O único problema que impede Ronaldo de ser “perfeito” é Messi. Quem o diz é Jürgen Klopp, treinador do Borussia Dortmund. Klopp recorreu, inclusivamente a uma situação semelhante para ilustrar a situação: o “ofuscamento” de Michael Stich por Boris Becker, no ténis. Este tipo de “comparação” é interessante, mais ainda num ambiente de altíssima competição e entre dois jogadores com características tão próprias e tão diferentes. Talvez até só por isso exista comparação. Constantemente a tentarmos perceber a diferença entre o muito bom e o melhor. Pelo menos enquanto a “competição” existir, haverá espectáculo, e a vontade e o trabalho de cada um para aprimorar o talento. Trabalho e talento. Uma soma que faz a diferença.
22 de Maio de 2013 – O estarmos preparados para fazermos várias coisas
Quando era universitário pela primeira vez, diziam-me que devemos estar preparados para fazer várias coisas. Dito assim, em palavras simples, parece mentira. Parece que não é suficiente para acreditarmos. Numa altura como aquelas, o foco é a especialização, a busca de uma tarefa definida na e pela sociedade. Algo com limites mais ou menos claros, como um elemento de uma linha de montagem. O tempo provou quem estava certo e quem estava errado. O tempo continua a provar que temos de estar preparados para fazermos várias coisas. Não necessariamente pelo caminho mais fácil. Não necessariamente pela via mais radical. Mas usando o que de mais precioso nos foram dando, o conhecimento. Porque, no fundo, pensar bem pode ajudar.
21 de Maio de 2013 – Crónica em «Discurso Directo»: Uma lente, para ver melhor Arouca
Uma lente, para ver melhor Arouca
Arouca tem sido repetidamente motivo de notícia, nos últimos tempos. Primeiro, a chegada à I Liga de futebol. Depois, a notícia publicada pelo JN, que dá conta da vontade da autarquia de “emprestar dinheiro” ao Governo para conclusão da Via Estruturante. E poderíamos continuar por aí além, com artigos de opinião e outros textos, comentários, etc. De repente, estamos nas páginas (e, em alguns casos, nas primeiras páginas) de jornais com tiragens nacionais, com dinâmica na internet, com capacidade de criar massa crítica. Se é bom? Talvez não.
A imparcialidade, a verdade, a isenção são mitos, no mundo jornalístico. Por muito que queiramos acreditar no contrário, são três coisas que, de facto, não existem. Um jornalista, quando chega ao local da notícia, vai escolher um ângulo de visão, vai seleccionar a informação que acha pertinente e vai ouvir quem entende que deve ouvir. Por muito sério que seja, e por muito séria que seja a sua forma de trabalhar, ele vai sempre apresentar-nos um trabalho final que é seu, visto por si, recortado da realidade por si, e em que nós, à partida, confiamos. Mas, que não é a realidade, muito menos a verdade. É, sempre, um fragmento, um recorte, uma visão da realidade, com a percentagem de verdade possível.
Por tudo isto, é preciso uma lente que ajude alguns jornalistas “nacionais” a verem bem Arouca. A verem Arouca como ela é, e não como ela lhes parece ou querem que lhes pareça. Aliás, essas sucessivas visões desfocadas só provam que a imparcialidade, a verdade e a isenção não existem, por muito que sejam arduamente procuradas. É preciso uma lente que não amplie, mas também não diminua. Que mostre o que somos, quem somos, de forma séria. Que explique que, apesar das dificuldades, lutando contra elas, fazendo o esforço extra de transpormos as montanhas (mágicas) que nos rodeiam, chegamos lá. A notícia é essa. Para o peditório do “postal ilustrado” do “Portugal profundo”, já ninguém dá.
20 de Maio de 2013 – Santo Tirso quer que o seu mosteiro seja Património Mundial
A Câmara Municipal de Santo Tirso anunciou que vai candidatar o mosteiro local a Património Mundial da Humanidade. Monumento nacional desde 1910, o edifício terá sido construído em 978, e está, agora, na base de uma candidatura a apresentar à UNESCO, e na qual a autarquia local aposta forte. Uma das componentes fundamentais na interpretação e na apresentação destes espaços aos visitantes é a do imaginário. Mostrar o que não se pode ver. Transportar quem ali chega ao tempo, aos gestos, aos usos, aos costumes. Pode parecer ridículo, mas qualquer candidatura que não contemple o imaginário, talvez consiga aprovação. Mas será apenas mais um local com um logótipo. Pouco mais.
19 de Maio de 2013 – Torre de Babel
Às vezes é preciso sairmos de nós, para, com simplicidade, nos apercebermos de onde realmente estamos. Durante a homilia deste fim-de-semana, o Reitor-Mor dos Salesianos, Pe. Pascual Chávez, na sua habitual simplicidade e com uma visão muito própria do mundo que o rodeia, fez uma breve analogia entre os tempos que correm e a narrativa sobre a Torre de Babel. A seu modo, já em tempos Saramago tinha dito o mesmo, quando falava na preocupação do homem em dominar o espaço, sem antes tentar acabar com a miséria. De facto, andamos demasiado preocupados com o conhecimento. Com o enaltecimento do que fazemos. Com a nossa auto-promoção. Com a tecnologia que dominamos. Com chegarmos ao céu à nossa custa, sem precisarmos de nada nem de ninguém. Tremendos enganos.
18 de Maio de 2013 – Acabada de compor
Às vezes, a música surge-nos de repente, e apetece exteriorizá-la. Outras vezes, é preciso trabalhá-la, moldá-la como o barro. Outras, ainda, vem com imagens. E às vezes, tudo ao mesmo tempo. Música com imagens, para imagens. Com recordações, para recordar. Não será uma obra prima, mas é sentida. Pegando em algumas anotações, surgiu hoje uma experiência. Uma curta pecinha de um minuto. Simples. Sem maior pretensão do que a de ser ouvida com carinho por quem a gerou. E talvez num ecrã perto de si, um dia destes.
17 de Maio de 2013 – Nós
Chegamos a determinada altura, e passamos a ser “nós”. Quando um “eu”, dois “eus”, três “eus” se juntam, e começam a ser um só. E há o orgulho, a admiração, o sorriso quando se olha para trás, e se vê o caminho caminhado. E se respira a transparência de nos conseguirmos olhar por dentro. Agora, começamos a ser “nós”. Prosseguindo nesse caminho que só existe quando caminhado. Sem pressa de chegar, só com a certeza de cada passo. Firme, sincero, pensado, conjunto. Sem medos, sem máscaras, sem nada que não sejamos “nós”. Cada “eu” somado nesse novo ar que se respira. Nesse novo sorriso que se rasga. Nesse abraço que nos transforma. Em “nós”.
Foto: Avelino Vieira
16 de Maio de 2013 – Um livro onde se conhece melhor o Papa
Proliferam livros que tentam dar a conhecer o Papa Francisco I. Este será, talvez, o que mais “discurso directo” tem, porque se trata de um conjunto de entrevistas, em que o ainda Cardeal Jorge Bergoglio partilha histórias de vida, pensamentos, reflexões, pontos de vista e até anedotas. Na retina, fica a já famosa anedota de um judeu gaiato que se converteu em bom aluno depois de o pai (também judeu) o ter matriculado numa escola católica. A razão foi simples. O director da escola apontou o crucifixo e disse-lhe: “Vês? Aquele era judeu, e vê como acabou”. Mais a sério, as suas reflexões sobre a educação também se mostram interessantes, com recurso à metáfora do náufrago que, chegado a uma ilha deserta, tem de conjugar o passado (materializado nos restos do barco naufragado), o presente (a circunstância de estar num ambiente novo – a ilha) e o futuro (o que fazer para sobreviver), sendo uma solução possível construir a casa com o que sobra do barco. Mas há mais e melhor. Basta ler.
15 de Maio de 2013 – As derrotas fazem-nos sempre pensar em muita coisa
E depois há esta coisa altamente humana, que é tentar racionalizar algo que é mais afectivo que outra coisa: a derrota. É na derrota que sempre nos questionamos. Porquê eu? Porquê a mim? Por que razão (quase sempre) os que eu considero os melhores? E, sobretudo, porquê assim? Jesus disse hoje que a derrota o fazia pensar em muita coisa. É verdade. As derrotas fazem-nos sempre pensar em muita coisa. Essencialmente, fazem-nos questionar muita coisa. A gente sabe que para alguém ganhar, outro alguém tem de perder. A gente também sabe que quando alguém está triste por perder, há alguém que está contente por ganhar. A gente viu e comprovou que se pode perder de forma digna, apesar de inglória. A gente sabe tudo isso. Sabe, até, que para se dar valor quando se ganha, é preciso perder. Mas, caramba. Sempre os mesmos a perder?
14 de Maio de 2013 – O louco, na montanha
Regressa-me à memória “Fool on the Hill”. Como se o louco regressasse ao cimo da montanha. À procura de orientação. À procura de si mesmo. À procura do que está dentro de si. Vendo o sol pôr-se. Sentindo o mundo rodar. Dia após dia. Dizem que todos temos qualquer coisa de louco, embora nem todos o admitam. Às vezes é preciso fazer esta viagem louca à montanha. Olhar-nos de fora, de longe, de cima. Vermos como, às vezes, apenas mudando o ponto de vista, as grandes dificuldades são, só, pequenos grãos de areia invisíveis. Mesmo que depois regressemos e sejam penedos. Uma vez ou outra, é preciso sermos loucos na montanha.
The Beatles: “The Fool on the Hill”