Uma volta de 360 graus
Neste momento, uso o verso de um talão do multibanco para fazer uma espécie de conta à vida, algures numa grande superfície, aí, onde as vidas dão voltas, por fora das montras, e onde vão sendo feitas de desejos e impossibilidades. Mas o que nos traz hoje aqui são outros pensamentos, não que sejam relevantes ou valham a pena partilhar. Se outros o fazem, porque não eu? Ao que interessa, portanto.
Amyr Klink é um nome que pouco dirá a muitos, mas que corporiza uma interessante visão do que pode ser dar uma volta de 360 graus na vida. Amyr é um navegador solitário, um dos poucos que, sozinho, a bordo do seu “Paratii”, circunavegou a Terra. Tudo bem, Fernão de Magalhães já o tinha feito, James Cook, com muito menos apetrecho técnico, igualmente. Mas este navegador brasileiro (que, de resto, sublinha no seu livro “Mar sem fim” que esse mesmo “mar sem fim é português”, como Pessoa havia escrito) fê-lo circunavegando a Antárctida, enfrentando icebergues, ventos e correntes marítimas cujas descrições nos deixam apenas imaginar a intensidade. Mas, ao mesmo tempo, Amyr pôde ver paisagens que poucos terão visto e belíssimos animais marinhos que, felizmente, o homem deixou de tentar dizimar.
De facto, ao contrário do dito futebolístico, uma volta de 360 graus não é apenas voltar ao mesmo. Ou antes, é, na verdade, voltar ao mesmo, mas depois de se ter feito um percurso pelo ângulo mais largo possível, com a aprendizagem ou conhecimento que isso pode proporcionar, para nova viagem.
Ora, os políticos com H grande, os poucos, muito poucos, que conhecemos, devem sentir isso mesmo, em cada ciclo eleitoral. Se virmos bem, foi no início de uma segunda viagem de 360 graus que Lincoln morreu quase ao mesmo tempo que acabava com uma guerra civil e abolia a escravatura, nos Estados Unidos.
Em Portugal, todavia, somos mais originais. Os políticos portugueses, desta vez políticos com p pequeno, preferem fazer a volta de 360 graus tentando meter a cabeça no umbigo (coisa que, a par de lamber o cotovelo, sabemos que não conseguimos fazer a nós mesmos). Só assim se explica que, um dia, nos apareça um candidato a candidato a pessoa que nos governa, já com farda mas sem manual de boas práticas, e que ontem não tinha pressa, mas hoje os contadores de espingardas obrigam a ter. Só assim se explica o facto de termos um Governo absolutamente auto-fágico, cuja fome é maior do que o próprio país.
Arouca também se prepara para uma volta de 360 graus. Aquilo que esperamos é que, tal como Amyr Klink estabeleceu, tenhamos um mesmo ponto de partida e de chegada. Todavia, no regresso a casa, depois de atingido o ponto de partida, e porque as correntes e os ventos não sopram no mesmo sentido, a rota seja ligeiramente desviada. Para chegarmos sãos e salvos.
Ficámos hoje a saber que quem, na realidade, financiou boa parte da Capital Europeia da Cultura, em Guimarães, durante 2012, foram… os artistas. No total, diz-se que a organização do evento está a passar por fortes “constrangimentos orçamentais” (talvez outra forma de dizer “má gestão”), e que terá a haver ainda cerca de 7 milhões de euros no total. Dizem-nos, ainda, que não foi gasto mais do que estava estipulado. Tudo bem. Mas o que é certo é que foram os artistas que, aceitando receber mais tarde, foram avançando com os seus impostos e com o seu trabalho gratuito para que a Capital da Cultura acontecesse. Dá que pensar…
Chavez vive, e outras vezes morre. Depende de quem fala e de onde fala. Já houve quem dissesse, mais nas redes sociais, que o presidente da Venezuela já não vive, e que apenas estão a contemporizar para ver como resolvem a situação. Há quem diga que está vivo, mas sem voz e profundamente deprimido. Nunca se sabe. Os mitos são assim. Hoje, dizem-nos que recuperou da mais recente infecção respiratória, e que está a ser tratado como deve ser. A Venezuela continua em suspenso, sem saber se tem Presidente ou não. Porque não houve juramento, é certo. Mas também não houve, até agora, homem. Dizem-nos. Acreditamos ou não. E, depois, veremos.
Moçambique está a braços com uma cheia tremenda, que já vitimou 26 pessoas, para além de 68 mil desalojados. Segundo a ONU, terão sido afectadas pela intempérie quase 85 mil pessoas. As chuvas não dão tréguas, as barragens não comportam tanta água, e os rios vão transbordando por onde passam. Custa ver imagens, ainda que fugazes, porque a actualidade parece estar sempre em outro sítio, de um povo, já suficientemente martirizado, a olhar resignado para o que a Natureza resolveu fazer-lhe. O apelo de Alberto Vaquina, Primeiro-Ministro do país, é desolador. Vaquina vê-se forçado a pedir a quem pouco ou nada tem que seja solidário. Custa ver Moçambique ser levado, assim, na correnteza das águas furiosas. E queixamo-nos da crise, das faltas que sentimos. É bem verdade que com o mal dos outros podemos nós bem. Mas olhar um bocadinho para fora do rectângulo não será mau.
Portugal é um país de paradoxos, já devíamos estar habituados. Primeiro, em troca de auto-estradas a ligar todo o país, pediram-nos que deixássemos de produzir. A agricultura passou a ser algo de parolo, e os produtores viam-se na contingência de usar os seus produtos como fertilizante, quando não tinham de os levar directamente ao lixo. A voragem da corrida ao subsídio para a inércia ajudou, também, a que hoje andássemos por aqui. Agora, quando nos vimos na contingência de termos de “travar a fundo”, a solução milagrosa parece estar no retorno aos campos. O que outrora era parolo, hoje é “giro”, talvez “in” ou até “na moda”. É interessante, esta viragem. E mais interessante seria se a encarassem como deve ser. Talvez começando por deixar de lado o habitual estigma da “aldeia” ou do “Portugal Profundo”. Porque é exactamente aí que há lugar para esta agricultura, para qualquer agricultura digna desse nome. Era bom não esquecer.
José Lello. Quem melhor para responder à insistente e irritante pergunta de António José Seguro? Com aquele ar de enfado com que Lobo Antunes descrevia Vergílio Ferreira, quando explicava que queria ser escritor como o mestre, António José Seguro repetiu até à exaustão: “qual é a pressa?” Pois bem, Lello respondeu rapidamente: “o mais breve possível”. A passos largos, aquilo que os socialistas sempre criticaram no PSD (o excesso de debate e disputa internos), parece estar a acontecer-lhe também. Talvez porque cheira a poder, talvez porque Sócrates acordou mal disposto ou com vontade de dizer alguma coisa aos seus camaradas. O que é certo, é que há pressa. E talvez haja quem apareça por aí, algum daqueles que “anda por aí”. António Costa? Quem sabe. A conjuntura eleitoral promete, e vai ser curioso ver como se porta o partido que se assume como alternativa de Governo, mesmo sem convencer totalmente os portugueses de que o consegue.
Parece consensual que Portugal precisa de mais tempo para pagar a dívida externa. Diminuir o Estado parece ser outra receita. E a soma das duas premissas, deixa-nos, como resultado, a pergunta: “que Governo?” A diminuição de consenso vai diminuindo, à medida que vamos avançando nesta espécie de silogismo, ao que transparece por razões meramente políticas, para não dizer eleitoralistas. É preciso diminuir o peso do Estado, que consome três quartos da receita que gera. É duro. É difícil. Custa. Mas as contas são simples de fazer. Como alguém dizia, numa metáfora simplista, não podemos ter, ao mesmo tempo, o bolo e a fome ou a vontade de o comer. Temos de nos decidir. O Partido Socialista, ao que parece, não quer sequer discutir qualquer tipo de corte, apesar de se ter comprometido, no memorando, a contribuir para isso. O Governo vai ficando “encostado às cordas”, sem saber se opta pelo bolo ou pela fome. E nós, cada vez mais, sem sabermos se há alguém capaz de nos governar decentemente. Porque parece que de nenhum dos lados vem uma solução concreta, justificada, acertada.
O jornal “Expresso” publicou, recentemente, um texto sobre o trabalho dos maestros, e a forma como vários profissionais da direcção de orquestra encaram o seu trabalho. O que nos prende neste texto é que ele começa, sempre que há um recomeço, pelo princípio, que é onde tudo deve começar. Na suposta “irascibilidade” ou “superioridade” do maestro. Coisa que, hoje em dia, talvez esteja mais diluída. Autoridade, exigência, capacidade de liderança, ideias próprias e, sobretudo, ser-se músico, são algumas das coisas que também aparecem por lá. Retenho, contudo, as palavras de um dos pedagogos que se tem dedicado à arte de ensinar a dirigir, e que tem formado alguns dos grandes maestros portugueses que hoje conhecemos: Jean-Marc Burfin. Primeiro, quando diz que “0 maestro em casa tem que ser capaz de analisar a partitura e de ouvi-la interiormente, sem apoio de uma gravação. Ensaia com ele próprio e chega ao ensaio da orquestra com uma noção exata do que quer ouvir. A música tem que vir de dentro”, e, depois, quando alerta para o facto de ser complicado, para quem quer fazer carreira, encontrar lugar para dirigir. Se o maestro é o “descodificador” do compositor e o instrumento é a orquestra, não havendo músicos disponíveis, dificilmente haverá maestros.
“Ouver” os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa não é propriamente uma “religião”, mas não deixou de ser curioso que o Professor hoje tocasse num assunto que já pairava nas reflexões pessoais há algum tempo. Queiramos ou não, gostemos ou não, o nosso sistema político assenta na representatividade dos partidos. São eles que, de base, procuram sustentar determinada forma de encarar a realidade e/ou de agir perante a dinâmica social. Sucede que, cada vez mais, estamos a ter de levar com partidos que não queremos, que nos impingem gente que não queremos, mas que, no fim de contas, é a gente que conta, e acabamos por ter de escolher os menos maus, que, ainda assim, são, francamente, muito maus. Confusões à parte, o que Marcelo disse hoje, a determinada altura, faz todo o sentido. Pedro Passos Coelho não pode esquecer que, se é Primeiro-Ministro, ao Partido Social-Democrata o deve. E, se lidera essa estrutura, uma estrutura que não tem, ao serviço dos portugueses, apenas os membros do Governo e deputados, mas presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia, devia lembrar-se que essa gente, que o apoiou e apoia, que veste a mesma camisola que ele em termos partidários, já não consegue defendê-lo enquanto Primeiro-Ministro. Porque começa a ser demasiado duro ser-se português. Mas pior é ser-se, simultaneamente, português e militante do PSD. Eu já lho tinha escrito, mas de pouco serviu. Esperemos que o Primeiro-Ministro, ou o presidente do PSD, ou, de preferência, ambos, ouçam o professor Marcelo.