Pensamos, a maioria das vezes, como uma espécie de obsessão pela verdade. Pensamos, outras vezes, para dar excessiva razão aos outros. Pensamos como uma forma de vermos bem onde pomos os pés ao caminhar. Pensamos, e fechamo-nos numa gaiola de razão, quando a vida está lá fora, em liberdade, e muita coisa passa por entre as grades, enquanto a razão está lá dentro, fechada. Depois, há o verbo escrever. É curioso que Vergílio Ferreira tenha reunido alguns dos seus mais brilhantes textos (pensamentos) em dois volumes, com os títulos «Pensar» e «Escrever». Escrever é automático. Como se fosse pensar e escrever ao mesmo tempo. Como se fosse falar. Como se fosse a melhor forma de encontrar e arrumar as melhores palavras para se dizer o que se quer. Saborear cada letra, cada palavra, cada frase. Porquê? Como? Para se ser inteiro, pleno. De forma natural. Como respirar. Porque sim.
«Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade e os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, as gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.»
(Vergilio Ferreira, «Pensar»)
Como é que uma coisa pode ser secreta, quando está nas conversas de toda a gente, a toda a hora? Se sabemos quem pertence e quem não pertence? Se sabemos as influências que move, sempre no mais elevado secretismo, para se saber logo a seguir? Há o secretismo dos rituais, e tudo isso, mas a ninguém interessa. Interessam, antes, os efeitos (na maioria dos casos, nefastos), as consequências das influências que são movidas pelas pessoas que se movem nestes meandros. Enquanto pude aprender (pouco) sobre os ritos maçónicos latentes na construção da ópera «A Flauta Mágica», de Mozart, pareceu-me interessante. Mas este pseudo-secretismo da maçonaria portuguesa começa a irritar.
Com a voragem contra o «acordês», nem me lembrei que, desta vez, gostei um bocadinho mais do Concerto de Ano Novo de Viena. A ideia de ter, todos os anos, uma das melhores orquestras sinfónicas do mundo, em directo do «Musikverein», limitada a um programa de valsas e «polkas», num quase «rame rame», cedo deixou de me seduzir. Contudo, desta vez, Mariss Jansons conseguiu surpreender. Houve música para além dos habituais «Strauss», e soube bem.
Pensei, e decidi. Não vou escrever em «acordês», neste espaço. Tenho o direito de não concordar com o estropiamento da minha língua. Tenho o direito de ser contra um (des)acordo negociado na obscuridade dos gabinetes ditos políticos. Tenho o direito de não querer estar dependente de conversores informáticos para escrever o que quero, como os escritores que admiro escreveram. Tenho o direito de ser contra uma mudança feita por decreto e contra-natura, esquecendo a raiz, no latim ou no grego, das nossas palavras. Tenho o direito de ser contra um (des)acordo que não tem em conta que se fala português em Angola, em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e até em Timor, que não tem em conta a forma como pronunciamos, a musicalidade portuguesa, e acaba por instalar uma perigosa confusão na ortografia. Há palavras que vamos poder escrever de quatro a trinta e duas maneiras diferentes, todas válidas. Tenho o direito de ser contra um (des)acordo desajustado da maneira como nós falamos a nossa própria língua. Tenho o direito de ser contra uma forma de manusear a minha língua «à vontade do freguês». Tenho o direito de ser contra uma alteração imprudente da identidade do meu país. Por isso, eu, aqui, não vou escrever em «acordês».
Há algum tempo, voltei às crónicas de António Lobo Antunes, desta vez numa edição com um CD em que o autor lê os seus próprios textos. E foi ao silêncio terrivelmente assustador, de hoje, que voltei. (Re)viver a «Balada do 7.º A», em que o silêncio é terrivelmente ensurdecedor, e apetece tapar os ouvidos com força, para que ele passe. Ouvindo o resto de vida dentro de nós. Tentando afastar o resto da maldita tosse de Inverno. E esperar pelo sono. Eventualmente pelo sonho. Afastar o pensamento. É Ano Novo. Sem festa. Apenas acontece. Depois, chega o silêncio. E tapamos os ouvidos com força. Ouvir o que resta de vida dentro de nós. Até adormecer.
«Foi bonita a festa, pá», dizem. Já é costume haver. Já é uma tradição. Houve coisas que se repetiram. Houve coisas novas. Mas o público continuou fiel, e a Igreja voltou a encher-se. As vozes voltaram a fazer ouvir-se. Os sons da Banda também. E, tudo junto, foi o Concerto de Natal. Houve quem achasse que foi o melhor programa, desde que se organiza o Concerto. Não sei. Só sei que foi assim. Bonita a festa, pá.
Quase a terminar a espreitadela pela «Claraboia» de Saramago. São várias histórias dentro de uma história, que raramente se cruzam. É, talvez, como o próprio Saramago o disse, um livro ingénuo, mas que, à medida que se descobre, deixa, no mínimo, um pensamento relevante. Sobre o que se pensa, o que se diz, o que se pensa mas não se diz, o que se diz e não se pensa. As acções e reacções, interpretações, conversas ruidosas ou silenciosas. E, a certa altura, parece ouvir-se discutir entre si o rapaz e o homem, dentro da mesma pessoa. Sobre a forma como o amor pode ou não pode mudar o mundo, seja pelas acções de um errante pessimista, ou de um sapateiro, cuja vida essencial é consertar os sapatos que prendem os homens ao chão. Tudo isto visto da «Claraboia», que, apesar de já estar vertida no novo (des)acordo ortográfico, se começa, agora, a fechar. Ficando sempre uma pequena luz. A que nos faz pensar sobre o que se pensa, o que se diz, o que se pensa mas não se diz, o que se diz e não se pensa.
O jornal on-line «Dinheiro Vivo» publica hoje um interessante artigo, em que dá a conhecer as dez frases que caracterizam um mau chefe. São frases que não transmitem qualquer tipo de motivação ou confiança, nem tão pouco contribuem para um melhor ambiente de trabalho, ou para uma maior produtividade. «Agarrados aos pequenos poderes», como se pode ler, pensam que estão a manifestar autoridade e a pôr as coisas «nos eixos». Diz o «Dinheiro Vivo» que não é bem assim. Ficam, agora, as dez frases.
Senhor Primeiro-Ministro: