Há pessoas que, por vários motivos, não parecem deste mundo. Pelo talento. Pela mestria. Pelo exemplo. Pela humildade desconcertante. Mário Laginha é mais ou menos assim. Para grande felicidade nossa, temos estado a trabalhar para um concerto com este enorme músico, com obras suas, e para que a voz da Maria João se junte ao piano do Mário e à Banda Musical de Arouca. O “cocktail” só pode ser explosivo, e ainda bem. Trabalhar com um grande pianista, com um grande compositor, com uma pessoa com esta humildade, é um privilégio raro, que vale a pena saborear a cada segundo.
31 de Julho de 2013 – Uma ausência presente
Hoje é um daqueles dias aparentemente estranhos. Um daqueles dias em que há qualquer coisa que paira, e parece que não sabemos bem o que é. Mas, de facto, sabemos. Chama-se saudade. A diferença essencial entre o estar e o não estar mais. E regressamos a esse sentimento sempre que encontramos um lugar vazio ao lado, ou em frente. Quando realizamos que já não podemos ir ao encontro de quem esperávamos, porque já não encontraremos quem procuramos à nossa espera. Quando sentimos a ausência do aperto de mão firme, do assobio, da conversa sobre as notícias do dia ou da semana, da partilha do jornal. E é quando recorremos ao baú das memórias, que descobrimos que, mais do que tudo, fica o testemunho e o exemplo, para que o sigamos e honremos. Não há lágrimas. Não há aquela dor que rasga. Há só essa diferença. Entre estar e não estar. Sabendo, sentindo, experimentando que, de facto, estará, estaremos sempre que queiramos. Em contínuo, fica a música de Ryuichi Sakamoto, já com partitura vista, para estudar, mal seja possível. Como forma de contacto com essa ausência. De onde sai tanta coisa boa, que não cabe em nós.
Ryuichi Sakamoto – “Parolibe”
“No ano em que o meu avô nasceu foi inuaurado o canal do Panamá, começou a I Guerra Mundial e não houve Prémio Nobel da Paz, e o quanto o mundo mudou 97 anos depois. Ele viu tudo. Sentiu tudo. Viveu tudo. Pode contar, de forma lúcida e pormenorizada, tudo o que nós só sabemos pelos livros de história e pela Internet. Ele viveu, ainda que à distância, os «loucos anos 20». A ascensão e queda de Hitler, com tudo o que isso implicou. Conheceu de perto (e na própria pele) a musculatura da ditadura salazarista. A II Guerra Mundial, e as histórias dos «mineráveis», em Arouca. O surgimento do cinema. O «sonho americano». O 25 de Abril. A descolonização. O meu nascimento. O início da globalização. O terceiro milénio. Tudo isto, sintetizado numa vida. Em 97 anos”.
(A Minha Agenda, 31/07/2011. O avô Miranda faria [faz] hoje 99 anos)
30 de Julho de 2013 – Tempus fugit
Uma das vantagens da racionalidade é podermos olhar para a mesma coisa a partir de vários pontos de vista. Como se olhássemos para uma ampulheta. Se olharmos tanto para a parte superior, ainda cheia das pequenas areias, como inferior, ainda vazia, vemos que o tempo é muito. Ou, pelo menos, algum. Depois, há aquele espaço entre tempos, por onde, com a cadência que tem de ser, vemos as areias passarem. Nem mais depressa, nem mais devagar do que tem de ser. O tempo é muito, quando temos saudades. O tempo é pouco, quando precisamos de fazer muita coisa. O tempo passa devagar, quando o contamos. O tempo passa depressa, quando não contamos com ele. O tempo foge. Nem mais depressa, nem mais devagar do que tem de ser. Quer o vejamos fugir, ou não.
29 de Julho de 2013 – De volta
Apetece-me voltar aqui. Escrever é uma espécie de compulsão, sobretudo quando se tem o à vontade de se saber que quem quer ler, lê. Não há uma obrigação. Não há um mercado. Não há um bom nome literário a defender. Há a vontade de escrever, sem mais nada. E a de ler, na maioria dos casos por mera curiosidade. Há dias, sem pensar sequer, escrevi assim: “Seis anos depois, com muito sacrifício, bastante esforço e a toda a dedicação possível, chega ao fim o percurso da minha licenciatura em Música. Haverá outros passos para dar, outros caminhos para percorrer, outras descobertas para fazer. Mas, neste momento, o que é imperioso é poder gozar o fim da etapa”. Daqui, resultaram 223 “gostos” e 75 comentários. Foi, em boa parte, por causa desta recta final (intensa e até mesmo um pouco espinhosa) que a agenda foi ficando mais preenchida com sons do que com letras. Mas agora, preciso das letras. E elas vão voltar a surgir. Por aqui.
5 de Junho de 2013 – Oblivion
“Oblivion” é o nome de um dos mais belos tangos de Astor Piazzolla. Uma melodia que, pouco a pouco, vai ganhando profundidade. Que se vai espalhando, como água. Ganhando espaço. Como a saudade. Oblivion é a palavra que os argentinos têm que fica mais próxima da nossa saudade. Essa saudade que, a espaços, faz rodar as rodas dentadas dos sentimentos. À medida que a música flui, é como se a respiração fosse, aos poucos, fazendo com que esse rodar da saudade fosse percorrendo o corpo. Distendendo e comprimindo. Até passar a fazer parte de nós. Depois, vem o sorriso da lembrança. Uma a uma, as imagens que vão saindo da memória para quase se tornarem reais. E vermos que tudo isto faz parte. De nós.
Astor Piazzolla – “Oblivion”
31 de Maio de 2013 – A voz de Freddie Mercury. Sem mais
O blogue brasileiro “Defasagem de Sentidos”, de Guilherme Ziggy, dá hoje a conhecer alguns dos “hits” dos Queen apenas com a voz de Freddie Mercury. A música dos Queen deve muito à personalidade de Mercury, quer enquanto compositor, quer enquanto intérprete. Mas ouvir a música sem a ouvir, ficando apenas com a sua voz, é como encontrar a alma dentro do corpo. Sabemos que há algo que existe a envolver aquilo que vemos e ouvimos. Só que é precisamente isso que dá vida ao “invólucro”. Sem a voz de Freddie, pode estar uma orquestra sinfónica a tocar os temas dos Queen. Há-de faltar essa alma, sem a qual tudo isso é outra coisa.
27 de Maio de 2013 – A surpresa das “Servidões”, de Herberto Hélder
Estar em viagem e, de repente, ouvir Herberto Hélder dito por Fernando Alves, na TSF, é algo de que ninguém está à espera. De repente, as palavras rasgam literalmente o silêncio. Primeiro, com uma violência inusitada. Depois, com uma musicalidade rara. Uma poesia de contrastes. Que marca na pele, a ferro quente, à espera de ser sentida. Digerida. Saboreada. Palavras pesadas, ponderadas, alinhadas a régua e esquadro, sem rodeios, sem medos, sem pretensões. E, quando ouvidas, cientes de que, de facto, como pretendido, chegaram ao seu destino. Pela voz.
Herberto Hélder – Fernando Alves
Herberto Hélder (dito por Fernando Alves)
26 de Maio de 2013 – Lá foi tudo…
O Benfica esteve à beira de ganhar tudo, e acabou por perder tudo. Jorge Jesus usou a melhor verdade de ‘La Palisse”, ao dizer que para se ganhar é preciso estar nas decisões. Só que o problema é o que acontece a seguir. Estar nas decisões e não ganhar, é a mesma coisa que não estar. “Morrer na praia” não deixa de ser “morrer”, mesmo que seja na praia. Quando se perde tudo de uma vez, parece que é mais fácil. Perde-se, e pronto. Mas ir perdendo. Perder uma coisa de cada vez, mas perder sempre, é mais incómodo. É ter-se a esperança de poder não perder, e acabar por voltar tudo ao mesmo. A derrota, a certa altura, é viral. Entranha-se em nós de tal forma que parece tornar-se normal. E já não se estranha.
25 de Maio de 2013 – Vicente Amigo. Soberbo
http://www.youtube.com/watch?v=ZKT6z_cPyLM
Aprendi a gostar ainda mais de Vicente Amigo depois de “Poeta”. Um disco absolutamente inspirador, impecavelmente composto e arranjado para orquestra, equilibradamente colocado entre o erudito e o flamenco, belíssimo pela sua simplicidade. Aprendi a voltar sempre a esse disco. Buscando inspiração, erudição, simplicidade e equilíbrio. Até ao dia em que me pegas na mão e decides levar-me. Há coisas que têm significado diferente quando feitas de mãos dadas. Mesmo que a sala não esteja cheia, ele enche-se de nós. A música flui, transmite-se, entranha-se em nós. Em “Tierra”, Vicente Amigo coloca-se precisamente na fronteira entre o mar de “Poeta” e essa terra em que estamos. Como se fosse um elo de ligação entre nós e o infinito. Com simplicidade, mas com imensa beleza. Com uma combinação perfeita de instrumentos. Com tudo para ser perfeito. O público que não veio, não sabe o que perdeu. Nós, ganhamos esse elo de ligação. Entre nós, a terra e o mar. Entre nós e a poesia. Entre nós.
24 de Maio de 2013 – Palhaço?
Miguel Sousa Tavares comparou Cavaco Silva a Beppe Grillo, considerando o Presidente da República “o nosso palhaço”. Hoje, o jornalista e escritor admitiu ter sido excessivo, e estar pronto para responder pelo “deslize”. Quando se parte para um julgamento, parte-se do princípio que um dos direitos (neste caso o da liberdade de expressão e o do bom nome e reputação) terá de ser “comprimido” em favor de outro. Neste caso, trata-se de um “ataque” à mais alta figura da Nação, o que torna o caso ligeiramente diferente. Mas não deixa de ser curioso pensar como seria se o cidadão Cavaco Silva não fosse político, nem Presidente da República.