11 de Junho de 2011 – Broken engine

Foi uma pequena avaria, à moda antiga. Com direito a fumo e tudo. Há alturas em que, por muito que tentemos arranjar uma alternativa rápida (e a rapidez, a velocidade, a fúria do tempo passa por nós a cada segundo), temos de nos render às evidências, e parar. Por muito que tudo o resto funcione, por muito que a avaria seja localizada, por muito que precisemos, naquele preciso momento, de força para continuar, quando o combustível não chega ao motor, e o motor não pode trabalhar, não temos outra solução senão ficar exactamente onde estamos. À espera de um amigo (ou vários) que nos possam ajudar. O que, quase sempre (senão mesmo sempre), acontece. É assim, também, com o motor que trazemos dentro de cada um de nós.

10 de Junho de 2011 – Dia de Portugal, ou menos

O discurso de António Barreto contrastou drasticamente com as imagens estivais de um fim-de-semana prolongado. O presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, como é seu hábito, traçou um diagnóstico a régua e esquadro de um Portugal a duas velocidades. Se, por um lado, nada é novo, porque esta não é a primeira crise que vivemos, por outro, tudo é novo, porque há a globalização, o euro, uma situação económica e social que apanhou Portugal de surpresa. Os políticos não deram o exemplo que deviam, e acabaram, ao mesmo tempo, por deixar o Estado com um peso desmesurado, e uma fragilidade tremenda. Urge começar por algum lado, e esse lado talvez deva ser a Constutuição, verdadeiro Bilhete de Identidade de um país. Entretanto, os mesmos portugueses que lamentam a crise e se queixam da situação, respondem ao repórter da televisão pública que a água do mar está agradável. Num feriado que celebra o país, as comunidades que deixou pelo mundo e o seu maior poeta.

«Há momentos, na história de um país, em que se exige uma especial relação política e afectiva entre o povo e os seus dirigentes. Em que é indispensável uma particular sintonia entre os cidadãos e os seus governantes. Em que é fundamental que haja um entendimento de princípio entre trabalhadores e patrões. Sem esta comunidade de cooperação e sem esta consciência do interesse comum nada é possível, nem sequer a liberdade».

«É muito difícil, ao mesmo tempo, sanear as contas públicas, investir na economia e salvaguardar o Estado de protecção social. É quase impossível. Mas é possível. É muito difícil, em momentos de penúria, acudir à prioridade nacional, a reorganização da Justiça, e fazer com que os Juízes julguem prontamente, com independência, mas em obediência ao povo soberano e no respeito pelos cidadãos. É difícil. Mas é possível».

«Como disse um grande jurista, “cada geração tem o direito de rever a Constituição”. As jovens gerações têm esse direito. Não é verdade que tudo dependa da Constituição. Nem que a sua revisão seja solução para a maior parte das nossas dificuldades. Mas a adequação, à sociedade presente, desta Constituição anacrónica, barroca e excessivamente programática afigura-se indispensável. Se tantos a invocam, se tantos a ela se referem, se tantos dela se queixam, é porque realmente está desajustada e corre o risco de ser factor de afastamento e de divisão. Ou então é letra morta, triste consolação. Uma nova Constituição, ou uma Constituição renovada, implica um novo sistema eleitoral, com o qual se estabeleçam condições de confiança, de lealdade e de responsabilidade, hoje pouco frequentes na nossa vida política. Uma nova Constituição implica um reexame das relações entre os grandes órgãos de soberania, actualmente de muito confusa configuração. Uma Constituição renovada permitirá pôr termo à permanente ameaça de governos minoritários e de Parlamentos instáveis. Uma Constituição renovada será ainda, finalmente, o ponto de partida para uma profunda reforma da Justiça portuguesa, que é actualmente uma das fontes de perigos maiores para a democracia. A liberdade necessita de Justiça, tanto quanto de eleições».

(Excertos do discurso de hoje de António Barreto, presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho)

9 de Junho de 2011 – Marcinha

Chamámos-lhe Marcinha, porque, neste dia especial, decidiu caminhar em direcção à vida. Cabe na palma de uma mão, e foi deixada «perdida», junto ao lixo, que é, no fundo, onde todos vivemos. A Marcinha vai poder crescer, ganhar porte, personalidade. Vai poder ver o mundo para além do dia-a-dia. Porque alguém que teve a «sorte» de a ver, de a encontrar hoje, num dia especial. E lhe resolveu dar uma casa, uma vida, um nome. Nove de Junho é, e vai ser sempre, o dia da Marcinha. Bem-vinda sejas.

8 de Junho de 2011 – Formosos e não seguros

Sócrates deixou o lugar de secretário-geral do Partido Socialista, e a «corrida» ao lugar já teve tiro de partida. Ao que tudo indica, Francisco Assis e António José Seguro, dois candidatos mais ou menos previsíveis, vão disputar o lugar, e animar as hostes internas dos socialistas. São, de facto, dois excelentes candidatos, com tremendo potencial político e até mesmo mediático, com aparente capacidade de unidade (coisa bem mais simples no PS do que no PSD, diga-se de passagem). Portugal precisa de um Partido Socialista atento, competente, consciente, interventivo e assertivo. Não um grupo de «comandadores», arrogantes e altivos, crispados e pouco verdadeiros. Esperemos que a competência de qualquer destes candidatos não se corrompa, depois das eleições.

7 de Junho de 2011 – «Adoro-vos»

Aparentemente pela primeira vez, Sócrates deixou-se levar pela emoção e deixou o coração falar mais alto. O ainda Primeiro-Ministro e ainda secretário-geral do PS fez hoje as despedidas na Comissão Nacional do PS, de forma emotiva, com uma frase enigmaticamente sentida: «eu adoro-vos». Um homem que sempre procurou deixar as emoções de lado, apesar de não abdicar do seu olhar profunda e expressivamente furtivo, deu asas ao coração, hoje. Na hora da despedida. Em privado. É pena que, para a história profundamente mediática deste político, não fiquem registadas as suas «últimas palavras». Que, no que diz respeito ao carácter enigmático, competem, lado-a-lado, com o «mais luz», de Goethe.

6 de Junho de 2011 – Coentrão decide

Coentrão teve a sorte (ou o azar) de «chocar» contra os acontecimentos dos últimos dias. Primeiro foi o «evento de campanha» de Sócrates, em que participou sem participar, ou apoiou sem apoiar. Depois, a novela Real Madrid. Sai, mas fica. Sorte ou azar, o lateral esquerdo anda nos cabeçalhos das notícias. Houve uma campanha eleitoral, há um novo Governo em Portugal, e Coentrão tem o condão de estar no antes, e, agora, no depois das agendas. Curioso.

5 de Junho de 2011 – Um Presidente, um Governo, uma Maioria

Era o «sonho» político de Sá Carneiro, e acaba de se concretizar, curiosamente cerca de 30 anos depois da sua morte. O PSD volta a conseguir uma maioria absoluta em coligação com o CDS, e o PS de Sócrates inicia, agora, o processo de reconstrução. Mas, se o desafio do PS pós-Sócrates é espinhoso, o processo de construção deste novo PSD e de um novo Governo para Portugal não constitui desafio menor. Há alturas em que a mudança é necessária. A esperança. A novidade. O arrojo. Mas também a serenidade. A disponibilidade. A calma. Contra a crispação arrogante constante, contra uma constante presença nos telejornais, contra um excesso de comunicação, contra uma quase vacuidade total a que se chegou. Serão, em suma, estes os desafios que o «sonho» de Francisco Sá Carneiro deixa a Portugal.

4 de Junho de 2011 – Foi hoje

As emoções sempre à flor da pele. Foi assim. Com algum desconforto por não poder fazer a música que tinha planeado inicialmente, mas também com a dificuldade de encontrar algo que parecesse estar à altura do momento. Mas conseguiu-se. Foi bom também acolher os que a nós se juntaram para esta homenagem. Foi bom proporcionar o regresso ao prof. António Ferreira, do Coro da Escola Salesiana de Santo António do Estoril. Foi bom ser surpreendido pela energia do Orfeão de Barrô e do meu muito estimado colega e amigo Sérgio Brito. Depois, as emoções. Que culminaram com a Esperança do Zé Luís, que ainda estamos a afinar. Mas não foi só. No final, surpreenderam-me as minhas próprias palavras de 25 de Março último. Há dias assim.

25 de Março de 2011 – Para: Nádia Oliveira; Morada: Aqui

Olá, «Nadinha». Bem sei que hoje é hoje, mas tenho-te lembrado bastante. Sabes, puseste-me a pensar em como é difícil a gente lembrar-se do dia em que as pessoas especiais nos entram pela vida dentro, como um cometa, cheias de luz, e parece que tudo muda a partir daí. Mas do dia em que se parte, desse sim, é que nos lembramos melhor. Porque é um dia em que algo se rasga, algo nos corta, algo nos fere, e deixa cicatriz. E a cicatriz fica sempre, por muito que a pele se volte a unir. Tu és danada, porque mesmo que não me lembre dos dias exactos, lembro-me de muitas coisas que tu fizeste mudar. Fizeste-nos fazer música e palavras para ti. Fizeste-me conhecer um grupo fabuloso, de pessoas únicas, o Orfeão de Arouca, com quem tu, com tanto carinho e orgulho, sempre trabalhaste. Fizeste-me voltar a estudar, e a levar-te ao meu primeiro concerto em Aveiro. A «culpa» disto tudo também é tua, por muito que não o queiras admitir. Hoje não me apeteceu escrever «de cima», falar de ti como se não estivesses cá. Hoje apeteceu-me escrever para ti, falar contigo, como falo muitas vezes, nas viagens que faço, nas memórias que revisito. Tu fizeste-me acreditar que, de facto, há pessoas que não pertencem aqui. Por muito que nos doa, tu pertences aqui, mas estando aí. São assim os anjos, ou o que lhe quisermos chamar. Eu continuo a falar contigo, porque sei que estás aqui. Se te posso pedir algo, peço-te que continues a tomar conta de nós. Que continues a receber o carinho dos teus papás, único e transbordante, como sempre. Que continues a receber a nossa amizade e admiração. E agora, vou continuar, porque, ao fim e ao cabo, isto não acaba nunca. Por muito que escreva, vou ter sempre qualquer coisa para partilhar contigo. E posso fazê-lo, a qualquer momento, porque a tua morada é (também) aqui.

3 de Junho de 2011 – Frases socráticas, a reter

O dia de reflexão aproxima-se, e, depois dele, o «dia D». Os comentadores, como as sondagens, já dão vitória ao PSD, que, se não se tivesse entretido a dar «tiros nos pés», uns atrás dos outros, durante a pré-campanha, poderia estar, neste momento, confortavelmente sentado à sombra de uma maioria absoluta, sozinho. Mas Sócrates ainda não se dá por vencido. Pelo contrário, tal como nas suas sanhas habituais contra os críticos, lá continua, timoneiro de uma embarcação pronta para ser abandonada por todos. Ficam contudo, do dia de hoje, algumas frases sobre as quais valerá a pena pensar, daqui a uns dias.

«Está tudo em aberto.»

«O país precisa de um trabalho político pragmático que vá direito à resolução dos problemas.»

«Sou dos que acreditam que o dever do Estado é dar oportunidade a todos para que possam progredir.» (sobre as Novas Oportunidades)

«Só tenho uma palavra no meu espírito, que é vitória. Aqui estamos para ganhar estas eleições.»

(José Sócrates, recandidato a Primeiro-Ministro, durante o dia de hoje)

2 de Junho de 2011 – He’s back

Quando me disseram que conduzir um Alfa Romeo é diferente de conduzir qualquer outro carro, a observação pareceu-me exagerada. Mas o tempo comprovou que não. É, de facto, um carro a que nos afeiçoamos quase sem dar conta. Hoje, o 147 voltou, como novo. Pronto para ser, novamente, desfrutado e companheiro de viagens. Ao que parece, até Enzo Ferrari preferiu a Alfa Romeo, o que ajuda a explicar o porquê de tantos «Alfistas», que «defendem» os seus carros, tornando-os, em muitos casos, símbolos culturais e de «design». De uma forma ou de outra, estou satisfeito. Porque ele está de volta.