprudência na gestão, é elogioso. O que as cataratas de Manuel Pizarro o impedem de ver é o imenso rol de pessoas a quem as operações correram mal, devido à pressão dos números, e que, na esperança de melhorarem a sua qualidade de vida, ficaram irremediavelmente condicionados na sua visão. Há muitos casos, basta procurarmos saber.
Ana Benavente foi uma célebre Secretária de Estado da Educação, no Governo de António Guterres. Numa entrevista concedida à «Revista Lusófona de Educação», afirma que Sócrates consegue ser pior que Lenine na colocação de membros do seu «aparelho» em lugares estratégicos, denuncia a desorientação ideológica do Governo e manifesta a opinião de que com este PS estamos a ir em direcção ao abismo e a grande velocidade. Segundo Ana Benavente, o que vemos são meros truques de marketing político absolutamente banal, que traduzem uma política superficial, sem qualquer ética, incompetente e hipócrita. Dito com estas letras todas, por alguém do PS, como Ana Benavente, dá, no mínimo, que pensar.
Nas horas vagas, é isto que ando a ler. Uma biografia extensiva de Sá Carneiro, escrita (e muito bem) por Miguel Pinheiro, director da revista «Sábado». Aqui se fica a saber mais sobre um homem que, se a morte não tivesse levado prematuramente, teria ajudado a fazer um Portugal diferente. Muitas vezes (injustamente) acusado de reaccionário, fascista ou anti-revolucionário, apesar do seu temperamento de ímpetos, tinha uma visão estruturada para a transição de Portugal para a democracia. O tempo deu-lhe razão. Deu-lhe razão quanto à descolonização, por exemplo. Deu-lhe razão quanto à impraticabilidade de certas opções que, no calor da Revolução, se tomaram. Mas este livro não é apenas sobre Sá Carneiro. É também sobre esses tempos e sobre os protagonistas desses tempos. Um Mário Soares «do contra», demasiado ausente nas alturas importantes e manifestando, subliminarmente, uma certa «sede urgente de poder», um Álvaro Cunhal experiente mas envolvido na habitual aura de «mistério» dos comunistas, um Spínola a quem um país caiu no colo, literalmente. É preciso, é urgente sabermos mais sobre esses tempos. Os que, sorrateiramente, nos começaram a conduzir ao país desorientado que somos hoje.
A guerra é como uma discussão entre dois idiotas. Discutir com idiotas, idiotiza. Isso é, muito basicamente, a guerra. Por muita razão que se tenha, quando uma vida tira outra vida, e outra, e outra, e quando quem manda resolve matar por antecipação, isso é guerra. Isso é idiota. E foi nessa idiotice que Portugal embarcou há precisamente 40 anos, longe de saber que iria abrir a maior e mais profunda ferida que se poderia imaginar, uma ferida que talvez nunca se consiga sarar. País pequeno, em território, gentes e desenvoltura intelectual, oprimido, vivendo mais liberto nas colónias que na metrópole, não houve braços para escapar ao atoleiro, porque os que teriam mais força estavam, precisamente, atolados. Há muitas histórias e muitos pontos de vista sobre a guerra colonial, a vida nas colónias, a descolonização e tudo isso. Todas válidas, todas com e sem razão. Pouco importa. Apenas temos uma certeza. Há precisamente 40 anos iniciámos, provavelmente, uma das acções mais idiotas da nossa história. A guerra.
Mais uma vez, só neste país. Passamos o tempo a falar nisso, mas, quando alguém levanta a questão, mudamos de opinião, ou não é hora de debater, ou qualquer outra coisa. É certo que o problema do país não é este, mas isso não é razão para «metermos a cabeça na areia» e deixarmos de pensar numa questão que nos diz directamente respeito. Os portugueses estarão, por certo, tão bem representados por 230 deputados como por 180. Aliás, se os deputados fossem em número proporcional aos votos, talvez o saldo fosse negativo, ou muito perto disso. Enquanto nos falam a toda a hora do Egipto (agora está na moda escrever-se Egito) talvez isto seja (mais) uma manobra de diversão para que não se debata o que realmente interessa. Mas vale mesmo a pena pensar nisto, e a sério. Até porque a crítica pela crítica não nos leva a lado nenhum. Para debates estéreis, já temos 230 possíveis protagonistas. Boa parte deles, podemos procurar saber, limitam-se a levantar e a baixar braços, a ler jornais e a dormir em plenário. Quais virgens ofendidas.