Para (quase) todos nós, a sigla «IRS» é um autêntico tormento. Um «monstro». Algo a que tentamos fugir, mas que nos aparece sempre, quando e onde menos esperamos. Contudo, há uma forma de transformar o «S» do IRS em «S» de «solidário». É pouco, mas o pouco, todo junto, pode ser muito. Então, na sua declaração de IRS, dê 0,5% do imposto a uma IPSS ou instituição de utilidade pública. É um valor reduzido, mas que vai ser retirado ao Estado, para ser dado a quem quiser, sem qualquer despesa para o contribuinte. Para tal, basta que, no Modelo 3 da Declaração anual do IRS (Anexo H, quadro 9 – campo 901), assinale o quadrado referente à instituição a apoiar, indicando o respectivo número de contribuinte. Simples e eficaz.
2 de Março de 2011 – «Licenciatura» em pastorícia
Ouço a novidade nos «Sinais» de Fernando Alves, e vasculho, logo que posso, no «El Pais». Na Andaluzia, em Espanha, para que a profissão de pastor não se extinga, estão a decorrer cursos de pastorícia. Os actuais 12.000 pastores não sentem que a sua actividade possa ter continuidade, e a Junta da Andaluzia resolver pôr mãos à obra. Deu formação aos pastores existentes, e ensinou-os a ensinar. Confessam alguns que o balido é diferente quando um animal tem fome, ou sede, ou dor. É preciso entender o que se passa. É por aqui que vai José Valero, um pastor de 61 anos, que nunca imaginou ser professor, mas que, agora, se sente reconhecido, finalmente. Ser pastor era «o fim da linha», o que se era quando não se conseguia ser mais nada. Hoje, a Andaluzia descobre que é uma profissão essencial para o equilíbrio ambiental, para combater a desertificação, para que os 2,7 milhões de hectares de pastoreio não se tornem num amontoado de abandono. A partir da sabedoria acumulada por Valero, de 61 anos, os novos pastores têm de estar preparados para serem um pouco de tudo: dentistas, ginecologistas, cirurgiões. Verdadeiros «licenciados» em pastorícia.
1 de Março de 2011 – «Comer, orar e amar»
Às vezes andamos à procura das coisas, da felicidade, de nós mesmos, constantemente no lugar errado e com base nas coisas, nos objectos, nos contextos errados. Às vezes vamos à procura das soluções para longe, para onde nos possamos distanciar de tudo e de todos, para onde possamos ser estranhos, ocultos, para onde possamos admirar e admirar-nos com o que vemos, sentimos, experimentamos. Contudo, quase sempre a resposta está bem mais perto do que se pensa. «Comer, orar e amar» não é um «super-filme», mas o tempo que se passa a vê-lo vale a pena. Cada segundo. Porque, ao contrário do que muitas vezes pensamos, a solução para quase tudo está, precisamente, dentro de nós. Basta procurar.
28 de Fevereiro de 2011 – TSF, 23 anos
É um dos problemas dos anos bissextos. É sempre difícil saber-se quando festejar o aniversário de quem nasceu a 29 de Fevereiro. Aconteceu com a TSF. Até nisso tinha de ser especial. A TSF é um modelo de rádio a que Portugal não conseguiu ficar indiferente. Vocacionada para a informação, contribuiu (e continua a contribuir) para o exercício da cidadania, para a reflexão sobre os grandes temas da actualidade, para um Portugal mais informado. Para mim, foi uma honra poder ter (pelo menos) visto e ajudado (um bocadinho muito pequenino) na «fazedura» de um dia-a-dia comandado pelas notícias. Na TSF Porto fiz um estágio, onde, de forma absolutamente inesperada, aprendi o «bichinho» da Rádio. Quando entrei pela primeira vez por aquela porta, pensei que nunca iria conseguir fazer as coisas como devem ser. Ao sair, senti que já sabia um bocadinho mais. A afeição, que já existia, aumentou. Por tudo isso, e muito mais, parabéns TSF.
«Começar a emitir foi uma experiência fantástica. O primeiro programa foi necessariamente informação. Só tínhamos música e notícias. Estava implícito um acordo com o nosso auditório: ‘se estão a ouvir música é porque nada de assinalável está a acontecer no País ou no mundo’».
(Emídio Rangel, um dos fundadores da TSF, em declarações ao Diário Económico)
27 de Fevereiro de 2011 – O que é dirigir
http://www.youtube.com/watch?v=fXTKi_HmMVc
Depois de receber um prémio, Riccardo Muti, em alguns minutos, resumiu a facilidade e a dificuldade que é estar à frente de uma orquestra. Não é só mecânica. Não é só paixão. Não é só a soma das duas coisas. Não é propriamente fácil. Mas também não é propriamente difícil. No fim de contas, é fazer esse equilíbrio entre a música «palpável», com existência naquelas notas, e, com base nisso, abrir a porta a todo o imaginário de formas, sensações e intenções por trás dessa existência física da música, trazendo tudo isso para o «palpável». E muito mais se poderia dizer. Mas Muti disse pouco. E muito bem.
26 de Fevereiro de 2011 – «Gradus ad parnassum»
É curioso que um dos históricos livros de contraponto (ou a arte da composição musical) se chame «Gradus ad parnassum», que significa (mais ou menos) «um passo para o monte Parnaso». Johann Fux, é o nome do autor que Bach, Mozart e muitos outros fizeram questão de ler, conhecer, «dominar». O monte Parnaso, na Grécia, é considerado, na mitologia, um local de inspiração, onde Apolo e as musas vagueavam. «Gradus ad Parnassum» significa um pouco o caminho progressivo para a inspiração. Que é, consequentemente, a «transpiração». A tarde de hoje foi dedicada ao exercício da composição. Não sou pretencioso ao ponto de me achar compositor, nem tão pouco sinto que domine a técnica. Mas o exercício de subir ao monte não deixa de ser interessante. Mesmo que seja só pela inspiração, sem transpiração, sem alicerce. O sucesso é feito, muitas vezes, de imensas tentativas. Esta é mais uma.
25 de Fevereiro de 2011 – O país e as «tias de Cascais»
A começar pelo «nosso» Primeiro-Ministro, tornámo-nos, progressivamente, num país amorfo, sem substância, fútil, vazio, sem qualquer réstia de auto-estima, sem confiança em nós nem no que somos capaz de produzir. Hoje, já não somos o país que protagonizou a primeira globalização, o país no centro da cultura europeia, influente no devir do mundo. Hoje somos um país que se contenta em ostentar sem ter, em ser fútil, em parecer, em endividar-se para manter o «status», em aparecer nas festas para sobreviver, para comer um croquete e ser fotografado para a «revista cor-de-rosa» do momento. Sem ofício, sem arte, sem chama. Portugal é, cada vez mais, uma «tia de Cascais», que vai andando pelas festas do «jet 7», e faz disso a sua vida. Triste sina a nossa.
24 de Fevereiro de 2011 – O mercado das transferências televisivas
Já se falava há algum tempo acerca dos salários principescos dos principais rostos da RTP. Agora, como num golpe de teatro, a TVI «decapita» a direcção de informação da estação pública de uma só penada, levando José Alberto Carvalho e Judite de Sousa para Queluz. Estas movimentações roçam o vergonhoso, sobretudo quando sabemos as condições em que os jovens, recém-licenciados e não só, são recrutados para estágios, frequentemente não remunerados, e como ficam enquadrados em termos laborais, frequentemente em situações precárias e com salários baixos. A televisão retrata, assim, as discrepâncias que, ao fim e ao cabo, acontecem no país. Quem é importante, quem conhece pessoas, quem tem poder, tem benesses, tem regalias, tem um bom enquadramento profissional, tem dinheiro, tem sempre escapatória. Quem não é, tem de se resignar a lutar pela sobrevivência, tem de se conformar com o impedimento de exercer a profissão na qual investiu a sua formação, tem de continuar na cepa torta. Isto não é jornalismo, é espectáculo. E para (um mau) espectáculo, já nos basta o que decorre nos corredores do poder.
23 de Fevereiro de 2011 – Budapeste
Uma história dentro de uma história dentro de uma história. Quase como uma cebola. Quem leu o livro de Chico Buarque percebe melhor o que isto quer dizer. Mas quem vir «Budapeste» no grande écrã fica quase com a mesma sensação. É diferente ler o livro e ver o filme, bem se sabe. E este é um caso em que vale bem a pena fazer as duas coisas, independentemente da ordem dos factores. Quem leu «Budapeste» viu, quase automaticamente, o filme. Quem o vir vai querer, quase de certeza absoluta, ler, ouvir e ver o que um dos maiores escritores de canções do Brasil anda a fazer pela literatura. Vale bem a pena.
22 de Fevereiro de 2011 – Eu pertenço à «geração (à) rasca»
Graças a uma aplicação espanhola que encontrei na internet, descobri que, hoje mesmo, completo 30 anos e 166 dias. Fiquei a saber que nasci a uma quarta-feira, num dia quente (quase) de verão, e que desde que nasci se passaram 11.122 dias, 365 meses, 1.588 semanas. Farei anos de novo dentro de 199 dias. Depois de feitas todas as contas, resumindo e concluindo, também faço parte da geração que o jornal «Público» celebrizou como «rasca». Faço parte do grupo de pessoas que trabalha a recibo verde desde que terminou a licenciatura, muitas vezes mesmo abaixo dos quinhentos euros. Faço parte da geração em quem o Estado investiu na educação, para que fosse a geração com melhores qualificações, mas a quem acabou por dar um «presente envenenado». Faço parte de uma geração a quem, de certa forma, o Estado foi «virando costas», umas vezes descaradamente, outras vezes por incapacidade. Faço parte de um grupo de pessoas que gostaria de dar um contributo mais efectivo no sentido da mudança, e não apenas para a Segurança Social e para o IRS, recebendo muito pouco em troca por esse enorme esforço. Faço parte de uma geração que pensa muitas vezes antes de ter filhos, porque a instabilidade financeira faz depender tudo dela. Eu pertenço à «geração (à) rasca». E é por isso que acho que o protesto que tem sido anunciado no «Facebook» faz sentido.