22 de Julho de 2011 – Mas o que é aquilo, na Noruega?

Se Portugal é conhecido por um país de brandos costumes, mais se pode dizer dos países nórdicos. Ensimesmados, organizados, famosos até pelas elevadas taxas de suicídio, de tão concentrados nessa ordem social pela qual são famosos. De repente, explode uma bomba, bem junto ao gabinete do Primeiro-Ministro, deixando no ar todas as interrogações que estes actos deixam. Depois, um verdadeiro massacre, na ilha de Utoya, com um número de mortos sem precedentes. Ficam as questões no ar. Por quem. Porquê. Para quê. Que explicação podem ter estes actos?

21 de Julho de 2011 – Rio Paiva

A preocupação com a preservação do rio Paiva começa a ser legitimamente urgente. As descargas indevidas a que assistimos recentemente provam-no, e aquele que era tido como um dos rios menos poluídos da Europa começa a ser alvo de preocupação e, o que é pior, de verdadeiros actos criminosos, «à boleia» de situações anteriores. De que serve o investimento de uma autarquia na construção e requalificação de espaços públicos de fruição e de contacto com o rio, quando há quem pratique atentados ambientais que praticamente comprometem um ecossistema? O rio Paiva continua a tempo de ser um exemplo de sustentabilidade ambiental. Basta que as autarquias nossas vizinhas também contribuam para tal. Mas enquanto a consciência individual não for outra, todos os esforços serão em vão.

20 de Julho de 2011 – Portugal: ensaio contra a autoflagelação

Boaventura de Sousa Santos resolveu reflectir sobre o nosso «nacional coitadismo». Somos (ou estamos) «coitadinhos» em parte porque queremos, em parte porque se nos impõe que assim estejamos. Hoje, não somos só Portugal. Para o bem e/ou para o mal, somos também Europa, e o bater de asas de uma borboleta no «Portugal Profundo» facilmente causa um espirro no «Reichstag» de Berlim. Mas há coisas que nos distinguem, e deveria ser nessas em que deveríamos estar concentrados, mais do que na autoflagelação. Temos uma história, uma identidade, uma forma própria de encarar e fazer as coisas. Basta querermos, com olhos de ver e cabeça de pensar, olhar para trás e pensarmos com esperteza sobre o que fomos, como fomos, o que fizemos, como fizemos e como chegámos aqui. Sem autoflagelação a mais. Porque, senão, a certa altura, podemos já não ter corpo para autoflagelar. E aí, talvez seja tarde demais.

«A autoflagelação é a má consciência da passividade, e não é fácil superá-la num contexto em que a passividade, quando não é querida, é imposta. Estamos a ser agidos.

No capítulo 1, faço breves precisões conceituais sobre as crises e suas soluções. No capítulo 2, apresento uma reconstrução histórica de algumas contas mal feitas na nossa vida colectiva e nas nossas relações com a Europa. No capítulo 3, analiso o possível impacto das medidas de austeridade recessiva na vida dos portugueses. No capítulo 4, proponho algumas medidas para sairmos da crise com dignidade e com esperança, tanto medidas de curto prazo como medidas de médio prazo. No capítulo 5, centro-me nos desafios que se levantam às soluções que só fazem sentido se adoptadas a nível europeu e mundial. O maior desses desafios é travar e se possível inverter a preocupante proliferação do que designo por fascismo social. No capítulo 6, defendo a necessidade e a possibilidade de um outro projecto europeu mais inclusivo e solidário. Finalmente no capítulo 7, defendo que a outra Europa possível só se concretizará na medida em que ela for capaz de partilhar os desafios da luta por um outro mundo muitíssimo mais vasto, mas, tal como ela, possível e urgente».

(Boaventura de Sousa Santos, «Portugal: Ensaio contra a autoflagelação»)

19 de Julho de 2011 – O crocodilo que (não) apareceu, a notícia que (não) houve

(Não) foi notícia (não) ter sido avistado um crocodilo na albufeira de Castelo de Bode, rio Zêzere, na Sertã. O (não) facto é interessante, precisamente pela negação da notícia. Com tanta coisa que pode ser notícia, nesse «entrior desquecido e ostracizado», tanta coisa positiva, ou até mesmo apenas as paisagens desse Portugal insistente e desprezadamente dito «profundo», só chegou aos noticiários uma «não-notícia». É certo que, se a «não-notícia» for vista como notícia, coloca algumas questões sobre a segurança de quem frequenta a albufeira, e até mesmo em relação ao animal e ao seu equilíbrio com o habitat. Mas não parece ser por aí que a coisa foi vista. Talvez, subliminarmente, tenha sido uma forma (mais uma) de escavar o fosso entre o Portugal urbano e esse outro. Profundo.

18 de Julho de 2011 – «Madiba», 93 anos

Nelson Mandela nasceu há 93 anos. Pela vida e pela impressão digital que deixa na humanidade, qualquer amálgama de palavras, por muitas e boas que sejam, é absolutamente insignificante. Um homem que foi preso político durante um período abjectamente longo, Prémio Nobel da Paz, Presidente da República da África do Sul, no tempo em que foi, activista na luta pela igualdade entre raças, e que, mesmo do alto dos seus 93 anos, nunca se cansou de lutar por uma humanidade melhor, merece muito mais do que um simples «post» de feliz aniversário. Merece, seguramente, o sorriso e o aplauso efusivo e alegre, como ele próprio, de resto, de um mundo inteiro.

«During my lifetime I have dedicated myself to this struggle of the African people. I have fought against white domination, and I have fought against black domination. I have cherished the ideal of a democratic and free society in which all persons live together in harmony and with equal opportunities. It is an ideal which I hope to live for and to achieve. But if needs be, it is an ideal for which I am prepared to die».

(Discurso de Nelson Mandela, durante o «Rivonia Trial», em 1964)

17 de Julho de 2011 – Livros, empilhados, ávidos de serem lidos

Tenho alguns livros, aleatoriamente empilhados, que lançam constantemente um perfume de curiosidade para ver o que têm dentro. A vontade de sair de alguma desta realidade é tanta, que mal posso esperar para espreitar «Balada da Praia dos Cães», de José Cardoso Pires, «Mau tempo no Canal», de Vitorino Nemésio, e «Capitães de Areia» e «Tieta do Agreste», de Jorge Amado. Isto para além de algum material teórico sobre música, desde um livro que tem de ser lido sobre música medieval, de Manuel Pedro Ferreira (onde há um estudo sobre a que se julga ser uma das peças polifónicas mais antigas que se conhecem, encontrada num antifonário do Mosteiro de Arouca), até alguns textos sobre música contemporânea. Têm este fascínio, os livros. De, mesmo inertes e empilhados, darem a ideia, constantemente, de que estão, no fundo, ávidos de serem lidos.

16 de Julho de 2011 – «Arouca.Biz» outra vez «on»

Foi com muito gozo que fiquei a saber que o «Arouca.Biz» está outra vez activo, equanto «site» noticioso. Fruto da «teimosia» do nosso estimadíssimo amigo Rui Duarte, o «AroucaBiz» cresceu, expandiu-se, e até acolhe espaços como este. No «fórum», em tempos idos, travaram-se acesos e frutíferos debates, e aprendeu-se muito sobre o uso das novas tecnologias na formação da opinião pública, sobretudo com os erros de cada um. Na «órbita» deste espaço, surgiram os blogues, a rede social, alguns «sites» associativos, como o «MFA». Agora, tudo indica, vamos poder voltar a ter «notícias frescas» e informação «up-to-date» sobre Arouca.

15 de Julho de 2011 – «O tal canal»

Em 1983, rasgavam-se novos horizontes no humor português. Visto hoje, não parece. Os problemas parecem ser os mesmos, os medos e as queixas parecem ser as mesmas, e, não fosse o formato dos «gadgets» ser substancialmente diferente, até diríamos que estávamos na presença de qualquer coisa pareceida com o «Conta-me como foi», feito e visto de trás para a frente. Em 1983, não havia televisões privadas, a política era muito mais «musculada» e fazer humor podia ser, frequentemente, perigoso. Mesmo assim, Herman arriscou, e lançou-se a escrever, dirigir actores e interpretar vários personagens que acabaram por ganhar raízes. Foram os casos de Esteves (que até entrevistou Pedroto, e tudo), Tony Silva (o grande «créador» de toda a música «ró»), ou Fabricius (um «micro-clone de trazer por casa» de Hitler). Soube bem, durante este tempo, viajar no tempo, ao longo dos 12 episódios do «Tal Canal». Com a certeza de, sempre que possível, podermos regressar aí, «via  DVD». Ainda bem.

Portugueses… povo em geral… pessoas.

Faz agora 1/4 de século que começámos esta cruzada, precisamente 25 anos que como é sobejamente sabido, prefazem eles próprios 1/4 de século. Há 25 longos anos nasceu aquilo de que todos estavam à espera: uma TV eximida, franqueada, licenciosa e dissoluta.

Dissolutas tão só porque franqueada, franqueada porque eximida, eximida sem, no entanto, deixar de ser licenciosa. O que é, afinal, o que o povo português esperava de nós: uma programação com 2.8% de eximismo franqueado, de dissoluto silencioso, e principalmente de franquesismo eximado, sem os quais não teria sido possível fazer uma televisão clara e com uma linguagem simples e acessível, que toda a gente ainda hoje perceba.

Sua Excelência o Director e Dono do Tal Canal, Professor Doutor Por Extenso

 

14 de Julho de 2011 – Temos Ministro das Finanças

Sereno. Seguro. Sério. O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, deu-nos uma verdadeira aula sobre o futuro. Sobre o que podemos fazer. Sobre o que temos de fazer para que Portugal saia desta espécie de «atoleiro». Foi gratificante ouvirmos um Ministro que não nos falou em «economês», nem em «financês». Falou-nos, sem rodeios, da situação em que estamos. Recusou falsas previsões, aliás mostrou-as bem piores do que se esperava. Falou-nos também, de forma clara, e para que todos ficássemos sem dúvidas, do que é preciso fazer. Das medidas que tenciona implementar, desde já. «À mulher de César não basta ser séria». Vítor Gaspar, hoje, pareceu ser sério. Veremos.

«Portugal vive hoje uma grave crise no contexto da crise da dívida soberana na área do Euro. As vulnerabilidades estruturais e debilidades já referidas manifestaram-se de uma forma aguda. O programa de assistência económica e financeira, acordado com a União Europeia e o FMI, baseia-se em três pilares: primeiro, consolidação orçamental visando o estabelecimento do equilíbrio das contas públicas; segundo, acções visando a manutenção da estabilidade financeira; e, terceiro, um conjunto amplo de medidas estruturais visando melhorar a competitividade e potencial de crescimento.

O programa implica, assim, uma agenda de transformação profunda da economia e da sociedade portuguesa. No fim do processo Portugal terá saído da crise com uma economia competitiva e regressado ao desempenho económico que caracterizou a segunda metade do século XX. Portugal triunfará como economia aberta e competitiva na Europa e no mundo.

A magnitude da crise em que nos encontramos torna urgente a mudança e requer o esforço de todos. Portugal tem de realizar um significativo ajustamento financeiro. O cumprimento dos objectivos e das medidas previstas no programa é um instrumento para concretizar uma transformação estrutural sem precedentes na história recente. Este é o caminho para um novo ciclo de prosperidade, crescimento e criação de emprego».

(Vítor Gaspar, Ministro das Finanças, hoje, em conferência de imprensa)

Intervenção completa do Ministro, aqui.

Documentação de suporte fornecida aos jornalistas, aqui.

13 de Julho de 2011 – Tiques socráticos

António José Seguro, candidato a líder do Partido Socialista, entende que o debate interno em torno da disputa pela liderança, com Francisco Assis, deve ser isso mesmo. Interno. Por outro lado, Francisco Assis acha que as questões do PS são um assunto nacional, e, depois de chegar mesmo a lançar a ideia de alargar a possibilidade de escolha da liderança a outros que não apenas os militantes, viu-se confrontado com a decisão do adversário de proibir os jornalistas de assistirem a um debate entre ambos. Estas questões, que envolvem política e comunicação social, soam a «tiques socráticos», de restos de uma relação pouco transparente entre os socialistas e os jornalistas.

«Para mim, os debates devem ser sempre abertos à comunicação social, porque os partidos são entidades fundamentais na vida democrática, fazem parte do espaço público democrático. Nada do que se discute nos partidos é alheio ao interesse da sociedade.»

(Francisco Assis, candidato a líder do Partido Socialista, em declarações aos jornalistas)