No dia em que o Benfica ganhou 2-0 ao Sporting (e, um pouco, também ao árbitro), a Sociedade Portuguesa de Autores distinguiu os melhores dos seus, nas várias categorias. Uma iniciativa destas, num país pequeno como Portugal, pode ter o efeito exactamente inverso ao pretendido. A ideia deve ter sido mostrar a vitalidade da cultura, a sua importância enquanto parte da identidade nacional, a qualidade com que se faz. Contudo, como somos um país até certo ponto provinciano, geram-se invejas (algumas fundadas, outras nem por isso), ou uma espécie de competição, em vez de uma (preferível) colaboração, no sentido de co-laborar, de trabalhar com, em prol de uma construção comum de uma cultura pela qual se diz que se trabalha. Note-se que, pelo menos durante o tempo que vi a emissão em directo, não surgiu no ecrã qualquer representante governamental, o que diz bem do que, apesar dos milhões, a Cultura representa para os políticos deste país. Depois, Catarina Furtado, procurando ter piada, acabou por dizer alguns disparates, mas até isso se perdoa. Por outro lado, foi muito bom rever que os «Só nós três» (Paulo de Carvalho, Carlos Mendes e Fernando Tordo) continuam a brilhar, apesar de ausentes dos grandes palcos. Mas aqui, perdoem-me, mais do que enaltecer autores ou contribuir para o acender dos holofotes do espectáculo para protagonistas, prefiro destacar quem muitas vezes nem sequer aparece. No caso da música, quem faz arranjos, quem produz, quem junta os sons com mestria, para que as interpretações possam, calma e serenamente, pairar por cima de uma estrutura sonora verdadeiramente encantadora. Foi o que aconteceu com «Só nós três», acompanhados por um ensemble liderado pelo grande músico Pedro Duarte. É esta gente da «sombra» que também merecia ser reconhecida. Porque só os aplausos a outros, por muito que co-agradecidos, não chegam.
(Add.: Uma parte do vídeo, entretanto colocado no «Youtube»)
http://www.youtube.com/watch?v=5QA7Sb6wxg0&feature=player_embedded
A fronteira entre a loucura e a sabedoria é ténue. Ou porque o excesso de sabedoria nos conduz à loucura, ou porque o excesso de loucura nos impede de chegar à sabedoria. Ou outra coisa qualquer. Por outro lado, e esta foi uma das «novidades» que Lutero introduziu com a sua Reforma, Deus não está só nas igrejas ou nos sacrários. Não precisamos de templos de pedra para louvar, para celebrar. Cada um de nós pode ser templo, se não se deixar empedernir. E pode escolher entre a loucura e a sabedoria. Ou ambas. Diria Ricardo Reis que «a resposta está além dos deuses». Está em nós, porque «tudo é nosso».
Ao mesmo tempo que José Sócrates vai «secando» todas as alternativas de liderança no seio do Partido Socialista, conduzindo os socialistas, a prazo, a um vazio de poder «pós-socrático», Pedro Passos Coelho vai-se afirmando como um líder com profundo sentido de Estado. Ao mesmo tempo que o Primeiro-Ministro vai andando como um comandante desesperado num navio em pleno naufrágio, o líder do PSD alerta os portugueses para a seriedade dos problemas que estamos a enfrentar todos os dias. Enquanto Sócrates e seus correligionários se preocupam com debates pseudo-ideológicos sobre o Estado Social, o líder do PSD demonstra que tinha razão quando dizia que era preciso tomar medidas para o prevenir. Pedro Passos Coelho, hoje, na «Grande Entrevista» de Judite de Sousa, provou que começa a ser uma personalidade com sentido de Estado, mais do que um mero líder da oposição, transitório, como é hábito no PSD.
Esta é uma daquelas situações em que é pouco importante saber-se quem é «o pai da criança». Começou hoje a circular na internet uma petição que tem como objectivo forçar a discussão na Assembleia da República sobre a urgência da variante Arouca/Feira. A petição está disponível em
Em Portugal já começa a ser corriqueiro. Quando algo corre mal, temos sempre a brilhante escapatória de o atribuir a problemas informáticos. Desta vez, foi o Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, que também tutela o famoso «Simplex», quem recorreu a este já gasto expediente. Não vale a pena transformar um problema informático num problema político, diz o Ministro, que até já foi editor de informação da TVI, e, por isso mesmo, deveria saber que as questões práticas nos preocupam muito mais do que considerandos filosófico-parlamentares. Houve gente que, à semelhança do que sucedeu durante o Estado Novo, não pôde votar, sem saber muito bem porquê. Importa, agora, corrigir esse erro, prevenindo que não volte a suceder. Fazendo rolar cabeças, se necessário. Mais do que contribuir, com desculpas já gastas, para uma discussão absolutamente estéril, entre ministros, secretários de Estado e directores-gerais, no habitual idioma do «parlamentarês».
A essência é o que está no mais profundo. É aquilo que, no essencial, no mais concentrado, de facto somos. Essência é também o nome de um excelente restaurante vegetariano, que fica na Rua Pedro Hispano, no Porto. Os paladares são riquíssimos, e o ambiente é ecléctico, enquadrado pela arquitectura modernista da casa em que funciona. À parte do simbolismo, às vezes mais mercantilista do que verdadeiramente essencial, a essência foi partilhar estes sabores, talvez ainda exóticos, mas cuja descoberta tem sido curiosa. Vale a pena, a pretexto disto, tentarmos chegar à essência. Ao essencial. E o essencial não é ser, hoje, dia dos namorados. O essencial é trazer essa essência para todos os dias.
A moção de censura do Bloco de Esquerda não serve para nada. E não serve para nada, precisamente por querer servir para tudo. Sentado confortavelmente na sua poltrona de desresponsabilidade, porque nunca será poder, o Bloco pode desresponsabilizar-se, até mesmo irresponsabilizar-se, e esquecer, por momentos, o futuro do país que, supostamente, também contribuiu para a sua eleição. O Bloco de Esquerda comete a imprudência de propor uma moção de censura que não é apenas uma moção de censura ao Governo. É também, dito com as letras todas, uma moção de censura contra o PSD. Sem mais considerações filosóficas, e com um raciocínio básico, podemos chegar à conclusão de que isto é apenas uma manobra de diversão para recentrar a agenda mediática, retirando da ordem do dia a «trapalhada» do apoio PS/BE a Manuel Alegre, e consequente desaire eleitoral. Quando só o voto favorável do PSD pode derrubar o Governo, o Bloco apresenta uma moção de censura que não quer que tenha efeitos práticos. Isto merece, sem dúvida, uma moção de censura à moção de censura.
Rui Massena é maestro, compositor e também dono de um penteado que o identifica. Hoje, podemos ler uma entrevista sua à revista «NS», onde fala sobre liderança, sobre o seu confronto com o mundo académico, sobre a forma descomplexada e profissional como encara a sua vida musical. Mas, mais do que isso, foi bom ler as suas impressões sobre a Academia de Música de Vilar do Paraíso, onde, como eu, também teve o privilégio de estudar. Uma escola que, deu para ver, marca. A sua forma irreverente e abrangente de ver a música levaram-no a trabalhar tanto com artistas ditos «pop» como a dirigir a New England Symphony Orchestra, no Carnegie Hall. Segundo Massena, «um líder tem de ser inspirador», mas também tem de ter a autoridade de quem é inspirado, de quem vive e respira a música que quer fazer, que sabe fazer e que sabe que quer fazer.