Felizmente, temos ouvido poucas promessas eleitorais. Ainda bem. Por outro lado, ainda mal, porque de José Sócrates não sabemos nada do que fará, se, eventualmente (Deus nos livre) vencer as eleições. Mas nós sabemos que o verdadeiro programa de Govero é o da ‘troika’, portanto, quanto a isso estamos resolvidos. Fernando Alves, nos seus «Sinais», assinalou a perigosidade das promessas, com exemplos frescos, vindos de Itália. Por exemplo, Clemente Mastella, ex-Ministro da Justiça e candidato autárquico em Nápoles, prometeu suicidar-se se perdesse as eleições. E perdeu. Umberto Bossi foi mais «fundo» na promessa, e, durante a campanha em Milão, prometeu que cortaria os ‘tintins’, caso perdesse. E perdeu. Há quem diga, referiu Fernando Alves, que as promessas não comprometem senão aqueles que as recebem. Pois bem, em Arouca sofremos, na pele e na carne, isso mesmo. Mas tenhamos fé. A acreditar nos exemplos italianos, mais tarde ou mais cedo, há promessas eleitorais que são a morte do artista.
«Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra ou depois de uma caçada»
(Bismarck)
Hoje não me apetece a música. Só o som do mar e o texto que Fausto musicou sobre ele. O mar. No abraço forte e constante à brisa. No embalar das ondas. No som da renovação constante. Esquecer quase tudo, por um momento, e deixar o pensamento entrar por esse mar adentro. De mão dada com a vida. Para que abrace, embale, renove. Tu. Comigo. O mar.
A sabedoria popular oferece-nos algumas das coisas mais belas que podemos imaginar, sem as termos de pedir, nem forçar. Como a natureza, surgem, espantam-nos e colam-se à pele, passando quase a fazer parte de nós. Com a «Chamateia», foi assim. E foi assim, porque, na sua essência, ela é, de facto, belíssima. Mas o arranjo para coro feminino, feito por Mário Nascimento, acrescenta-lhe esse toque de magia, de inesperado, de quase etéreo. Hoje, depois de obtida a partitura junto do compositor, começamos, no Orfeão de Arouca, a tentar dar outra vida à «Chamateia». Essa chamateia que oscila entre as danças açorianas da «chamarrita» e da «sapateia». Onde vamos, como diz a letra, sempre que a vida não nos corre de feição, e onde encontramos a distracção do que nos aflige no dia-a-dia. É isso que fazemos todas as quintas-feiras. É isso vamos tentar fazer, no próximo dia 4 de Junho.
É uma das actividades que o Orfeão de Arouca prepara com mais carinho (e algum trabalho extra). Convida-se quem se acha com merecimento, prepara-se um espaço digno, trabalham-se peças especiais. A ocasião merece-o. No próximo dia 4 de Junho, no cinema Globo d’Ouro, a partir das 21:30, voltamos a lembrar a Nádia, fazendo aquilo que, quase de certeza absoluta, ela mais gostava de fazer: música. Desta forma, vamos estar «em contacto». Estamos, ainda, na recta final dos preparativos, mas já dá para perceber, pelo empenho e pelos resultados, que vai ser uma boa forma de estarmos com ela. Uma palavra muito especial de agradecimento ao meu amigo Rui Gato e à «Camarc», que se disponibilizou a, em parceria connosco, desenvolver uma pequena lembrança, que não nos vai deixar esquecer este dia.
Como na música da «mulher traída», de Ágata, também houve traição no que diz respeito ao que deveríamos saber sobre o que os nossos políticos andam a negociar com a «troika». Sabe-se, agora, que há uma nova versão do documento de entendimento, assinado a 3 de Maio. O texto sofreu alterações, e foi assinado pelo Governo e pela Comissão Europeia, a 17 de Maio, com alterações em prazos e em conteúdo. Há, agora, um compromisso para que Portugal altere a forma de despedimentos, para os agilizar e tornar mais baratos. Há, agora, um compromisso para que as novas regras laborais sejam postas em prática até final de Julho (e não de Setembro, como estava inicialmente previsto). Do Governo, ouvem-se as palavras de circunstância. Havia apenas uma «versão preliminar», que precisava de «aperfeiçoamentos de carácter técnico» e «ajustamentos pontuais» que «resultaram da sua apreciação pelos orgãos decisores das Instituições Internacionais envolvidas neste processo». E Sócrates esconde-nos isto, no seu estudado silêncio.
A forma quase unânime como ganhou as eleições internas tem consequências destas. Sócrates é, de facto, um homem só. Um homem sobre o qual se centra todo o espectáculo mediático (e, confesse-se, pouco político) do Partido Socialista. Curiosamente, Passos Coelho, um líder eleito contra vários adversários, que se esperava continuassem activos, consegue reunir o apoio de várias das facções anteriormente adversárias, aparecendo, frequentemente, acompanhado por «notáveis» do PSD. Talvez porque o poder está mais próximo. Talvez porque o adversário é demasiado perigoso para se deixar que ganhe sem uma luta renhida. É certo que, muitas vezes, mais vale só. Mas tão só como José Sócrates, talvez seja exagerado.
Uma das imagens mais intrigantes de que me lembro, da infância, era a daquelas letras semi apagadas na parede do Mosteiro de Arouca, velhas recordações dos tempos do PREC. As letras não estavam legíveis, mas também não estavam apagadas. Eram uma espécie de cicatriz, até certo ponto invasiva de um monumento com a grandiosidade do Mosteiro. Por estes dias, a CDU utilizou essa forma de propaganda política, nas escadas monumentais da Universidade de Coimbra. E houve quem não gostasse. O problema da liberdade é exactamente esse. A ténue fronteira que existe entre o final da nossa e o início da dos outros.
A «TSF», como rádio informativa por excelência, lançou o desafio aos líderes partidários para que participassem activamente no emblemático «Fórum». Primeiro, mostrando disponibilidade para debater e responder aos ouvintes, directamente. Depois, para responderem a perguntas sobre 10 temas importantes para o futuro do país. Mas nem todos se mostraram disponíveis para, de peito aberto, darem espaço aos ouvintes para se fazerem ouvir, para darem espaço ao debate, à pergunta, à observação. José Sócrates recusou participar no «Fórum», e recusou também responder às perguntas temáticas. O homem do diálogo, afinal não é tão dialogante. Prefere talvez que se fale dele pela sua ausência do que pelo eventual resultado do debate ou das respostas que pudesse dar. Silêncios socráticos. Aconselhados. Tácticos. Porque, de facto, talvez já não tenha mais nada a dizer.